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Vadia, puta, vagabunda e rodada.

Esses dias fiquei pensando na coleção de estereótipos femininos dos quais já fui vítima durante a vida. Passei pela sapatão desengonçada (apelidada de “jamanta”), pela CDF frígida, pela maria-moleque, pela gorda mal-amada, tudo isso até a oitava série mais ou menos – inclusive, vou precisar de um post só pra contar essas histórias decadentes da minha infância e pré-adolescência, mas fica pra uma outra hora. A partir do colegial as coisas começaram a mudar um pouco, chegando ao status de “roqueira rebelde”, “nóia”, basicamente a revoltada clássica, com sérias tendências bully (revanchismo).

Mas, nenhum estereótipo pode ser tão feroz quanto aquele que mais tarde eu conheci: “puta”. Nas suas variações, “vagabunda” , “vadia”, “biscate”, e claro… “rodada”. Não é novidade que as mulheres só tem duas opções dentro do patriarcado, Santa ou Puta, Maria ou Eva, boa esposa/mãe/namorada ou vagabunda marginal. As pessoas não conseguem enxergar as mulheres como pessoas plurais, autênticas e autônomas, elas precisam ter seu comportamento enquadrado nessas categorias, e existe uma vigilância especial no campo da sexualidade e do corpo. Com quantos seres você transou, quantas vezes e como o fez parece constituir a identidade da mulher, e determinar o nível de respeito com que será tratada.

Quanto mais sexo, pior a mulher é. É, exatamente, mais experiência sexual = menos dignidade. Fórmula bem pensada essa, hein? Pois é, todo mundo engoliu essa lorota e segue com fidelidade. A fonte desse pensamento é bem clara, desde a origem do patriarcado o homem busca desesperadamente controlar a sexualidade da mulher, para que ela se mantenha fiel ao seu papel de esposa e mãe dedicada, e também conceda exclusividade sexual ao homem que afirma sua autoridade sobre ela. Os homens sempre se reservaram ao direito de ter quantas parceiras desejassem, mas exigiam que sua dóceis mulheres fossem virgens, para servi-los com total obediência.

Muitos ainda usam do discurso biológico para justificar tal postura, mas a pílula anticoncepcional e outros métodos de contracepção provaram que a mulher também sente desejo sexual, e que o sexo não é mais escravo da reprodução. Hoje muitas mulheres buscam autonomia sexual e escolhem livremente seus parceiros, mas ainda pagam o preço da desigualdade. Aquela velha história do homem garanhão x mulher galinha, que concede honrarias aos homens de vida sexual ativa e cospe nas mulheres que ousam ter a mesma liberdade. Puro preconceito e misoginia.

Foi dado aos homens o direito inalienável de conhecer e explorar a própria sexualidade, o que sem dúvida contribui para a fama de “insaciáveis”. Quanto mais se conhece o próprio corpo e os desejos, maior a chance de vivenciar o sexo com novas pessoas, e maior a satisfação. Infelizmente, ainda hoje esse direito é negado às mulheres desde muito pequenas, sempre condicionadas a esconder e reprimir os impulsos sexuais caso queiram o “respeito” dos homens. Essa é uma das razões pelas quais a mulher leva mais tempo para ter consciência do próprio corpo, para atingir o orgasmo e expor seus desejos na cama.

Enfim, eu acreditei em tudo isso quando era mais jovem. Esse discurso foi martelado na minha cabeça incessantemente. “Menina, não faz besteira”, “Mulher tem que se dar ao respeito”, “Você foi pra cama com ele? Que absurdo!”, “Você não presta”, “Só pode com o namorado, e depois do casamento”, “Você vai entregar seu maior tesouro (virgindade) pra qualquer um?”.

