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A “revoltante” incompetência das nossas vítimas.

Voltando a escrever depois de bastante tempo, espero (mesmo) conseguir manter o blog atualizado daqui pra frente.

Introduzo esse post com alguns dados da pesquisa “Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado”, da Fundação Perseu Abramo em parceria com o SESC.

A cada 2 minutos, 5 mulheres são espancadas no Brasil.

Embora apenas 8% dos homens digam já ter batido “em uma mulher ou namorada”, um em cada quatro (25%) diz saber de “parente próximo” que já bateu e metade (48%) afirma ter “amigo ou conhecido que bateu ou costuma bater na mulher”.

Como em 2001, cerca de uma em cada cinco mulheres hoje (18%, antes 19%) consideram já ter sofrido alguma vez “algum tipo de violência de parte de algum homem, conhecido ou desconhecido”.

Com exceção das modalidades de violência sexual e de assédio – nas quais patrões, desconhecidos e parentes como tios, padrastos ou outros contribuíram – em todas as demais modalidades de violência o parceiro (marido ou namorado) é o responsável por mais 80% dos casos reportados.

Tanto os dados estatísticos quanto o conhecimento empírico nos levam ao cenário da violência contra a mulher no Brasil: a maioria das pessoas no mínimo conhece uma mulher que sofreu com um marido violento dentro de casa. As que não conheceram de perto, com certeza já escutaram aqueles gritos histéricos de uma vizinha durante a noite, quando os familiares se entreolham em silêncio com os olhos arregalados e os ouvidos atentos, à espera de um ruído que confirme a agressão.Não que isso vá fazer alguma diferença, já que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”, no máximo se mete um pitaco sobre o motivo da “coitada ter levado uma sova”.

A Lei Maria da Penha (13.340/2006) é uma tentativa de avançar na questão da proteção às mulheres no ambiente doméstico, que reconhece a necessidade do princípio de isonomia material, ou seja, tratar os grupos desiguais na medida das suas desigualdades. Não é de hoje que ouvimos muita gente reclamando “que somos todos iguais perante a constituição e todas as punições já estão previstas no código penal”, o que demonstra profundo desconhecimento (ou pura omissão) sobre a estrutura da nossa sociedade. Uns são muito mais iguais que os outros por aqui, esse é um fato completamente escandaloso! Temos minorias sociais (não necessariamente em número de indivíduos, mas grupos sub-representados na política) que de forma alguma têm suas demandas contempladas por uma constituição que trata a todos como se partissem do mesmo ponto, em igualdade de condições e direitos.

A história de mulheres,crianças, idosos, negros, índios, pobres, minorias sexuais e de gênero, deficientes e vários outros grupos nos revela uma trajetória de opressão, impotência e marginalização. O único que sempre foi e sempre será inteiramente beneficiado por uma constituição que trata todos da mesma forma é o homem adulto, heterossexual, branco e de classe média, nosso personagem modelo do privilégio social. A experiência das minorias traz marcas profundas de desigualdade, e a determinação de uma constitução única não anula essas diferenças, não tem como dar Crtl+Z no produto histórico da dominação e começar uma nova e maravilhosa sociedade da igualdade, liberdade e fraternidade. É reconhecendo as necessidades específicas de cada grupo hipossuficiente que damos um passo em direção à almejada igualdade, e para isso existem leis que amparam minorias em suas vulnerabilidades, como é o caso dos idosos e crianças, e agora as mulheres.

Mesmo assim, há quem acuse a Lei Maria da Penha de ser inconstitucional, e são as mesmas pessoas que obviamente se opõem a uma lei que criminaliza a homofobia, pois não são capazes de reconhecer as demandas de grupos particulares da sociedade, que não desfrutam dos mesmos direitos. É óbvio que a Lei Maria da Penha enfrenta problemas para sua aplicação, esbarrando em fatores sociais como a ausência de redes de apoio suficientes às vítimas, que muitas vezes permanecem dependentes financeiramente de seus agressores. Por essa razão, é comum que o alto número de desistências dos processos por parte das mulheres motive mais críticas contra a lei, feitas por quem não entende nada do ciclo de violência que elas vivem. Mas é sempre muito mais cômodo condenar as agredidas por sua “incapacidade” do que entender um terço do que se passa nessas famílias.

São muitos casos diferentes e ocorrem em todas as classes sociais, mas há um ciclo comum de violência contra a mulher que já é conhecido, descrito em 3 fases:

1. Fase de aumento da tensão: as tensões acumuladas pelo agressor criam um ambiente de perigo iminente para a vítima que é, muitas vezes, culpabilizada por tais tensões. Os pretextos para as brigas vão ficando cada vez mais banais, como por exemplo, acusar a vítima de não ter colocado sal suficiente na comida.

2. Fase do ataque violento: o agressor maltrata, física e psicologicamente a vítima , que procura defender-se. Este ataque pode ser de grande intensidade, podendo a vítima por vezes ficar em estado grave, necessitando de tratamento médico.

3. Fase do apaziguamento ou da lua-de-mel: o agressor, depois de descarregar a tensão sobre a vítima, demonstra arrependimento e promete que não vai voltar a praticar a violência.

As três etapas se repetem constantemente, cada vez com menor intervalo entre as ocorrências. E é importante observar que não se trata de um processo mecânico, em que as mulheres assistem de camarote seus corpos sendo agredidos pelo homem amado e suas vidas desmoronando como se fosse um filme, elas são as protagonistas inseridas em um turbilhão de emoções que passam pela raiva, tristeza, desespero, esperança e impotência. As pessoas parecem se esquecer da diferença entre a vivência e a observação dos fatos quando as vítimas são mulheres agredidas pelos companheiros, os primeiros julgamentos sempre se focam na incapacidade de reação delas, ao invés da indignação com a atitude do homem. É a velha lógica machista da culpabilização das mulheres, que procura inverter a situação acusando a vítima de não ter evitado sua própria agressão.

Pior, acusam as mulheres agredidas pela desistência dos processos, por retornar ao convívio com o agressor, criando os esterótipos da “mulher que gosta de apanhar“e da “mulher de malandro“. Claro que não podemos esperar muita empatia pelas mulheres em uma sociedade que historicamente as desvaloriza, mas ainda fico impressionada com a extrema falta de sensibilidade diante de uma situação de violência de gênero. São vários os fatores que levam uma mulher a perdoar seu agressor e permanecer em uma relação violenta, mas acredito que os mais graves sejam a dependência financeira, medo dos estigmas sociais e dependência emocional.

Além da óbvia dificuldade em encontrar um lugar para morar e se sustentar, muitas vezes acompanhada dos filhos, a decisão de abrigar-se em uma instituição destinada a mulheres agredidas e ameaçadas (quando disponível) é uma mudança de vida completamente brusca e repleta de desafios. A respeito dos estigmas, como se não fosse suficiente a imensa vergonha, frustração e tristeza dessas mulheres, ainda são bombardeadas por amigos, parentes e vizinhos com perguntas do tipo “O que você fez pra ele?”, “Por que não saiu de lá antes?”, “Mas já separou? E seus filhos?” entre outros absurdos. Não são poucas pessoas que ainda as condenam simplesmente por terem “desistido” do casamento, a tal instituição sagrada que não deve ser desfeita. A dolorida humilhação do olho roxo não termina dentro de casa, se estende no espaço público, com os olhares de reprovação daqueles que já deduzem que ela pode ter “merecido”, como diz o repugnante ditado popular “eu não sei porque estou batendo, mas ela deve saber porque está apanhando”.

A dependência emocional é um dos fatores mais complexos. Primeiro é preciso analisar a própria dinâmica das relações de gênero, em que culturalmente o homem ainda se baseia em um referencial de dominador, dotado de força, agressividade e controle, enquanto a mulher é educada para servir, ceder e compreender. Os ideais vigentes para os papéis de homens e mulheres, apesar de arcaicos, permanecem influenciando diretamente as relações de poder no casamento. Assim, tradicionalmente, o homem reivindica o controle e a posse da sua mulher, que por sua vez procura zelar pelo seu marido e o restante da família. É justamente nessa esfera privada do cuidado familiar que as agressões domésticas se iniciam, quando o homem descarrega sua tensão e exerce poder sobre a mulher através da violência, baseado na ideia de superioridade masculina justificada pela força física. Socos, chutes e estrangulamentos são considerados instrumentos comuns de resolução de conflitos para os homens, que desde pequenos são incentivados a expressar sua agressividade, e dessa forma procuram impor suas vontades às companheiras, que na maioria das vezes não possuem condições físicas ou habilidades para se defender – potencialidades que lhes foram negadas na construção de mulher. E o pior de tudo é que essa dinâmica de poder na relação heterossexual é considerada “normal”, o que torna aceitável testemunhar um marido agredindo a mulher e permanecer completamente omisso.

Dentro desse cenário, temos ainda o ideal do amor romântico que revela o homem amado como um protetor e salvador, um verdadeiro príncipe encantado na vida da mulher. Inspirada pelos grandes romances, a mulher procura entregar-se ao companheiro e sacrificar-se por ele, considerando que ainda temos um modelo de esposa e mãe virtuosa que anula a si própria pelo bem da família. Claro que nem todos os casamentos são cercados pela aura do romantismo, mas ao menos a noção de doação por parte da mulher está sempre presente na família brasileira. Agora basta imaginar que aquele homem confiável e amado, protetor e muitas vezes provedor da família, de repente se transforma em um agressor.

Impossível que seja tão difícil assim entender que existe um vínculo emocional fortíssimo e duro de ser rompido com o marido, e que o perdão parece o caminho mais sensato diante do homem com que se divide uma vida. É preciso lembrar que o agressor de mulheres não é aquele monstro já algemado, permanentemente ameaçador e rude que vemos no camburão, mas um homem comum do cotidiano, que dá beijinhos de despedida, acaricia as crianças e cumprimenta os vizinhos. É o homem com que ela se casou, que já a fez muito feliz, que motivos ela teria para dispensá-lo na primeira agressão? Qual é o preço disso? Não teria sido uma explosão de raiva e nada mais? Some a esses questionamentos o olhar arrependido do homem que traz flores no dia seguinte e chora ajoelhado implorando perdão. Tão difícil assim compreender porque a mulher perdoa e desiste do processo?

Não pretendo justificar o perdão, pois tenho convicção de que o homem que é capaz de coagir através da violência física uma vez, com certeza o fará novamente. Quero questionar o ódio misógino direcionado às mulheres vítimas da violência doméstica, que são transformadas em rés e deslocadas do seu papel de agredidas pelo imaginário popular. Por que, ao menor sinal de fraqueza, as mulheres que apanharam do marido são transformadas em culpadas? Cobra-se dessas mulheres que denunciem, que sejam fortes, valentes, intrépidas, absolutamente virtuosas e resistentes, e ai delas se não prosseguirem até o final, basta um deslize para que recebam a sentença: Merecem e gostam de apanhar. É claro que as mulheres não gostam de ser agredidas, e se as nossas mulheres estão abaixando a cabeça para uma situação de violência, é preciso investigar os motivos e oferecer ajuda ao invés de ridicularizá-las.

Cada vez que alguém faz uma piadinha ou utiliza ditados populares que reafirmam a culpa da mulher na situação de violência, perpetua-se o preconceito e o ódio contra todas as mulheres, especialmente aquelas que mais precisam de ajuda e não conseguem se livrar de uma vida de agressões cotidianas. Culpar a vítima pelo seu martírio é agredi-la duas vezes, é negar sua vunerabilidade e exigir um esforço desproporcional às suas condições. Se você também não se conforma com o mito da “vítima incompetente” que assombra as mulheres agredidas no ambiente doméstico, não incentive as práticas culturais que legitimam esse estigma. Muitas mulheres ainda apanham caladas pelos mais diversos motivos, mas não é apenas construindo mais abrigos e criando mecanismos legais que vamos vencer o problema,  cabe a nós destruir essas barreiras culturais e sociais que ainda as mantêm presas aos seus algozes.

