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Vadia, puta, vagabunda e rodada.

Esses dias fiquei pensando na coleção de estereótipos femininos dos quais já fui vítima durante a vida. Passei pela sapatão desengonçada (apelidada de “jamanta”), pela CDF frígida, pela maria-moleque, pela gorda mal-amada, tudo isso até a oitava série mais ou menos – inclusive, vou precisar de um post só pra contar essas histórias decadentes da minha infância e pré-adolescência, mas fica pra uma outra hora. A partir do colegial as coisas começaram a mudar um pouco, chegando ao status de “roqueira rebelde”, “nóia”, basicamente a revoltada clássica, com sérias tendências bully (revanchismo).

Mas, nenhum estereótipo pode ser tão feroz quanto aquele que mais tarde eu conheci: “puta”. Nas suas variações, “vagabunda” , “vadia”, “biscate”, e claro… “rodada”. Não é novidade que as mulheres só tem duas opções dentro do patriarcado, Santa ou Puta, Maria ou Eva, boa esposa/mãe/namorada ou vagabunda marginal. As pessoas não conseguem enxergar as mulheres como pessoas plurais, autênticas e autônomas, elas precisam ter seu comportamento enquadrado nessas categorias, e existe uma vigilância especial no campo da sexualidade e do corpo. Com quantos seres você transou, quantas vezes e como o fez parece constituir a identidade da mulher, e determinar o nível de respeito com que será tratada.

Quanto mais sexo, pior a mulher é. É, exatamente, mais experiência sexual = menos dignidade. Fórmula bem pensada essa, hein? Pois é, todo mundo engoliu essa lorota e segue com fidelidade. A fonte desse pensamento é bem clara, desde a origem do patriarcado o homem busca desesperadamente controlar a sexualidade da mulher, para que ela se mantenha fiel ao seu papel de esposa e mãe dedicada, e também conceda exclusividade sexual ao homem que afirma sua autoridade sobre ela. Os homens sempre se reservaram ao direito de ter quantas parceiras desejassem, mas exigiam que sua dóceis mulheres fossem virgens, para servi-los com total obediência.

Muitos ainda usam do discurso biológico para justificar tal postura, mas a pílula anticoncepcional e outros métodos de contracepção provaram que a mulher também sente desejo sexual, e que o sexo não é mais escravo da reprodução. Hoje muitas mulheres buscam autonomia sexual e escolhem livremente seus parceiros, mas ainda pagam o preço da desigualdade. Aquela velha história do homem garanhão x mulher galinha, que concede honrarias aos homens de vida sexual ativa e cospe nas mulheres que ousam ter a mesma liberdade. Puro preconceito e misoginia.

Foi dado aos homens o direito inalienável de conhecer e explorar a própria sexualidade, o que sem dúvida contribui para a fama de “insaciáveis”. Quanto mais se conhece o próprio corpo e os desejos, maior a chance de vivenciar o sexo com novas pessoas, e maior a satisfação. Infelizmente, ainda hoje esse direito é negado às mulheres desde muito pequenas, sempre condicionadas a esconder e reprimir os impulsos sexuais caso queiram o “respeito” dos homens. Essa é uma das razões pelas quais a mulher leva mais tempo para ter consciência do próprio corpo, para atingir o orgasmo e expor seus desejos na cama.

Enfim, eu acreditei em tudo isso quando era mais jovem. Esse discurso foi martelado na minha cabeça incessantemente. “Menina, não faz besteira”, “Mulher tem que se dar ao respeito”, “Você foi pra cama com ele? Que absurdo!”, “Você não presta”, “Só pode com o namorado, e depois do casamento”, “Você vai entregar seu maior tesouro (virgindade) pra qualquer um?”.

A minha família, apesar de não ser das piores, sustentou com louvor todos esses mitos. Mas, na época, eu me sentia diferente das outras meninas que simplesmente levantavam aquela bandeira da pureza – falsa pureza, é claro. Eu via minhas amigas escondendo a sete chaves tudo o que faziam, vivendo praticamente uma vida dupla, engavetando a noite passada e vendendo a imagem santificada durante o dia. Eu já tinha dentro de mim uma necessidade de subverter tudo, questionar tudo, e um dos meus primeiros “foda-se” adolescentes foi admitir que eu tinha tesão. Como sempre, eu não queria viver uma mentira.

Não que eu fizesse sexo loucamente, estava longe disso, aliás, meu conhecimento sobre o meu corpo era tão raso que eu não tinha muito o que aproveitar das minhas relações sexuais. Basta uma garota fazer sexo com dois caras e eles se conhecerem pra surgir o boato de que “dá pra qualquer um”.

Em primeiro lugar, eu nunca “dei” nada, ninguém ficou com um pedaço meu, ninguém me tirou algo valioso e eu não tive que “ceder” aos apelos do parceiro.Ah, minha buceta continua aqui, obrigada. Eu fiz…porque é legal fazer. Ohhhh. Eu QUERIA, sabe? Oi? Tenho vontade, voz, libido, autonomia, direito, ok? Em segundo lugar, “qualquer um” somos todos. Coincidentemente, a maioria dos seres humanos não se conhece, então somos sempre “qualquer um” antes de mais nada. Depois de conhecer um ser humano, o mínimo necessário, ele deixa de ser “qualquer um” e se torna “um”, mais um deles, porém com suas próprias características e particularidades. Assim, a partir do momento que eu escolhi uma pessoa e me senti sexualmente atraída por ela, deixa de ser “qualquer um”. É a MINHA escolha, meu “um”, entendido? E assim por diante, quantos “uns” eu desejar e que correspondam. Logo, não existe isso de “dar pra qualquer um”, todos foram escolhas legítimas, cujos critérios só dizem respeito a mim. Se eu quiser me relacionar mais vezes ou construir um relacionamento mais sério, a escolha também é toda minha.

É muito comum um machinho deduzir que você vai “dar” (termo mais zé punheta do mundo) pra ele caso tenha “dado” para um número x de caras que ele conheça. Mesmo que ele não seja nem um pouco interessante, ou você não tenha dado nenhum sinal de aprovação. A mensagem que colocaram na cabeça é: “mulheres estão sempre disponíveis”, e se a mulher em questão dá indícios de que é sexualmente ativa, aí fica mais vulnerável ainda. Eles simplesmente não conseguem enxergar uma mulher como um ser humano pensante, que toma suas próprias decisões, é sempre uma menininha inconsequente, perdida, transando com os outros por pura ingenuidade, ou uma putona auto-destrutiva transando por profunda devassidão. Mas que merda! Não se pode simplesmente fazer sexo por vontade e conscientemente sendo mulher? Não tentem excluir metade da humanidade de uma vivência sexual saudável, não cola mais, meus queridos.

Uma lembrança muito vívida me inspirou para escrever esse post. Na minha saudosa adolescência, eu não sabia dos meus direitos, da minha capacidade, não reconhecia minha identidade como mulher. Fui educada pra ter uma auto-estima ridícula, pra obedecer as normas vigentes e me conformar com tudo, como a maioria esmagadora das mulheres. E mesmo assim, resolvi desafiar a ordem das falsas meninas virginais, buscando sexo com quem eu bem entendesse.

Foram inúmeras ofensas, e, repito, não porque eu realmente fizesse sexo com muita gente (deveria!), mas porque eu ASSUMIA gostar de sexo e REIVINDICAVA fazê-lo com quem quisesse. Talvez eu tenha feito muito menos sexo que outras amigas minhas, a diferença é que eu não admitia me esconder pra agradar os outros. Eu procurava ignorar a opinião dos menos conhecidos e até tinha sucesso, mas o que mais machucava era escutar o mesmo discurso de amig@s próxim@s e pessoas queridas no geral. Mas acho que o pior de tudo mesmo era que, em plena época de ansiedade por um “grande amor”, quando eu ainda acreditava no mito do cara super incrível que ia me completar, percebi que muitos não queriam me “levar a sério” por causa da minha postura.Hoje eu saberia que não passavam de um bando de babacas estilo “8ªB”, que tratavam todas as mulheres como se fossem lixo, até aquelas que se enquadravam na lógica machista deles. Tentar se adequar ao padrão desses homens que odiavam mulheres era a tarefa das minhas amigas, e vi o sofrimento delas de perto.

Mesmo assim, sofri muito. Não entendia porque as pessoas agiam daquela maneira, mas ainda demorei pra desvendar as hierarquias do macho e os papéis estúpidos que reservavam às mulheres. Queria ser livre, mas os outros exigiam que eu me reprimisse em troca da liberdade. Chorei noites a fio, acreditando que nunca um homem ia querer ficar comigo, que eu teria que me adaptar um dia, cheguei a acreditar que uma mulher era “suja” por sentir tesão. As pessoas que me amavam me diziam que eu tinha que mudar, que tinha que “aceitar o mundo como ele é”, que os homens sempre pegariam todo mundo e as mulheres apenas resistiriam a eles o quanto pudessem. Logo eu, que gostava de abordar meus potenciais parceir@s, que me sentia livre leve e solta, que aproveitava todos os momentos e nunca deixei de respeitar alguém que estivesse comigo, mesmo que por uma hora apenas. Pelo contrário, sempre tive consideração por quem fiquei, e sempre esperei o mesmo – doce ilusão.

Outro termo que marcou bastante, e que hoje me fez refletir, foi o “rodada”. Os caras falavam em “rodar a banca”, “passar na mão de todos” (detalhe, considerando a mesma regrinha de ficar com dois que se conhecem). Fiquei construindo uma imagem para esse termo na minha cabeça, e seria mais ou menos assim: Vários homens em um círculo, jogando uma garota meio amolecida, meio apática de um para o outro, como se fosse um joguinho, passando-a pela “mão” de todos. Essa garota, claro, é um ser totalmente inanimado, sem voz, sem presença, apenas satisfazendo os homens que por alguma razão fazem parte do mesmo círculo de machinhos.

É exatamente como um “estupro grupal”, é o gang bang da vida real, classificar mulheres como “rodadas” para que se sintam violadas em suas vidas, vetadas do desejo sexual. GENTE, isso não existe! Mulher tem desejo, tem pele, tem escolha! Mulher NÃO É OBJETO, É SUJEITO DA RELAÇÃO. Objetos não sentem, não falam, não decidem nada, sujeitos agem, reagem e se fazem perceber! Got it? Nenhum homem tem o direito de submeter uma mulher ao rótulo de um objeto inerte, que apenas foi utilizado por outros homens. A mulher também sente PRAZER na relação, como pontuei no outro post, e sua moral não é arrancada durante um ato sexual.Não podemos nos render a esse discurso que invisibiliza nossa condição HUMANA, temos que nos afirmar enquanto sujeitos autônomos e capazes de tomar decisões!

Enquanto as mulheres forem condenadas a meras presas sexuais, não teremos qualquer sombra de igualdade. Enquanto o sexo for usado como ferramenta de poder, coerção, humilhação, seremos todas prisioneiras dessa lógica. Imagine se você, homem, sofresse uma série de retaliações apenas por fazer sexo com as pessoas que deseja? Você se conformaria com isso?

É muito fácil para os homens, que são tão, mas TÃO desenvoltos sexualmente que chegam ao extremo de COLECIONAR “presas” femininas. É com tremenda ojeriza que ainda escuto os machos se vangloriando da quantidade de mulheres com quem fizeram sexo, como se cada uma delas fosse uma conquista, uma árdua batalha para…ter uma relação de prazer mútuo. Claro, é tido como um enorme esforço para um homem convencer uma mulher, já atraída por ele, a simplesmente transar. Mulheres não apreciam o sexo, elas apenas perdem a batalha do acasalamento e se sentem obrigadas a baixar a guarda para o macho reprodutor neandertal. Deprimente. Para o horror dos machistas, mulheres sentem prazer sim,  podem fazer sexo com várias pessoas sim, e nem por isso precisam demonstrar superioridade diante d@s parceir@s – ninguém perde nada no sexo.

Na época, quando comecei um relacionamento sério, lembro de ter considerado o meu parceiro um verdadeiro “salvador” por ter me aceitado do “jeito que eu era”. Realmente, ele era uma ótima pessoa, que em nenhum momento se incomodou com a suposta “fama” que alguns me atribuíram, mas nem de longe a atitude dele era caridosa como eu imaginava. Acabaram acontecendo vários episódios no meu relacionamento em que eu cedi e me calei por acreditar que ele merecia mundos e fundos, eu praticamente me arrastava aos pés dele porque “ninguém mais me aceitaria” como ele me aceitou. Basicamente, minha auto-estima estava em migalhas, tudo por culpa de uns poucos imbecis que tentaram me reduzir a um pedaço de bosta. Por sorte, tive a chance de superar tudo isso com o tempo – mas muitas mulheres continuam imersas nessa lógica.

