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Vadia, puta, vagabunda e rodada.

Esses dias fiquei pensando na coleção de estereótipos femininos dos quais já fui vítima durante a vida. Passei pela sapatão desengonçada (apelidada de “jamanta”), pela CDF frígida, pela maria-moleque, pela gorda mal-amada, tudo isso até a oitava série mais ou menos – inclusive, vou precisar de um post só pra contar essas histórias decadentes da minha infância e pré-adolescência, mas fica pra uma outra hora. A partir do colegial as coisas começaram a mudar um pouco, chegando ao status de “roqueira rebelde”, “nóia”, basicamente a revoltada clássica, com sérias tendências bully (revanchismo).

Mas, nenhum estereótipo pode ser tão feroz quanto aquele que mais tarde eu conheci: “puta”. Nas suas variações, “vagabunda” , “vadia”, “biscate”, e claro… “rodada”. Não é novidade que as mulheres só tem duas opções dentro do patriarcado, Santa ou Puta, Maria ou Eva, boa esposa/mãe/namorada ou vagabunda marginal. As pessoas não conseguem enxergar as mulheres como pessoas plurais, autênticas e autônomas, elas precisam ter seu comportamento enquadrado nessas categorias, e existe uma vigilância especial no campo da sexualidade e do corpo. Com quantos seres você transou, quantas vezes e como o fez parece constituir a identidade da mulher, e determinar o nível de respeito com que será tratada.

Quanto mais sexo, pior a mulher é. É, exatamente, mais experiência sexual = menos dignidade. Fórmula bem pensada essa, hein? Pois é, todo mundo engoliu essa lorota e segue com fidelidade. A fonte desse pensamento é bem clara, desde a origem do patriarcado o homem busca desesperadamente controlar a sexualidade da mulher, para que ela se mantenha fiel ao seu papel de esposa e mãe dedicada, e também conceda exclusividade sexual ao homem que afirma sua autoridade sobre ela. Os homens sempre se reservaram ao direito de ter quantas parceiras desejassem, mas exigiam que sua dóceis mulheres fossem virgens, para servi-los com total obediência.

Muitos ainda usam do discurso biológico para justificar tal postura, mas a pílula anticoncepcional e outros métodos de contracepção provaram que a mulher também sente desejo sexual, e que o sexo não é mais escravo da reprodução. Hoje muitas mulheres buscam autonomia sexual e escolhem livremente seus parceiros, mas ainda pagam o preço da desigualdade. Aquela velha história do homem garanhão x mulher galinha, que concede honrarias aos homens de vida sexual ativa e cospe nas mulheres que ousam ter a mesma liberdade. Puro preconceito e misoginia.

Foi dado aos homens o direito inalienável de conhecer e explorar a própria sexualidade, o que sem dúvida contribui para a fama de “insaciáveis”. Quanto mais se conhece o próprio corpo e os desejos, maior a chance de vivenciar o sexo com novas pessoas, e maior a satisfação. Infelizmente, ainda hoje esse direito é negado às mulheres desde muito pequenas, sempre condicionadas a esconder e reprimir os impulsos sexuais caso queiram o “respeito” dos homens. Essa é uma das razões pelas quais a mulher leva mais tempo para ter consciência do próprio corpo, para atingir o orgasmo e expor seus desejos na cama.

Enfim, eu acreditei em tudo isso quando era mais jovem. Esse discurso foi martelado na minha cabeça incessantemente. “Menina, não faz besteira”, “Mulher tem que se dar ao respeito”, “Você foi pra cama com ele? Que absurdo!”, “Você não presta”, “Só pode com o namorado, e depois do casamento”, “Você vai entregar seu maior tesouro (virgindade) pra qualquer um?”.

A minha família, apesar de não ser das piores, sustentou com louvor todos esses mitos. Mas, na época, eu me sentia diferente das outras meninas que simplesmente levantavam aquela bandeira da pureza – falsa pureza, é claro. Eu via minhas amigas escondendo a sete chaves tudo o que faziam, vivendo praticamente uma vida dupla, engavetando a noite passada e vendendo a imagem santificada durante o dia. Eu já tinha dentro de mim uma necessidade de subverter tudo, questionar tudo, e um dos meus primeiros “foda-se” adolescentes foi admitir que eu tinha tesão. Como sempre, eu não queria viver uma mentira.