“A violência contra as mulheres é uma manifestação de relações de poder historicamente desiguais entre homens e mulheres que conduziram à dominação e à discriminação contra as mulheres pelos homens e impedem o pleno avanço das mulheres…”

Declaração sobre a Eliminação da Violência contra as Mulheres, Resolução da Assembléia Geral das Nações Unidas, dezembro de 1993.

Para denunciar uma situação de violência contra a mulher, ligue para 180 (válido inclusive para brasileiras sob ameaça no exterior).

Acesse também o artigo “A constitucionalidade da Lei Maria da Penha”, de Andresa Wanderley de Gusmão Barbosa e Stela Valéria Soares de Farias Cavalcanti.

Vídeo “Sabe a diferença entre bater em numa mulher e numa bateria?“, sobre como a violência contra a mulher é vista como algo cotidiano.

PS: Apenas uma observação, já que normalmente abordam o caso dos homens que sofrem violência doméstica, lembro que há mecanismos legais para protegê-los também. Os homens que se sentem humilhados, ameaçados ou são agredidos pelas companheiras devem denunciar da mesma forma, o foco é mantido na violência contra a mulher por ser um problema de gênero muito mais evidente e abrangendo a absoluta maioria dos casos.

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Vadia, puta, vagabunda e rodada.

Esses dias fiquei pensando na coleção de estereótipos femininos dos quais já fui vítima durante a vida. Passei pela sapatão desengonçada (apelidada de “jamanta”), pela CDF frígida, pela maria-moleque, pela gorda mal-amada, tudo isso até a oitava série mais ou menos – inclusive, vou precisar de um post só pra contar essas histórias decadentes da minha infância e pré-adolescência, mas fica pra uma outra hora. A partir do colegial as coisas começaram a mudar um pouco, chegando ao status de “roqueira rebelde”, “nóia”, basicamente a revoltada clássica, com sérias tendências bully (revanchismo).

Mas, nenhum estereótipo pode ser tão feroz quanto aquele que mais tarde eu conheci: “puta”. Nas suas variações, “vagabunda” , “vadia”, “biscate”, e claro… “rodada”. Não é novidade que as mulheres só tem duas opções dentro do patriarcado, Santa ou Puta, Maria ou Eva, boa esposa/mãe/namorada ou vagabunda marginal. As pessoas não conseguem enxergar as mulheres como pessoas plurais, autênticas e autônomas, elas precisam ter seu comportamento enquadrado nessas categorias, e existe uma vigilância especial no campo da sexualidade e do corpo. Com quantos seres você transou, quantas vezes e como o fez parece constituir a identidade da mulher, e determinar o nível de respeito com que será tratada.

Quanto mais sexo, pior a mulher é. É, exatamente, mais experiência sexual = menos dignidade. Fórmula bem pensada essa, hein? Pois é, todo mundo engoliu essa lorota e segue com fidelidade. A fonte desse pensamento é bem clara, desde a origem do patriarcado o homem busca desesperadamente controlar a sexualidade da mulher, para que ela se mantenha fiel ao seu papel de esposa e mãe dedicada, e também conceda exclusividade sexual ao homem que afirma sua autoridade sobre ela. Os homens sempre se reservaram ao direito de ter quantas parceiras desejassem, mas exigiam que sua dóceis mulheres fossem virgens, para servi-los com total obediência.

Muitos ainda usam do discurso biológico para justificar tal postura, mas a pílula anticoncepcional e outros métodos de contracepção provaram que a mulher também sente desejo sexual, e que o sexo não é mais escravo da reprodução. Hoje muitas mulheres buscam autonomia sexual e escolhem livremente seus parceiros, mas ainda pagam o preço da desigualdade. Aquela velha história do homem garanhão x mulher galinha, que concede honrarias aos homens de vida sexual ativa e cospe nas mulheres que ousam ter a mesma liberdade. Puro preconceito e misoginia.

Foi dado aos homens o direito inalienável de conhecer e explorar a própria sexualidade, o que sem dúvida contribui para a fama de “insaciáveis”. Quanto mais se conhece o próprio corpo e os desejos, maior a chance de vivenciar o sexo com novas pessoas, e maior a satisfação. Infelizmente, ainda hoje esse direito é negado às mulheres desde muito pequenas, sempre condicionadas a esconder e reprimir os impulsos sexuais caso queiram o “respeito” dos homens. Essa é uma das razões pelas quais a mulher leva mais tempo para ter consciência do próprio corpo, para atingir o orgasmo e expor seus desejos na cama.

Enfim, eu acreditei em tudo isso quando era mais jovem. Esse discurso foi martelado na minha cabeça incessantemente. “Menina, não faz besteira”, “Mulher tem que se dar ao respeito”, “Você foi pra cama com ele? Que absurdo!”, “Você não presta”, “Só pode com o namorado, e depois do casamento”, “Você vai entregar seu maior tesouro (virgindade) pra qualquer um?”.

A minha família, apesar de não ser das piores, sustentou com louvor todos esses mitos. Mas, na época, eu me sentia diferente das outras meninas que simplesmente levantavam aquela bandeira da pureza – falsa pureza, é claro. Eu via minhas amigas escondendo a sete chaves tudo o que faziam, vivendo praticamente uma vida dupla, engavetando a noite passada e vendendo a imagem santificada durante o dia. Eu já tinha dentro de mim uma necessidade de subverter tudo, questionar tudo, e um dos meus primeiros “foda-se” adolescentes foi admitir que eu tinha tesão. Como sempre, eu não queria viver uma mentira.

Não que eu fizesse sexo loucamente, estava longe disso, aliás, meu conhecimento sobre o meu corpo era tão raso que eu não tinha muito o que aproveitar das minhas relações sexuais. Basta uma garota fazer sexo com dois caras e eles se conhecerem pra surgir o boato de que “dá pra qualquer um”.

Em primeiro lugar, eu nunca “dei” nada, ninguém ficou com um pedaço meu, ninguém me tirou algo valioso e eu não tive que “ceder” aos apelos do parceiro.Ah, minha buceta continua aqui, obrigada. Eu fiz…porque é legal fazer. Ohhhh. Eu QUERIA, sabe? Oi? Tenho vontade, voz, libido, autonomia, direito, ok? Em segundo lugar, “qualquer um” somos todos. Coincidentemente, a maioria dos seres humanos não se conhece, então somos sempre “qualquer um” antes de mais nada. Depois de conhecer um ser humano, o mínimo necessário, ele deixa de ser “qualquer um” e se torna “um”, mais um deles, porém com suas próprias características e particularidades. Assim, a partir do momento que eu escolhi uma pessoa e me senti sexualmente atraída por ela, deixa de ser “qualquer um”. É a MINHA escolha, meu “um”, entendido? E assim por diante, quantos “uns” eu desejar e que correspondam. Logo, não existe isso de “dar pra qualquer um”, todos foram escolhas legítimas, cujos critérios só dizem respeito a mim. Se eu quiser me relacionar mais vezes ou construir um relacionamento mais sério, a escolha também é toda minha.

É muito comum um machinho deduzir que você vai “dar” (termo mais zé punheta do mundo) pra ele caso tenha “dado” para um número x de caras que ele conheça. Mesmo que ele não seja nem um pouco interessante, ou você não tenha dado nenhum sinal de aprovação. A mensagem que colocaram na cabeça é: “mulheres estão sempre disponíveis”, e se a mulher em questão dá indícios de que é sexualmente ativa, aí fica mais vulnerável ainda. Eles simplesmente não conseguem enxergar uma mulher como um ser humano pensante, que toma suas próprias decisões, é sempre uma menininha inconsequente, perdida, transando com os outros por pura ingenuidade, ou uma putona auto-destrutiva transando por profunda devassidão. Mas que merda! Não se pode simplesmente fazer sexo por vontade e conscientemente sendo mulher? Não tentem excluir metade da humanidade de uma vivência sexual saudável, não cola mais, meus queridos.

Uma lembrança muito vívida me inspirou para escrever esse post. Na minha saudosa adolescência, eu não sabia dos meus direitos, da minha capacidade, não reconhecia minha identidade como mulher. Fui educada pra ter uma auto-estima ridícula, pra obedecer as normas vigentes e me conformar com tudo, como a maioria esmagadora das mulheres. E mesmo assim, resolvi desafiar a ordem das falsas meninas virginais, buscando sexo com quem eu bem entendesse.

Foram inúmeras ofensas, e, repito, não porque eu realmente fizesse sexo com muita gente (deveria!), mas porque eu ASSUMIA gostar de sexo e REIVINDICAVA fazê-lo com quem quisesse. Talvez eu tenha feito muito menos sexo que outras amigas minhas, a diferença é que eu não admitia me esconder pra agradar os outros. Eu procurava ignorar a opinião dos menos conhecidos e até tinha sucesso, mas o que mais machucava era escutar o mesmo discurso de amig@s próxim@s e pessoas queridas no geral. Mas acho que o pior de tudo mesmo era que, em plena época de ansiedade por um “grande amor”, quando eu ainda acreditava no mito do cara super incrível que ia me completar, percebi que muitos não queriam me “levar a sério” por causa da minha postura.Hoje eu saberia que não passavam de um bando de babacas estilo “8ªB”, que tratavam todas as mulheres como se fossem lixo, até aquelas que se enquadravam na lógica machista deles. Tentar se adequar ao padrão desses homens que odiavam mulheres era a tarefa das minhas amigas, e vi o sofrimento delas de perto.

Mesmo assim, sofri muito. Não entendia porque as pessoas agiam daquela maneira, mas ainda demorei pra desvendar as hierarquias do macho e os papéis estúpidos que reservavam às mulheres. Queria ser livre, mas os outros exigiam que eu me reprimisse em troca da liberdade. Chorei noites a fio, acreditando que nunca um homem ia querer ficar comigo, que eu teria que me adaptar um dia, cheguei a acreditar que uma mulher era “suja” por sentir tesão. As pessoas que me amavam me diziam que eu tinha que mudar, que tinha que “aceitar o mundo como ele é”, que os homens sempre pegariam todo mundo e as mulheres apenas resistiriam a eles o quanto pudessem. Logo eu, que gostava de abordar meus potenciais parceir@s, que me sentia livre leve e solta, que aproveitava todos os momentos e nunca deixei de respeitar alguém que estivesse comigo, mesmo que por uma hora apenas. Pelo contrário, sempre tive consideração por quem fiquei, e sempre esperei o mesmo – doce ilusão.

Outro termo que marcou bastante, e que hoje me fez refletir, foi o “rodada”. Os caras falavam em “rodar a banca”, “passar na mão de todos” (detalhe, considerando a mesma regrinha de ficar com dois que se conhecem). Fiquei construindo uma imagem para esse termo na minha cabeça, e seria mais ou menos assim: Vários homens em um círculo, jogando uma garota meio amolecida, meio apática de um para o outro, como se fosse um joguinho, passando-a pela “mão” de todos. Essa garota, claro, é um ser totalmente inanimado, sem voz, sem presença, apenas satisfazendo os homens que por alguma razão fazem parte do mesmo círculo de machinhos.

