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Amor romântico: Coisas que não te contaram.

Quanto tempo sem postar! Sinto vergonha da minha falta de tempo para coisas que são tão importantes, como esse pequeno espaço que me realiza e me faz sentir útil para tantas pessoas.

E que surpresa, receber tantos feedbacks lindos de garotas incríveis! Tenho que declarar que uma das maiores felicidades que explodem dentro de mim vem desses comentários singelos, cheios de entusiasmo e identificações. Sinto um carinho verdadeiro, uma conexão entre nossos problemas e angústias, e estarei aqui para vivenciar essa troca sempre.

Isso me leva ao assunto que tem sido “trending topic” ultimamente, e que foi confirmado por uma amiga querida que está passando por uma situação de sofrimento. Da série “coisas que queriam te enfiar goela abaixo”, apresento-lhes o tal “amor romântico”.

Idealizado por fábulas, contos e religiões, usado e abusado pela indústria cultural, ele permanece entre nós, imortal. A base é um casal heterossexual, com papéis sexuais bem definidos e em um ambiente extremamente favorável, que repentinamente se fartam de um amor intocável e permanecem felizes para sempre no mar de rosas. Curiosamente, o mito é vendido para uma esmagadora maioria de mulheres.

De brinde, ganhamos a instituição do casamento, que legitima definitivamente aquele amor invencível e nos condena a uma vida inteira de companheirismo, paixão e harmonia. É relativamente “mais fácil” terminar um namoro, mas um casamento é como se fosse um contrato que exige um esforço sacrificante para a manutenção do acordo, uma prisão disfarçada de escolha, que torna muito mais difícil uma decisão que deveria ser rápida e sem dor: livrar-se de quem nos faz mal.

Nos iniciam nesse mundo obscuro dos coraçõezinhos quando ainda somos muito crianças para resistir, ganhamos lições diversas que nos convencem a precisar de outra pessoa para sermos “completas”.Essa pessoa é, claro, um homem. Junto com os mandamentos da busca ofegante por um amor de conto de fadas, nos empurram um ideal feminino de submissão, fragilidade e “entrega”. Aprendemos que ser mulher é querer um homem, e dedicar boa parte de nossas energias para que essa relação tenha sucesso – mesmo que a duras penas.

Enquanto isso, nossos queridos irmãozinhos aprendem valores um tanto diferentes. São incentivados a ter coragem, ousadia, independência e principalmente autonomia, ao mesmo tempo em que recebem a cartilha do dominador. Aprendem que serão sempre o centro das atenções das mulheres, cuidados por mães, professoras e namoradas, e que as terão à disposição.

Ao invés de bonecas imbecis e bebês de plástico, do treinamento rigoroso da maternidade e servidão, ganham jogos de estratégia, carrinhos e bolas de futebol. Aprendem que a coletividade pode conseguir muitos aliados, enfrentam o mundo ao ar livre muito cedo e desenvolvem a capacidade de raciocínio lógico.

Tudo isso faz uma grande diferença, somos discriminadas pelo gênero desde a infância e construídas sob um modelo patético de “mulher”. Nossa vulnerabilidade não é genética, não veio da mão do deus macho, é obra de uma educação medíocre embasada em preconceitos e estereótipos. Somos condicionadas a não nos sentir completas, nunca, de forma alguma.

Coincidentemente, a solução apresentada para todos os nossos problemas de auto-estima e auto-realização é um parceiro homem. “Tá precisando é de uma rola bem grande”, como diriam as criaturinhas desprezíveis ocupando espaço por aí. Se estamos “sozinhas”, somos solitárias ou lésbicas,desprezadas pelo tão importante e fundamental macho da espécie. Se reclamamos de algo, somos histéricas ou “mal-comidas”, afinal, todos os nossos problemas só podem ter origem na falta de um pinto entrando e saindo, oras!

Daí, se resolvemos nos relacionar com um cara e descobrimos que ele é um merdinha, e então trocamos, e fazemos isso repetidas vezes na incessante busca de um cara menos incompetente, nos chamam de “putas”. Dizem até que não estamos nos dando “valor”, quando na verdade isso só oculta a falta de qualquer valor ou apreço que eles sintam por nós, um verdadeiro nojo. Enquanto isso, eles trocam de parceiras o tempo todo e se orgulham de separar o ato sexual de qualquer afeto e consideração.