A minha família, apesar de não ser das piores, sustentou com louvor todos esses mitos. Mas, na época, eu me sentia diferente das outras meninas que simplesmente levantavam aquela bandeira da pureza – falsa pureza, é claro. Eu via minhas amigas escondendo a sete chaves tudo o que faziam, vivendo praticamente uma vida dupla, engavetando a noite passada e vendendo a imagem santificada durante o dia. Eu já tinha dentro de mim uma necessidade de subverter tudo, questionar tudo, e um dos meus primeiros “foda-se” adolescentes foi admitir que eu tinha tesão. Como sempre, eu não queria viver uma mentira.

Não que eu fizesse sexo loucamente, estava longe disso, aliás, meu conhecimento sobre o meu corpo era tão raso que eu não tinha muito o que aproveitar das minhas relações sexuais. Basta uma garota fazer sexo com dois caras e eles se conhecerem pra surgir o boato de que “dá pra qualquer um”.

Em primeiro lugar, eu nunca “dei” nada, ninguém ficou com um pedaço meu, ninguém me tirou algo valioso e eu não tive que “ceder” aos apelos do parceiro.Ah, minha buceta continua aqui, obrigada. Eu fiz…porque é legal fazer. Ohhhh. Eu QUERIA, sabe? Oi? Tenho vontade, voz, libido, autonomia, direito, ok? Em segundo lugar, “qualquer um” somos todos. Coincidentemente, a maioria dos seres humanos não se conhece, então somos sempre “qualquer um” antes de mais nada. Depois de conhecer um ser humano, o mínimo necessário, ele deixa de ser “qualquer um” e se torna “um”, mais um deles, porém com suas próprias características e particularidades. Assim, a partir do momento que eu escolhi uma pessoa e me senti sexualmente atraída por ela, deixa de ser “qualquer um”. É a MINHA escolha, meu “um”, entendido? E assim por diante, quantos “uns” eu desejar e que correspondam. Logo, não existe isso de “dar pra qualquer um”, todos foram escolhas legítimas, cujos critérios só dizem respeito a mim. Se eu quiser me relacionar mais vezes ou construir um relacionamento mais sério, a escolha também é toda minha.

É muito comum um machinho deduzir que você vai “dar” (termo mais zé punheta do mundo) pra ele caso tenha “dado” para um número x de caras que ele conheça. Mesmo que ele não seja nem um pouco interessante, ou você não tenha dado nenhum sinal de aprovação. A mensagem que colocaram na cabeça é: “mulheres estão sempre disponíveis”, e se a mulher em questão dá indícios de que é sexualmente ativa, aí fica mais vulnerável ainda. Eles simplesmente não conseguem enxergar uma mulher como um ser humano pensante, que toma suas próprias decisões, é sempre uma menininha inconsequente, perdida, transando com os outros por pura ingenuidade, ou uma putona auto-destrutiva transando por profunda devassidão. Mas que merda! Não se pode simplesmente fazer sexo por vontade e conscientemente sendo mulher? Não tentem excluir metade da humanidade de uma vivência sexual saudável, não cola mais, meus queridos.

Uma lembrança muito vívida me inspirou para escrever esse post. Na minha saudosa adolescência, eu não sabia dos meus direitos, da minha capacidade, não reconhecia minha identidade como mulher. Fui educada pra ter uma auto-estima ridícula, pra obedecer as normas vigentes e me conformar com tudo, como a maioria esmagadora das mulheres. E mesmo assim, resolvi desafiar a ordem das falsas meninas virginais, buscando sexo com quem eu bem entendesse.