É exatamente como um “estupro grupal”, é o gang bang da vida real, classificar mulheres como “rodadas” para que se sintam violadas em suas vidas, vetadas do desejo sexual. GENTE, isso não existe! Mulher tem desejo, tem pele, tem escolha! Mulher NÃO É OBJETO, É SUJEITO DA RELAÇÃO. Objetos não sentem, não falam, não decidem nada, sujeitos agem, reagem e se fazem perceber! Got it? Nenhum homem tem o direito de submeter uma mulher ao rótulo de um objeto inerte, que apenas foi utilizado por outros homens. A mulher também sente PRAZER na relação, como pontuei no outro post, e sua moral não é arrancada durante um ato sexual.Não podemos nos render a esse discurso que invisibiliza nossa condição HUMANA, temos que nos afirmar enquanto sujeitos autônomos e capazes de tomar decisões!

Enquanto as mulheres forem condenadas a meras presas sexuais, não teremos qualquer sombra de igualdade. Enquanto o sexo for usado como ferramenta de poder, coerção, humilhação, seremos todas prisioneiras dessa lógica. Imagine se você, homem, sofresse uma série de retaliações apenas por fazer sexo com as pessoas que deseja? Você se conformaria com isso?

É muito fácil para os homens, que são tão, mas TÃO desenvoltos sexualmente que chegam ao extremo de COLECIONAR “presas” femininas. É com tremenda ojeriza que ainda escuto os machos se vangloriando da quantidade de mulheres com quem fizeram sexo, como se cada uma delas fosse uma conquista, uma árdua batalha para…ter uma relação de prazer mútuo. Claro, é tido como um enorme esforço para um homem convencer uma mulher, já atraída por ele, a simplesmente transar. Mulheres não apreciam o sexo, elas apenas perdem a batalha do acasalamento e se sentem obrigadas a baixar a guarda para o macho reprodutor neandertal. Deprimente. Para o horror dos machistas, mulheres sentem prazer sim,  podem fazer sexo com várias pessoas sim, e nem por isso precisam demonstrar superioridade diante d@s parceir@s – ninguém perde nada no sexo.

Na época, quando comecei um relacionamento sério, lembro de ter considerado o meu parceiro um verdadeiro “salvador” por ter me aceitado do “jeito que eu era”. Realmente, ele era uma ótima pessoa, que em nenhum momento se incomodou com a suposta “fama” que alguns me atribuíram, mas nem de longe a atitude dele era caridosa como eu imaginava. Acabaram acontecendo vários episódios no meu relacionamento em que eu cedi e me calei por acreditar que ele merecia mundos e fundos, eu praticamente me arrastava aos pés dele porque “ninguém mais me aceitaria” como ele me aceitou. Basicamente, minha auto-estima estava em migalhas, tudo por culpa de uns poucos imbecis que tentaram me reduzir a um pedaço de bosta. Por sorte, tive a chance de superar tudo isso com o tempo – mas muitas mulheres continuam imersas nessa lógica.

Se eu pudesse voltar atrás e fazer algo diferente, com certeza não teria me envolvido com metade das pessoas daquela época. Hoje, é claro, sou muito mais segura e ciente da minha posição de sujeito na humanidade, e saberia reconhecer de longe uma pessoa com más intenções. Mas, é sempre bom lembrar que existem ótimos atores por aí, e mesmo que alguém tente um dia me rotular como puta ou qualquer coisa do tipo, estarei totalmente consciente dos meus direitos e sairei ilesa da situação. Aliás, quanto mais conscientes as pessoas ao redor, maior a tendência de que o espertinho seja considerado um idiota. Qualquer amig@ que convivo atualmente massacraria um homem que tentasse enquadrar uma mulher como vadia por causa da sua sexualidade – os belos frutos do livre pensamento!

Toda mulher, alguma vez na vida, já foi chamada de puta. E a prostituta em si é a figura mais marginalizada da sociedade. Somos todas putas, vagabundas, vadias, biscates, galinhas, fáceis e rodadas em algum momento, por um segundo. Ofender uma mulher é sinônimo de ofender sua sexualidade, é tocar naquilo que nos atribuíram como fraqueza: a nossa libido. Mas, ao contrário do que tentam nos convencer, nossa sexualidade é força, é ousadia, é empoderamento. Somos repletas de desejos, e somos donas de cada um deles.

O que eu quero? Um mundo dominado por pessoas que respeitam a vida d@ outr@ independente do gênero e das escolhas sexuais. Eu e outras tantas mulheres teriamos sido poupadas de tanto sofrimento, angústia e desespero, apenas por não se enquadrar em um sistema que na verdade é uma grande masmorra. Querem tomar nosso sexo e nossas vidas, transformar-nos em objetos manipuláveis, descartáveis, a não ser que aceitemos suas condições alienantes.

A boa notícia é que não precisamos mais deles. Aqueles que nos julgam, que enchem a boca para dizer “puta”, que nos reduzem a utilitários da satisfação alheia, que tentam nos desanimar, eles não são mais ninguém. Na minha vida eles são manchas de um passado sombrio, e todos os que repetem seus discursos são imediatamente recusados. Eu aprendi que ser mulher é defender os próprios direitos o tempo inteiro, é praticamente brigar pela própria humanidade. E como diz a frase que coloquei no meu Facebook esses dias:

“Qualquer um que queira me comandar
Estado, Igreja, Família ou “Parceiro”
Será o tirano e meu inimigo!”

Post escrito ao som de Detestation ❤

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87 Comentários

Separatistas são os homens!

Pois bem, se eu tivesse um saco, ele estaria explodindo em abscessos de tão cheio. Parece que a desinformação é mesmo um câncer, que consegue transformar vítimas em algozes e manipular até o mais óbvio dos contextos.

Ok, eu explico, mas já vou avisando que vai ser polêmico. Não se pode escapar de ler/ouvir da boca dos homens – ou em alguns casos até de mulheres – que o feminismo é coisa de lésbica mal-comida, certo? Esse é o clichê dos clichês, que felizmente com um pouco de conversa pode ser revertido. Mas, quando o assunto é separatismo lésbico, ou moças que escolheram amar outras mulheres e fazem disso uma posição política, se afastando ao máximo dos homens, aí parece que todo mundo vira lesma com sal. “Viu só, viu só, a que ponto chegam essas feministas? Onde já se viu discriminar homens? Isso sim é sexismo mimimi!”

Não precisa nem chegar ao radical separatismo lésbico para as pessoas surtarem, você pode comentar sobre Mujeres Libres e outros grupos que admitem apenas mulheres, de uma simples oficina ou evento com temas específicos para mulheres, ou até mesmo uma reunião de amigas para debater feminismo para a qual os rapazes – pobrezinhos – não recebem o convite VIP. Tudo vira motivo para dizer “Oh, corram para as montanhas, elas estão discriminando homens!”. Daí vem aquele papo todo de que se o feminismo quer ser justo é preciso acolher os homens, ou estaremos praticando um sexismo inverso. Nesse caso, acolher os homens significa trazê-los para nossos encontros, ouvir o que eles têm a dizer sobre feminismo e em hipótese alguma criar espaços restritos para mulheres.

O argumento dos homens é que precisamos de união, caminhar juntos, sem nenhum tipo de discriminação, tolerância feelings e tal e tal. Muito bonito, louvável, pena que na prática não é bem assim que funciona. As feministas que já tiveram a experiência de admitir homens na roda de discussão com certeza experimentaram algumas das facetas do patriarcado que restavam dentro deles, porque, afinal, é muito difícil desconstruir a ideia de superioridade masculina, ainda mais quando traz privilégios diretos. Claro que admiramos os mínimos progressos dos homens ao nosso redor, e sempre que possível estamos tentando fazê-los compreender melhor o peso do patriarcado e suas conseqüências sobre as mulheres. Aos poucos, aqueles mais próximos já não chamam as mulheres de putas porque fazem sexo, já não as culpam por estupro ou esbravejam toda vez que vêem uma delas atrás do volante no trânsito, mas ainda não podemos comemorar nenhuma vitória.

Tomemos como exemplo algumas reuniões de grupos feministas, anarquistas ou mesmo uma reunião do movimento sindicalista, em que temos exemplos suficientes de homens que levantam a voz para as mulheres quase que automaticamente, enquanto tendem a ouvir mais os outros homens da mesa. Como disse nosso queridinho José Serra “Com mulher não tem competição”, porque, afinal, elas são inferiores. Tenho dois casos recentes para dividir: Um foi com uma organização sindical que não vou citar o nome aqui, da qual uma amiga minha feminista estava participando ativamente. Um dos caras que fazia o discurso socialista mais incrível, que fazia todo mundo se sentir inspirado, era o mesmo cara que sentava o traseiro peludo na cadeira na hora de jantar em público e mandava a esposa dele pegar tudo o que queria. A mulher quase não tinha tempo para comer sua própria comida, porque o cidadão a fazia de garçonete particular. Daí, quando outras pessoas do movimento foram discutir o problema, o homem ficou possesso e se desligou de lá. É bem como dizem por aí, até o menor dos operários tem uma escrava em casa.

Mujeres Libres

Tenho minhas próprias experiências em outros grupos também, sempre observei que basta um homem entrar em uma discussão feminista que ele começa a advogar pelo seu “gênero”. É incrível, estamos ali falando dos problemas das mulheres, que muitas vezes incluem os homens como algozes, e lá vai o rapaz libertário dizer que as coisas não são bem assim, porque afinal, ele é homem e é super legal. É a velha cultura da exceção, só porque alguns homens não estupram ou socam mulheres não quer dizer que a maioria esmagadora dos que o fazem não sejam homens e tenham uma educação muito semelhante. Ao invés de apoiar as mulheres e conversar com outros homens para criar uma consciência melhor, os caras entram na defensiva, e com isso também inibem as mulheres de falar. Outro detalhe é o constrangimento que muitas mulheres sentem em revelar que sofreram algum tipo de abuso sexual, físico ou moral perto de outro homem, pelo medo de serem julgadas (mas como você estava vestida mesmo?). Isso traz ainda mais problemas para a visibilidade das opressões contra as mulheres, porque como tod@s bem sabem, toda mulher tem uma história de horror para contar.

Pra que serve essa merda de patche?

Isso sem mencionar o tratamento velado reservado às mulheres nas organizações. Até entre aqueles que se dizem libertários ou contra-culturais impera o status-quo, em que mulheres servem basicamente para decoração e deleite dos machos do bando. Não é raro andar por meinhos libertários e escutar os comentários mais trogloditas do mundo, o cidadão faz questão de ir na palestra feminista, com patch do Crass na jaqueta e símbolo de ♀=♂, e falar bem alto entre os amigões que a garota palestrante podia calar a boca chupando o pau dele. E ainda temos aquelas cenas alternativas que são dominadas por homens, com bandas de homens, zines de homens, onde as mulheres são tratadas ainda como “gostosas” ou “barangas”, “santinhas” ou “putas”, e os caras ainda têm a cara de pau de dizer que elas é que não se interessam em estar ali, ou só vão pelo namorado.

Enfim, fica claro que esses espaços “mistos” não servem ou servem muito pouco à luta das mulheres. E isso não acontece porque os homens são todos essencialmente malvados e odiamos todos eles, mas porque os valores vigentes apontam para a superioridade masculina e é quase impossível que os caras não se contaminem com tudo que lhes foi ensinado sobre a dominação das mulheres. Você tem um garoto que desde pequeno recebe estímulos para ser livre enquanto sua irmã é oprimida, que tem a mãe sempre à disposição e a vê sendo calada frequentemente pelo pai, que se torna seu herói…precisa do que mais?