Não que eu fizesse sexo loucamente, estava longe disso, aliás, meu conhecimento sobre o meu corpo era tão raso que eu não tinha muito o que aproveitar das minhas relações sexuais. Basta uma garota fazer sexo com dois caras e eles se conhecerem pra surgir o boato de que “dá pra qualquer um”.

Em primeiro lugar, eu nunca “dei” nada, ninguém ficou com um pedaço meu, ninguém me tirou algo valioso e eu não tive que “ceder” aos apelos do parceiro.Ah, minha buceta continua aqui, obrigada. Eu fiz…porque é legal fazer. Ohhhh. Eu QUERIA, sabe? Oi? Tenho vontade, voz, libido, autonomia, direito, ok? Em segundo lugar, “qualquer um” somos todos. Coincidentemente, a maioria dos seres humanos não se conhece, então somos sempre “qualquer um” antes de mais nada. Depois de conhecer um ser humano, o mínimo necessário, ele deixa de ser “qualquer um” e se torna “um”, mais um deles, porém com suas próprias características e particularidades. Assim, a partir do momento que eu escolhi uma pessoa e me senti sexualmente atraída por ela, deixa de ser “qualquer um”. É a MINHA escolha, meu “um”, entendido? E assim por diante, quantos “uns” eu desejar e que correspondam. Logo, não existe isso de “dar pra qualquer um”, todos foram escolhas legítimas, cujos critérios só dizem respeito a mim. Se eu quiser me relacionar mais vezes ou construir um relacionamento mais sério, a escolha também é toda minha.

É muito comum um machinho deduzir que você vai “dar” (termo mais zé punheta do mundo) pra ele caso tenha “dado” para um número x de caras que ele conheça. Mesmo que ele não seja nem um pouco interessante, ou você não tenha dado nenhum sinal de aprovação. A mensagem que colocaram na cabeça é: “mulheres estão sempre disponíveis”, e se a mulher em questão dá indícios de que é sexualmente ativa, aí fica mais vulnerável ainda. Eles simplesmente não conseguem enxergar uma mulher como um ser humano pensante, que toma suas próprias decisões, é sempre uma menininha inconsequente, perdida, transando com os outros por pura ingenuidade, ou uma putona auto-destrutiva transando por profunda devassidão. Mas que merda! Não se pode simplesmente fazer sexo por vontade e conscientemente sendo mulher? Não tentem excluir metade da humanidade de uma vivência sexual saudável, não cola mais, meus queridos.

Uma lembrança muito vívida me inspirou para escrever esse post. Na minha saudosa adolescência, eu não sabia dos meus direitos, da minha capacidade, não reconhecia minha identidade como mulher. Fui educada pra ter uma auto-estima ridícula, pra obedecer as normas vigentes e me conformar com tudo, como a maioria esmagadora das mulheres. E mesmo assim, resolvi desafiar a ordem das falsas meninas virginais, buscando sexo com quem eu bem entendesse.

Foram inúmeras ofensas, e, repito, não porque eu realmente fizesse sexo com muita gente (deveria!), mas porque eu ASSUMIA gostar de sexo e REIVINDICAVA fazê-lo com quem quisesse. Talvez eu tenha feito muito menos sexo que outras amigas minhas, a diferença é que eu não admitia me esconder pra agradar os outros. Eu procurava ignorar a opinião dos menos conhecidos e até tinha sucesso, mas o que mais machucava era escutar o mesmo discurso de amig@s próxim@s e pessoas queridas no geral. Mas acho que o pior de tudo mesmo era que, em plena época de ansiedade por um “grande amor”, quando eu ainda acreditava no mito do cara super incrível que ia me completar, percebi que muitos não queriam me “levar a sério” por causa da minha postura.Hoje eu saberia que não passavam de um bando de babacas estilo “8ªB”, que tratavam todas as mulheres como se fossem lixo, até aquelas que se enquadravam na lógica machista deles. Tentar se adequar ao padrão desses homens que odiavam mulheres era a tarefa das minhas amigas, e vi o sofrimento delas de perto.