Não é uma fórmula perfeita? Faça-as sentirem-se incompletas e então lhes dê uma cara-metade. Um homem perfeito, romântico, que atenda a todas as nossas necessidades e finalmente dê algum sentido à nossa existência supérflua e cruel. Alguém pra nos dizer o quanto parecemos bonitas, já que enxergamos mosntros nos espelhos e nos sentimos culpadas por isso. Finalmente alguém pra nos convencer de que somos alguém e não alguma coisa, como sempre nos ensinaram, uau. Mas a verdade, mulheres, é que não precisamos de um salvador, muito menos de um príncipe.

Definição de romance pelo dicionário: fantasia. O que mais precisamos dizer?! Não é real, não é saudável e muito menos justo.Se você só se sentiu completa depois de conhecer um homem e se apaixonar, significa que uma parte de você sempre esteve vazia, e isso é péssimo. Se você não consegue ficar sozinha, quer dizer que está sujeita a uma relação de dependência, auto-depreciação e possessividade. É um clichê dos grandes, mas é verdadeiro demais: Antes de se tornar “nós”, precisamos ser “eu”.

Antes de proclamar as palavras mágicas “não sei o que seria de mim sem você”, pense no quanto você está se anulando na situação. Nunca se sinta um fracasso se ainda se sentir dependente de um cara, não se esqueça que você foi totalmente condicionada a ver as coisas dessa maneira. O caminho? Mais uma vez a desconstrução, e isso só é possível com auto-conhecimento.

Conhecer a si própria e ter autonomia não significa excluir os relacionamentos amorosos. Eu acredito em relações justas, em que o companheirismo é essencial e o afeto cria uma união harmoniosa e cheia de respeito, sem dependência, possessividade e ilusão. O amor romântico nada mais é do que uma mentira, porque promete uma relação eterna que tem como base apenas o misterioso sentimento “amor”, quando na verdade se parece mais com uma paixão cega, infantil e inconsequente.

Se podemos chamar algo de amor, com certeza não é essa sensação obscura que nos condena a viver acorrentadas a uma pessoa, desejando sua presença em cada passo das nossas vidas e projetando nela grandes objetivos. Insisto que em uma relação real ambos devem perseguir seus objetivos juntos, prestar apoio mútuo e construir uma base sólida de respeito e cumplicidade, sem o contrato ditatorial do “pra sempre”.

Quantas mulheres permanecem com homens que as espancam? Ou as humilham? Quantas mulheres você conhece que suportaram traições? Quantas abriram mão de desejos próprios por causa dos parceiros? Quantas sofrem com um ciúme doentio e se auto-depreciam por causa dele? Quantas já abaixaram a cabeça para uma condição do companheiro e sofreram caladas? Quantas vêm desabafar com você o inferno que está sendo o relacionamento delas e a falta de coragem pra tomar uma decisão?

A vida real é muito mais hostil com as mulheres. Aqui fora os príncipes são muito mais autônomos, seguros de si e treinados para a indiferença. E estarão sempre prontos para se aproveitar dessa insegurança enraizada dentro de nós, construindo verdadeiros romances poéticos enquanto nos sugam toda a individualidade. Isso não quer dizer que homens não têm sentimentos, quer dizer que estão muito mais preparados para lidar com eles, porque têm como base suas próprias realizações.

E como mudar? Como sair da posição de vítima do patriarcado e retomar o poder sobre a própria vida? Tudo o que eu tenho são experiências próprias e um punhado de conselhos sinceros.

Em primeiro lugar, descubra algo que você ame muito fazer. Eu descobri que amava escrever, lutar por causas sociais, ajudar as minorias e ver resultados de todo o trabalho que eu puder fazer.Muitas descobrem a realização em um esporte, na música, nas artes plásticas, na filantropia, na carreira, são inúmeras possibilidades, e todas temos muitas.

Depois, descubra milhares de coisas menores que você ame fazer. Identifique suas preferências, muitas de nós nunca paramos para pensar nisso! Procure um tipo de leitura, cinema ou música que você adore, vá ao teatro, invista em coisas que te dêem prazer e acrescentem conhecimento. Una-se com outras mulheres, jogue futebol, jogue videogame, faça um cosplay, vá dançar.