Se eu pudesse voltar atrás e fazer algo diferente, com certeza não teria me envolvido com metade das pessoas daquela época. Hoje, é claro, sou muito mais segura e ciente da minha posição de sujeito na humanidade, e saberia reconhecer de longe uma pessoa com más intenções. Mas, é sempre bom lembrar que existem ótimos atores por aí, e mesmo que alguém tente um dia me rotular como puta ou qualquer coisa do tipo, estarei totalmente consciente dos meus direitos e sairei ilesa da situação. Aliás, quanto mais conscientes as pessoas ao redor, maior a tendência de que o espertinho seja considerado um idiota. Qualquer amig@ que convivo atualmente massacraria um homem que tentasse enquadrar uma mulher como vadia por causa da sua sexualidade – os belos frutos do livre pensamento!

Toda mulher, alguma vez na vida, já foi chamada de puta. E a prostituta em si é a figura mais marginalizada da sociedade. Somos todas putas, vagabundas, vadias, biscates, galinhas, fáceis e rodadas em algum momento, por um segundo. Ofender uma mulher é sinônimo de ofender sua sexualidade, é tocar naquilo que nos atribuíram como fraqueza: a nossa libido. Mas, ao contrário do que tentam nos convencer, nossa sexualidade é força, é ousadia, é empoderamento. Somos repletas de desejos, e somos donas de cada um deles.

O que eu quero? Um mundo dominado por pessoas que respeitam a vida d@ outr@ independente do gênero e das escolhas sexuais. Eu e outras tantas mulheres teriamos sido poupadas de tanto sofrimento, angústia e desespero, apenas por não se enquadrar em um sistema que na verdade é uma grande masmorra. Querem tomar nosso sexo e nossas vidas, transformar-nos em objetos manipuláveis, descartáveis, a não ser que aceitemos suas condições alienantes.

A boa notícia é que não precisamos mais deles. Aqueles que nos julgam, que enchem a boca para dizer “puta”, que nos reduzem a utilitários da satisfação alheia, que tentam nos desanimar, eles não são mais ninguém. Na minha vida eles são manchas de um passado sombrio, e todos os que repetem seus discursos são imediatamente recusados. Eu aprendi que ser mulher é defender os próprios direitos o tempo inteiro, é praticamente brigar pela própria humanidade. E como diz a frase que coloquei no meu Facebook esses dias:

“Qualquer um que queira me comandar
Estado, Igreja, Família ou “Parceiro”
Será o tirano e meu inimigo!”

Post escrito ao som de Detestation ❤

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Público-alvo: Mulheres. Tema de Campanha: Beleza. Slogan: Seu corpo, nosso lucro.

Como publicitária, já estou cansada de ouvir falar em “público-alvo”, ou target, dá no mesmo. Todos os textos que eu produzo no meu trabalho partem de um briefing do cliente, ou seja, uma descrição detalhada do contexto daquela peça: objetivo, histórico da empresa, características do serviço/produto, mercado principal, perfil do consumidor, etc. Às vezes, é preciso que eu leia 10 páginas de texto para criar uma pequena frase de impacto, isso quando não tenho que pesquisar internet afora qualquer expressão que me aproxime da linguagem daquele público, buscando a empatia e a identificação a qualquer preço. Tudo para que a minha mensagem chegue sem ruídos até esse público e o cliente possa vender seu maldito produto/serviço para quem ele quiser.

Muitas vezes sou obrigada a escrever porcarias impregnadas de preconceito de classe, raça, gênero, e dessa forma tomo consciência da ferocidade dos estereótipos, que classificam arbitrariamente as pessoas em grupos e sacrificam sua individualidade. Algumas dessas vezes passo horas me questionando sobre a origem dessas marcações, e não consigo mais ler qualquer conteúdo segmentado sem refletir sobre as intenções d@ autor@. É evidente que cada texto produzido para determinado público exige que @ redator@ mergulhe de cabeça no status quo daquele grupo e reafirme todos os seus valores, pois não há muito espaço para mudanças ou subversões quando a missão é cativar. Uma vez que você perceba isso, todo conteúdo destinado à massa é visivelmente tendencioso.

Hoje, especialmente, proponho uma reflexão sobre o conteúdo feminino que nos é disponibilizado. Quem é o target feminino no Brasil? Quais mensagens estão nos enviando e por que elas nos atraem? Um passeio breve por alguns portais femininos da internet foi o suficiente para esse post.


As categorias mais populares do conteúdo feminino

Beleza em geral – seja bonita, seja perfeita, seja maravilhosa.
Boa Forma –
invista no seu corpo, malhe, faça dieta, não seja preguiçosa.
Maquiagem –
não esquece do corretivo, do pó compacto, truques que diminuem seu nariz.
Pele –
tenha a pele macia, suave e sem rugas.
Cabelos –
lindos e radiantes ao vento, sem pontas duplas, sem frizz.
Cirurgia Plástica –
silicone no peito, na bunda, na perna, só não pode colocar na barriga.
Horóscopo – só o místico pode te orientar em alguma coisa nessa vida, consulte os astros.
Família –
filhos, rotinas domésticas, maridão, carrinho do supermercado.
Casamento –
encontre o homem perfeito, mantenha o tesão, mantenha o interesse.
Receitas – cozinhe para a família, lave a louça e cozinhe outra vez.
Famosos –
tudo sobre pessoas que você sempre quis ser, mas nunca vai chegar perto.
Amor e Sexo –
deixe ele louquinho, consiga seu orgasmo, aprenda a fazer sexo anal.
Casa –
decoração, organização, limpeza, tudo para o ambiente doméstico.
Compras – encontre coisas que você não precisa para desejar.


Alguns sites também contam com categorias para carreira, mas o mais impressionante foi perceber a raridade de assuntos ligados à política, ciência, tecnologia, sociedade, e até mesmo do clássico noticiário. Eu confesso que pensei que o cenário estaria um pouquinho melhor, mas me deparei com uma avalanche de clichês e muitos artigos me chocaram pelo tom acusatório, em especial nas seções que tratavam de corpo. Ver o uso daquela linguagem de proximidade, cheia de gracejos, em contraste com uma mensagem violenta, me fez levar as duas mãos ao rosto várias vezes (facepalm detected).

Hoje escolhi falar exclusivamente de corpo, mas garanto que esses temas ainda vão render por aqui.

Corpo – território colonizado

As frases a seguir foram retiradas de diversos artigos direcionados ao público feminino, disponíveis em portais que são referência em conteúdo na internet:

“Independente de características genéticas, a flacidez é uma inimiga voraz que atinge todas as mulheres, principalmente as adeptas de uma vida sedentária, que não praticam atividades físicas freqüentes.”

“O lifting de bumbum é indicado para pacientes com flacidez de pele, que deixa a aparência “caída”. O procedimento é simples: uma incisão é feita no sulco entre o bumbum e coxa para deixar a cicatriz disfarçada e levantar a região.”

“Em primeiro lugar, lembre-se que estria é um assunto sério, difícil de tratar e, por isso, a prevenção é ainda a melhor opção.Para descobrir o tratamento ideal para o seu caso, entretanto, é necessário consultar um bom profissional para orientá-la sobre uma ou mais formas que podem ser feitas, inclusive, simultaneamente.”

“Para ser a gata da praia desse verão, é preciso começar desde já um plano de redução de medidas que irá colocar as gordurinhas no lugar, amenizar o aspecto de casca de laranja que a celulite causa e dar adeus à flacidez. Para isso, um novo tratamento surge para dar uma forcinha nessa batalha. Trata-se do Velashape, um equipamento que utiliza a sinergia entre a luz infravermelha e a radiofreqüência, que aquece os tecidos profundos da derme. Ficou curiosa? Então leia abaixo tudo sobre esse aparelho que está dando o que falar.”

“[…]a modelo e apresentadora Daniela Freitas, de 23 anos. Não é para menos, com 55 quilos bem distribuídos em seu 1,66 metro de altura, Daniela tem um “plus” a oferecer aos telespectadores aficionados por futebol. Com novo visual, ela agora exibe sensualmente seios mais volumosos graças a um implante de silicone de 215 ml em cada um. Ela faz questão de ressaltar que optou pelo método das axilas para não deixar qualquer marca ou cicatriz no corpo. Em meio a um dia-a-dia atribulado, Daniela abriu um espaço em sua agenda para contar esse e outros detalhes estéticos para o Fique Linda.”

Um rosto bonito e mais jovem, mamas firmes, abdome definido, coxas sem celulite, bumbum levantado, tudo isso deixa uma mulher absolutamente feliz. Mas quando o aspecto dos seus genitais não agrada, isso traz enorme insatisfação e grande constrangimento para a mulher.”

Esses são apenas alguns trechos do show de horrores que encontrei. Não basta criar um padrão ditador de beleza e pressionar todas as mulheres para que se enquadrem de acordo com a “tendência” do momento, é preciso convencê-las de que qualquer esboço de resistência será automaticamente julgado como preguiça, incompetência e desleixo. Não basta decidir que o formato ideal dos seios é privilégio de uma minoria, é preciso reverenciar o silicone como a salvação para todas as pobres mortais marginalizadas da estética. Não basta ter uma empresa e lucrar com a baixa auto-estima das mulheres, é preciso tomar o lugar da amiga mais próxima e lhe dizer exatamente o que deve fazer com seu corpo, para enfim ser merecedora de algum prestígio social.

Todas as características comuns do corpo feminino foram cuidadosamente demonizadas: a celulite, a flacidez, as estrias, as rugas. Ai de quem argumentar que todos esses vilões não passam de aspectos naturais do corpo da mulher, por mais que artigos tendenciosos culpem a mulher e seu estilo de vida “errado” por esses males, sabemos que são compartilhados por TODAS nós – em maior ou menor grau. Faz muito mais sentido dizer que são sinais absolutamente normais, que nos acompanham e fazem parte da nossa identidade. Podemos encontrá-los em mulheres de todas as culturas e estilos de vida, e já foram encarados como algo belo e que simplesmente faz parte dos nossos corpos e da sua história. A condenação do nosso corpo natural só serve aos interesses de uma indústria que lucra mais de 18 bilhões ao ano e tem perspectivas de crescimento de quase 20%, que curiosamente saiu imune de uma das maiores crises econômicas que se tem notícia.

A mulher ideal só é alcançada de fato com um belo Photoshop, com ferramentas cretinas como Clone Stamp (a base perfeita) e Liquify (o bisturi perfeito). A superfície da pele é totalmente lisa, sem qualquer expressão, e toda leve depressão, protuberância ou textura é criminalizada. Foi-se o direito de balançar, deram ao livre movimento feminino o nome de flacidez. Sim, nossos corpos balançam, podemos acumular gorduras em locais diferenciados sem qualquer impacto em nossa saúde, e esses pedacinhos vão se mover quando estivermos caminhando, dançando, correndo ou pulando. Mas, parece que nossos amigos da indústria da plástica e dos cremes firmadores não estão interessados em nossos movimentos, provavelmente estão sentados agora imaginando mais dez maneiras de corrigir nossos corpos, ou em qual será o próximo defeito fantasioso que vão lançar no mercado.

É só parar para pensar. Não existe uma partezinha do nosso corpo para a qual não exista uma correção. Vamos lá, de cima para baixo: Você precisa de 0934829358745 cremes e tratamentos para o seu cabelo, mais alguns para o couro cabeludo, quem sabe um redutor de rugas para a testa, uma cirurgia de correção para orelhas, uma rinoplastia, um creme depilatório para o buço, mais blush para as bochechas, uma correção cirúrgica no queixo, um creme anti-aging para o pescoço, um spray bronzeador para um colo atraente, duas belas próteses de silicone para os seios, descolorante para os pelinhos do braço, creme para combater o ressecado do cotovelo, malhação contra o músculo preguiçoso do “tchau”, manicure semanal para unhas perfeitas, laser para tirar manchinhas das mãos, uma lipo nas gordurinhas que saltam nas costas, mais uma lipo na cinturinha ou nos casos mais graves remoção de costela, mil e um tratamentos e cirurgias que prometem livrar você da pancinha e dos culotes, correção do umbigo, prótese na bunda, malhação sem descanso para as coxas, cirurgia para tirar o excesso dos lábios genitais, depilação anal em dia, um belo hidratante para as pernas, cirurgia de correção das canelas grossas, pedicure em dia e salto alto presente.