Foram inúmeras ofensas, e, repito, não porque eu realmente fizesse sexo com muita gente (deveria!), mas porque eu ASSUMIA gostar de sexo e REIVINDICAVA fazê-lo com quem quisesse. Talvez eu tenha feito muito menos sexo que outras amigas minhas, a diferença é que eu não admitia me esconder pra agradar os outros. Eu procurava ignorar a opinião dos menos conhecidos e até tinha sucesso, mas o que mais machucava era escutar o mesmo discurso de amig@s próxim@s e pessoas queridas no geral. Mas acho que o pior de tudo mesmo era que, em plena época de ansiedade por um “grande amor”, quando eu ainda acreditava no mito do cara super incrível que ia me completar, percebi que muitos não queriam me “levar a sério” por causa da minha postura.Hoje eu saberia que não passavam de um bando de babacas estilo “8ªB”, que tratavam todas as mulheres como se fossem lixo, até aquelas que se enquadravam na lógica machista deles. Tentar se adequar ao padrão desses homens que odiavam mulheres era a tarefa das minhas amigas, e vi o sofrimento delas de perto.

Mesmo assim, sofri muito. Não entendia porque as pessoas agiam daquela maneira, mas ainda demorei pra desvendar as hierarquias do macho e os papéis estúpidos que reservavam às mulheres. Queria ser livre, mas os outros exigiam que eu me reprimisse em troca da liberdade. Chorei noites a fio, acreditando que nunca um homem ia querer ficar comigo, que eu teria que me adaptar um dia, cheguei a acreditar que uma mulher era “suja” por sentir tesão. As pessoas que me amavam me diziam que eu tinha que mudar, que tinha que “aceitar o mundo como ele é”, que os homens sempre pegariam todo mundo e as mulheres apenas resistiriam a eles o quanto pudessem. Logo eu, que gostava de abordar meus potenciais parceir@s, que me sentia livre leve e solta, que aproveitava todos os momentos e nunca deixei de respeitar alguém que estivesse comigo, mesmo que por uma hora apenas. Pelo contrário, sempre tive consideração por quem fiquei, e sempre esperei o mesmo – doce ilusão.

Outro termo que marcou bastante, e que hoje me fez refletir, foi o “rodada”. Os caras falavam em “rodar a banca”, “passar na mão de todos” (detalhe, considerando a mesma regrinha de ficar com dois que se conhecem). Fiquei construindo uma imagem para esse termo na minha cabeça, e seria mais ou menos assim: Vários homens em um círculo, jogando uma garota meio amolecida, meio apática de um para o outro, como se fosse um joguinho, passando-a pela “mão” de todos. Essa garota, claro, é um ser totalmente inanimado, sem voz, sem presença, apenas satisfazendo os homens que por alguma razão fazem parte do mesmo círculo de machinhos.

É exatamente como um “estupro grupal”, é o gang bang da vida real, classificar mulheres como “rodadas” para que se sintam violadas em suas vidas, vetadas do desejo sexual. GENTE, isso não existe! Mulher tem desejo, tem pele, tem escolha! Mulher NÃO É OBJETO, É SUJEITO DA RELAÇÃO. Objetos não sentem, não falam, não decidem nada, sujeitos agem, reagem e se fazem perceber! Got it? Nenhum homem tem o direito de submeter uma mulher ao rótulo de um objeto inerte, que apenas foi utilizado por outros homens. A mulher também sente PRAZER na relação, como pontuei no outro post, e sua moral não é arrancada durante um ato sexual.Não podemos nos render a esse discurso que invisibiliza nossa condição HUMANA, temos que nos afirmar enquanto sujeitos autônomos e capazes de tomar decisões!

Enquanto as mulheres forem condenadas a meras presas sexuais, não teremos qualquer sombra de igualdade. Enquanto o sexo for usado como ferramenta de poder, coerção, humilhação, seremos todas prisioneiras dessa lógica. Imagine se você, homem, sofresse uma série de retaliações apenas por fazer sexo com as pessoas que deseja? Você se conformaria com isso?