Deixe o relacionamento dos seus sonhos para o momento em que estiver mais completa, você terá muito mais para compartilhar e estará sempre pronta para fazer as melhores escolhas sem cometer sacrifícios. Se não der certo, agradeça por ter percebido os erros a tempo, e procure alguém que possa te acompanhar e trazer mais prazeres. Defina suas regras, respeite suas próprias decisões, seja firme, e nunca, nunca mesmo, seja tolerante a ponto de se machucar.

Algo que eu sempre tenho em mente é que exercitar o perdão nem sempre é um bom negócio. Vivemos tensionadas, se não pudermos confiar em alguém com certeza essa pessoa não merece nossa companhia.Estabeleça limites para atitudes que você não gosta, e não tenha qualquer receio ou medo de se arrepender na hora de dar um basta no relacionamento. Não é questão de imaginar que “tem mais um monte por aí”, e sim que uma relação que não é mais agradável e causa mais aborrecimentos do que alegrias não tem lugar na vida de uma pessoa auto-realizada.

Não espere ser protegida, espere compartilhar segurança. Não espere ganhar, espere uma troca. Não aceite conviver com um homem que define seus papéis na relação apenas pelo seu gênero, por mais que ele pareça afetuoso, conteste e exija, seja uma voz ativa e tomadora de decisões.

Relacionamentos não se baseiam apenas em amor, tenha em mente que uma relação sem respeito e cooperação não vale a pena. Que adianta ficar com um cara que te considera menos capaz de realizar uma tarefa, só porque ele é carinhoso? Carinho não realiza ninguém, só serve como bengala de frustrações, você precisa de alguém que te admire, te estimule e confie na sua capacidade. E, acima de tudo, precisa de respeito às suas decisões, desejos e necessidades, não deixe de fazer algo que quer para satisfazer alguém que deveria lhe querer o bem. Agregue valor à sua própria confiança, um homem que mente e trai não merece segunda chance, pois isso é sinal de que ele não reconhece seus direitos de escolha.

Nesse ponto o casamento colabora com nossas prisões privadas. Muitas mulheres temem o divórcio porque acreditam que uma “união de tantos anos merece maior esforço e tolerância para continuar”, mas quase sempre esses esforços significam anulação, sofrimento e negação. Elas se sacrificam pela manutenção de um relacionamento perdido, porque temem prestar contas ao Estado com seu contrato de união civil e à religião com seu deus falocêntrico impiedoso.Por esses e outros motivos condeno o casamento como uma união anti-amor, patriarcal e desigual, fundada em sexismo e heteronormatividade.

As mulheres carregam nas costas uma História de submissão e sacrifícios pelo amor romântico, enquanto permaneciam exploradas pelos “donos de seus corações”. Não esqueçam nunca que já fomos consideradas propriedades, já estivemos restritas a um cárcere privado e que ainda hoje muitas de nós não podem nem escolher o homem que estará no “comando”.Ainda existem injustiças horríveis cometidas contra as mulheres em nome de amores romãnticos, somos diariamente iludidas, enganadas e desprezadas. Cabe a nós mudar nossa realidade através desse exercício de consciência que eu proponho, da desconstrução, vamos recuperar a autonomia que nos arrancaram e acabar com nossa dependência instituída por essa educação precária.


Amem, mulheres! Mas amem primeiro a si mesmas, sejam pessoas realizadas e completas, mulheres inteiras. Não vamos esperar a misericórdia dos homens, vamos nos fortalecer para construir relacionamentos mais justos.

Quanto tempo sem postar! Sinto vergonha da minha falta de tempo para coisas que

são tão importantes, como esse pequeno espaço que me realiza e me faz sentir útil

para tantas pessoas.

E que surpresa, receber tantos feedbacks lindos de garotas incríveis! Tenho que

declarar que uma das maiores felicidades que explodem dentro de mim vem desses

comentários singelos, cheios de entusiasmo e identificações. Sinto um carinho

verdadeiro, uma conexão entre nossos problemas e angústias, e estarei aqui para

vivenciar essa troca sempre.

Isso me leva ao assunto que tem sido “trending topic” ultimamente, e que foi

confirmado por uma amiga querida que está passando por uma situação de sofrimento.

Da série “coisas que queriam te enfiar goela abaixo”, apresento-lhes o tal “amor

romântico”.

Idealizado por fábulas, contos e religiões, usado e abusado pela indústria

cultural, ele permanece entre nós, imortal. A base é um casal heterossexual, com

papéis sexuais bem definidos e em um ambiente extremamente favorável, que

repentinamente se fartam de um amor intocável e permanecem felizes para sempre no

mar de rosas. Curiosamente, o mito é vendido para uma esmagadora maioria de

mulheres.