E pensar que eu dei pouquíssimos exemplos perto da enorme variedade de correções absurdas que inventaram para o nosso corpo. O tal do “cuidado” e “bem-estar” já passou dos limites e se tornou obsessão há muito tempo, e por acaso essa mesma obsessão virou pauta preferida do conteúdo direcionado às mulheres. Podem dizer que os homens estão começando a entrar no alvo dessa indústria também, mas a pressão sobre eles ainda é muito menor que a exercida sobre as mulheres. A obrigação de ser bonit@ ainda é majoritariamente feminina.

É óbvio que, quanto maior o número de mulheres profundamente insatisfeitas com seus corpos, maior é o lucro da indústria da beleza, e consequentemente, maior é a audiência, alcance e penetração dos meios de comunicação que incentivam esse tema. Sinceramente, não devemos esperar qualquer mudança daqueles que ganham dinheiro com a situação, mas podemos esperar a transformação desse cenário utilizando justamente os veículos de comunicação.

As mulheres estão satisfeitas com esse conteúdo atualmente porque aprenderam a associar beleza como uma questão feminina, e porque não são expostas a nenhum conteúdo diferenciado com uma linguagem que se aproxime do seu cotidiano. Toda mulher que se adapta às expectativas de beleza ganha a tão sonhada aprovação social, e dessa forma ela precisa ser alimentada diariamente com as novas promessas da indústria. Mas, o grande trunfo dos embelezadores é o fato de que elas NUNCA ficarão completamente satisfeitas, porque o que move essa lógica é a meta de beleza inalcançável, aquela que nenhuma mulher poderá ser competente o suficiente para atingir.

As conseqüências da desobediência são fatais, toda mulher sabe que subverter uma regra de beleza pode lhe custar uma ofensa, uma desaprovação ou mesmo o terrível estigma da feia, relaxada e descuidada. Assim, ess@s autor@s de artigos femininos se apresentam como melhores amigas, salvadoras da pátria, aquelas que vão poupar a pobre mulher do seu destino solitário com milhares de dicas, que vão deixá-la um poquinho mais próxima do ideal de beleza – mas nunca o bastante. É como pendurar uma cenoura na sua frente e prendê-la à sua cabeça, você pode correr feito uma retardada, mas nunca vai chegar lá.

Daí, a mulher resolve enfim brigar contra toda essa loucura, e descobre que as pessoas mais próximas também são agentes a serviço da ditadura da beleza. Quem ousa desafiar a lógica pode sofrer com a reprovação das pessoas que mais ama e confia, e por isso muitas preferem permanecer na silenciosa rotina da missão-beleza a correr o risco de destruir a própria vida pessoal. Não podemos culpar essas mulheres, afinal, a pressão é gigantesca e o preço a se pagar alto demais. Mas, ainda podemos mostrar a elas algumas formas diferentes de pensar a própria imagem.

Uma breve observação no panorama geral pode ajudar a despertar uma nova perspectiva, afinal, não é possível que nossos corpos estejam completamente errados e que o nosso destino seja enriquecer a indústria da beleza com as nossas intermináveis frustrações. Tem algo de muito errado nessa história. Não me parece justo que eu acesse conteúdo buscando informações relevantes e me depare com milhares de artigos invadindo meu corpo e impondo que ele seja transformado a qualquer custo. Se o meu corpo é o meu instrumento de relação com o mundo, algo tão particular, como pode uma indústria mesquinha apoderar-se dele por completo? Como pode a cultura da beleza ter chegado ao ponto de bombardear meu espaço mais íntimo, me convencendo de que preciso entregá-lo aos seus cuidados?

“A indústria quer aumentar a auto-estima das mulheres, está apenas dando o que elas querem” dizem por aí. O que as mulheres querem, assim como todo ser humano, é respeito e auto-realização. A ditadura da beleza criou necessidades que não existem e as apresentou como ferramentas legítimas de aprovação social para as mulheres. Mulheres com auto-estima fortalecida não interessam a ninguém, porque não precisariam consumir e tampouco permitiriam que seu corpo fosse objeto de intervenção constante para “correções”.

Lembro de uma frase de Gloria Steinem (ou seria da Greer?) que diz: “Toda mulher sabe que não importa o tamanho do seu sucesso, ela será sempre um fracasso se não for linda”. Ou algo assim. O importante é denunciar que mulheres políticas, engenheiras, arquitetas, sociólogas, presidentas, atletas, pedreiras, professoras, astronautas, ou seja lá de qual profissão forem, ainda são julgadas em primeiro plano pela sua beleza. A imprensa insiste em evidenciar a “feminilidade” da mulher que escolheu uma profissão considerada “masculina”. “É uma policial durona, mas não deixa de cuidar dos cabelos e ser vaidosa”.

Tenho náuseas quando essa mesma indústria fala em “cuidados pessoais”. As mulheres vítimas desse terrorismo não estão “se cuidando”, estão se esforçando como loucas buscando a aprovação social e a adequação aos padrões. E claro que o caminho das dietas, exercícios e clínicas de estética é no mínimo exaustivo. As mulheres não estão buscando o “sentir-se bem” consigo mesmas em campos floridos como nas propagandas, elas SÃO OBRIGADAS a associar o bem-estar com o único modelo aceitável de ser mulher. Só se sente realmente BEM a pessoa que é aceita socialmente e goza de plena liberdade, e o único caminho que deram às mulheres para isso está atrelado a um modelo de beleza utópico. A estratégia deles é dizer que você será mais feliz com 5 kg a menos e uma sessão de Manthus, quando na verdade estão criando uma imposição para que os outros te impeçam de ser feliz caso você não ceda às pressões.

O meu recado para as moças é simples: NÃO, VOCÊ NÃO ESTÁ FAZENDO ISSO PORQUE QUER SE SENTIR BEM CONSIGO MESMA. Você está simplesmente se rendendo, exausta, ao que tanto cobraram de você e te convenceram durante anos. Você não coloca silicone nos seios para que você mesma se goste, essa é a condição que te impuseram para o mínimo de felicidade. Você nunca teria “corrigido” o seu corpo se alguém não te convencesse de que existe algo errado, de que há um “certo” para todas e de que não é possível ser completa sem obedecer esse padrão. Eu nunca vou te culpar por isso, mas quero que você saiba que existe um caminho diferente, em que você pode olhar no espelho e se admirar, se reconhecer na própria pele, exigir sua própria identidade e mandar a indústria da beleza pro inferno – junto com o lixo tóxico desses sites.

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Separatistas são os homens!

Pois bem, se eu tivesse um saco, ele estaria explodindo em abscessos de tão cheio. Parece que a desinformação é mesmo um câncer, que consegue transformar vítimas em algozes e manipular até o mais óbvio dos contextos.

Ok, eu explico, mas já vou avisando que vai ser polêmico. Não se pode escapar de ler/ouvir da boca dos homens – ou em alguns casos até de mulheres – que o feminismo é coisa de lésbica mal-comida, certo? Esse é o clichê dos clichês, que felizmente com um pouco de conversa pode ser revertido. Mas, quando o assunto é separatismo lésbico, ou moças que escolheram amar outras mulheres e fazem disso uma posição política, se afastando ao máximo dos homens, aí parece que todo mundo vira lesma com sal. “Viu só, viu só, a que ponto chegam essas feministas? Onde já se viu discriminar homens? Isso sim é sexismo mimimi!”

Não precisa nem chegar ao radical separatismo lésbico para as pessoas surtarem, você pode comentar sobre Mujeres Libres e outros grupos que admitem apenas mulheres, de uma simples oficina ou evento com temas específicos para mulheres, ou até mesmo uma reunião de amigas para debater feminismo para a qual os rapazes – pobrezinhos – não recebem o convite VIP. Tudo vira motivo para dizer “Oh, corram para as montanhas, elas estão discriminando homens!”. Daí vem aquele papo todo de que se o feminismo quer ser justo é preciso acolher os homens, ou estaremos praticando um sexismo inverso. Nesse caso, acolher os homens significa trazê-los para nossos encontros, ouvir o que eles têm a dizer sobre feminismo e em hipótese alguma criar espaços restritos para mulheres.

O argumento dos homens é que precisamos de união, caminhar juntos, sem nenhum tipo de discriminação, tolerância feelings e tal e tal. Muito bonito, louvável, pena que na prática não é bem assim que funciona. As feministas que já tiveram a experiência de admitir homens na roda de discussão com certeza experimentaram algumas das facetas do patriarcado que restavam dentro deles, porque, afinal, é muito difícil desconstruir a ideia de superioridade masculina, ainda mais quando traz privilégios diretos. Claro que admiramos os mínimos progressos dos homens ao nosso redor, e sempre que possível estamos tentando fazê-los compreender melhor o peso do patriarcado e suas conseqüências sobre as mulheres. Aos poucos, aqueles mais próximos já não chamam as mulheres de putas porque fazem sexo, já não as culpam por estupro ou esbravejam toda vez que vêem uma delas atrás do volante no trânsito, mas ainda não podemos comemorar nenhuma vitória.

Tomemos como exemplo algumas reuniões de grupos feministas, anarquistas ou mesmo uma reunião do movimento sindicalista, em que temos exemplos suficientes de homens que levantam a voz para as mulheres quase que automaticamente, enquanto tendem a ouvir mais os outros homens da mesa. Como disse nosso queridinho José Serra “Com mulher não tem competição”, porque, afinal, elas são inferiores. Tenho dois casos recentes para dividir: Um foi com uma organização sindical que não vou citar o nome aqui, da qual uma amiga minha feminista estava participando ativamente. Um dos caras que fazia o discurso socialista mais incrível, que fazia todo mundo se sentir inspirado, era o mesmo cara que sentava o traseiro peludo na cadeira na hora de jantar em público e mandava a esposa dele pegar tudo o que queria. A mulher quase não tinha tempo para comer sua própria comida, porque o cidadão a fazia de garçonete particular. Daí, quando outras pessoas do movimento foram discutir o problema, o homem ficou possesso e se desligou de lá. É bem como dizem por aí, até o menor dos operários tem uma escrava em casa.

Mujeres Libres

Tenho minhas próprias experiências em outros grupos também, sempre observei que basta um homem entrar em uma discussão feminista que ele começa a advogar pelo seu “gênero”. É incrível, estamos ali falando dos problemas das mulheres, que muitas vezes incluem os homens como algozes, e lá vai o rapaz libertário dizer que as coisas não são bem assim, porque afinal, ele é homem e é super legal. É a velha cultura da exceção, só porque alguns homens não estupram ou socam mulheres não quer dizer que a maioria esmagadora dos que o fazem não sejam homens e tenham uma educação muito semelhante. Ao invés de apoiar as mulheres e conversar com outros homens para criar uma consciência melhor, os caras entram na defensiva, e com isso também inibem as mulheres de falar. Outro detalhe é o constrangimento que muitas mulheres sentem em revelar que sofreram algum tipo de abuso sexual, físico ou moral perto de outro homem, pelo medo de serem julgadas (mas como você estava vestida mesmo?). Isso traz ainda mais problemas para a visibilidade das opressões contra as mulheres, porque como tod@s bem sabem, toda mulher tem uma história de horror para contar.

Pra que serve essa merda de patche?

Isso sem mencionar o tratamento velado reservado às mulheres nas organizações. Até entre aqueles que se dizem libertários ou contra-culturais impera o status-quo, em que mulheres servem basicamente para decoração e deleite dos machos do bando. Não é raro andar por meinhos libertários e escutar os comentários mais trogloditas do mundo, o cidadão faz questão de ir na palestra feminista, com patch do Crass na jaqueta e símbolo de ♀=♂, e falar bem alto entre os amigões que a garota palestrante podia calar a boca chupando o pau dele. E ainda temos aquelas cenas alternativas que são dominadas por homens, com bandas de homens, zines de homens, onde as mulheres são tratadas ainda como “gostosas” ou “barangas”, “santinhas” ou “putas”, e os caras ainda têm a cara de pau de dizer que elas é que não se interessam em estar ali, ou só vão pelo namorado.