É muito fácil para os homens, que são tão, mas TÃO desenvoltos sexualmente que chegam ao extremo de COLECIONAR “presas” femininas. É com tremenda ojeriza que ainda escuto os machos se vangloriando da quantidade de mulheres com quem fizeram sexo, como se cada uma delas fosse uma conquista, uma árdua batalha para…ter uma relação de prazer mútuo. Claro, é tido como um enorme esforço para um homem convencer uma mulher, já atraída por ele, a simplesmente transar. Mulheres não apreciam o sexo, elas apenas perdem a batalha do acasalamento e se sentem obrigadas a baixar a guarda para o macho reprodutor neandertal. Deprimente. Para o horror dos machistas, mulheres sentem prazer sim,  podem fazer sexo com várias pessoas sim, e nem por isso precisam demonstrar superioridade diante d@s parceir@s – ninguém perde nada no sexo.

Na época, quando comecei um relacionamento sério, lembro de ter considerado o meu parceiro um verdadeiro “salvador” por ter me aceitado do “jeito que eu era”. Realmente, ele era uma ótima pessoa, que em nenhum momento se incomodou com a suposta “fama” que alguns me atribuíram, mas nem de longe a atitude dele era caridosa como eu imaginava. Acabaram acontecendo vários episódios no meu relacionamento em que eu cedi e me calei por acreditar que ele merecia mundos e fundos, eu praticamente me arrastava aos pés dele porque “ninguém mais me aceitaria” como ele me aceitou. Basicamente, minha auto-estima estava em migalhas, tudo por culpa de uns poucos imbecis que tentaram me reduzir a um pedaço de bosta. Por sorte, tive a chance de superar tudo isso com o tempo – mas muitas mulheres continuam imersas nessa lógica.

Se eu pudesse voltar atrás e fazer algo diferente, com certeza não teria me envolvido com metade das pessoas daquela época. Hoje, é claro, sou muito mais segura e ciente da minha posição de sujeito na humanidade, e saberia reconhecer de longe uma pessoa com más intenções. Mas, é sempre bom lembrar que existem ótimos atores por aí, e mesmo que alguém tente um dia me rotular como puta ou qualquer coisa do tipo, estarei totalmente consciente dos meus direitos e sairei ilesa da situação. Aliás, quanto mais conscientes as pessoas ao redor, maior a tendência de que o espertinho seja considerado um idiota. Qualquer amig@ que convivo atualmente massacraria um homem que tentasse enquadrar uma mulher como vadia por causa da sua sexualidade – os belos frutos do livre pensamento!

Toda mulher, alguma vez na vida, já foi chamada de puta. E a prostituta em si é a figura mais marginalizada da sociedade. Somos todas putas, vagabundas, vadias, biscates, galinhas, fáceis e rodadas em algum momento, por um segundo. Ofender uma mulher é sinônimo de ofender sua sexualidade, é tocar naquilo que nos atribuíram como fraqueza: a nossa libido. Mas, ao contrário do que tentam nos convencer, nossa sexualidade é força, é ousadia, é empoderamento. Somos repletas de desejos, e somos donas de cada um deles.

O que eu quero? Um mundo dominado por pessoas que respeitam a vida d@ outr@ independente do gênero e das escolhas sexuais. Eu e outras tantas mulheres teriamos sido poupadas de tanto sofrimento, angústia e desespero, apenas por não se enquadrar em um sistema que na verdade é uma grande masmorra. Querem tomar nosso sexo e nossas vidas, transformar-nos em objetos manipuláveis, descartáveis, a não ser que aceitemos suas condições alienantes.

A boa notícia é que não precisamos mais deles. Aqueles que nos julgam, que enchem a boca para dizer “puta”, que nos reduzem a utilitários da satisfação alheia, que tentam nos desanimar, eles não são mais ninguém. Na minha vida eles são manchas de um passado sombrio, e todos os que repetem seus discursos são imediatamente recusados. Eu aprendi que ser mulher é defender os próprios direitos o tempo inteiro, é praticamente brigar pela própria humanidade. E como diz a frase que coloquei no meu Facebook esses dias:

“Qualquer um que queira me comandar
Estado, Igreja, Família ou “Parceiro”
Será o tirano e meu inimigo!”