De brinde, ganhamos a instituição do casamento, que legitima definitivamente

aquele amor invencível e nos condena a uma vida inteira de companheirismo, paixão

e harmonia. É relativamente “mais fácil” terminar um namoro, mas um casamento é

como se fosse um contrato que exige um esforço sacrificante para a manutenção do

acordo, uma prisão disfarçada de escolha, que torna muito mais difícil uma decisão

que deveria ser rápida e sem dor: livrar-se de quem nos faz mal.

Nos iniciam nesse mundo obscuro dos coraçõezinhos quando ainda somos muito

crianças para resistir, ganhamos lições diversas que nos convencem a precisar de

outra pessoa para sermos “completas”.Essa pessoa é, claro, um homem. Junto com os

mandamentos da busca ofegante por um amor de conto de fadas, nos empurram um ideal

feminino de submissão, fragilidade e “entrega”. Aprendemos que ser mulher é querer

um homem, e dedicar boa parte de nossas energias para que essa relação tenha

sucesso – mesmo que a duras penas.

Enquanto isso, nossos queridos irmãozinhos aprendem valores um tanto diferentes.

São incentivados a ter coragem, ousadia, independência e principalmente autonomia,

ao mesmo tempo em que recebem a cartilha do dominador. Aprendem que serão sempre o

centro das atenções das mulheres, cuidados por mães, professoras e namoradas, e

que as terão à disposição.

Ao invés de bonecas imbecis e bebês de plástico, do treinamento rigoroso da

maternidade e servidão, ganham jogos de estratégia, carrinhos e bolas de futebol.

Aprendem que a coletividade pode conseguir muitos aliados, enfrentam o mundo ao ar

livre muito cedo e desenvolvem a capacidade de raciocínio lógico.

Tudo isso faz uma grande diferença, somos discriminadas pelo gênero desde a

infância e construídas sob um modelo patético de “mulher”. Nossa vulnerabilidade

não é genética, não veio da mão do deus macho, é obra de uma educação medíocre

embasada em preconceitos e estereótipos. Somos condicionadas a não nos sentir

completas, nunca, de forma alguma.

Coincidentemente, a solução apresentada para todos os nossos problemas de auto-

estima e auto-realização é um parceiro homem. “Tá precisando é de uma rola bem

grande”, como diriam as criaturinhas desprezíveis ocupando espaço por aí. Se

estamos “sozinhas”, somos solitárias ou lésbicas,desprezadas pelo tão importante e

fundamental macho da espécie. Se reclamamos de algo, somos histéricas ou “mal-

comidas”, afinal, todos os nossos problemas só podem ter origem na falta de um

pinto entrando e saindo, oras!

Daí, se resolvemos nos relacionar com um cara e descobrimos que ele é um merdinha,

e então trocamos, e fazemos isso repetidas vezes na incessante busca de um cara

menos incompetente, nos chamam de “putas”. Dizem até que não estamos nos dando

“valor”, quando na verdade isso só oculta a falta de qualquer valor ou apreço que

eles sintam por nós, um verdadeiro nojo. Enquanto isso, eles trocam de parceiras o

tempo todo e se orgulham de separar o ato sexual de qualquer afeto e consideração.

Não é uma fórmula perfeita? Faça-as sentirem-se incompletas e então lhes dê uma

cara-metade. Um homem perfeito, romântico, que atenda a todas as nossas

necessidades e finalmente dê algum sentido à nossa existência supérflua e cruel.

Alguém pra nos dizer o quanto parecemos bonitas, já que enxergamos mosntros nos

espelhos e nos sentimos culpadas por isso. Finalmente alguém pra nos convencer de

que somos alguém e não alguma coisa, como sempre nos ensinaram, uau. Mas a

verdade, mulheres, é que não precisamos de um salvador, muito menos de um

príncipe.

Definição de romance pelo dicionário: fantasia. O que mais precisamos dizer?! Não

é real, não é saudável e muito menos justo.Se você só se sentiu completa depois de

conhecer um homem e se apaixonar, significa que uma parte de você sempre esteve

vazia, e isso é péssimo. Se você não consegue ficar sozinha, quer dizer que está

sujeita a uma relação de dependência, auto-depreciação e possessividade. É um

clichê dos grandes, mas é verdadeiro demais: Antes de se tornar “nós”, precisamos

ser “eu”.