Mesmo assim, sofri muito. Não entendia porque as pessoas agiam daquela maneira, mas ainda demorei pra desvendar as hierarquias do macho e os papéis estúpidos que reservavam às mulheres. Queria ser livre, mas os outros exigiam que eu me reprimisse em troca da liberdade. Chorei noites a fio, acreditando que nunca um homem ia querer ficar comigo, que eu teria que me adaptar um dia, cheguei a acreditar que uma mulher era “suja” por sentir tesão. As pessoas que me amavam me diziam que eu tinha que mudar, que tinha que “aceitar o mundo como ele é”, que os homens sempre pegariam todo mundo e as mulheres apenas resistiriam a eles o quanto pudessem. Logo eu, que gostava de abordar meus potenciais parceir@s, que me sentia livre leve e solta, que aproveitava todos os momentos e nunca deixei de respeitar alguém que estivesse comigo, mesmo que por uma hora apenas. Pelo contrário, sempre tive consideração por quem fiquei, e sempre esperei o mesmo – doce ilusão.

Outro termo que marcou bastante, e que hoje me fez refletir, foi o “rodada”. Os caras falavam em “rodar a banca”, “passar na mão de todos” (detalhe, considerando a mesma regrinha de ficar com dois que se conhecem). Fiquei construindo uma imagem para esse termo na minha cabeça, e seria mais ou menos assim: Vários homens em um círculo, jogando uma garota meio amolecida, meio apática de um para o outro, como se fosse um joguinho, passando-a pela “mão” de todos. Essa garota, claro, é um ser totalmente inanimado, sem voz, sem presença, apenas satisfazendo os homens que por alguma razão fazem parte do mesmo círculo de machinhos.

É exatamente como um “estupro grupal”, é o gang bang da vida real, classificar mulheres como “rodadas” para que se sintam violadas em suas vidas, vetadas do desejo sexual. GENTE, isso não existe! Mulher tem desejo, tem pele, tem escolha! Mulher NÃO É OBJETO, É SUJEITO DA RELAÇÃO. Objetos não sentem, não falam, não decidem nada, sujeitos agem, reagem e se fazem perceber! Got it? Nenhum homem tem o direito de submeter uma mulher ao rótulo de um objeto inerte, que apenas foi utilizado por outros homens. A mulher também sente PRAZER na relação, como pontuei no outro post, e sua moral não é arrancada durante um ato sexual.Não podemos nos render a esse discurso que invisibiliza nossa condição HUMANA, temos que nos afirmar enquanto sujeitos autônomos e capazes de tomar decisões!

Enquanto as mulheres forem condenadas a meras presas sexuais, não teremos qualquer sombra de igualdade. Enquanto o sexo for usado como ferramenta de poder, coerção, humilhação, seremos todas prisioneiras dessa lógica. Imagine se você, homem, sofresse uma série de retaliações apenas por fazer sexo com as pessoas que deseja? Você se conformaria com isso?

É muito fácil para os homens, que são tão, mas TÃO desenvoltos sexualmente que chegam ao extremo de COLECIONAR “presas” femininas. É com tremenda ojeriza que ainda escuto os machos se vangloriando da quantidade de mulheres com quem fizeram sexo, como se cada uma delas fosse uma conquista, uma árdua batalha para…ter uma relação de prazer mútuo. Claro, é tido como um enorme esforço para um homem convencer uma mulher, já atraída por ele, a simplesmente transar. Mulheres não apreciam o sexo, elas apenas perdem a batalha do acasalamento e se sentem obrigadas a baixar a guarda para o macho reprodutor neandertal. Deprimente. Para o horror dos machistas, mulheres sentem prazer sim,  podem fazer sexo com várias pessoas sim, e nem por isso precisam demonstrar superioridade diante d@s parceir@s – ninguém perde nada no sexo.