Post escrito ao som de Detestation ❤

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Em plena Era do tesão, minha libido ainda é subversão!

Um dia comum, caminhando até o restaurante ou qualquer coisa do tipo, trocando umas palavras preguiçosas com um amigo e colega de trabalho. Logo o assunto caminha para sexo, porque nada é mais eficiente quando se trata de combater o profundo tédio do horário comercial. Não me importo, falo de sexo como se falasse do clima, quanto mais se fala maior a chance de desmistificar as besteiras que enfiaram nas nossas cabeças. E, como dizem alguns amigos meus, buceta é uma das minhas palavras preferidas.

Logo os tópicos chegam até o tal do ménage, o tão desejado sexo a três. A versão com duas mulheres é o sonho de todo cara médio, muito embora a maioria ainda vá descobrir que não é do jeito que disseram e que satisfazer uma mulher já é complicado, imagine duas. Mas, enfim, vale tudo pelo fetiche de ter não apenas um – mas dois dos seres mais sexualizados do planeta em uma única relação. Até aí ok, mas vamos ver o que acontece quando chegamos até o ménage que envolve dois homens e uma mulher.

“_Se ela quer fazer isso, problema dela, sorte dos caras!”.

[pausa para processamento da informação]

WTF?

[busca no banco de dados culturais, históricos e sociais no contexto ocidental contemporâneo]

AH TÁ.

[momento #feministadepressão]

Pois é, o que poderia ser pior para uma mulher do que FAZER SEXO? O que a levaria a ter maiores perdas significativas em sua vida, moral e direitos do que uma sessão de sexo com dois homens? E claro, NUNCA uma mulher poderia fazer sexo grupal com total consciência e segurança dos seus desejos, porque afinal, a autonomia sexual pertence ao homem e ela será meramente “usada”. Não era uma vontade da moça, foi um momento de coerção e agora ela foi definitivamente lesada por ter gozado com dois homens.

Não sei se dou risada ou se choro. Em pleno 2011, com toda essa efervescência erótica, corpos rosados sorridentes por toda a parte, lábios convidativos e publicidade carnal, as pessoas ainda acreditam que as mulheres não gostam de sexo ou que existe alguma coisa errada (não se sabe bem o que) na escolha feminina de fazer sexo com dois ou mais homens.De alguma forma, esses homens se convenceram de que a mulher TEM ALGO A PERDER no sexo, que a relação sexual subtrai alguma misteriosa força da mulher e adiciona ao homem.

As mulheres pioneiras em abordagem sexual ainda causam ojeriza nesses homens que dizem ser fanáticos por sexo, quando na realidade parecem mais preocupados com a carga simbólica de foder uma mulher do que com o próprio prazer. Às vezes penso que, para a maioria dos homens, é mais prazeroso apresentar as conquistas ao grupo de amigões do que desfrutar dos momentos com as parceiras. Tenho a impressão de que eles mentalizam listas quantitativas de relações sexuais, na tentativa de manter um poder sobre as mulheres que não faz mais sentido algum.

Qualquer homem vai dar um chiliquinho se ouvir uma feminista falando mal de penetração e sugerindo outras maneiras de fazer sexo, porque para a maioria deles essa prática é a essência de tudo. Ok, não teria problema eles terem essa preferência, mas por que afinal os próprios homens tendem a demonizar a penetração como ato agressivo e de domínio? A ideia de dois homens e uma mulher soa para eles como um castigo para a tal mulher, porque supostamente “sofrerá” a penetração de ambos. Peraí? SOFRERÁ? E eu achando que aquilo que eu sentia durante a relação com um homem era TESÃO.