Enfim, fica claro que esses espaços “mistos” não servem ou servem muito pouco à luta das mulheres. E isso não acontece porque os homens são todos essencialmente malvados e odiamos todos eles, mas porque os valores vigentes apontam para a superioridade masculina e é quase impossível que os caras não se contaminem com tudo que lhes foi ensinado sobre a dominação das mulheres. Você tem um garoto que desde pequeno recebe estímulos para ser livre enquanto sua irmã é oprimida, que tem a mãe sempre à disposição e a vê sendo calada frequentemente pelo pai, que se torna seu herói…precisa do que mais?

Agora, outra reflexão, já pararam para pensar em quais são os espaços “femininos” hoje na nossa sociedade? Os homens contam com a partida de futebol, o boteco, o puteiro, as casas de jogos, sempre gozam da companhia dos amigos até mesmo quando casados (a célebre escapada da megera). Já as mulheres, onde se encontram para trocar idéias? No salão de beleza? No shopping fazendo compras? No parquinho cuidando das crianças? Por que será que a ideia que se faz de mulheres juntas em um bar ou qualquer lugar de confraternização é tido como ameaçador pelos homens, em especial maridos? Por que os pais dizem às suas filhas “Vai deixar de sair com seu noivo para sair com amigas? Isso não está certo.” E uma questão que vi esses dias e achei muito interessante: Pense em algum filme, qualquer um que você já tenha visto na vida, que tenha um diálogo de mais de 3 minutos entre duas mulheres, e que elas não estejam conversando sobre homens (o protagonista, no caso). Difícil, né?

A verdade é que a convivência entre homens é estimulada, enquanto que as mulheres são incentivadas a competir umas com as outras em função dos homens. A rivalidade feminina é uma estratégia esperta do patriarcado, que joga umas contra as outras na busca pela atenção dos machos enquanto eles criam laços fortes entre si. A amizade entre os homens é um pacto, e garante muitos momentos de confraternização e fortalecimento dos laços. A amizade entre mulheres é vista como algo superficial, infantil e sempre frágil, como se a primeira aproximação de um “partidão” pudesse gerar uma briga e uma disputa. Os espaços públicos, por sua vez, também pertencem aos homens, já que ainda hoje é perigoso para uma mulher andar sozinha por aí, ainda mais de noite, afinal seu corpo pode ser alvo da invasão de um homem pelo simples fato de ser mulher. Claro que as mulheres já saem sozinhas, já tiveram muitas conquistas, mas ainda existe esse clima de medo, em que só andar com um homem ao lado é totalmente seguro. Se você anda sozinha, sem um “homem proprietário”, torna-se alvo de abusos verbais e até agressões físicas.

Como se não bastasse todo esse cenário favorável aos homens na sociedade, ainda querem excluir os únicos espaços unicamente femininos que existem com o argumento do sexismo! Como se, realmente, as mulheres estivessem se empoderando para atacar os homens, quando na verdade ainda estamos no primeiro passo em busca da igualdade de direitos: o fortalecimento das mulheres e identificação entre si. É um egoísmo tremendo um homem apontar para uma feminista e dizer que ela está sendo sexista por fazer uma reunião apenas de mulheres, sabendo que não há outras oportunidades como esta em que elas poderão trocar experiências e se apoiar para lutar contra a opressão masculina. Basicamente, os homens já têm toda a liberdade que poderiam desejar, mas não se conformam de ser excluídos de uma simples reunião entre mulheres que buscam a mesma liberdade. Isso se chama birra, costume de ser privilegiado em tudo.

E enfim podemos chegar até a revelação do dia (wow): A verdade, querid@s, é que as feministas não são separatistas, OS HOMENS É QUE SÃO SEPARATISTAS.

Ou vai dizer que você nunca reparou como eles formam seus grupos de amigos e transformam isso em um universo PARALELO? Eu já convivi bastante entre homens, já ouvi absurdos – e ouço, sempre – mas posso afirmar que existem coisas ainda mais pesadas que eles só dizem quando estão juntos, e são segredos de Estado. Os homens podem até fingir que tratam as mulheres com igualdade, mas são os primeiros a falar um monte pelas costas delas quando estão com os amigos. Eles narram como gostariam de transar com aquela amiga de vários anos que nem imagina, como a namorada é chata e menos gostosa que fulana, ou como a enganaram para poder sair naquele dia, diversos comentários que não teriam coragem de dizer em nenhum outro local, senão na segurança do universo masculino. Na vida real, não têm coragem ou dignidade suficiente sequer para dizer à própria esposa que gostaria de sair ou que algo lhe desagradou, preferem enxergar as mulheres como idiotas e fazem das traições e mentiras um jogo divertido.

Um dos primeiros mandamentos na vida dos homens é justamente de não tratar as mulheres como iguais, elas são sempre mais frágeis, mais burras, ou só servem para sexo. Quantas vezes a gente não escuta os rapazes dizendo “Eu gosto é de mulher”. Sempre que eu ouço essa frase eu sinto um embrulho no estômago, e tenho vontade de responder “Gosta o cacete, se gostasse você respeitaria, na verdade você ODEIA! O que você gosta é de arrombar mulheres.” “Gostar” de mulher significa apreciar a penetração nas bucetas delas, basicamente. E isso pode facilmente ser interpretado como ódio, porque eles mesmos dizem que “foderam a vagabunda, aquela piranha desgraçada, bem feito, tomou rola”, é sempre degradante ou humilhante para a mulher fazer sexo, porque eles sempre se acham os donos da situação. Quando o cara vê uma mulher bonita e sexy posando de lingerie, ele tem dois sentimentos: Tesão e ódio. Ele tem prazer e admiração pelo corpo da mulher, mas acha automaticamente que ela não presta, que só mulher vadia comete esse crime que é seduzir e gostar de sexo, e que ela nunca vai ser “mulher para casar”.

Sou uma eterna desconfiada das intenções dos homens para com as mulheres, mas tenho meus motivos. O universo masculino não poupa ninguém, é um território em que a justiça e igualdade são jogadas na lata do lixo, em troca de algumas risadas. Enquanto eles falam tanto de sexo hetero, na verdade não conseguem cumprir o princípio básico da relação sexual satisfatória, que é o respeito. Eles precisam “comer” as mulheres, precisam condená-las por gostarem de sexo e procurar a mais travada de todas para ter uma relação séria, para não correr riscos e enfim eleger a “patroa”, que será sempre o motivo de zombaria da noite com os amigões. E precisam, principalmente, dar um jeito de inferiorizar todas as mulheres com quem convivem e excluí-las de seus momentos de confraternização, afinal, elas só seriam chamadas para a diversão caso o interesse fosse foder umas bucetas. Eu não sei como alguns homens deitam a cabeça no travesseiro e dormem, levando essa vida dupla que exclui metade da humanidade, mas tomara que eu nunca compreenda de fato.

 

União de Mulheres de São Paulo - Almoço de Confraternização =)

O meu ponto aqui é que precisamos defender os espaços femininos, não para criar um grupo separatista de repulsa ao sexo oposto como nossos amigos homens fizeram, mas para fortalecer as mulheres e derrubar a rivalidade feminina, assim podemos nos identificar umas com as outras e nos apoiar nos momentos difíceis. As histórias que surgem em grupos de mulheres são incríveis, e sempre muitos semelhantes umas com as outras, e isso nos ajuda perceber melhor nossa posição na sociedade e a lutar pela justiça em todos os espaços. E toda vez que um homem lhe dizer que as feministas são sexistas e os discriminam, tente lembrá-lo de seus privilégios sociais e do mundo masculino que ele construiu com seus amigos, talvez ele tenha a sensibilidade de reconhecer esse abismo histórico e social entre homens e mulheres, ou apenas tente defender os outros homens e divagar sobre a união dos sexos – na teoria.

PS: Se você é homem e garante que seu grupo de amigos não trata as mulheres dessa maneira, PARABÉNS! Mas, mais uma vez, não estou falando de você, e tenho certeza que você conhece muitos que agem dessa maneira – por isso a necessidade da crítica.

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Amor romântico: Coisas que não te contaram.

Quanto tempo sem postar! Sinto vergonha da minha falta de tempo para coisas que são tão importantes, como esse pequeno espaço que me realiza e me faz sentir útil para tantas pessoas.

E que surpresa, receber tantos feedbacks lindos de garotas incríveis! Tenho que declarar que uma das maiores felicidades que explodem dentro de mim vem desses comentários singelos, cheios de entusiasmo e identificações. Sinto um carinho verdadeiro, uma conexão entre nossos problemas e angústias, e estarei aqui para vivenciar essa troca sempre.

Isso me leva ao assunto que tem sido “trending topic” ultimamente, e que foi confirmado por uma amiga querida que está passando por uma situação de sofrimento. Da série “coisas que queriam te enfiar goela abaixo”, apresento-lhes o tal “amor romântico”.

Idealizado por fábulas, contos e religiões, usado e abusado pela indústria cultural, ele permanece entre nós, imortal. A base é um casal heterossexual, com papéis sexuais bem definidos e em um ambiente extremamente favorável, que repentinamente se fartam de um amor intocável e permanecem felizes para sempre no mar de rosas. Curiosamente, o mito é vendido para uma esmagadora maioria de mulheres.

De brinde, ganhamos a instituição do casamento, que legitima definitivamente aquele amor invencível e nos condena a uma vida inteira de companheirismo, paixão e harmonia. É relativamente “mais fácil” terminar um namoro, mas um casamento é como se fosse um contrato que exige um esforço sacrificante para a manutenção do acordo, uma prisão disfarçada de escolha, que torna muito mais difícil uma decisão que deveria ser rápida e sem dor: livrar-se de quem nos faz mal.

Nos iniciam nesse mundo obscuro dos coraçõezinhos quando ainda somos muito crianças para resistir, ganhamos lições diversas que nos convencem a precisar de outra pessoa para sermos “completas”.Essa pessoa é, claro, um homem. Junto com os mandamentos da busca ofegante por um amor de conto de fadas, nos empurram um ideal feminino de submissão, fragilidade e “entrega”. Aprendemos que ser mulher é querer um homem, e dedicar boa parte de nossas energias para que essa relação tenha sucesso – mesmo que a duras penas.

Enquanto isso, nossos queridos irmãozinhos aprendem valores um tanto diferentes. São incentivados a ter coragem, ousadia, independência e principalmente autonomia, ao mesmo tempo em que recebem a cartilha do dominador. Aprendem que serão sempre o centro das atenções das mulheres, cuidados por mães, professoras e namoradas, e que as terão à disposição.

Ao invés de bonecas imbecis e bebês de plástico, do treinamento rigoroso da maternidade e servidão, ganham jogos de estratégia, carrinhos e bolas de futebol. Aprendem que a coletividade pode conseguir muitos aliados, enfrentam o mundo ao ar livre muito cedo e desenvolvem a capacidade de raciocínio lógico.

Tudo isso faz uma grande diferença, somos discriminadas pelo gênero desde a infância e construídas sob um modelo patético de “mulher”. Nossa vulnerabilidade não é genética, não veio da mão do deus macho, é obra de uma educação medíocre embasada em preconceitos e estereótipos. Somos condicionadas a não nos sentir completas, nunca, de forma alguma.

Coincidentemente, a solução apresentada para todos os nossos problemas de auto-estima e auto-realização é um parceiro homem. “Tá precisando é de uma rola bem grande”, como diriam as criaturinhas desprezíveis ocupando espaço por aí. Se estamos “sozinhas”, somos solitárias ou lésbicas,desprezadas pelo tão importante e fundamental macho da espécie. Se reclamamos de algo, somos histéricas ou “mal-comidas”, afinal, todos os nossos problemas só podem ter origem na falta de um pinto entrando e saindo, oras!

Daí, se resolvemos nos relacionar com um cara e descobrimos que ele é um merdinha, e então trocamos, e fazemos isso repetidas vezes na incessante busca de um cara menos incompetente, nos chamam de “putas”. Dizem até que não estamos nos dando “valor”, quando na verdade isso só oculta a falta de qualquer valor ou apreço que eles sintam por nós, um verdadeiro nojo. Enquanto isso, eles trocam de parceiras o tempo todo e se orgulham de separar o ato sexual de qualquer afeto e consideração.