Agora, outra reflexão, já pararam para pensar em quais são os espaços “femininos” hoje na nossa sociedade? Os homens contam com a partida de futebol, o boteco, o puteiro, as casas de jogos, sempre gozam da companhia dos amigos até mesmo quando casados (a célebre escapada da megera). Já as mulheres, onde se encontram para trocar idéias? No salão de beleza? No shopping fazendo compras? No parquinho cuidando das crianças? Por que será que a ideia que se faz de mulheres juntas em um bar ou qualquer lugar de confraternização é tido como ameaçador pelos homens, em especial maridos? Por que os pais dizem às suas filhas “Vai deixar de sair com seu noivo para sair com amigas? Isso não está certo.” E uma questão que vi esses dias e achei muito interessante: Pense em algum filme, qualquer um que você já tenha visto na vida, que tenha um diálogo de mais de 3 minutos entre duas mulheres, e que elas não estejam conversando sobre homens (o protagonista, no caso). Difícil, né?

A verdade é que a convivência entre homens é estimulada, enquanto que as mulheres são incentivadas a competir umas com as outras em função dos homens. A rivalidade feminina é uma estratégia esperta do patriarcado, que joga umas contra as outras na busca pela atenção dos machos enquanto eles criam laços fortes entre si. A amizade entre os homens é um pacto, e garante muitos momentos de confraternização e fortalecimento dos laços. A amizade entre mulheres é vista como algo superficial, infantil e sempre frágil, como se a primeira aproximação de um “partidão” pudesse gerar uma briga e uma disputa. Os espaços públicos, por sua vez, também pertencem aos homens, já que ainda hoje é perigoso para uma mulher andar sozinha por aí, ainda mais de noite, afinal seu corpo pode ser alvo da invasão de um homem pelo simples fato de ser mulher. Claro que as mulheres já saem sozinhas, já tiveram muitas conquistas, mas ainda existe esse clima de medo, em que só andar com um homem ao lado é totalmente seguro. Se você anda sozinha, sem um “homem proprietário”, torna-se alvo de abusos verbais e até agressões físicas.

Como se não bastasse todo esse cenário favorável aos homens na sociedade, ainda querem excluir os únicos espaços unicamente femininos que existem com o argumento do sexismo! Como se, realmente, as mulheres estivessem se empoderando para atacar os homens, quando na verdade ainda estamos no primeiro passo em busca da igualdade de direitos: o fortalecimento das mulheres e identificação entre si. É um egoísmo tremendo um homem apontar para uma feminista e dizer que ela está sendo sexista por fazer uma reunião apenas de mulheres, sabendo que não há outras oportunidades como esta em que elas poderão trocar experiências e se apoiar para lutar contra a opressão masculina. Basicamente, os homens já têm toda a liberdade que poderiam desejar, mas não se conformam de ser excluídos de uma simples reunião entre mulheres que buscam a mesma liberdade. Isso se chama birra, costume de ser privilegiado em tudo.

E enfim podemos chegar até a revelação do dia (wow): A verdade, querid@s, é que as feministas não são separatistas, OS HOMENS É QUE SÃO SEPARATISTAS.

Ou vai dizer que você nunca reparou como eles formam seus grupos de amigos e transformam isso em um universo PARALELO? Eu já convivi bastante entre homens, já ouvi absurdos – e ouço, sempre – mas posso afirmar que existem coisas ainda mais pesadas que eles só dizem quando estão juntos, e são segredos de Estado. Os homens podem até fingir que tratam as mulheres com igualdade, mas são os primeiros a falar um monte pelas costas delas quando estão com os amigos. Eles narram como gostariam de transar com aquela amiga de vários anos que nem imagina, como a namorada é chata e menos gostosa que fulana, ou como a enganaram para poder sair naquele dia, diversos comentários que não teriam coragem de dizer em nenhum outro local, senão na segurança do universo masculino. Na vida real, não têm coragem ou dignidade suficiente sequer para dizer à própria esposa que gostaria de sair ou que algo lhe desagradou, preferem enxergar as mulheres como idiotas e fazem das traições e mentiras um jogo divertido.

Um dos primeiros mandamentos na vida dos homens é justamente de não tratar as mulheres como iguais, elas são sempre mais frágeis, mais burras, ou só servem para sexo. Quantas vezes a gente não escuta os rapazes dizendo “Eu gosto é de mulher”. Sempre que eu ouço essa frase eu sinto um embrulho no estômago, e tenho vontade de responder “Gosta o cacete, se gostasse você respeitaria, na verdade você ODEIA! O que você gosta é de arrombar mulheres.” “Gostar” de mulher significa apreciar a penetração nas bucetas delas, basicamente. E isso pode facilmente ser interpretado como ódio, porque eles mesmos dizem que “foderam a vagabunda, aquela piranha desgraçada, bem feito, tomou rola”, é sempre degradante ou humilhante para a mulher fazer sexo, porque eles sempre se acham os donos da situação. Quando o cara vê uma mulher bonita e sexy posando de lingerie, ele tem dois sentimentos: Tesão e ódio. Ele tem prazer e admiração pelo corpo da mulher, mas acha automaticamente que ela não presta, que só mulher vadia comete esse crime que é seduzir e gostar de sexo, e que ela nunca vai ser “mulher para casar”.

Sou uma eterna desconfiada das intenções dos homens para com as mulheres, mas tenho meus motivos. O universo masculino não poupa ninguém, é um território em que a justiça e igualdade são jogadas na lata do lixo, em troca de algumas risadas. Enquanto eles falam tanto de sexo hetero, na verdade não conseguem cumprir o princípio básico da relação sexual satisfatória, que é o respeito. Eles precisam “comer” as mulheres, precisam condená-las por gostarem de sexo e procurar a mais travada de todas para ter uma relação séria, para não correr riscos e enfim eleger a “patroa”, que será sempre o motivo de zombaria da noite com os amigões. E precisam, principalmente, dar um jeito de inferiorizar todas as mulheres com quem convivem e excluí-las de seus momentos de confraternização, afinal, elas só seriam chamadas para a diversão caso o interesse fosse foder umas bucetas. Eu não sei como alguns homens deitam a cabeça no travesseiro e dormem, levando essa vida dupla que exclui metade da humanidade, mas tomara que eu nunca compreenda de fato.

 

União de Mulheres de São Paulo - Almoço de Confraternização =)

O meu ponto aqui é que precisamos defender os espaços femininos, não para criar um grupo separatista de repulsa ao sexo oposto como nossos amigos homens fizeram, mas para fortalecer as mulheres e derrubar a rivalidade feminina, assim podemos nos identificar umas com as outras e nos apoiar nos momentos difíceis. As histórias que surgem em grupos de mulheres são incríveis, e sempre muitos semelhantes umas com as outras, e isso nos ajuda perceber melhor nossa posição na sociedade e a lutar pela justiça em todos os espaços. E toda vez que um homem lhe dizer que as feministas são sexistas e os discriminam, tente lembrá-lo de seus privilégios sociais e do mundo masculino que ele construiu com seus amigos, talvez ele tenha a sensibilidade de reconhecer esse abismo histórico e social entre homens e mulheres, ou apenas tente defender os outros homens e divagar sobre a união dos sexos – na teoria.

PS: Se você é homem e garante que seu grupo de amigos não trata as mulheres dessa maneira, PARABÉNS! Mas, mais uma vez, não estou falando de você, e tenho certeza que você conhece muitos que agem dessa maneira – por isso a necessidade da crítica.

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Amor romântico: Coisas que não te contaram.

Quanto tempo sem postar! Sinto vergonha da minha falta de tempo para coisas que são tão importantes, como esse pequeno espaço que me realiza e me faz sentir útil para tantas pessoas.

E que surpresa, receber tantos feedbacks lindos de garotas incríveis! Tenho que declarar que uma das maiores felicidades que explodem dentro de mim vem desses comentários singelos, cheios de entusiasmo e identificações. Sinto um carinho verdadeiro, uma conexão entre nossos problemas e angústias, e estarei aqui para vivenciar essa troca sempre.

Isso me leva ao assunto que tem sido “trending topic” ultimamente, e que foi confirmado por uma amiga querida que está passando por uma situação de sofrimento. Da série “coisas que queriam te enfiar goela abaixo”, apresento-lhes o tal “amor romântico”.

Idealizado por fábulas, contos e religiões, usado e abusado pela indústria cultural, ele permanece entre nós, imortal. A base é um casal heterossexual, com papéis sexuais bem definidos e em um ambiente extremamente favorável, que repentinamente se fartam de um amor intocável e permanecem felizes para sempre no mar de rosas. Curiosamente, o mito é vendido para uma esmagadora maioria de mulheres.

De brinde, ganhamos a instituição do casamento, que legitima definitivamente aquele amor invencível e nos condena a uma vida inteira de companheirismo, paixão e harmonia. É relativamente “mais fácil” terminar um namoro, mas um casamento é como se fosse um contrato que exige um esforço sacrificante para a manutenção do acordo, uma prisão disfarçada de escolha, que torna muito mais difícil uma decisão que deveria ser rápida e sem dor: livrar-se de quem nos faz mal.

Nos iniciam nesse mundo obscuro dos coraçõezinhos quando ainda somos muito crianças para resistir, ganhamos lições diversas que nos convencem a precisar de outra pessoa para sermos “completas”.Essa pessoa é, claro, um homem. Junto com os mandamentos da busca ofegante por um amor de conto de fadas, nos empurram um ideal feminino de submissão, fragilidade e “entrega”. Aprendemos que ser mulher é querer um homem, e dedicar boa parte de nossas energias para que essa relação tenha sucesso – mesmo que a duras penas.

Enquanto isso, nossos queridos irmãozinhos aprendem valores um tanto diferentes. São incentivados a ter coragem, ousadia, independência e principalmente autonomia, ao mesmo tempo em que recebem a cartilha do dominador. Aprendem que serão sempre o centro das atenções das mulheres, cuidados por mães, professoras e namoradas, e que as terão à disposição.

Ao invés de bonecas imbecis e bebês de plástico, do treinamento rigoroso da maternidade e servidão, ganham jogos de estratégia, carrinhos e bolas de futebol. Aprendem que a coletividade pode conseguir muitos aliados, enfrentam o mundo ao ar livre muito cedo e desenvolvem a capacidade de raciocínio lógico.

Tudo isso faz uma grande diferença, somos discriminadas pelo gênero desde a infância e construídas sob um modelo patético de “mulher”. Nossa vulnerabilidade não é genética, não veio da mão do deus macho, é obra de uma educação medíocre embasada em preconceitos e estereótipos. Somos condicionadas a não nos sentir completas, nunca, de forma alguma.

Coincidentemente, a solução apresentada para todos os nossos problemas de auto-estima e auto-realização é um parceiro homem. “Tá precisando é de uma rola bem grande”, como diriam as criaturinhas desprezíveis ocupando espaço por aí. Se estamos “sozinhas”, somos solitárias ou lésbicas,desprezadas pelo tão importante e fundamental macho da espécie. Se reclamamos de algo, somos histéricas ou “mal-comidas”, afinal, todos os nossos problemas só podem ter origem na falta de um pinto entrando e saindo, oras!

Daí, se resolvemos nos relacionar com um cara e descobrimos que ele é um merdinha, e então trocamos, e fazemos isso repetidas vezes na incessante busca de um cara menos incompetente, nos chamam de “putas”. Dizem até que não estamos nos dando “valor”, quando na verdade isso só oculta a falta de qualquer valor ou apreço que eles sintam por nós, um verdadeiro nojo. Enquanto isso, eles trocam de parceiras o tempo todo e se orgulham de separar o ato sexual de qualquer afeto e consideração.

Não é uma fórmula perfeita? Faça-as sentirem-se incompletas e então lhes dê uma cara-metade. Um homem perfeito, romântico, que atenda a todas as nossas necessidades e finalmente dê algum sentido à nossa existência supérflua e cruel. Alguém pra nos dizer o quanto parecemos bonitas, já que enxergamos mosntros nos espelhos e nos sentimos culpadas por isso. Finalmente alguém pra nos convencer de que somos alguém e não alguma coisa, como sempre nos ensinaram, uau. Mas a verdade, mulheres, é que não precisamos de um salvador, muito menos de um príncipe.