Mas, infelizmente parece que o tesão das mulheres é algo extremamente “sujo” no mundo dos homens, a própria pornografia muitas vezes retrata a mulher em suposto sofrimento enquanto é penetrada. Não são raras as vezes em que homens reagem agressivamente ao comportamento insinuante de uma mulher, soltando pérolas como “essa vagabunda gosta de pica”. PORRA, e não é pra gostar então? É pra detestar?

Parece que esses homens gostam de pensar nas mulheres sob as óticas mais conservadoras, a velha máxima da “dama na sala, puta na cama”. Mulher não pode falar de sexo, não pode querer sexo, não pode ousar, não pode abordar…na verdade, até pode, mas vai ter que suportar um tratamento desrespeitoso e segregador só porque teve a audácia de expressar sua sexualidade. “Safadinha ela, hein”, afinal, mulher que é mulher precisa fazer “cu doce”, lançar um teatrinho do recato para lembrar aos homens que eles ainda mandam.

É com essa grande hipocrisia que os homens reivindicam a posição de sujeitos em qualquer relação sexual, usando todas as estratégias que seus privilégios lhes dão para colocar as mulheres no papel do objeto. A sexualidade feminina, para eles, permanece em função dos homens, como nos deprimentes velhos tempos. O prazer da mulher é uma ameaça, ao mesmo tempo em que eles só falam de sexo, não querem que elas se expressem da mesma maneira.

A buceta, para eles, é um mero receptáculo que satisfaz as necessidades do pinto. Não conseguem perceber o vigor dos músculos vaginais, a capacidade de movimentação e pressão que esse órgão tem e o quanto seu papel pode ser considerado ativo. Um homem não tem a simples capacidade de enxergar uma cena de sexo em que um homem penetra uma mulher por trás como uma relação de troca entre iguais, fica claro que, para eles, a pessoa penetrada carrega o fardo da inferioridade e da passividade.

A relação entre prazer e domínio é evidente nos valores masculinos tradicionais, seguindo como principal motivação sexual a lógica da presa/predador. Os mesmos homens que se dizem máquinas sexuais insaciáveis são os criadores de uma cartilha que impõe vários obstáculos ao exercício da sexualidade feminina, eles mesmos dificultam o prazer da mulher e reprimem seus interesses com seus valores machistas. Parece que não interessa fazer bastante sexo de qualidade, e sim utilizar o sexo como instrumento de poder contra as mulheres. Cada vez mais eu me convenço de que PRAZER não é a prioridade da vida sexual dos homens.

Para ilustrar um pouco, vamos ver alguns trechos de um texto qualquer que encontrei na internet (não vou nem citar a fonte para não causar mimimi’s):

“Este amigo me confidenciou da dificuldade em respeitar suas parceiras, pois já no primeiro encontro são estas que partem para os finalmente, tocando em partes que atiçam o seu desejo sexual… Não consigo imaginar um homem respeitando uma mulher assim.”

É extremamente perturbador como a maioria dos homens se acha no direito de respeitar ou não uma mulher de acordo com a sua vida sexual. Eles conseguem jogar no lixo toda a ideia de justiça, igualdade e companheirismo em troca do privilégio de julgar uma mulher e suas escolhas, dividindo toda a população feminina entre “decente” e “vadia”. Como é possível conciliar uma moral sexual cristã e conservadora, que acredita que o sexo é uma coisa imunda, e uma cultura que evidencia ao máximo o tesão do homem? A resposta é simples, jogando toda a sujeira nas costas das mulheres.

O cristianismo prega que a melhor mulher do mundo é uma virgem, passiva e maternal, e a pior foi responsável por seduzir um homem e estragar tudo. Isso soa ridículo para a maior parte das pessoas que se julgam um pouco informadas, mas ainda está 100% presente na mentalidade atual. A premissa do pensamento cristão é de que o sexo serve para reprodução, e por isso qualquer atividade sexual além desse objetivo é perversa. Com certeza não precisamos mais reproduzir, pelo contrário, a necessidade atual da humanidade é conter a super população e investir no planejamento familiar, que traz autonomia e melhores condições para tod@s. Dessa forma, podemos dizer que o sexo já é reconhecido como uma forma de relacionamento que traz intimidade, tesão e realização para as pessoas, mas ao mesmo tempo sobrevivem os valores que demonizam o prazer sexual – e que, curiosamente, pesam muito mais para as mulheres.