Não é uma fórmula perfeita? Faça-as sentirem-se incompletas e então lhes dê uma cara-metade. Um homem perfeito, romântico, que atenda a todas as nossas necessidades e finalmente dê algum sentido à nossa existência supérflua e cruel. Alguém pra nos dizer o quanto parecemos bonitas, já que enxergamos mosntros nos espelhos e nos sentimos culpadas por isso. Finalmente alguém pra nos convencer de que somos alguém e não alguma coisa, como sempre nos ensinaram, uau. Mas a verdade, mulheres, é que não precisamos de um salvador, muito menos de um príncipe.

Definição de romance pelo dicionário: fantasia. O que mais precisamos dizer?! Não é real, não é saudável e muito menos justo.Se você só se sentiu completa depois de conhecer um homem e se apaixonar, significa que uma parte de você sempre esteve vazia, e isso é péssimo. Se você não consegue ficar sozinha, quer dizer que está sujeita a uma relação de dependência, auto-depreciação e possessividade. É um clichê dos grandes, mas é verdadeiro demais: Antes de se tornar “nós”, precisamos ser “eu”.

Antes de proclamar as palavras mágicas “não sei o que seria de mim sem você”, pense no quanto você está se anulando na situação. Nunca se sinta um fracasso se ainda se sentir dependente de um cara, não se esqueça que você foi totalmente condicionada a ver as coisas dessa maneira. O caminho? Mais uma vez a desconstrução, e isso só é possível com auto-conhecimento.

Conhecer a si própria e ter autonomia não significa excluir os relacionamentos amorosos. Eu acredito em relações justas, em que o companheirismo é essencial e o afeto cria uma união harmoniosa e cheia de respeito, sem dependência, possessividade e ilusão. O amor romântico nada mais é do que uma mentira, porque promete uma relação eterna que tem como base apenas o misterioso sentimento “amor”, quando na verdade se parece mais com uma paixão cega, infantil e inconsequente.

Se podemos chamar algo de amor, com certeza não é essa sensação obscura que nos condena a viver acorrentadas a uma pessoa, desejando sua presença em cada passo das nossas vidas e projetando nela grandes objetivos. Insisto que em uma relação real ambos devem perseguir seus objetivos juntos, prestar apoio mútuo e construir uma base sólida de respeito e cumplicidade, sem o contrato ditatorial do “pra sempre”.

Quantas mulheres permanecem com homens que as espancam? Ou as humilham? Quantas mulheres você conhece que suportaram traições? Quantas abriram mão de desejos próprios por causa dos parceiros? Quantas sofrem com um ciúme doentio e se auto-depreciam por causa dele? Quantas já abaixaram a cabeça para uma condição do companheiro e sofreram caladas? Quantas vêm desabafar com você o inferno que está sendo o relacionamento delas e a falta de coragem pra tomar uma decisão?

A vida real é muito mais hostil com as mulheres. Aqui fora os príncipes são muito mais autônomos, seguros de si e treinados para a indiferença. E estarão sempre prontos para se aproveitar dessa insegurança enraizada dentro de nós, construindo verdadeiros romances poéticos enquanto nos sugam toda a individualidade. Isso não quer dizer que homens não têm sentimentos, quer dizer que estão muito mais preparados para lidar com eles, porque têm como base suas próprias realizações.

E como mudar? Como sair da posição de vítima do patriarcado e retomar o poder sobre a própria vida? Tudo o que eu tenho são experiências próprias e um punhado de conselhos sinceros.

Em primeiro lugar, descubra algo que você ame muito fazer. Eu descobri que amava escrever, lutar por causas sociais, ajudar as minorias e ver resultados de todo o trabalho que eu puder fazer.Muitas descobrem a realização em um esporte, na música, nas artes plásticas, na filantropia, na carreira, são inúmeras possibilidades, e todas temos muitas.

Depois, descubra milhares de coisas menores que você ame fazer. Identifique suas preferências, muitas de nós nunca paramos para pensar nisso! Procure um tipo de leitura, cinema ou música que você adore, vá ao teatro, invista em coisas que te dêem prazer e acrescentem conhecimento. Una-se com outras mulheres, jogue futebol, jogue videogame, faça um cosplay, vá dançar.

Deixe o relacionamento dos seus sonhos para o momento em que estiver mais completa, você terá muito mais para compartilhar e estará sempre pronta para fazer as melhores escolhas sem cometer sacrifícios. Se não der certo, agradeça por ter percebido os erros a tempo, e procure alguém que possa te acompanhar e trazer mais prazeres. Defina suas regras, respeite suas próprias decisões, seja firme, e nunca, nunca mesmo, seja tolerante a ponto de se machucar.

Algo que eu sempre tenho em mente é que exercitar o perdão nem sempre é um bom negócio. Vivemos tensionadas, se não pudermos confiar em alguém com certeza essa pessoa não merece nossa companhia.Estabeleça limites para atitudes que você não gosta, e não tenha qualquer receio ou medo de se arrepender na hora de dar um basta no relacionamento. Não é questão de imaginar que “tem mais um monte por aí”, e sim que uma relação que não é mais agradável e causa mais aborrecimentos do que alegrias não tem lugar na vida de uma pessoa auto-realizada.

Não espere ser protegida, espere compartilhar segurança. Não espere ganhar, espere uma troca. Não aceite conviver com um homem que define seus papéis na relação apenas pelo seu gênero, por mais que ele pareça afetuoso, conteste e exija, seja uma voz ativa e tomadora de decisões.

Relacionamentos não se baseiam apenas em amor, tenha em mente que uma relação sem respeito e cooperação não vale a pena. Que adianta ficar com um cara que te considera menos capaz de realizar uma tarefa, só porque ele é carinhoso? Carinho não realiza ninguém, só serve como bengala de frustrações, você precisa de alguém que te admire, te estimule e confie na sua capacidade. E, acima de tudo, precisa de respeito às suas decisões, desejos e necessidades, não deixe de fazer algo que quer para satisfazer alguém que deveria lhe querer o bem. Agregue valor à sua própria confiança, um homem que mente e trai não merece segunda chance, pois isso é sinal de que ele não reconhece seus direitos de escolha.

Nesse ponto o casamento colabora com nossas prisões privadas. Muitas mulheres temem o divórcio porque acreditam que uma “união de tantos anos merece maior esforço e tolerância para continuar”, mas quase sempre esses esforços significam anulação, sofrimento e negação. Elas se sacrificam pela manutenção de um relacionamento perdido, porque temem prestar contas ao Estado com seu contrato de união civil e à religião com seu deus falocêntrico impiedoso.Por esses e outros motivos condeno o casamento como uma união anti-amor, patriarcal e desigual, fundada em sexismo e heteronormatividade.

As mulheres carregam nas costas uma História de submissão e sacrifícios pelo amor romântico, enquanto permaneciam exploradas pelos “donos de seus corações”. Não esqueçam nunca que já fomos consideradas propriedades, já estivemos restritas a um cárcere privado e que ainda hoje muitas de nós não podem nem escolher o homem que estará no “comando”.Ainda existem injustiças horríveis cometidas contra as mulheres em nome de amores romãnticos, somos diariamente iludidas, enganadas e desprezadas. Cabe a nós mudar nossa realidade através desse exercício de consciência que eu proponho, da desconstrução, vamos recuperar a autonomia que nos arrancaram e acabar com nossa dependência instituída por essa educação precária.


Amem, mulheres! Mas amem primeiro a si mesmas, sejam pessoas realizadas e completas, mulheres inteiras. Não vamos esperar a misericórdia dos homens, vamos nos fortalecer para construir relacionamentos mais justos.

Quanto tempo sem postar! Sinto vergonha da minha falta de tempo para coisas que

são tão importantes, como esse pequeno espaço que me realiza e me faz sentir útil

para tantas pessoas.

E que surpresa, receber tantos feedbacks lindos de garotas incríveis! Tenho que

declarar que uma das maiores felicidades que explodem dentro de mim vem desses

comentários singelos, cheios de entusiasmo e identificações. Sinto um carinho

verdadeiro, uma conexão entre nossos problemas e angústias, e estarei aqui para

vivenciar essa troca sempre.

Isso me leva ao assunto que tem sido “trending topic” ultimamente, e que foi

confirmado por uma amiga querida que está passando por uma situação de sofrimento.

Da série “coisas que queriam te enfiar goela abaixo”, apresento-lhes o tal “amor

romântico”.

Idealizado por fábulas, contos e religiões, usado e abusado pela indústria

cultural, ele permanece entre nós, imortal. A base é um casal heterossexual, com

papéis sexuais bem definidos e em um ambiente extremamente favorável, que

repentinamente se fartam de um amor intocável e permanecem felizes para sempre no

mar de rosas. Curiosamente, o mito é vendido para uma esmagadora maioria de

mulheres.

De brinde, ganhamos a instituição do casamento, que legitima definitivamente

aquele amor invencível e nos condena a uma vida inteira de companheirismo, paixão

e harmonia. É relativamente “mais fácil” terminar um namoro, mas um casamento é

como se fosse um contrato que exige um esforço sacrificante para a manutenção do

acordo, uma prisão disfarçada de escolha, que torna muito mais difícil uma decisão

que deveria ser rápida e sem dor: livrar-se de quem nos faz mal.

Nos iniciam nesse mundo obscuro dos coraçõezinhos quando ainda somos muito

crianças para resistir, ganhamos lições diversas que nos convencem a precisar de

outra pessoa para sermos “completas”.Essa pessoa é, claro, um homem. Junto com os

mandamentos da busca ofegante por um amor de conto de fadas, nos empurram um ideal

feminino de submissão, fragilidade e “entrega”. Aprendemos que ser mulher é querer

um homem, e dedicar boa parte de nossas energias para que essa relação tenha

sucesso – mesmo que a duras penas.

Enquanto isso, nossos queridos irmãozinhos aprendem valores um tanto diferentes.

São incentivados a ter coragem, ousadia, independência e principalmente autonomia,

ao mesmo tempo em que recebem a cartilha do dominador. Aprendem que serão sempre o

centro das atenções das mulheres, cuidados por mães, professoras e namoradas, e

que as terão à disposição.

Ao invés de bonecas imbecis e bebês de plástico, do treinamento rigoroso da

maternidade e servidão, ganham jogos de estratégia, carrinhos e bolas de futebol.

Aprendem que a coletividade pode conseguir muitos aliados, enfrentam o mundo ao ar

livre muito cedo e desenvolvem a capacidade de raciocínio lógico.

Tudo isso faz uma grande diferença, somos discriminadas pelo gênero desde a

infância e construídas sob um modelo patético de “mulher”. Nossa vulnerabilidade

não é genética, não veio da mão do deus macho, é obra de uma educação medíocre

embasada em preconceitos e estereótipos. Somos condicionadas a não nos sentir

completas, nunca, de forma alguma.

Coincidentemente, a solução apresentada para todos os nossos problemas de auto-

estima e auto-realização é um parceiro homem. “Tá precisando é de uma rola bem

grande”, como diriam as criaturinhas desprezíveis ocupando espaço por aí. Se

estamos “sozinhas”, somos solitárias ou lésbicas,desprezadas pelo tão importante e

fundamental macho da espécie. Se reclamamos de algo, somos histéricas ou “mal-

comidas”, afinal, todos os nossos problemas só podem ter origem na falta de um

pinto entrando e saindo, oras!

Daí, se resolvemos nos relacionar com um cara e descobrimos que ele é um merdinha,

e então trocamos, e fazemos isso repetidas vezes na incessante busca de um cara

menos incompetente, nos chamam de “putas”. Dizem até que não estamos nos dando

“valor”, quando na verdade isso só oculta a falta de qualquer valor ou apreço que

eles sintam por nós, um verdadeiro nojo. Enquanto isso, eles trocam de parceiras o

tempo todo e se orgulham de separar o ato sexual de qualquer afeto e consideração.

Não é uma fórmula perfeita? Faça-as sentirem-se incompletas e então lhes dê uma

cara-metade. Um homem perfeito, romântico, que atenda a todas as nossas

necessidades e finalmente dê algum sentido à nossa existência supérflua e cruel.

Alguém pra nos dizer o quanto parecemos bonitas, já que enxergamos mosntros nos

espelhos e nos sentimos culpadas por isso. Finalmente alguém pra nos convencer de

que somos alguém e não alguma coisa, como sempre nos ensinaram, uau. Mas a

verdade, mulheres, é que não precisamos de um salvador, muito menos de um

príncipe.