Definição de romance pelo dicionário: fantasia. O que mais precisamos dizer?! Não é real, não é saudável e muito menos justo.Se você só se sentiu completa depois de conhecer um homem e se apaixonar, significa que uma parte de você sempre esteve vazia, e isso é péssimo. Se você não consegue ficar sozinha, quer dizer que está sujeita a uma relação de dependência, auto-depreciação e possessividade. É um clichê dos grandes, mas é verdadeiro demais: Antes de se tornar “nós”, precisamos ser “eu”.

Antes de proclamar as palavras mágicas “não sei o que seria de mim sem você”, pense no quanto você está se anulando na situação. Nunca se sinta um fracasso se ainda se sentir dependente de um cara, não se esqueça que você foi totalmente condicionada a ver as coisas dessa maneira. O caminho? Mais uma vez a desconstrução, e isso só é possível com auto-conhecimento.

Conhecer a si própria e ter autonomia não significa excluir os relacionamentos amorosos. Eu acredito em relações justas, em que o companheirismo é essencial e o afeto cria uma união harmoniosa e cheia de respeito, sem dependência, possessividade e ilusão. O amor romântico nada mais é do que uma mentira, porque promete uma relação eterna que tem como base apenas o misterioso sentimento “amor”, quando na verdade se parece mais com uma paixão cega, infantil e inconsequente.

Se podemos chamar algo de amor, com certeza não é essa sensação obscura que nos condena a viver acorrentadas a uma pessoa, desejando sua presença em cada passo das nossas vidas e projetando nela grandes objetivos. Insisto que em uma relação real ambos devem perseguir seus objetivos juntos, prestar apoio mútuo e construir uma base sólida de respeito e cumplicidade, sem o contrato ditatorial do “pra sempre”.

Quantas mulheres permanecem com homens que as espancam? Ou as humilham? Quantas mulheres você conhece que suportaram traições? Quantas abriram mão de desejos próprios por causa dos parceiros? Quantas sofrem com um ciúme doentio e se auto-depreciam por causa dele? Quantas já abaixaram a cabeça para uma condição do companheiro e sofreram caladas? Quantas vêm desabafar com você o inferno que está sendo o relacionamento delas e a falta de coragem pra tomar uma decisão?

A vida real é muito mais hostil com as mulheres. Aqui fora os príncipes são muito mais autônomos, seguros de si e treinados para a indiferença. E estarão sempre prontos para se aproveitar dessa insegurança enraizada dentro de nós, construindo verdadeiros romances poéticos enquanto nos sugam toda a individualidade. Isso não quer dizer que homens não têm sentimentos, quer dizer que estão muito mais preparados para lidar com eles, porque têm como base suas próprias realizações.

E como mudar? Como sair da posição de vítima do patriarcado e retomar o poder sobre a própria vida? Tudo o que eu tenho são experiências próprias e um punhado de conselhos sinceros.

Em primeiro lugar, descubra algo que você ame muito fazer. Eu descobri que amava escrever, lutar por causas sociais, ajudar as minorias e ver resultados de todo o trabalho que eu puder fazer.Muitas descobrem a realização em um esporte, na música, nas artes plásticas, na filantropia, na carreira, são inúmeras possibilidades, e todas temos muitas.

Depois, descubra milhares de coisas menores que você ame fazer. Identifique suas preferências, muitas de nós nunca paramos para pensar nisso! Procure um tipo de leitura, cinema ou música que você adore, vá ao teatro, invista em coisas que te dêem prazer e acrescentem conhecimento. Una-se com outras mulheres, jogue futebol, jogue videogame, faça um cosplay, vá dançar.

Deixe o relacionamento dos seus sonhos para o momento em que estiver mais completa, você terá muito mais para compartilhar e estará sempre pronta para fazer as melhores escolhas sem cometer sacrifícios. Se não der certo, agradeça por ter percebido os erros a tempo, e procure alguém que possa te acompanhar e trazer mais prazeres. Defina suas regras, respeite suas próprias decisões, seja firme, e nunca, nunca mesmo, seja tolerante a ponto de se machucar.

Algo que eu sempre tenho em mente é que exercitar o perdão nem sempre é um bom negócio. Vivemos tensionadas, se não pudermos confiar em alguém com certeza essa pessoa não merece nossa companhia.Estabeleça limites para atitudes que você não gosta, e não tenha qualquer receio ou medo de se arrepender na hora de dar um basta no relacionamento. Não é questão de imaginar que “tem mais um monte por aí”, e sim que uma relação que não é mais agradável e causa mais aborrecimentos do que alegrias não tem lugar na vida de uma pessoa auto-realizada.

Não espere ser protegida, espere compartilhar segurança. Não espere ganhar, espere uma troca. Não aceite conviver com um homem que define seus papéis na relação apenas pelo seu gênero, por mais que ele pareça afetuoso, conteste e exija, seja uma voz ativa e tomadora de decisões.

Relacionamentos não se baseiam apenas em amor, tenha em mente que uma relação sem respeito e cooperação não vale a pena. Que adianta ficar com um cara que te considera menos capaz de realizar uma tarefa, só porque ele é carinhoso? Carinho não realiza ninguém, só serve como bengala de frustrações, você precisa de alguém que te admire, te estimule e confie na sua capacidade. E, acima de tudo, precisa de respeito às suas decisões, desejos e necessidades, não deixe de fazer algo que quer para satisfazer alguém que deveria lhe querer o bem. Agregue valor à sua própria confiança, um homem que mente e trai não merece segunda chance, pois isso é sinal de que ele não reconhece seus direitos de escolha.

Nesse ponto o casamento colabora com nossas prisões privadas. Muitas mulheres temem o divórcio porque acreditam que uma “união de tantos anos merece maior esforço e tolerância para continuar”, mas quase sempre esses esforços significam anulação, sofrimento e negação. Elas se sacrificam pela manutenção de um relacionamento perdido, porque temem prestar contas ao Estado com seu contrato de união civil e à religião com seu deus falocêntrico impiedoso.Por esses e outros motivos condeno o casamento como uma união anti-amor, patriarcal e desigual, fundada em sexismo e heteronormatividade.

As mulheres carregam nas costas uma História de submissão e sacrifícios pelo amor romântico, enquanto permaneciam exploradas pelos “donos de seus corações”. Não esqueçam nunca que já fomos consideradas propriedades, já estivemos restritas a um cárcere privado e que ainda hoje muitas de nós não podem nem escolher o homem que estará no “comando”.Ainda existem injustiças horríveis cometidas contra as mulheres em nome de amores romãnticos, somos diariamente iludidas, enganadas e desprezadas. Cabe a nós mudar nossa realidade através desse exercício de consciência que eu proponho, da desconstrução, vamos recuperar a autonomia que nos arrancaram e acabar com nossa dependência instituída por essa educação precária.


Amem, mulheres! Mas amem primeiro a si mesmas, sejam pessoas realizadas e completas, mulheres inteiras. Não vamos esperar a misericórdia dos homens, vamos nos fortalecer para construir relacionamentos mais justos.

Quanto tempo sem postar! Sinto vergonha da minha falta de tempo para coisas que

são tão importantes, como esse pequeno espaço que me realiza e me faz sentir útil

para tantas pessoas.

E que surpresa, receber tantos feedbacks lindos de garotas incríveis! Tenho que

declarar que uma das maiores felicidades que explodem dentro de mim vem desses

comentários singelos, cheios de entusiasmo e identificações. Sinto um carinho

verdadeiro, uma conexão entre nossos problemas e angústias, e estarei aqui para

vivenciar essa troca sempre.

Isso me leva ao assunto que tem sido “trending topic” ultimamente, e que foi

confirmado por uma amiga querida que está passando por uma situação de sofrimento.

Da série “coisas que queriam te enfiar goela abaixo”, apresento-lhes o tal “amor

romântico”.

Idealizado por fábulas, contos e religiões, usado e abusado pela indústria

cultural, ele permanece entre nós, imortal. A base é um casal heterossexual, com

papéis sexuais bem definidos e em um ambiente extremamente favorável, que

repentinamente se fartam de um amor intocável e permanecem felizes para sempre no

mar de rosas. Curiosamente, o mito é vendido para uma esmagadora maioria de

mulheres.

De brinde, ganhamos a instituição do casamento, que legitima definitivamente

aquele amor invencível e nos condena a uma vida inteira de companheirismo, paixão

e harmonia. É relativamente “mais fácil” terminar um namoro, mas um casamento é

como se fosse um contrato que exige um esforço sacrificante para a manutenção do

acordo, uma prisão disfarçada de escolha, que torna muito mais difícil uma decisão

que deveria ser rápida e sem dor: livrar-se de quem nos faz mal.

Nos iniciam nesse mundo obscuro dos coraçõezinhos quando ainda somos muito

crianças para resistir, ganhamos lições diversas que nos convencem a precisar de

outra pessoa para sermos “completas”.Essa pessoa é, claro, um homem. Junto com os

mandamentos da busca ofegante por um amor de conto de fadas, nos empurram um ideal

feminino de submissão, fragilidade e “entrega”. Aprendemos que ser mulher é querer

um homem, e dedicar boa parte de nossas energias para que essa relação tenha

sucesso – mesmo que a duras penas.

Enquanto isso, nossos queridos irmãozinhos aprendem valores um tanto diferentes.

São incentivados a ter coragem, ousadia, independência e principalmente autonomia,

ao mesmo tempo em que recebem a cartilha do dominador. Aprendem que serão sempre o

centro das atenções das mulheres, cuidados por mães, professoras e namoradas, e

que as terão à disposição.

Ao invés de bonecas imbecis e bebês de plástico, do treinamento rigoroso da

maternidade e servidão, ganham jogos de estratégia, carrinhos e bolas de futebol.

Aprendem que a coletividade pode conseguir muitos aliados, enfrentam o mundo ao ar

livre muito cedo e desenvolvem a capacidade de raciocínio lógico.

Tudo isso faz uma grande diferença, somos discriminadas pelo gênero desde a

infância e construídas sob um modelo patético de “mulher”. Nossa vulnerabilidade

não é genética, não veio da mão do deus macho, é obra de uma educação medíocre

embasada em preconceitos e estereótipos. Somos condicionadas a não nos sentir

completas, nunca, de forma alguma.

Coincidentemente, a solução apresentada para todos os nossos problemas de auto-

estima e auto-realização é um parceiro homem. “Tá precisando é de uma rola bem

grande”, como diriam as criaturinhas desprezíveis ocupando espaço por aí. Se

estamos “sozinhas”, somos solitárias ou lésbicas,desprezadas pelo tão importante e

fundamental macho da espécie. Se reclamamos de algo, somos histéricas ou “mal-

comidas”, afinal, todos os nossos problemas só podem ter origem na falta de um

pinto entrando e saindo, oras!

Daí, se resolvemos nos relacionar com um cara e descobrimos que ele é um merdinha,

e então trocamos, e fazemos isso repetidas vezes na incessante busca de um cara

menos incompetente, nos chamam de “putas”. Dizem até que não estamos nos dando

“valor”, quando na verdade isso só oculta a falta de qualquer valor ou apreço que

eles sintam por nós, um verdadeiro nojo. Enquanto isso, eles trocam de parceiras o

tempo todo e se orgulham de separar o ato sexual de qualquer afeto e consideração.

Não é uma fórmula perfeita? Faça-as sentirem-se incompletas e então lhes dê uma

cara-metade. Um homem perfeito, romântico, que atenda a todas as nossas

necessidades e finalmente dê algum sentido à nossa existência supérflua e cruel.