Claro que faz mais sentido colocar a culpa na mulher, é sempre conveniente atacar os mais fracos e vulneráveis. Apesar de considerar o sexo pecaminoso, os bons cristãos aplicaram essa regra apenas às suas dóceis esposas mantidas em cárcere doméstico, criando prostíbulos e determinando que algumas mulheres seriam servas sexuais marginalizadas e outras escravas particulares e mães das crianças. Enquanto as esposas eram privadas de uma vida sexual prazerosa e saudável, as prostitutas eram privadas da vida plena em sociedade e ficavam expostas a todo tipo de exploração e abusos, além de, é claro, não viverem plenamente seus próprios desejos. Assim, a educação sexual feminina foi direcionada para a total passividade e repressão dos próprios desejos, sob a ameaça de marginalização em caso de desobediência.

Com certeza já tivemos grandes avanços na mudança dessas imposições, pois hoje muitas mulheres estão conquistando a sonhada vida sexual livre. Hoje já é possível encontrar mulheres que vivenciam seus desejos e conhecem seus corpos, mas não sem a resistência dos homens e o julgamento da sociedade. Posso me colocar como exemplo nessa questão, pois me considero totalmente livre para escolher o que me dá prazer e quant@s parceir@s eu quiser, sem nenhum tipo de receio. Mas, por outro lado, preciso estar sempre atenta para as pessoas que desejo me relacionar, pois corro o risco de ser desrespeitada por alguém que ainda me julga um objeto da sua vontade. O preço que eu pago também é alto, pois as cobranças e pressões surgem de todos os lados. Família, conhecidos, meros colegas, todos se sentem no direito de analisar meu comportamento e fazer suas considerações, ou mesmo acusações covardes na tentativa de reprimir meu direito de escolha. Reajo a tudo fortalecendo minha auto-estima, pois sei que estou apenas exercendo meus direitos básicos enquanto ser humano, como os homens fazem. Busco meu prazer, minha satisfação, mas não me esqueço que estou vivendo em um mundo em que estupros acontecem dentro do próprio casamento e meninas pouco sabem sobre seus próprios orgasmos e corpos, enquanto os homens vivem livremente sua sexualidade com total aprovação social.

Por que eu faria sexo com alguém que não me respeita? Por que qualquer mulher faria sexo se soubesse que os homens a menosprezam por isso? Por que não podemos simplesmente expressar nossos desejos e continuarmos sendo seres humanos plenos em nossos direitos? Não somos sujas ou vagabundas, ou qualquer outro adjetivo hostil, só porque sentimos prazer e gostamos disso. Isso é o mínimo que poderíamos exigir de uma relação saudável.

“Se as mulheres conseguirem se respeitar, os homens poderão se controlar e levar uma relação sem prejuízo para os dois. Homem não deixa de ser homem por respeitar sua namorada/parceira. Mulher não perde sua feminilidade se não se entregar já no primeiro encontro. Querer conquistar o parceiro deste jeito, é o meio mais fácil para não conquistar ninguém. Um tesouro que já foi descoberto, não desperta mais o mesmo interesse de antes.”

É muito comum escutar a velha frase “mulher tem que se dar o respeito”. Claro, afinal, não podemos esperar respeito dos nossos companheiros homens, não é, temos que entrar na defensiva e nos privar para agradá-los, tornando-se assim “mulheres de respeito”. Quanta bobagem! Mulher não tem que se dar ao respeito, mulher já merece o respeito só por ser uma PESSOA, que como qualquer outra, sente desejo sexual e quer trocar isso com outr@s. Homens e mulheres precisam ter sua sexualidade respeitada, para o mínimo de justiça. Então, não, as mulheres não precisam “se dar ao respeito”, VOCÊ TEM QUE RESPEITÁ-LAS.