Na época, quando comecei um relacionamento sério, lembro de ter considerado o meu parceiro um verdadeiro “salvador” por ter me aceitado do “jeito que eu era”. Realmente, ele era uma ótima pessoa, que em nenhum momento se incomodou com a suposta “fama” que alguns me atribuíram, mas nem de longe a atitude dele era caridosa como eu imaginava. Acabaram acontecendo vários episódios no meu relacionamento em que eu cedi e me calei por acreditar que ele merecia mundos e fundos, eu praticamente me arrastava aos pés dele porque “ninguém mais me aceitaria” como ele me aceitou. Basicamente, minha auto-estima estava em migalhas, tudo por culpa de uns poucos imbecis que tentaram me reduzir a um pedaço de bosta. Por sorte, tive a chance de superar tudo isso com o tempo – mas muitas mulheres continuam imersas nessa lógica.

Se eu pudesse voltar atrás e fazer algo diferente, com certeza não teria me envolvido com metade das pessoas daquela época. Hoje, é claro, sou muito mais segura e ciente da minha posição de sujeito na humanidade, e saberia reconhecer de longe uma pessoa com más intenções. Mas, é sempre bom lembrar que existem ótimos atores por aí, e mesmo que alguém tente um dia me rotular como puta ou qualquer coisa do tipo, estarei totalmente consciente dos meus direitos e sairei ilesa da situação. Aliás, quanto mais conscientes as pessoas ao redor, maior a tendência de que o espertinho seja considerado um idiota. Qualquer amig@ que convivo atualmente massacraria um homem que tentasse enquadrar uma mulher como vadia por causa da sua sexualidade – os belos frutos do livre pensamento!

Toda mulher, alguma vez na vida, já foi chamada de puta. E a prostituta em si é a figura mais marginalizada da sociedade. Somos todas putas, vagabundas, vadias, biscates, galinhas, fáceis e rodadas em algum momento, por um segundo. Ofender uma mulher é sinônimo de ofender sua sexualidade, é tocar naquilo que nos atribuíram como fraqueza: a nossa libido. Mas, ao contrário do que tentam nos convencer, nossa sexualidade é força, é ousadia, é empoderamento. Somos repletas de desejos, e somos donas de cada um deles.

O que eu quero? Um mundo dominado por pessoas que respeitam a vida d@ outr@ independente do gênero e das escolhas sexuais. Eu e outras tantas mulheres teriamos sido poupadas de tanto sofrimento, angústia e desespero, apenas por não se enquadrar em um sistema que na verdade é uma grande masmorra. Querem tomar nosso sexo e nossas vidas, transformar-nos em objetos manipuláveis, descartáveis, a não ser que aceitemos suas condições alienantes.

A boa notícia é que não precisamos mais deles. Aqueles que nos julgam, que enchem a boca para dizer “puta”, que nos reduzem a utilitários da satisfação alheia, que tentam nos desanimar, eles não são mais ninguém. Na minha vida eles são manchas de um passado sombrio, e todos os que repetem seus discursos são imediatamente recusados. Eu aprendi que ser mulher é defender os próprios direitos o tempo inteiro, é praticamente brigar pela própria humanidade. E como diz a frase que coloquei no meu Facebook esses dias:

“Qualquer um que queira me comandar
Estado, Igreja, Família ou “Parceiro”
Será o tirano e meu inimigo!”

Post escrito ao som de Detestation ❤

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Público-alvo: Mulheres. Tema de Campanha: Beleza. Slogan: Seu corpo, nosso lucro.

Como publicitária, já estou cansada de ouvir falar em “público-alvo”, ou target, dá no mesmo. Todos os textos que eu produzo no meu trabalho partem de um briefing do cliente, ou seja, uma descrição detalhada do contexto daquela peça: objetivo, histórico da empresa, características do serviço/produto, mercado principal, perfil do consumidor, etc. Às vezes, é preciso que eu leia 10 páginas de texto para criar uma pequena frase de impacto, isso quando não tenho que pesquisar internet afora qualquer expressão que me aproxime da linguagem daquele público, buscando a empatia e a identificação a qualquer preço. Tudo para que a minha mensagem chegue sem ruídos até esse público e o cliente possa vender seu maldito produto/serviço para quem ele quiser.