Alguém pra nos dizer o quanto parecemos bonitas, já que enxergamos mosntros nos

espelhos e nos sentimos culpadas por isso. Finalmente alguém pra nos convencer de

que somos alguém e não alguma coisa, como sempre nos ensinaram, uau. Mas a

verdade, mulheres, é que não precisamos de um salvador, muito menos de um

príncipe.

Definição de romance pelo dicionário: fantasia. O que mais precisamos dizer?! Não

é real, não é saudável e muito menos justo.Se você só se sentiu completa depois de

conhecer um homem e se apaixonar, significa que uma parte de você sempre esteve

vazia, e isso é péssimo. Se você não consegue ficar sozinha, quer dizer que está

sujeita a uma relação de dependência, auto-depreciação e possessividade. É um

clichê dos grandes, mas é verdadeiro demais: Antes de se tornar “nós”, precisamos

ser “eu”.

Antes de proclamar as palavras mágicas “não sei o que seria de mim sem você”,

pense no quanto você está se anulando na situação. Nunca se sinta um fracasso se

ainda se sentir dependente de um cara, não se esqueça que você foi totalmente

condicionada a ver as coisas dessa maneira. O caminho? Mais uma vez a

desconstrução, e isso só é possível com auto-conhecimento.

Conhecer a si própria e ter autonomia não significa excluir os relacionamentos

amorosos. Eu acredito em relações justas, em que o companheirismo é essencial e o

afeto cria uma união harmoniosa e cheia de respeito, sem dependência,

possessividade e ilusão. O amor romântico nada mais é do que uma mentira, porque

promete uma relação eterna que tem como base apenas o misterioso sentimento

“amor”, quando na verdade se parece mais com uma paixão cega, infantil e

inconsequente.

Se podemos chamar algo de amor, com certeza não é essa sensação obscura que nos

condena a viver acorrentadas a uma pessoa, desejando sua presença em cada passo

das nossas vidas e projetando nela grandes objetivos. Insisto que em uma relação

real ambos devem perseguir seus objetivos juntos, prestar apoio mútuo e construir

uma base sólida de respeito e cumplicidade, sem o contrato ditatorial do “pra

sempre”.

Quantas mulheres permanecem com homens que as espancam? Ou as humilham? Quantas

mulheres você conhece que suportaram traições? Quantas abriram mão de desejos

próprios por causa dos parceiros? Quantas sofrem com um ciúme doentio e se auto-

depreciam por causa dele? Quantas já abaixaram a cabeça para uma condição do

companheiro e sofreram caladas? Quantas vêm desabafar com você o inferno que está

sendo o relacionamento delas e a falta de coragem pra tomar uma decisão?

A vida real é muito mais hostil com as mulheres. Aqui fora os príncipes são muito

mais autônomos, seguros de si e treinados para a indiferença. E estarão sempre

prontos para se aproveitar dessa insegurança enraizada dentro de nós, construindo

verdadeiros romances poéticos enquanto nos sugam toda a individualidade. Isso não

quer dizer que homens não têm sentimentos, quer dizer que estão muito mais

preparados para lidar com eles, porque têm como base suas próprias realizações.

E como mudar? Como sair da posição de vítima do patriarcado e retomar o poder

sobre a própria vida? Tudo o que eu tenho são experiências próprias e um punhado

de conselhos sinceros.

Em primeiro lugar, descubra algo que você ame muito fazer. Eu descobri que amava

escrever, lutar por causas sociais, ajudar as minorias e ver resultados de todo o

trabalho que eu puder fazer.Muitas descobrem a realização em um esporte, na

música, nas artes plásticas, na filantropia, na carreira, são inúmeras

possibilidades, e todas temos muitas.

Depois, descubra milhares de coisas menores que você ame fazer. Identifique suas

preferências, muitas de nós nunca paramos para pensar nisso! Procure um tipo de

leitura, cinema ou música que você adore, vá ao teatro, invista em coisas que te

dêem prazer e acrescentem conhecimento. Una-se com outras mulheres, jogue futebol,

jogue videogame, faça um cosplay, vá dançar.

Deixe o relacionamento dos seus sonhos para o momento em que estiver mais

completa, você terá muito mais para compartilhar e estará sempre pronta para fazer

as melhores escolhas sem cometer sacrifícios. Se não der certo, agradeça por ter

percebido os erros a tempo, e procure alguém que possa te acompanhar e trazer mais

prazeres. Defina suas regras, respeite suas próprias decisões, seja firme, e

nunca, nunca mesmo, seja tolerante a ponto de se machucar.

Algo que eu sempre tenho em mente é que exercitar o perdão nem sempre é um bom

negócio. Vivemos tensionadas, se não pudermos confiar em alguém com certeza essa

pessoa não merece nossa companhia.Estabeleça limites para atitudes que você não

gosta, e não tenha qualquer receio ou medo de se arrepender na hora de dar um

basta no relacionamento. Não é questão de imaginar que “tem mais um monte por aí”,

e sim que uma relação que não é mais agradável e causa mais aborrecimentos do que

alegrias não tem lugar na vida de uma pessoa auto-realizada.

Não espere ser protegida, espere compartilhar segurança. Não espere ganhar, espere

uma troca. Não aceite conviver com um homem que define seus papéis na relação

apenas pelo seu gênero, por mais que ele pareça afetuoso, conteste e exija, seja

uma voz ativa e tomadora de decisões.

Relacionamentos não se baseiam apenas em amor, tenha em mente que uma relação sem

respeito e cooperação não vale a pena. Que adianta ficar com um cara que te

considera menos capaz de realizar uma tarefa, só porque ele é carinhoso? Carinho

não realiza ninguém, só serve como bengala de frustrações, você precisa de alguém

que te admire, te estimule e confie na sua capacidade. E, acima de tudo, precisa

de respeito às suas decisões, desejos e necessidades, não deixe de fazer algo que

quer para satisfazer alguém que deveria lhe querer o bem. Agregue valor à sua

própria confiança, um homem que mente e trai não merece segunda chance, pois isso

é sinal de que ele não reconhece seus direitos de escolha.

Nesse ponto o casamento colabora com nossas prisões privadas. Muitas mulheres

temem o divórcio porque acreditam que uma “união de tantos anos merece maior

esforço e tolerância para continuar”, mas quase sempre esses esforços significam

anulação, sofrimento e negação. Elas se sacrificam pela manutenção de um

relacionamento perdido, porque temem prestar contas ao Estado com seu contrato de

união civil e à religião com seu deus falocêntrico impiedoso.Por esses e outros

motivos condeno o casamento como uma união anti-amor, patriarcal e desigual,

fundada em sexismo e heteronormatividade.

As mulheres carregam nas costas uma História de submissão e sacrifícios pelo amor

romântico, enquanto permaneciam exploradas pelos “donos de seus corações”. Não

esqueçam nunca que já fomos consideradas propriedades, já estivemos restritas a um

cárcere privado e que ainda hoje muitas de nós não podem nem escolher o homem que

estará no “comando”.Ainda existem injustiças horríveis cometidas contra as

mulheres em nome de amores romãnticos, somos diariamente iludidas, enganadas e

desprezadas. Cabe a nós mudar nossa realidade através desse exercício de

consciência que eu proponho, da desconstrução, vamos recuperar a autonomia que nos

arrancaram e acabar com nossa dependência instituída por essa educação precária.

Amem, mulheres! Mas amem primeiro a si mesmas, sejam pessoas realizadas e

completas, mulheres inteiras. Não vamos esperar a misericórdia dos homens, vamos nos fortalecer para construir um mundo mais justo.

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Justiça para Geisy Arruda!

Todo mundo já escreveu sobre a Geisy Arruda, mas o caso ainda está pegando fogo então eu vou dar a minha contribuição.

Muitos estão dizendo que a imprensa exagera, que ninguém conhece a verdade dos fatos e que “todos tiveram sua parcela de erro”.

Analisemos.

geisy2

Fato 1: Geisy foi xingada de puta e recebeu ameaças de estupro, sejam elas com intuito “corretivo” de trogloditas ou por pura humilhação simbólica. Isso está comprovado pelos vídeos e estudantes.

Fato 2: Geisy estava com um microvestido cor-de-rosa e percorreu um caminho maior que o habitual para encontrar um banheiro que não estivesse em manutenção. esse fato foi interpretado como uma “tentativa de Geisy de se expor mais e mais”.

Fato 3: Geisy demonstrou uma atitude de desprezo e provocação com os gracejos que ouviu. A reação dela nessa situação foi relacionada com seu comportamento habitual, o que mostra que ela deve ser uma moça que usa roupas consideradas “provocantes” e que não atende aos apelos e assédios dos colegas ao redor.

geisy

Eu sei muito bem o que as pessoas que defendem a Universidade pensam. Em suas cabecinhas, Geisy é “puta”, deve fazer sexo com qualquer um, provocou toda a situação e pior, ainda quer se promover em cima disso se fazendo de vítima na imprensa. E tem mais, faculdade não é lugar pra se vestir “desse jeito”, e uma aluna da UNIBAN declarou que “mulher que se veste assim é objeto mesmo”.

Primeiro, que mesmo que Geisy fosse prostituta, estaria em seu pleno direito de estudar. Mas, ela não é. Tampouco temos informações sobre a vida sexual da moça, que também não faria diferença alguma, afinal somos livres para nos relacionarmos uns com os outros e teoricamente não deveríamos sofrer violência por exercer esse direito.

O mais grave é dizer que Geisy “provocou” essa situação.Pior, dizer que a culpa não foi do micro-vestido, como alegaram ao expulsá-la, mas sim da “postura” de Geisy. Existem premissas nojentas para essa afirmação, a primeira é de que a postura adequada de uma mulher é totalmente diferente da de Geisy, ou seja, ao invés de vestir-se como quiser e andar livremente seria obrigação feminina da moça usar roupas que não mostrem seu corpo e comportar-se de forma passiva, silenciosa e submissa. Outro agravante seria a forma física de Geisy, que difere dos padrões impostos ás mulheres e por isso desqualifica a “beleza” que deveria ser mostrada com o vestido, e já que não há diversão para os primatas heterossexuais, logo a exibição de Geisy se torna uma AFRONTA.

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A faculdade também supõe que Geisy provocou os colegas através de atos “rebeldes” como rebolar, ignorar ou demonstrar indiferença com a atitude. Mesmo que a moça tivesse mostrado as tais partes íntimas, o que não foi confirmado por ela e nem há provas, sua atitude foi nada mais nada menos que defensiva. Geisy mostrou através de um comportamento irreverente que não importava o quanto as pessoas a julgassem, esperneassem e desejassem que ela cobrisse seu corpo, ela continuaria daquela forma, a forma que ela escolheu para se vestir e se comportar. A própria Geisy não se acha um objeto, ela conhece muito bem seus desejos, emoções, objetivos, há um universo particular na vida da moça que não sucumbe ao terrorismo de uma turba.

Quem determina afinal que o corpo de uma mulher tem apenas o significado sexual? O sentir-se bela de Geisy é condenado à insinuação sexual por qual autoridade suprema? Coxas à mostra são aval de estupro e linchamento? Se Geisy realmente desejava conseguir sexo com aquela roupa, os alunos determinaram que ela estava DISPONÍVEL para isso naquele momento na faculdade com que direito?

Mulheres vestidas nos moldes que consideramos “sexy” não carregam um selo de “Available” na testa. Ora essa, foi construída uma imagem de sexualidade extrema e sujeição vinculada à decotes, saias curtas e vestidinhos, sob um pretexto de “libertação”. Mas, o que vemos, é justamente o contrário: ao invés de exercerem a liberdade ao usar roupas que expõem o corpo, as mulheres são simplesmente condenadas a um estado de disponibilidade sexual de acordo com a conveniência dos machos!