Definição de romance pelo dicionário: fantasia. O que mais precisamos dizer?! Não

é real, não é saudável e muito menos justo.Se você só se sentiu completa depois de

conhecer um homem e se apaixonar, significa que uma parte de você sempre esteve

vazia, e isso é péssimo. Se você não consegue ficar sozinha, quer dizer que está

sujeita a uma relação de dependência, auto-depreciação e possessividade. É um

clichê dos grandes, mas é verdadeiro demais: Antes de se tornar “nós”, precisamos

ser “eu”.

Antes de proclamar as palavras mágicas “não sei o que seria de mim sem você”,

pense no quanto você está se anulando na situação. Nunca se sinta um fracasso se

ainda se sentir dependente de um cara, não se esqueça que você foi totalmente

condicionada a ver as coisas dessa maneira. O caminho? Mais uma vez a

desconstrução, e isso só é possível com auto-conhecimento.

Conhecer a si própria e ter autonomia não significa excluir os relacionamentos

amorosos. Eu acredito em relações justas, em que o companheirismo é essencial e o

afeto cria uma união harmoniosa e cheia de respeito, sem dependência,

possessividade e ilusão. O amor romântico nada mais é do que uma mentira, porque

promete uma relação eterna que tem como base apenas o misterioso sentimento

“amor”, quando na verdade se parece mais com uma paixão cega, infantil e

inconsequente.

Se podemos chamar algo de amor, com certeza não é essa sensação obscura que nos

condena a viver acorrentadas a uma pessoa, desejando sua presença em cada passo

das nossas vidas e projetando nela grandes objetivos. Insisto que em uma relação

real ambos devem perseguir seus objetivos juntos, prestar apoio mútuo e construir

uma base sólida de respeito e cumplicidade, sem o contrato ditatorial do “pra

sempre”.

Quantas mulheres permanecem com homens que as espancam? Ou as humilham? Quantas

mulheres você conhece que suportaram traições? Quantas abriram mão de desejos

próprios por causa dos parceiros? Quantas sofrem com um ciúme doentio e se auto-

depreciam por causa dele? Quantas já abaixaram a cabeça para uma condição do

companheiro e sofreram caladas? Quantas vêm desabafar com você o inferno que está

sendo o relacionamento delas e a falta de coragem pra tomar uma decisão?

A vida real é muito mais hostil com as mulheres. Aqui fora os príncipes são muito

mais autônomos, seguros de si e treinados para a indiferença. E estarão sempre

prontos para se aproveitar dessa insegurança enraizada dentro de nós, construindo

verdadeiros romances poéticos enquanto nos sugam toda a individualidade. Isso não

quer dizer que homens não têm sentimentos, quer dizer que estão muito mais

preparados para lidar com eles, porque têm como base suas próprias realizações.

E como mudar? Como sair da posição de vítima do patriarcado e retomar o poder

sobre a própria vida? Tudo o que eu tenho são experiências próprias e um punhado

de conselhos sinceros.

Em primeiro lugar, descubra algo que você ame muito fazer. Eu descobri que amava

escrever, lutar por causas sociais, ajudar as minorias e ver resultados de todo o

trabalho que eu puder fazer.Muitas descobrem a realização em um esporte, na

música, nas artes plásticas, na filantropia, na carreira, são inúmeras

possibilidades, e todas temos muitas.

Depois, descubra milhares de coisas menores que você ame fazer. Identifique suas

preferências, muitas de nós nunca paramos para pensar nisso! Procure um tipo de

leitura, cinema ou música que você adore, vá ao teatro, invista em coisas que te

dêem prazer e acrescentem conhecimento. Una-se com outras mulheres, jogue futebol,

jogue videogame, faça um cosplay, vá dançar.

Deixe o relacionamento dos seus sonhos para o momento em que estiver mais

completa, você terá muito mais para compartilhar e estará sempre pronta para fazer

as melhores escolhas sem cometer sacrifícios. Se não der certo, agradeça por ter

percebido os erros a tempo, e procure alguém que possa te acompanhar e trazer mais

prazeres. Defina suas regras, respeite suas próprias decisões, seja firme, e

nunca, nunca mesmo, seja tolerante a ponto de se machucar.

Algo que eu sempre tenho em mente é que exercitar o perdão nem sempre é um bom

negócio. Vivemos tensionadas, se não pudermos confiar em alguém com certeza essa

pessoa não merece nossa companhia.Estabeleça limites para atitudes que você não

gosta, e não tenha qualquer receio ou medo de se arrepender na hora de dar um

basta no relacionamento. Não é questão de imaginar que “tem mais um monte por aí”,

e sim que uma relação que não é mais agradável e causa mais aborrecimentos do que

alegrias não tem lugar na vida de uma pessoa auto-realizada.

Não espere ser protegida, espere compartilhar segurança. Não espere ganhar, espere

uma troca. Não aceite conviver com um homem que define seus papéis na relação

apenas pelo seu gênero, por mais que ele pareça afetuoso, conteste e exija, seja

uma voz ativa e tomadora de decisões.

Relacionamentos não se baseiam apenas em amor, tenha em mente que uma relação sem

respeito e cooperação não vale a pena. Que adianta ficar com um cara que te

considera menos capaz de realizar uma tarefa, só porque ele é carinhoso? Carinho

não realiza ninguém, só serve como bengala de frustrações, você precisa de alguém

que te admire, te estimule e confie na sua capacidade. E, acima de tudo, precisa

de respeito às suas decisões, desejos e necessidades, não deixe de fazer algo que

quer para satisfazer alguém que deveria lhe querer o bem. Agregue valor à sua

própria confiança, um homem que mente e trai não merece segunda chance, pois isso

é sinal de que ele não reconhece seus direitos de escolha.

Nesse ponto o casamento colabora com nossas prisões privadas. Muitas mulheres

temem o divórcio porque acreditam que uma “união de tantos anos merece maior

esforço e tolerância para continuar”, mas quase sempre esses esforços significam

anulação, sofrimento e negação. Elas se sacrificam pela manutenção de um

relacionamento perdido, porque temem prestar contas ao Estado com seu contrato de

união civil e à religião com seu deus falocêntrico impiedoso.Por esses e outros

motivos condeno o casamento como uma união anti-amor, patriarcal e desigual,

fundada em sexismo e heteronormatividade.

As mulheres carregam nas costas uma História de submissão e sacrifícios pelo amor

romântico, enquanto permaneciam exploradas pelos “donos de seus corações”. Não

esqueçam nunca que já fomos consideradas propriedades, já estivemos restritas a um

cárcere privado e que ainda hoje muitas de nós não podem nem escolher o homem que

estará no “comando”.Ainda existem injustiças horríveis cometidas contra as

mulheres em nome de amores romãnticos, somos diariamente iludidas, enganadas e

desprezadas. Cabe a nós mudar nossa realidade através desse exercício de

consciência que eu proponho, da desconstrução, vamos recuperar a autonomia que nos

arrancaram e acabar com nossa dependência instituída por essa educação precária.

Amem, mulheres! Mas amem primeiro a si mesmas, sejam pessoas realizadas e

completas, mulheres inteiras. Não vamos esperar a misericórdia dos homens, vamos nos fortalecer para construir um mundo mais justo.

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Justiça para Geisy Arruda!

Todo mundo já escreveu sobre a Geisy Arruda, mas o caso ainda está pegando fogo então eu vou dar a minha contribuição.

Muitos estão dizendo que a imprensa exagera, que ninguém conhece a verdade dos fatos e que “todos tiveram sua parcela de erro”.

Analisemos.

geisy2

Fato 1: Geisy foi xingada de puta e recebeu ameaças de estupro, sejam elas com intuito “corretivo” de trogloditas ou por pura humilhação simbólica. Isso está comprovado pelos vídeos e estudantes.

Fato 2: Geisy estava com um microvestido cor-de-rosa e percorreu um caminho maior que o habitual para encontrar um banheiro que não estivesse em manutenção. esse fato foi interpretado como uma “tentativa de Geisy de se expor mais e mais”.

Fato 3: Geisy demonstrou uma atitude de desprezo e provocação com os gracejos que ouviu. A reação dela nessa situação foi relacionada com seu comportamento habitual, o que mostra que ela deve ser uma moça que usa roupas consideradas “provocantes” e que não atende aos apelos e assédios dos colegas ao redor.

geisy

Eu sei muito bem o que as pessoas que defendem a Universidade pensam. Em suas cabecinhas, Geisy é “puta”, deve fazer sexo com qualquer um, provocou toda a situação e pior, ainda quer se promover em cima disso se fazendo de vítima na imprensa. E tem mais, faculdade não é lugar pra se vestir “desse jeito”, e uma aluna da UNIBAN declarou que “mulher que se veste assim é objeto mesmo”.

Primeiro, que mesmo que Geisy fosse prostituta, estaria em seu pleno direito de estudar. Mas, ela não é. Tampouco temos informações sobre a vida sexual da moça, que também não faria diferença alguma, afinal somos livres para nos relacionarmos uns com os outros e teoricamente não deveríamos sofrer violência por exercer esse direito.

O mais grave é dizer que Geisy “provocou” essa situação.Pior, dizer que a culpa não foi do micro-vestido, como alegaram ao expulsá-la, mas sim da “postura” de Geisy. Existem premissas nojentas para essa afirmação, a primeira é de que a postura adequada de uma mulher é totalmente diferente da de Geisy, ou seja, ao invés de vestir-se como quiser e andar livremente seria obrigação feminina da moça usar roupas que não mostrem seu corpo e comportar-se de forma passiva, silenciosa e submissa. Outro agravante seria a forma física de Geisy, que difere dos padrões impostos ás mulheres e por isso desqualifica a “beleza” que deveria ser mostrada com o vestido, e já que não há diversão para os primatas heterossexuais, logo a exibição de Geisy se torna uma AFRONTA.

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A faculdade também supõe que Geisy provocou os colegas através de atos “rebeldes” como rebolar, ignorar ou demonstrar indiferença com a atitude. Mesmo que a moça tivesse mostrado as tais partes íntimas, o que não foi confirmado por ela e nem há provas, sua atitude foi nada mais nada menos que defensiva. Geisy mostrou através de um comportamento irreverente que não importava o quanto as pessoas a julgassem, esperneassem e desejassem que ela cobrisse seu corpo, ela continuaria daquela forma, a forma que ela escolheu para se vestir e se comportar. A própria Geisy não se acha um objeto, ela conhece muito bem seus desejos, emoções, objetivos, há um universo particular na vida da moça que não sucumbe ao terrorismo de uma turba.

Quem determina afinal que o corpo de uma mulher tem apenas o significado sexual? O sentir-se bela de Geisy é condenado à insinuação sexual por qual autoridade suprema? Coxas à mostra são aval de estupro e linchamento? Se Geisy realmente desejava conseguir sexo com aquela roupa, os alunos determinaram que ela estava DISPONÍVEL para isso naquele momento na faculdade com que direito?

Mulheres vestidas nos moldes que consideramos “sexy” não carregam um selo de “Available” na testa. Ora essa, foi construída uma imagem de sexualidade extrema e sujeição vinculada à decotes, saias curtas e vestidinhos, sob um pretexto de “libertação”. Mas, o que vemos, é justamente o contrário: ao invés de exercerem a liberdade ao usar roupas que expõem o corpo, as mulheres são simplesmente condenadas a um estado de disponibilidade sexual de acordo com a conveniência dos machos!

Não julgo que estamos em condições de abolir tais roupas que carregam os símbolos do patriarcado com suas formas, pelo contrário, as mulheres precisam ter autonomia e posse sobre seus corpos suficiente para usar o que quiserem e serem respeitadas da mesma forma.

O que vemos é o oposto, moças como Geisy são consideradas disponíveis como alvos nos espaços públicos, as roupas que mostram o corpo funcionam como um código que legitima a aproximação e a invasão do espaço. Quando Geisy reagiu com provocações, os homens que a afrontavam não suportaram, e as mulheres que tinham em si esse preconceito internalizado se revoltaram com a “ousadia” da colega.