Muitas vezes sou obrigada a escrever porcarias impregnadas de preconceito de classe, raça, gênero, e dessa forma tomo consciência da ferocidade dos estereótipos, que classificam arbitrariamente as pessoas em grupos e sacrificam sua individualidade. Algumas dessas vezes passo horas me questionando sobre a origem dessas marcações, e não consigo mais ler qualquer conteúdo segmentado sem refletir sobre as intenções d@ autor@. É evidente que cada texto produzido para determinado público exige que @ redator@ mergulhe de cabeça no status quo daquele grupo e reafirme todos os seus valores, pois não há muito espaço para mudanças ou subversões quando a missão é cativar. Uma vez que você perceba isso, todo conteúdo destinado à massa é visivelmente tendencioso.

Hoje, especialmente, proponho uma reflexão sobre o conteúdo feminino que nos é disponibilizado. Quem é o target feminino no Brasil? Quais mensagens estão nos enviando e por que elas nos atraem? Um passeio breve por alguns portais femininos da internet foi o suficiente para esse post.


As categorias mais populares do conteúdo feminino

Beleza em geral – seja bonita, seja perfeita, seja maravilhosa.
Boa Forma –
invista no seu corpo, malhe, faça dieta, não seja preguiçosa.
Maquiagem –
não esquece do corretivo, do pó compacto, truques que diminuem seu nariz.
Pele –
tenha a pele macia, suave e sem rugas.
Cabelos –
lindos e radiantes ao vento, sem pontas duplas, sem frizz.
Cirurgia Plástica –
silicone no peito, na bunda, na perna, só não pode colocar na barriga.
Horóscopo – só o místico pode te orientar em alguma coisa nessa vida, consulte os astros.
Família –
filhos, rotinas domésticas, maridão, carrinho do supermercado.
Casamento –
encontre o homem perfeito, mantenha o tesão, mantenha o interesse.
Receitas – cozinhe para a família, lave a louça e cozinhe outra vez.
Famosos –
tudo sobre pessoas que você sempre quis ser, mas nunca vai chegar perto.
Amor e Sexo –
deixe ele louquinho, consiga seu orgasmo, aprenda a fazer sexo anal.
Casa –
decoração, organização, limpeza, tudo para o ambiente doméstico.
Compras – encontre coisas que você não precisa para desejar.


Alguns sites também contam com categorias para carreira, mas o mais impressionante foi perceber a raridade de assuntos ligados à política, ciência, tecnologia, sociedade, e até mesmo do clássico noticiário. Eu confesso que pensei que o cenário estaria um pouquinho melhor, mas me deparei com uma avalanche de clichês e muitos artigos me chocaram pelo tom acusatório, em especial nas seções que tratavam de corpo. Ver o uso daquela linguagem de proximidade, cheia de gracejos, em contraste com uma mensagem violenta, me fez levar as duas mãos ao rosto várias vezes (facepalm detected).

Hoje escolhi falar exclusivamente de corpo, mas garanto que esses temas ainda vão render por aqui.

Corpo – território colonizado

As frases a seguir foram retiradas de diversos artigos direcionados ao público feminino, disponíveis em portais que são referência em conteúdo na internet:

“Independente de características genéticas, a flacidez é uma inimiga voraz que atinge todas as mulheres, principalmente as adeptas de uma vida sedentária, que não praticam atividades físicas freqüentes.”

“O lifting de bumbum é indicado para pacientes com flacidez de pele, que deixa a aparência “caída”. O procedimento é simples: uma incisão é feita no sulco entre o bumbum e coxa para deixar a cicatriz disfarçada e levantar a região.”