Não julgo que estamos em condições de abolir tais roupas que carregam os símbolos do patriarcado com suas formas, pelo contrário, as mulheres precisam ter autonomia e posse sobre seus corpos suficiente para usar o que quiserem e serem respeitadas da mesma forma.

O que vemos é o oposto, moças como Geisy são consideradas disponíveis como alvos nos espaços públicos, as roupas que mostram o corpo funcionam como um código que legitima a aproximação e a invasão do espaço. Quando Geisy reagiu com provocações, os homens que a afrontavam não suportaram, e as mulheres que tinham em si esse preconceito internalizado se revoltaram com a “ousadia” da colega.

“Imagine, que audácia dessa moça, nos provocar e zombar de nossas investidas? Somos machos, precisamos colocar essa vagabunda no seu devido lugar, quem ela acha que é pra mostrar essas curvas na faculdade, nem mesmo “bela” ela é.” Os Alunos

“Essa menina é prostituta mesmo. Vem pra faculdade com essa roupa indecente, e eu que fui criada sob as rédeas do meu pai uso roupas mais adequadas ao ambiente em que eu estou. Afinal, mulheres não podem simplesmente sair se mostrando, precisamos conter nossas formas para o bem da família e da sociedade. Ainda bem que eu estou do lado das santas e vou poder casar com um homem que me domine!” As Alunas

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Que mulher nunca rebateu um assédio nas ruas e foi xingada de prontidão? Já me aconteceu inúmeras vezes. Esses vermes não suportam que uma mulher desafie a autoridade que eles supõem ter sobre nossos corpos, a reação é como a dos alunos, retaliação, indignação. Geisy é símbolo porque reagiu de forma tão chocante para os machistas que causou uma verdadeira rebelião contra a autonomia da mulher.

O mais bizarro de tudo isso é ver milhares de machinhos “solidários” a Geisy, postando mensagens mundo afora que acusam os alunos de “gays” e “invejosas”. Quem odeia as mulheres, os gays ou os heterossexuais que estupram, matam, surram e abusam delas todos os dias? Porque raios essa gente estúpida relaciona ódio contra a mulher com homossexualidade? Os gays não precisam odiar as mulheres, por muitas vezes acabam se aliando a elas por serem minorias com afinidades. A justificativa é que somente gays poderiam ofender uma mulher, porque heteros obviamente precisam fodê-la, e por isso estão sendo homossexuais ao odiá-la. E, convenhamos, é desesperador ver como essas pessoas ainda usam a homossexualidade como OFENSA deliberadamente, isso é uma doença social.

Outra pérola são os mesmos machinhos compadecidos de Geisy deixando recados em sua suposta página do orkut solicitando msn e oferecendo “apoio”. O apoio seria uma rola na bunda, no caso, com perdão da expressão. Que interesse um jovem heterossexual sexista teria em defender uma moça que não fosse fodê-la no final? E ainda assim, com certeza esses mesmos defensores se juntariam ao coro de “Puta!” logo depois de praticarem o ato. Porque, como já sabemos, mulheres que fazem sexo são prostitutas e merecem ser queimadas, ou linchadas por ilustres universitários brasileiros.

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É tanta porcaria que dá vontade de parar, mas prossigo. Eis que a faculdade decide que o comportamento irreverente de Geisy é uma ameaça à moral e bons costumes patriarcais, e assim decide expulsá-la. A opinião pública parece estar a favor da moça, e desconfio que isso se deve ao fato de que a notícia original foi pautada por blogs (ainda bem). Os movimentos sociais reagem e organizam uma manifestação na porta da UNIBAN pela revogação da expulsão e punição dos responsáveis. Estavam presentes a UNE, a SOF e a Marcha Mundial das Mulheres.

Os alunos trogloditas saem à porta para defender, desta vez, seus próprios rabos. Alguns insistem no comportamento ousado de Geisy como impróprio e defendem a expulsão, outros dizem não ter culpa de nada e ficam se cagando de medo do mercado de trabalho cuspir neles. Houve também uma moça muito truculenta expressando seu horror à Geisy e afirmando que mulheres “que se vestem assim na faculdades são objetos mesmo”. Ainda tivemos um cidadão capaz de agredir um ativista anarquista porque ele comparou Geisy à sua mãe, até imagino que o moço tentou compará-las para ver se o neandertal acordava de seu pesadelo patriarcal, compreendendo que ambas são mulheres e tem os mesmo direitos, mas não foi tão fácil assim.

Sobre ser objeto, reafirmo que objetificação é o que impuseram à Geisy baseados em um preconceito violento que determina comportamentos de “santas” ou “putas” às mulheres. Objetificar com base no gênero, na roupa e no modo de agir é típico de quem acredita que mulheres são mesmo brinquedos masculinos, sem vontade própria ou capacidade moral. A própria moça que proferiu essa ideia não pode ser culpada pela interpretação, afinal ela foi criada dentro da mesma cultura que condena Geisy, e sabe-se lá que julgamentos ela já sofreu na sua vida social universitária por ser mulher e fora dos padrões.

Com certeza essa Universidade sofreu um abalo na imagem, e acho justo. Já que vivemos à mercê de instituições para garantir nossa segurança, o mínimo que podemos fazer é exigir que cumpram essa tarefa. Os alunos que não participaram podem não ter culpa alguma do ocorrido, mas talvez devessem criar alguma mobilização a favor da Geisy, já que a neutralidade em uma situação dessas é no mínimo assustadora. Sim, temos que nos preocupar com o que acontece ao nosso redor, e essa atitude é esperada de universitários. Sobre a imagem no mercado de trabalho, me parece lógico que todos sofrerão as consequências do que fizeram à garota, não adianta tentarem defender a instituição ou os colegas na esperança de irem bem na entrevista, uma mulher foi linchada por não corresponder ao modelo ideal como resultado de uma cultura machista, e todos pagarão por isso.

Sobre a reação de Geisy, a moça está buscando seus direitos e com certeza usando da imprensa para divulgar o caso. Estão dizendo que ela “se faz” de vítima, mas não tem essa, a moça É vítima. São os defensores da universidade e machistas de merda que querem transformá-la em ré. Claro que a imprensa tem seu papel de sempre de sensacionalista e oportunista, mas nesse caso específico acredito que a exposição é mais que adequada. E, mais uma vez, o fato da notícia original ter sido pautada em um blog, e já com uma abordagem crítica, facilitou muito a divulgação pró-Geisy. Só existem duas hipóteses em que Geisy pode ser considerada “culpada”:

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1- Se ela for um homem disfarçado líder de uma conspiração gigantesca de machistas que pretendiam criar uma situação de linchamento dentro de uma faculdade e expulsar a aluna em seguida para que uma mulher nunca mais ousasse se vestir assim.

2- Se estiver todo mundo mentindo e na verdade o caso todo é um golpe publicitário para a nova campanha da Zara e seu novo vestidinho cor-de-rosa nas cores flúor da tendência.

Quais as desculpas para apontar a imprensa como mentirosa e a Geisy como culpada? Ela se mostrou, provocou, tem comportamento de “puta”, hm, e o que mais? Tudo já devidamente desmistificado.

Dizem por aí que Geisy afirmou que gostaria de ser atriz, e isso foi suficiente pra desencadear uma nova acusação: “Geisy quer se promover”. Ah, não me diga, a garota de classe B/C, hostilizada, fora dos padrões de beleza, com uma educação baseada no senso-comum, estudante de turismo, tentou aproveitar uma exposição na mídia pra conquistar o desejado posto de atriz famosa? Que absurdo! Que tipo de aproveitadora ela é, afinal? Se a ironia não foi suficiente, dã, é CLARO que uma garota nessas condições adoraria buscar uma compensação na situação e se colocar como atriz, posar na playboy ou qualquer outra idiotice que confere status à figura feminina no patriarcado. E a culpa, deixa eu adivinhar, é dela?

Algo que me surpreendeu foi a presença de Sabrina Sato na manifestação, declarando apoio à Geisy. Com um mini-vestido cor-de-rosa, para simbolizar o caso, Sabrina também foi assediada, aos brados de “gostosa” por um bando de trolls. Um aluno chegou a dizer que não chamaram Geisy de gostosa porque daria a entender que os alunos gostavam de “baranga”. Mais uma vez a violência sexista impera, Sabrina Sato pode (e deve) usar roupas curtas porque seu corpo tem o padrão decorativo e é alvo da sexualização sedenta dos machinhos, enquanto as formas de Geisy configuram praticamente um insulto por não serem consideradas “atraentes”. E claro, ser chamada de gostosa é uma violência em potencial, já que significa “nós queremos te comer agora”, e pressupõe que a moça estaria se oferecendo.

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Sabrina sofreu perseguição e fez algumas entrevistas, mas o que mais me chamou a atenção foi uma cena da moça erguendo o microfone animada para registrar o grito de guerra da Marcha Mundial das Mulheres: “A violência contra a mulher, não é o mundo que a gente quer!” Em certa parte do coro, diz-se “nossa beleza não tem padrão”, e Sabrina permanece apoiando a manifestação. Isso me deixa muito feliz e ao mesmo tempo triste, feliz porque a atitude da moça é linda, e triste porque ao mesmo tempo ela representa uma mulher caricata e sujeita em um dos programa humorísticos mais violentos da televisão. Mas, o ato de Sabrina me leva a crer que ela apoia o movimento e acredita que o padrão do corpo feminino é violento, mesmo que se encaixe nos moldes obrigatoriamente em seu trabalho. Ou, na pior das hipóteses, estou sendo ingênua demais e a moça quis apenas gravar seu programa. Prefiro ser otimista.

Ao menos, como resultado da manifestação, a expulsão foi revogada. Mas isso não é nem de longe suficiente, os responsáveis precisam ser punidos e a segurança de Geisy deve ser garantida, pois o que mais esses “talibans” querem é humilhá-la novamente. A moça declarou que só quer entrar na sala, sentar, estudar e “passar de ano”, e eu acredito que, mesmo que ela tenha sido instruída em suas declarações e mantenha um expressão premeditada, ela realmente quer apenas paz.

No mesmo caso, temos várias formas de preconceito e violência de gênero. Odeiam e culpam Geisy porque ela se mostra dona de seu corpo e atitudes, porque ela não se encaixa no padrão de beleza feminino, porque é nordestina, porque é pobre e porque reage contra as agressões. Além disso, ainda arranjam espaço pra odiar gays também, acusando os agressores de homossexualidade (oh, insulto!). E por fim temos a questão política da Universidade, que não hesita em expulsar uma mulher de classe mais baixa que sofreu humilhação dentro da instituição para agradar milhares de alunos que pagam uma gorda mensalidade.

uniban

Geisy é um símbolo para a luta das mulheres, pois expôs um problema muito grave que é ignorado por toda uma sociedade: a violência e abuso a que as mulheres são sujeitas nos espaços públicos e privados. As vaias e urros de “puta”cheios de ódio foram para Geisy e para todas as mulheres deste país, sejamos solidárias com Geisy por ela e por nós mesmas.

Deixo um recado para as meninas da Uniban que são contra Geisy: Sei que agora vocês estão preocupadas com a imagem da universidade e que provavelmente odeiam ainda mais Geisy Arruda, mas pensem que amanhã vocês podem ser as próximas vítimas da violência de gênero, que aparece na forma de assédio, abuso, estupro, coerção e humilhação. Alguma de vocês já sofreu um abuso verbal de um homem na rua e se sentiu constrangida? Já foi analisada de cima a baixo e avaliada por homens que não conhecia? Já deixou de usar uma roupa porque teve vergonha e receio de sair sozinha com ela? Já foi assediada no trabalho ou considerada menos competente apenas por ser mulher? Já deixaram de levar algo que você disse a sério porque é uma mulher? Já se sentiu mal com a forma do seu corpo? Já teve seu comportamento considerado impróprio para uma mulher? Já sentiu vontade de transar com alguém e não o fez por medo de ser considerada vadia?

minha escolha

Tudo isso, moças, é violência de gênero. A mesma que a Geisy sofreu. Vocês não podem odiar e culpar uma mulher porque os homens o fazem, porque ela parece “provocante” ao olhar de vocês. Experimentem admirar essa mulher, questionar o que lhes foi condicionado a pensar sobre o corpo feminino, experimentem desafiar os olhares de reprovação masculinos.