Alguém me explica, afinal de contas, essa lógica de sexo no primeiro encontro “tirar a graça” da relação, tornar as coisas “fáceis demais”. Porque, pelo que parece, só conta para as mulheres essa regrinha, o fato do homem estar sentindo desejo desde o primeiro contato não é alvo de reprovação em momento algum. Pelo menos para mim, para fazer sexo, basta ter vontade e escolher@ parceir@, e claro, proteger-se. É incrível como a mulher precisa sempre fazer uma frescurada sem fim para chegar ao “finalmente”, e depois são os mesmos homens que reclamam disso. Daí vem esses homens dizendo que quando é fácil não é legal, oras, não é legal justamente porque eles não conseguem conceber que a mulher tem o MESMO desejo sexual, é sempre preciso que ela abra mão disso para colocar o homem na posição superior, de controlador da situação. O macho precisa sempre sentir que está conquistando a fêmea, mesmo que ela já estivesse interessada desde o primeiro momento, do contrário, ele fica frustrado, porque a situação fica muito igualitária, né? Onde já se viu, ambos com tesão, ambos tomando a iniciativa e curtindo numa boa?

E daí vem a psicologia evolutiva e bobagens do nível dizendo que a seleção natural fez os homens mais promíscuos, como se homens e mulheres gozassem da mesma posição social e tivessem as mesmas liberdades. Minha libido diz o contrário, mas bem que eu poderia ter me tornado mais um exemplo de mulher contida e reprimida, esperando o príncipe encantado me deflorar, não faltaram estímulos e inclusive pressões para isso. Eu entendo perfeitamente as mulheres que perdem o interesse pelo sexo, afinal o cenário não é nada animador para quem quer vivenciar uma vida sexual agradável e sem incômodos. Sempre estamos correndo o risco de sofrer repressão e rejeição quando reclamamos o direito ao nosso corpo a aos nossos desejos, mas no fim das contas vale muito mais a pena do que entrar nessa lógica heterossexual irritante.

Por isso, sim, continuo falando sobre sexo, o quanto for preciso, e sem medo de parecer “vadia” ou qualquer outro rótulo esquisito criado pelos homens. Essa briga é minha e faço questão de exigir meus direitos, porque acredito que faz parte da minha auto-estima e realização pessoal ter uma vida sexual completa, e que nenhum ser humano, independente do sexo/gênero, tem o direito de me reprimir ou julgar meu caráter baseado em valores conservadores e cristianismo barato.

Por sorte ainda existem homens que estão preocupados com o prazer e a satisfação da sua companheira, acima de qualquer moral hipócrita que limite os desejos e a felicidade, e que são capazes de respeitar uma mulher mesmo que seja uma transa casual. Penso que as mulheres não devem aceitar uma relação com homens que não reconheçam sua autonomia, mas também conheço o alto poder dissimulador masculino e sei que nem sempre conseguimos evitar esses indivíduos. Por isso, a receita é estar sempre com a auto-estima fortalecida para combater esses valores que ameaçam nossa integridade, e nunca abrir mão das próprias vontades para se encaixar em um modelo que não é justo e não trará nenhuma realização.

Pense sempre que o julgamento social é um dos preços da liberdade, e que no fim das contas vale muito mais a pena investir na própria felicidade do que mentir para si mesma. A gente sempre acaba encontrando alguém bacana nesse caminho, por mais que ele pareça difícil, nada pode ser mais delicioso do que encontrar pessoas que te valorizam e respeitam suas decisões sem nenhum preconceito. Se não for pra viver algo verdadeiro, eu prefiro não viver mais nada – e ninguém vai conseguir me parar.

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