“Em primeiro lugar, lembre-se que estria é um assunto sério, difícil de tratar e, por isso, a prevenção é ainda a melhor opção.Para descobrir o tratamento ideal para o seu caso, entretanto, é necessário consultar um bom profissional para orientá-la sobre uma ou mais formas que podem ser feitas, inclusive, simultaneamente.”

“Para ser a gata da praia desse verão, é preciso começar desde já um plano de redução de medidas que irá colocar as gordurinhas no lugar, amenizar o aspecto de casca de laranja que a celulite causa e dar adeus à flacidez. Para isso, um novo tratamento surge para dar uma forcinha nessa batalha. Trata-se do Velashape, um equipamento que utiliza a sinergia entre a luz infravermelha e a radiofreqüência, que aquece os tecidos profundos da derme. Ficou curiosa? Então leia abaixo tudo sobre esse aparelho que está dando o que falar.”

“[…]a modelo e apresentadora Daniela Freitas, de 23 anos. Não é para menos, com 55 quilos bem distribuídos em seu 1,66 metro de altura, Daniela tem um “plus” a oferecer aos telespectadores aficionados por futebol. Com novo visual, ela agora exibe sensualmente seios mais volumosos graças a um implante de silicone de 215 ml em cada um. Ela faz questão de ressaltar que optou pelo método das axilas para não deixar qualquer marca ou cicatriz no corpo. Em meio a um dia-a-dia atribulado, Daniela abriu um espaço em sua agenda para contar esse e outros detalhes estéticos para o Fique Linda.”

Um rosto bonito e mais jovem, mamas firmes, abdome definido, coxas sem celulite, bumbum levantado, tudo isso deixa uma mulher absolutamente feliz. Mas quando o aspecto dos seus genitais não agrada, isso traz enorme insatisfação e grande constrangimento para a mulher.”

Esses são apenas alguns trechos do show de horrores que encontrei. Não basta criar um padrão ditador de beleza e pressionar todas as mulheres para que se enquadrem de acordo com a “tendência” do momento, é preciso convencê-las de que qualquer esboço de resistência será automaticamente julgado como preguiça, incompetência e desleixo. Não basta decidir que o formato ideal dos seios é privilégio de uma minoria, é preciso reverenciar o silicone como a salvação para todas as pobres mortais marginalizadas da estética. Não basta ter uma empresa e lucrar com a baixa auto-estima das mulheres, é preciso tomar o lugar da amiga mais próxima e lhe dizer exatamente o que deve fazer com seu corpo, para enfim ser merecedora de algum prestígio social.

Todas as características comuns do corpo feminino foram cuidadosamente demonizadas: a celulite, a flacidez, as estrias, as rugas. Ai de quem argumentar que todos esses vilões não passam de aspectos naturais do corpo da mulher, por mais que artigos tendenciosos culpem a mulher e seu estilo de vida “errado” por esses males, sabemos que são compartilhados por TODAS nós – em maior ou menor grau. Faz muito mais sentido dizer que são sinais absolutamente normais, que nos acompanham e fazem parte da nossa identidade. Podemos encontrá-los em mulheres de todas as culturas e estilos de vida, e já foram encarados como algo belo e que simplesmente faz parte dos nossos corpos e da sua história. A condenação do nosso corpo natural só serve aos interesses de uma indústria que lucra mais de 18 bilhões ao ano e tem perspectivas de crescimento de quase 20%, que curiosamente saiu imune de uma das maiores crises econômicas que se tem notícia.

A mulher ideal só é alcançada de fato com um belo Photoshop, com ferramentas cretinas como Clone Stamp (a base perfeita) e Liquify (o bisturi perfeito). A superfície da pele é totalmente lisa, sem qualquer expressão, e toda leve depressão, protuberância ou textura é criminalizada. Foi-se o direito de balançar, deram ao livre movimento feminino o nome de flacidez. Sim, nossos corpos balançam, podemos acumular gorduras em locais diferenciados sem qualquer impacto em nossa saúde, e esses pedacinhos vão se mover quando estivermos caminhando, dançando, correndo ou pulando. Mas, parece que nossos amigos da indústria da plástica e dos cremes firmadores não estão interessados em nossos movimentos, provavelmente estão sentados agora imaginando mais dez maneiras de corrigir nossos corpos, ou em qual será o próximo defeito fantasioso que vão lançar no mercado.