“Imagine, que audácia dessa moça, nos provocar e zombar de nossas investidas? Somos machos, precisamos colocar essa vagabunda no seu devido lugar, quem ela acha que é pra mostrar essas curvas na faculdade, nem mesmo “bela” ela é.” Os Alunos

“Essa menina é prostituta mesmo. Vem pra faculdade com essa roupa indecente, e eu que fui criada sob as rédeas do meu pai uso roupas mais adequadas ao ambiente em que eu estou. Afinal, mulheres não podem simplesmente sair se mostrando, precisamos conter nossas formas para o bem da família e da sociedade. Ainda bem que eu estou do lado das santas e vou poder casar com um homem que me domine!” As Alunas

Geisy4

Que mulher nunca rebateu um assédio nas ruas e foi xingada de prontidão? Já me aconteceu inúmeras vezes. Esses vermes não suportam que uma mulher desafie a autoridade que eles supõem ter sobre nossos corpos, a reação é como a dos alunos, retaliação, indignação. Geisy é símbolo porque reagiu de forma tão chocante para os machistas que causou uma verdadeira rebelião contra a autonomia da mulher.

O mais bizarro de tudo isso é ver milhares de machinhos “solidários” a Geisy, postando mensagens mundo afora que acusam os alunos de “gays” e “invejosas”. Quem odeia as mulheres, os gays ou os heterossexuais que estupram, matam, surram e abusam delas todos os dias? Porque raios essa gente estúpida relaciona ódio contra a mulher com homossexualidade? Os gays não precisam odiar as mulheres, por muitas vezes acabam se aliando a elas por serem minorias com afinidades. A justificativa é que somente gays poderiam ofender uma mulher, porque heteros obviamente precisam fodê-la, e por isso estão sendo homossexuais ao odiá-la. E, convenhamos, é desesperador ver como essas pessoas ainda usam a homossexualidade como OFENSA deliberadamente, isso é uma doença social.

Outra pérola são os mesmos machinhos compadecidos de Geisy deixando recados em sua suposta página do orkut solicitando msn e oferecendo “apoio”. O apoio seria uma rola na bunda, no caso, com perdão da expressão. Que interesse um jovem heterossexual sexista teria em defender uma moça que não fosse fodê-la no final? E ainda assim, com certeza esses mesmos defensores se juntariam ao coro de “Puta!” logo depois de praticarem o ato. Porque, como já sabemos, mulheres que fazem sexo são prostitutas e merecem ser queimadas, ou linchadas por ilustres universitários brasileiros.

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É tanta porcaria que dá vontade de parar, mas prossigo. Eis que a faculdade decide que o comportamento irreverente de Geisy é uma ameaça à moral e bons costumes patriarcais, e assim decide expulsá-la. A opinião pública parece estar a favor da moça, e desconfio que isso se deve ao fato de que a notícia original foi pautada por blogs (ainda bem). Os movimentos sociais reagem e organizam uma manifestação na porta da UNIBAN pela revogação da expulsão e punição dos responsáveis. Estavam presentes a UNE, a SOF e a Marcha Mundial das Mulheres.

Os alunos trogloditas saem à porta para defender, desta vez, seus próprios rabos. Alguns insistem no comportamento ousado de Geisy como impróprio e defendem a expulsão, outros dizem não ter culpa de nada e ficam se cagando de medo do mercado de trabalho cuspir neles. Houve também uma moça muito truculenta expressando seu horror à Geisy e afirmando que mulheres “que se vestem assim na faculdades são objetos mesmo”. Ainda tivemos um cidadão capaz de agredir um ativista anarquista porque ele comparou Geisy à sua mãe, até imagino que o moço tentou compará-las para ver se o neandertal acordava de seu pesadelo patriarcal, compreendendo que ambas são mulheres e tem os mesmo direitos, mas não foi tão fácil assim.

Sobre ser objeto, reafirmo que objetificação é o que impuseram à Geisy baseados em um preconceito violento que determina comportamentos de “santas” ou “putas” às mulheres. Objetificar com base no gênero, na roupa e no modo de agir é típico de quem acredita que mulheres são mesmo brinquedos masculinos, sem vontade própria ou capacidade moral. A própria moça que proferiu essa ideia não pode ser culpada pela interpretação, afinal ela foi criada dentro da mesma cultura que condena Geisy, e sabe-se lá que julgamentos ela já sofreu na sua vida social universitária por ser mulher e fora dos padrões.

Com certeza essa Universidade sofreu um abalo na imagem, e acho justo. Já que vivemos à mercê de instituições para garantir nossa segurança, o mínimo que podemos fazer é exigir que cumpram essa tarefa. Os alunos que não participaram podem não ter culpa alguma do ocorrido, mas talvez devessem criar alguma mobilização a favor da Geisy, já que a neutralidade em uma situação dessas é no mínimo assustadora. Sim, temos que nos preocupar com o que acontece ao nosso redor, e essa atitude é esperada de universitários. Sobre a imagem no mercado de trabalho, me parece lógico que todos sofrerão as consequências do que fizeram à garota, não adianta tentarem defender a instituição ou os colegas na esperança de irem bem na entrevista, uma mulher foi linchada por não corresponder ao modelo ideal como resultado de uma cultura machista, e todos pagarão por isso.

Sobre a reação de Geisy, a moça está buscando seus direitos e com certeza usando da imprensa para divulgar o caso. Estão dizendo que ela “se faz” de vítima, mas não tem essa, a moça É vítima. São os defensores da universidade e machistas de merda que querem transformá-la em ré. Claro que a imprensa tem seu papel de sempre de sensacionalista e oportunista, mas nesse caso específico acredito que a exposição é mais que adequada. E, mais uma vez, o fato da notícia original ter sido pautada em um blog, e já com uma abordagem crítica, facilitou muito a divulgação pró-Geisy. Só existem duas hipóteses em que Geisy pode ser considerada “culpada”:

afeganistão

1- Se ela for um homem disfarçado líder de uma conspiração gigantesca de machistas que pretendiam criar uma situação de linchamento dentro de uma faculdade e expulsar a aluna em seguida para que uma mulher nunca mais ousasse se vestir assim.

2- Se estiver todo mundo mentindo e na verdade o caso todo é um golpe publicitário para a nova campanha da Zara e seu novo vestidinho cor-de-rosa nas cores flúor da tendência.

Quais as desculpas para apontar a imprensa como mentirosa e a Geisy como culpada? Ela se mostrou, provocou, tem comportamento de “puta”, hm, e o que mais? Tudo já devidamente desmistificado.

Dizem por aí que Geisy afirmou que gostaria de ser atriz, e isso foi suficiente pra desencadear uma nova acusação: “Geisy quer se promover”. Ah, não me diga, a garota de classe B/C, hostilizada, fora dos padrões de beleza, com uma educação baseada no senso-comum, estudante de turismo, tentou aproveitar uma exposição na mídia pra conquistar o desejado posto de atriz famosa? Que absurdo! Que tipo de aproveitadora ela é, afinal? Se a ironia não foi suficiente, dã, é CLARO que uma garota nessas condições adoraria buscar uma compensação na situação e se colocar como atriz, posar na playboy ou qualquer outra idiotice que confere status à figura feminina no patriarcado. E a culpa, deixa eu adivinhar, é dela?

Algo que me surpreendeu foi a presença de Sabrina Sato na manifestação, declarando apoio à Geisy. Com um mini-vestido cor-de-rosa, para simbolizar o caso, Sabrina também foi assediada, aos brados de “gostosa” por um bando de trolls. Um aluno chegou a dizer que não chamaram Geisy de gostosa porque daria a entender que os alunos gostavam de “baranga”. Mais uma vez a violência sexista impera, Sabrina Sato pode (e deve) usar roupas curtas porque seu corpo tem o padrão decorativo e é alvo da sexualização sedenta dos machinhos, enquanto as formas de Geisy configuram praticamente um insulto por não serem consideradas “atraentes”. E claro, ser chamada de gostosa é uma violência em potencial, já que significa “nós queremos te comer agora”, e pressupõe que a moça estaria se oferecendo.

sabrina

Sabrina sofreu perseguição e fez algumas entrevistas, mas o que mais me chamou a atenção foi uma cena da moça erguendo o microfone animada para registrar o grito de guerra da Marcha Mundial das Mulheres: “A violência contra a mulher, não é o mundo que a gente quer!” Em certa parte do coro, diz-se “nossa beleza não tem padrão”, e Sabrina permanece apoiando a manifestação. Isso me deixa muito feliz e ao mesmo tempo triste, feliz porque a atitude da moça é linda, e triste porque ao mesmo tempo ela representa uma mulher caricata e sujeita em um dos programa humorísticos mais violentos da televisão. Mas, o ato de Sabrina me leva a crer que ela apoia o movimento e acredita que o padrão do corpo feminino é violento, mesmo que se encaixe nos moldes obrigatoriamente em seu trabalho. Ou, na pior das hipóteses, estou sendo ingênua demais e a moça quis apenas gravar seu programa. Prefiro ser otimista.

Ao menos, como resultado da manifestação, a expulsão foi revogada. Mas isso não é nem de longe suficiente, os responsáveis precisam ser punidos e a segurança de Geisy deve ser garantida, pois o que mais esses “talibans” querem é humilhá-la novamente. A moça declarou que só quer entrar na sala, sentar, estudar e “passar de ano”, e eu acredito que, mesmo que ela tenha sido instruída em suas declarações e mantenha um expressão premeditada, ela realmente quer apenas paz.

No mesmo caso, temos várias formas de preconceito e violência de gênero. Odeiam e culpam Geisy porque ela se mostra dona de seu corpo e atitudes, porque ela não se encaixa no padrão de beleza feminino, porque é nordestina, porque é pobre e porque reage contra as agressões. Além disso, ainda arranjam espaço pra odiar gays também, acusando os agressores de homossexualidade (oh, insulto!). E por fim temos a questão política da Universidade, que não hesita em expulsar uma mulher de classe mais baixa que sofreu humilhação dentro da instituição para agradar milhares de alunos que pagam uma gorda mensalidade.

uniban

Geisy é um símbolo para a luta das mulheres, pois expôs um problema muito grave que é ignorado por toda uma sociedade: a violência e abuso a que as mulheres são sujeitas nos espaços públicos e privados. As vaias e urros de “puta”cheios de ódio foram para Geisy e para todas as mulheres deste país, sejamos solidárias com Geisy por ela e por nós mesmas.

Deixo um recado para as meninas da Uniban que são contra Geisy: Sei que agora vocês estão preocupadas com a imagem da universidade e que provavelmente odeiam ainda mais Geisy Arruda, mas pensem que amanhã vocês podem ser as próximas vítimas da violência de gênero, que aparece na forma de assédio, abuso, estupro, coerção e humilhação. Alguma de vocês já sofreu um abuso verbal de um homem na rua e se sentiu constrangida? Já foi analisada de cima a baixo e avaliada por homens que não conhecia? Já deixou de usar uma roupa porque teve vergonha e receio de sair sozinha com ela? Já foi assediada no trabalho ou considerada menos competente apenas por ser mulher? Já deixaram de levar algo que você disse a sério porque é uma mulher? Já se sentiu mal com a forma do seu corpo? Já teve seu comportamento considerado impróprio para uma mulher? Já sentiu vontade de transar com alguém e não o fez por medo de ser considerada vadia?

minha escolha

Tudo isso, moças, é violência de gênero. A mesma que a Geisy sofreu. Vocês não podem odiar e culpar uma mulher porque os homens o fazem, porque ela parece “provocante” ao olhar de vocês. Experimentem admirar essa mulher, questionar o que lhes foi condicionado a pensar sobre o corpo feminino, experimentem desafiar os olhares de reprovação masculinos.

Geisy não vive, não se veste e não se comporta em função de criaturas masculinas heterossexuais. Nós, mulheres, não podemos viver sob julgamento de homens, escolhendo nosso modo de agir e a expressão do nosso corpo de acordo com a aceitação deles. A moça do mini-vestido rosa é um símbolo, é a realidade da violência contra a mulher que veio à tona e mobilizou a opinião pública.

Justiça para Geisy, pelo fim do terrorismo patriarcal!

Fica recomendada, salvo citação criacionista, a análise do Dr. Jacob Pinheiro sobre o ocorrido: Youtube.

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Mulher legal tem nome: homem.

O tempo nunca esteve tão curto, os dias parecem demandar pelos menos umas 30 horas ao invés de 24, mas sobrou uma brecha para uma reflexão rápida.