Geisy não vive, não se veste e não se comporta em função de criaturas masculinas heterossexuais. Nós, mulheres, não podemos viver sob julgamento de homens, escolhendo nosso modo de agir e a expressão do nosso corpo de acordo com a aceitação deles. A moça do mini-vestido rosa é um símbolo, é a realidade da violência contra a mulher que veio à tona e mobilizou a opinião pública.

Justiça para Geisy, pelo fim do terrorismo patriarcal!

Fica recomendada, salvo citação criacionista, a análise do Dr. Jacob Pinheiro sobre o ocorrido: Youtube.

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Goru Hentai: Expressão do ódio contra a mulher

ATENÇÃO, CONTEÚDO PESADO E VIOLENTO.

Ok, já temos um jogo de videogame cujo objetivo principal é estuprar uma mulher e sua filha e depois fazer com que abortem, temos snuff movies (filmes pornográficos em que a mulher é estuprada e morta), temos as mais diversas perversidades e fetiches possíveis sobre o corpo feminino. Mas sempre se criam novas formas de mostrar até que ponto chega a violência contra a mulher.

Como se não bastassem todos aqueles hentais em que enfiam tentáculos nojentos em mulheres, sempre mostrando cuidadosamente o sofrimento das vítimas, parece que uma nova “onda” de hentais invadiu o imaginário masculino japonês.

O nome da doença é “Goru”, uma espécie de hentai em que são exibidas mulheres dilaceradas, com seus órgãos expostos e em situações de extrema dor e mutilação. São jovens, estão sempre nuas, com expressões agonizantes e preferencialmente com seios e órgãos genitais estripados. É como se não fosse mais suficiente explorar seios, canais vaginais, bundas e outros “pedaços” recortados de mulheres, agora a expressão superior da objetificação pornográfica é dilacerar as partes femininas para encontrar outras formas de excitação.

Goru

Não ouso colocar imagens maiores.

Não conseguiria mostrar certa imagem que vi, um hentai retratando uma garota decapitada, enquanto sua cabeça permanecia no chão um homem penetrava o pescoço aberto e o outro dilacerava os genitais. Muita gente já considera a nova perversidade como doente, sanguinária, absurda e etc. Mas, sinceramente, essas coisas para mim são bastante previsíveis, são nada mais que a representação extrema de uma situação bastante comum.

É engraçado ver pessoas que admitem os hentais em que mulheres são penetradas contra sua vontade por tentáculos monstruosos e recriminam os Goru. É ainda mais curioso observar que grande parte dos estímulos supostamente sexuais promovidos por estes desenhos partem do sofrimento de uma mulher, seja ele físico ou psicológico.

Estupro

Faz parte da rotina dos admiradores de hentai gozar com mulheres submissas, humilhadas, estupradas, exploradas e tudo mais que a imaginação permita. A desculpa é que, como se tratam de desenhos, todas as fantasias bizarras são válidas. Como se os desenhos não fossem uma reprodução cada vez mais fiel de seus comportamentos e desejos reais.

As mulheres dos hentais muitas vezes são retratadas com seios enormes, cinturas finíssimas e quadris largos, de forma tão desproporcional que só um desenho poderia oferecer. Ou, em outra versão do estereótipo, são retratadas como ninfetinhas inocentes de corpos quase infantis. Os pênis também costumam ser gigantescos, sempre prontos para ejacular litros de porra em qualquer parte de uma mulher que esteja em posição suficientemente subjugada.

Os famosos tentáculos são um show de horror à parte. “Uncensored pictures and movies of monsters with many tentacles invading young hentai babes.” Estampa um site. Isso mesmo, a tal tara consiste basicamente em garotinhas sendo penetradas dolorosamente por um tentáculo alien de algum monstro pegajoso. Sim, algumas pessoas se masturbam com uma coisa dessas e acham Goru o fim do mundo.

Estupro

O hentai também dissemina a idéia do bondage, com mulheres amarradas sofrendo violações enquanto não poder sequer se mexer. Tesão, muito tesão.

Violência

É fácil perceber que a dor e agonia ou submissão das mulheres são os fatores principais da excitação sexual, embora apresentados em níveis diferentes para cada tipo de Hentai. O estupro em especial parece elevar as fantasias ao êxtase, violar uma mulher e infligir-lhe dor e humilhação é o desejo latente. Alguns parecem achar que as mulheres merecem isso, outros pensam que na verdade estão gostando do ato mesmo quando doloroso e forçado. Assim os papeis sexuais femininos são difundidos, somos eternas receptoras de pintos e nosso tesão está em sofrer e suportar a penetração independente das circunstâncias, somos sempre penetráveis e incapazes de resistir.

Em questão de igualdade de direitos entre homens e mulheres, o Japão está em 79º lugar, a pior classificação entre os países desenvolvidos. A informação faz parte do Relatório de Igualdade de Gêneros 2006 apresentado na Reunião de Davos, no dia 21, pelo Forum Econômico Mundial. Não é preciso muito para perceber a situação, em um país onde mulheres sofrem caladas com a maior taxa de assédio em transporte público e trabalham vestidas de camareiras vitorianas beijando os pés dos clientes em cafés. Só pra constar, afinal nosso país não se difere muito em questão de valores.

Lá eles criam o Goru, aqui fazem filmes pornográficos com garotas visivelmente incomodadas com a dor de uma penetração violenta, ou várias. A dor e o medo da mulher são fatores campeões em excitação masculina, sem dúvida.

Embora esteja cada vez mais óbvio, eu conheço o segredinho de vocês.

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Machos para Machos

Hoje eu estava navegando por aí em um momento de ócio, lendo blogs alheios, como sempre faço. Acabei em um blog com temática gay, escrito por um rapaz homossexual politizado e cheios de ótimas idéias, quando me deparei com um post sobre erotismo e aquela coisa toda, com um link para um site chamado “Eles para Elas”.

Pra começar acho que o nome deveria ser mesmo “Eles para Eles”, ou em um futuro utópico “El@s para El@s” (ok, não podia perder essa).Todo o ambiente do website parecia pensado para o imaginário masculino, até a linguagem corporal dos modelos buscava referências do universo gay. Fiquei pensando se realmente uma mulher poderia comprar aquela idéia de erótico escrachado, entre peitos depilados e gominhos de esteróides. Claro, caímos na velha questão dos esterótipos, sexualidade vendida, nú opressor, e tudo mais. Mas parece que a tentativa de vender corpos masculinos às mulheres acaba num fiasco, quem realmente se apropria do conteúdo são, pra variar, outros homens.

Fala-se muito sobre a inserção dos desejos femininos no mercado da libido, tentam até mesmo confrontar o status quo machista argumentando que homens também são expostos, condicionados e sujeitos às ditaduras do corpo. Porém, infelizmente o que temos são alguns modelos depilados e cheirando testosterona que posam nús em posições viris e atraem o público gay. E o que dizem deles socialmente? Simplesmente não são chamados de putos, vadios, vagabundos,e se o são, com certeza em um sentido favorável. No máximo os amigos dão uma risadinha e falam que é coisa de “gay”, mas isso é facilmente resolvido com uma pose de “macho” e algumas mulheres como troféis.

É impossível ficar excitada com uma coisa dessas, sério. Pessoalmente, eu tenho problemas com associações de “macho”, qualquer referência que me remeta aos trolls, trogloditas e nenandertais do dia-a-dia me deixa em profundo estado de náusea. Esses músculos dourados banhados a um óleo possivelmente nojento, conquistados com uma puxação de ferro sem propósito infinita, esse olhar de potencial estuprador, essa barba por fazer que denuncia um look “rústico” digno do macho, argh. É um conjunto de valores estúpidos reunidos em uma única imagem.

Odeio machos, odeio. Não homens, que fique claro, apenas machos. O masculino estereotipado me cansa, me dá desgosto. Na categoria de macho não precisa ser anaboliza-boy não, pode ser o tio da esquina ou o garoto aparentemente legal, o que conta é o comportamento bruto e ignorante, o machismo inconsciente, a voracidade sexual biologicamente argumentada e a busca incessante pelo status.

Uma dica infalível para reconhecer o macho é perceber o quanto e como ele fala de moças, parece que quando o assunto é um ser tipicamente feminino muda o tom de voz, as pupilas dilatam e são vomitados comentários nojentos de todos os tipos. O primeiro passo costuma ser a “avaliação geral” da mulher, pois para um macho é impossível falar de uma suposta fêmea sem fazer seu julgamento sobre seu corpo, por mais que isso soe ridículo. É sempre a “gata”, ou a “baranga”, ou a “mal cuidada”, a “razoável”, a “bonitinha”, a “gostosinha”. Como se realmente importasse a opinião dele sobre o corpo que pertence a ela.

O macho não consegue ver as mulheres como pessoas, ele enxerga partes expostas na vitrine prontas para serem provadas. Todas as moças que ele considera bonitas demandam uma super estratégia para conseguir sexo, é inadmissível permitir que mulheres bonitas sejam apenas boas amizades e companhias, é preciso enfiar o pau nelas.

O macho não gosta de sexo, ele só precisa gozar. Ele acha que pornografia é sexo legítimo, bate punhetas para a Playboy com naturalidade, cria fantasias de sexo anal com qualquer bunda que vê pela frente, busca um sentido para a própria vida na penetração e vê o mundo como uma selva em que ele é o predador e as mulheres são as presas.

A palavra “gostosa” é o mantra do macho. Gostosa, comestível, aproveitável, utilizável, nem ele sabe porque usa tanto esse termo, mas tem tudo a ver com o que ele pensa sobre mulheres.

Para o macho mulher tem que seguir a cartilha da feminilidade à risca, incluindo depilação, creminho, malhação e as posições novas que a revista Marie Claire ensina para enlouquecer seu homem.Não importa tanto o estilo que ela vista, contanto que se mostre sempre disponível, sexy e dengosinha e procure um dos padrões femininos vigentes para se adequar.

O novo macho não entende o que é machismo e adora dizer que isso não existe, afinal ele é burro demais para entender suas atitudes ou esperto demais para mantê-las como estão confortavelmente. Ele é frequentemente homofóbico, acha uma mulher lésbica desperdício e um homem gay sinônimo de mais mulheres a disposição. Porque o que importa é gozar, e gozar com uma mulher, por uma mulher, na presença de uma mulher, atrás de uma mulher, em cima de uma mulher, pensando em uma mulher, etc. etc. etc.

Finalmente, o estilo macho não é exclusividade de pobre, pedreiro, playboy, ou qualquer estereótipo, o macho pode estar vivendo sob o seu teto com uma máscara de homem. O macho está na padaria, na boate gay, na pracinha, no clube alternativo, no show de hardcore, na igrejinha e na sessão de filme cult, não há limites para o seu alcance.

Se eu pudesse exterminava essas pragas, mas o máximo que eu posso fazer é manter a calma e tentar um papinho subversivo qualquer.Quem sabe um dia eu consigo fazer com que estes homens enxerguem, pelo menos uma vez, mulheres como indivíduos conscientes e autônomos. Enquanto isso, curtimos o avanço do mercado de corpos na construção de machos viris e fêmeas de plástico.

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