É só parar para pensar. Não existe uma partezinha do nosso corpo para a qual não exista uma correção. Vamos lá, de cima para baixo: Você precisa de 0934829358745 cremes e tratamentos para o seu cabelo, mais alguns para o couro cabeludo, quem sabe um redutor de rugas para a testa, uma cirurgia de correção para orelhas, uma rinoplastia, um creme depilatório para o buço, mais blush para as bochechas, uma correção cirúrgica no queixo, um creme anti-aging para o pescoço, um spray bronzeador para um colo atraente, duas belas próteses de silicone para os seios, descolorante para os pelinhos do braço, creme para combater o ressecado do cotovelo, malhação contra o músculo preguiçoso do “tchau”, manicure semanal para unhas perfeitas, laser para tirar manchinhas das mãos, uma lipo nas gordurinhas que saltam nas costas, mais uma lipo na cinturinha ou nos casos mais graves remoção de costela, mil e um tratamentos e cirurgias que prometem livrar você da pancinha e dos culotes, correção do umbigo, prótese na bunda, malhação sem descanso para as coxas, cirurgia para tirar o excesso dos lábios genitais, depilação anal em dia, um belo hidratante para as pernas, cirurgia de correção das canelas grossas, pedicure em dia e salto alto presente.

E pensar que eu dei pouquíssimos exemplos perto da enorme variedade de correções absurdas que inventaram para o nosso corpo. O tal do “cuidado” e “bem-estar” já passou dos limites e se tornou obsessão há muito tempo, e por acaso essa mesma obsessão virou pauta preferida do conteúdo direcionado às mulheres. Podem dizer que os homens estão começando a entrar no alvo dessa indústria também, mas a pressão sobre eles ainda é muito menor que a exercida sobre as mulheres. A obrigação de ser bonit@ ainda é majoritariamente feminina.

É óbvio que, quanto maior o número de mulheres profundamente insatisfeitas com seus corpos, maior é o lucro da indústria da beleza, e consequentemente, maior é a audiência, alcance e penetração dos meios de comunicação que incentivam esse tema. Sinceramente, não devemos esperar qualquer mudança daqueles que ganham dinheiro com a situação, mas podemos esperar a transformação desse cenário utilizando justamente os veículos de comunicação.

As mulheres estão satisfeitas com esse conteúdo atualmente porque aprenderam a associar beleza como uma questão feminina, e porque não são expostas a nenhum conteúdo diferenciado com uma linguagem que se aproxime do seu cotidiano. Toda mulher que se adapta às expectativas de beleza ganha a tão sonhada aprovação social, e dessa forma ela precisa ser alimentada diariamente com as novas promessas da indústria. Mas, o grande trunfo dos embelezadores é o fato de que elas NUNCA ficarão completamente satisfeitas, porque o que move essa lógica é a meta de beleza inalcançável, aquela que nenhuma mulher poderá ser competente o suficiente para atingir.

As conseqüências da desobediência são fatais, toda mulher sabe que subverter uma regra de beleza pode lhe custar uma ofensa, uma desaprovação ou mesmo o terrível estigma da feia, relaxada e descuidada. Assim, ess@s autor@s de artigos femininos se apresentam como melhores amigas, salvadoras da pátria, aquelas que vão poupar a pobre mulher do seu destino solitário com milhares de dicas, que vão deixá-la um poquinho mais próxima do ideal de beleza – mas nunca o bastante. É como pendurar uma cenoura na sua frente e prendê-la à sua cabeça, você pode correr feito uma retardada, mas nunca vai chegar lá.