Imagine só que basta uma mulher ser espontânea, ou não apresentar as “frescuras” que lhe seriam óbvias, ou expressar sua sexualidade de alguma forma, para que logo receba um apelido bastante significativo: “homem”.

homens bebendo

Tenho passado por isso com muita freqüência, como se tivesse optado por uma identidade de gênero “masculina” apenas por agir com naturalidade. É incrível como os homens esperam que as mulheres tenham seu comportamento regrado e submisso em TODAS as situações, até mesmo em um ambiente de descontração ou conversa entre amigos. Mulheres não falam alto, não falam palavrão, não “zoam”, não arrotam, não gostam de se divertir, não falam de sexualidade, não fazem piadas, não “intimam”, não falam sobre coisas que dão “nojinho” e, principalmente, nunca se fazem ouvir em uma rodinha de homens.

Quando uma mera mortal ousa fazer uso de qualquer um desses itens, é logo taxada de HOMEM. Pois eu digo: Não, obrigada. Sou MULHER!

Isso mesmo, mulher que faz tudo isso e o que mais eu quiser. Mulher que se desconstrói todos os dias, não por obrigação, mas por NECESSIDADE de ser livre. Não preciso ser um homem para me comunicar com espontaneidade.

Mulheres são também as “iludidas”.

videogame

Frases clássicas: “Ah, se minha mulher souber disso fudeu!”, “Não, vai que minha mulher descobre...”, “Puta, que merda, minha mulher vai atrapalhar tudo..”, “Ah, sabe como é, mulher não entende essas coisas”. Elas não são capazes de “entender” os valores masculinos e todo esse lifestyle livre, espontâneo e ousado que parece ser exclusivo dos machinhos. Mulher não participa da hora divertida, engraçada, da descontração plena. Mulher é problema, é espinho no sapato, tem que tratar assim e assado, não pode estar presente quando a coisa fica muito “real”. A companhia feminina é chata, “fresca”, limitada e pouco expressiva. Se possível, dispensável.

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Amizade ente mulher e homem? Não, esquece, afinal é praticamente uma imposição que ambos acabem na cama. Até a visão das amiguinhas se descobrindo sexualmente parece super aceitável, mas quem vê por aí os amigos homens camaradas vítimas da “ameaça sexual” em suas relações? Mulheres que mantém amizades com homens são então um tipo de alvo contínuo das segundas intenções? Afinal, quando será que um macho vai encarar sua amiga mulher com as mesmas possibilidades sexuais que seu amigo homem? Nunca, porque uma mulher companheira e participativa é inevitavelmente uma oferta de sexo.

Acho que eu nem precisaria dizer isso, mas é claro que existem suas exceções. Eu trabalho com a regra.

A sexualidade da mulher é mais obscura aos homens do que parece, e quando nós mesmas falamos no assunto parece que o ambiente se torna tenso de tão surpreendente. Há aqueles que logo imaginam, “uma mulher que fala de sexo deve estar querendo sexo”, convém destruir o discurso desses pobres coitados. Nossa sexualidade é viva, vigorosa e deve ser motivo de orgulho ao invés de vergonha. Menstruamos, gozamos, nos masturbamos, sentimos tesão e nosso genitais não podem ser sinônimo de passividade, não somos meros receptáculos e muito menos dependentes de um pênis. Também não demonstramos perversão ou descontrole ao falar dessa sexualidade, estamos apenas nos expressando e mostrando a todos esses machos que não somos seus objetos sexuais, somos sujeitos plenos de nossa sexualidade.

O que me incomoda profundamente é a seguinte cena, que insiste em se repetir: Há vários homens no ambiente e uma mulher, os homens dizem algo que julgam “inapropriado” para a presença feminina e logo alguém resolve justificar “Fica tranqüilo, essa daqui é praticamente um homem!”. O mais triste é ver o sorrisinho da moça depois de sua grande conquista, como é ilustre ser um homem também! Pra que ser mulher? Pra que defender a liberdade das mulheres se eu posso me adequar com meus méritos de homem? Mal sabe a moça que suas credenciais masculinas atribuídas têm validade baixa, talvez lhe serão úteis até que se relacione com um dos machos do bando.

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Infelizmente não tenho a obra “Mulher Inteira” à mão nesse momento, mas se não me engano é neste livro que a Germaine Greer analisa uma situação em que uma mulher discute dentro de um grupo predominantemente masculino. O resultado é enraizado, homens dando pouca atenção ao que a mulher diz e buscando uma posição de dominação todo o tempo. Eu sinto isso da mesma forma, por isso faço questão de disputar a voz e me fazer ouvir.

A minha mensagem para as mulheres é que levantem sua voz, sejam espontâneas e infiltrem-se nesse submundo macho das confraternizações. Não existem limitações ou ponderações exclusivas para o discurso de uma mulher, libertem-se de todo esse senso comum e não tenham receio de se expressar. Não precisamos nos prender a uma construção doentia que nos afunda em contenções e máscaras cor-de-rosa, muito menos nos limitar ao salão de beleza enquanto os machinhos nos evitam em algum lugar verdadeiramente divertido.

“Sou tão fêmea que sou subversiva”

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Caso Abdelmassih: O médico estuprador

“Roger Abdelmassih, 65, o especialista em reprodução in vitro mais conhecido no país, foi indiciado na manhã desta terça (23) pela Polícia Civil de São Paulo sob a acusação de estupro e atentado violento ao pudor. Mais de 60 pacientes acusam-no de abuso sexual.”

Veja a cobertura completa do caso aqui, que também é a fonte dos recortes apresentados.

cretino

Roger Abdelmassih não é apenas um tarado cheio de dinheiro protegido por uma fortuna e uma coleção de rabos presos, ele é um médico pioneiro e respeitado em todo o mundo por sua carreira brilhante. E acima de tudo, o cretino é muito esperto.

Como muitos estupradores, Abdelmassih sabe como se aproveitar do medo e do horror de uma mulher. Ele usa de todo o seu poder e prestígio para manter suas vítimas caladas e vulneráveis, e isso só é possível porque as mulheres já são inferiorizadas normalmente.

As mulheres que procuram a clínica de fertilização do Dr. Abdelmassih sonham com a maternidade, estão no seu momento mais delicado e investem pesado para isso – porque podem. A maioria dos abusos cometidos pelo médico ocorreu no momento pós-sedação, em que as mulheres se encontravam absolutamente indefesas e confusas.

“Acordando, ainda grogue, vi que eu estava com o pênis do doutor na mão. Tentei me levantar, cheguei a sentar na maca. Aí, o dr. Roger abaixou o jaleco, disse ‘calma, calma, calma’ e saiu da sala. E fui chorando ao encontro do meu marido, que aguardava na recepção da clínica.” Depoimento de Ivanilde Serebrenic

“[Ao acordar da sedação para retirada de óvulos] ele me deu um abraço e perguntou se podia me dar um beijo. Quando dei o rosto, ele veio com a língua e eu gritei: ’Para com isso, para!’. E ele disse: “Vai ser bom para você, você precisa relaxar.” Relato de Crystiane Souza

O quanto relaxante pode ser o beijo forçado de um velho violento? Abdelmassih sabe que as mulheres não desejam o contato sexual com ele, mas também se acha no direito de abusar delas apenas por serem mulheres. Ele sabe que sairá impune, por isso intimida suas vítimas e pede para que fiquem calmas, para que deixem o processo fluir já que é bastante comum sofrer abuso.

“Sob efeito de medicamentos e se sentindo frágil, sem forças, a paciente não pôde reagir quando o médico Roger Abdelmassih, 65, aproximou-se, levantou a camisola dela, abaixou a sua calça, pôs o pênis para fora e a estuprou. ” Sobre depoimento de uma paciente que não quis se identificar.

nojo

O mais engraçado nessa história é que acusam o médico de mais de 60 “abusos”, porém apenas um “estupro”. Estupro no caso seria apenas penetração, todo o restante do comportamento sexual violento não figura estupro algum.

“[O médico] passou a mão nos meus seios, na minha vagina e chegou a colocar o pênis para fora [da calça]. Graças a Deus neste momento alguém tentou entrar no quarto. Ele me soltou e corri para o banheiro. Fiquei lá, chorando.”

Monika

Monika

Porque chorar e não acabar com a raça do infeliz? O próprio médico usou em sua defesa o argumento de que as mulheres retornavam ao seu consultório, questionando “se você fosse vítima de um abuso, voltaria ao meu consultório?”. É conveniente acreditar que mulheres poderiam simplesmente reagir e abandonar o tratamento dos seus sonhos pelo qual pagaram muito dinheiro, ignorando toda a pressão que sofrem em uma situação como essa. Mesmo assim, algumas mulheres não suportaram e deixaram de freqüentar a clínica.

“[…]contei ao meu marido, que não acreditou. Ele disse: “A gente tem muito dinheiro lá [na clínica] e tem um objetivo, que é ter uma filha. Você é descolada, saberá se virar bem,” contou Monika Bartkevitch.

Monika não só sofreu nas mãos do médico estuprador, como também foi humilhada e acabou se separando de um marido machista, que por acaso pertencia ao meio médico e tinha medo de denunciar o “colega”.

“[…]ainda tinha de enfrentar familiares e amigos que perguntavam se eu havia dado abertura. Isso quase me deixou louca. Eu me perguntava, será que fiz algo errado?”

Culpe a vítima. Culpe a mãe. Culpe a mulher, a vagabunda eterna. Um estuprador nojento ataca uma mulher e ainda a culpam por não ter conseguido se defender, enchem-na de interrogatórios humilhantes e a fazem reviver cada momento de sofrimento procurando alguma evidência que a torne suja e imoral. Aliás, esta é uma grande arma do Dr. Abdelmassih, ele sabe que a pressão da imprensa, da justiça e de todo o público obrigarão suas vítimas a um constrangimento contínuo e desgastante.

“Neste último mês passei por momentos horríveis, pois tive que falar com várias pessoas da imprensa e relatar com todos os detalhes para as autoridades.

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Ivanilde

Uma mulher que sofreu abuso, que foi tocada contra sua vontade por um homem, é vista como cúmplice e desafiada a confirmar sua história de horror milhares de vezes. Ivanilde, Crystiane e Monika são mulheres muito corajosas, que saíram do anonimato e vão enfrentar seu estuprador na justiça. Elas querem inspirar as outras 58 mulheres a fazer o mesmo, mas sabem que tomar a decisão de se expor publicamente em um caso como esse ainda é assustador para uma mulher. Nenhuma delas teria aparecido para depor se alguém não tivesse tomado a iniciativa, pois denunciar um homem poderoso representa um risco constante de derrota e mais humilhação.

“Abdelmassih já atribuiu as acusações a um complô de médicos concorrentes, a uma campanha mobilizada pela internet por uma das ex-pacientes, às “alucinações sexuais” por causa do efeito da anestesia, às fofocas e mentiras e agora à frustração de mulheres que passaram pela clínica.”

O argumento de que as mulheres teriam ficado frustradas por não engravidar já é totalmente inválido, porque em muitos dos casos a fertilização teve sucesso. Os anestesistas confirmaram que as alucinações sexuais não eram possíveis e parece que 61 mulheres não relatariam abusos por causa de um complô de médicos. O canalha é cara-de-pau.

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O monstro e seus comparsas, advogados do diabo

Apesar de todos os indícios, o monstro será defendido na justiça por dois advogados criminalistas ultra respeitados. Abdelmassih é um doutorzinho de merda escondido atrás de muito corporativismo e pronto para humilhar pela segunda vez todas as mulheres que estuprou. Não tenho dúvidas de que perante o juiz não faltarão argumentos para retratar as mulheres como verdadeiras “vadias”, culpadas pelos seus corpos libidinosos e por não carregarem uma Glock no bolso quando vão até a clínica de fertilização.

Desejo que essas mulheres agüentem firmes e acabem com o desgraçado, façam isso por elas mesmas e por todas as outras. Não é por acaso que os índices de estupro ainda são gigantescos, que ainda temos que temer pela nossa integridade física cada vez que saímos de casa, que até mesmo em nossos lares somos vítimas do abuso, que nos culpam pela violência que sofremos e que tememos a figura de um homem poderoso que toma o direito sobre nossos próprios corpos e nos invade brutalmente.

Reagir é a regra, lembrem-se que estamos nos defendendo, e para isso VALE TUDO (até a Glock na clínica não é uma má idéia).

E é claro, terei minha própria visão reforçada quando entre os termos mais procurados do meu blog eu encontrar “vídeos de estupro”, “mulheres sendo estupradas”, “vadias sendo estupradas”. Acontecerá, acredite.

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