Daí, a mulher resolve enfim brigar contra toda essa loucura, e descobre que as pessoas mais próximas também são agentes a serviço da ditadura da beleza. Quem ousa desafiar a lógica pode sofrer com a reprovação das pessoas que mais ama e confia, e por isso muitas preferem permanecer na silenciosa rotina da missão-beleza a correr o risco de destruir a própria vida pessoal. Não podemos culpar essas mulheres, afinal, a pressão é gigantesca e o preço a se pagar alto demais. Mas, ainda podemos mostrar a elas algumas formas diferentes de pensar a própria imagem.

Uma breve observação no panorama geral pode ajudar a despertar uma nova perspectiva, afinal, não é possível que nossos corpos estejam completamente errados e que o nosso destino seja enriquecer a indústria da beleza com as nossas intermináveis frustrações. Tem algo de muito errado nessa história. Não me parece justo que eu acesse conteúdo buscando informações relevantes e me depare com milhares de artigos invadindo meu corpo e impondo que ele seja transformado a qualquer custo. Se o meu corpo é o meu instrumento de relação com o mundo, algo tão particular, como pode uma indústria mesquinha apoderar-se dele por completo? Como pode a cultura da beleza ter chegado ao ponto de bombardear meu espaço mais íntimo, me convencendo de que preciso entregá-lo aos seus cuidados?

“A indústria quer aumentar a auto-estima das mulheres, está apenas dando o que elas querem” dizem por aí. O que as mulheres querem, assim como todo ser humano, é respeito e auto-realização. A ditadura da beleza criou necessidades que não existem e as apresentou como ferramentas legítimas de aprovação social para as mulheres. Mulheres com auto-estima fortalecida não interessam a ninguém, porque não precisariam consumir e tampouco permitiriam que seu corpo fosse objeto de intervenção constante para “correções”.

Lembro de uma frase de Gloria Steinem (ou seria da Greer?) que diz: “Toda mulher sabe que não importa o tamanho do seu sucesso, ela será sempre um fracasso se não for linda”. Ou algo assim. O importante é denunciar que mulheres políticas, engenheiras, arquitetas, sociólogas, presidentas, atletas, pedreiras, professoras, astronautas, ou seja lá de qual profissão forem, ainda são julgadas em primeiro plano pela sua beleza. A imprensa insiste em evidenciar a “feminilidade” da mulher que escolheu uma profissão considerada “masculina”. “É uma policial durona, mas não deixa de cuidar dos cabelos e ser vaidosa”.

Tenho náuseas quando essa mesma indústria fala em “cuidados pessoais”. As mulheres vítimas desse terrorismo não estão “se cuidando”, estão se esforçando como loucas buscando a aprovação social e a adequação aos padrões. E claro que o caminho das dietas, exercícios e clínicas de estética é no mínimo exaustivo. As mulheres não estão buscando o “sentir-se bem” consigo mesmas em campos floridos como nas propagandas, elas SÃO OBRIGADAS a associar o bem-estar com o único modelo aceitável de ser mulher. Só se sente realmente BEM a pessoa que é aceita socialmente e goza de plena liberdade, e o único caminho que deram às mulheres para isso está atrelado a um modelo de beleza utópico. A estratégia deles é dizer que você será mais feliz com 5 kg a menos e uma sessão de Manthus, quando na verdade estão criando uma imposição para que os outros te impeçam de ser feliz caso você não ceda às pressões.

O meu recado para as moças é simples: NÃO, VOCÊ NÃO ESTÁ FAZENDO ISSO PORQUE QUER SE SENTIR BEM CONSIGO MESMA. Você está simplesmente se rendendo, exausta, ao que tanto cobraram de você e te convenceram durante anos. Você não coloca silicone nos seios para que você mesma se goste, essa é a condição que te impuseram para o mínimo de felicidade. Você nunca teria “corrigido” o seu corpo se alguém não te convencesse de que existe algo errado, de que há um “certo” para todas e de que não é possível ser completa sem obedecer esse padrão. Eu nunca vou te culpar por isso, mas quero que você saiba que existe um caminho diferente, em que você pode olhar no espelho e se admirar, se reconhecer na própria pele, exigir sua própria identidade e mandar a indústria da beleza pro inferno – junto com o lixo tóxico desses sites.

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