Antes de proclamar as palavras mágicas “não sei o que seria de mim sem você”,

pense no quanto você está se anulando na situação. Nunca se sinta um fracasso se

ainda se sentir dependente de um cara, não se esqueça que você foi totalmente

condicionada a ver as coisas dessa maneira. O caminho? Mais uma vez a

desconstrução, e isso só é possível com auto-conhecimento.

Conhecer a si própria e ter autonomia não significa excluir os relacionamentos

amorosos. Eu acredito em relações justas, em que o companheirismo é essencial e o

afeto cria uma união harmoniosa e cheia de respeito, sem dependência,

possessividade e ilusão. O amor romântico nada mais é do que uma mentira, porque

promete uma relação eterna que tem como base apenas o misterioso sentimento

“amor”, quando na verdade se parece mais com uma paixão cega, infantil e

inconsequente.

Se podemos chamar algo de amor, com certeza não é essa sensação obscura que nos

condena a viver acorrentadas a uma pessoa, desejando sua presença em cada passo

das nossas vidas e projetando nela grandes objetivos. Insisto que em uma relação

real ambos devem perseguir seus objetivos juntos, prestar apoio mútuo e construir

uma base sólida de respeito e cumplicidade, sem o contrato ditatorial do “pra

sempre”.

Quantas mulheres permanecem com homens que as espancam? Ou as humilham? Quantas

mulheres você conhece que suportaram traições? Quantas abriram mão de desejos

próprios por causa dos parceiros? Quantas sofrem com um ciúme doentio e se auto-

depreciam por causa dele? Quantas já abaixaram a cabeça para uma condição do

companheiro e sofreram caladas? Quantas vêm desabafar com você o inferno que está

sendo o relacionamento delas e a falta de coragem pra tomar uma decisão?

A vida real é muito mais hostil com as mulheres. Aqui fora os príncipes são muito

mais autônomos, seguros de si e treinados para a indiferença. E estarão sempre

prontos para se aproveitar dessa insegurança enraizada dentro de nós, construindo

verdadeiros romances poéticos enquanto nos sugam toda a individualidade. Isso não

quer dizer que homens não têm sentimentos, quer dizer que estão muito mais

preparados para lidar com eles, porque têm como base suas próprias realizações.

E como mudar? Como sair da posição de vítima do patriarcado e retomar o poder

sobre a própria vida? Tudo o que eu tenho são experiências próprias e um punhado

de conselhos sinceros.

Em primeiro lugar, descubra algo que você ame muito fazer. Eu descobri que amava

escrever, lutar por causas sociais, ajudar as minorias e ver resultados de todo o

trabalho que eu puder fazer.Muitas descobrem a realização em um esporte, na

música, nas artes plásticas, na filantropia, na carreira, são inúmeras

possibilidades, e todas temos muitas.

Depois, descubra milhares de coisas menores que você ame fazer. Identifique suas

preferências, muitas de nós nunca paramos para pensar nisso! Procure um tipo de

leitura, cinema ou música que você adore, vá ao teatro, invista em coisas que te

dêem prazer e acrescentem conhecimento. Una-se com outras mulheres, jogue futebol,

jogue videogame, faça um cosplay, vá dançar.

Deixe o relacionamento dos seus sonhos para o momento em que estiver mais

completa, você terá muito mais para compartilhar e estará sempre pronta para fazer

as melhores escolhas sem cometer sacrifícios. Se não der certo, agradeça por ter

percebido os erros a tempo, e procure alguém que possa te acompanhar e trazer mais

prazeres. Defina suas regras, respeite suas próprias decisões, seja firme, e

nunca, nunca mesmo, seja tolerante a ponto de se machucar.

Algo que eu sempre tenho em mente é que exercitar o perdão nem sempre é um bom

negócio. Vivemos tensionadas, se não pudermos confiar em alguém com certeza essa

pessoa não merece nossa companhia.Estabeleça limites para atitudes que você não

gosta, e não tenha qualquer receio ou medo de se arrepender na hora de dar um

basta no relacionamento. Não é questão de imaginar que “tem mais um monte por aí”,

e sim que uma relação que não é mais agradável e causa mais aborrecimentos do que

alegrias não tem lugar na vida de uma pessoa auto-realizada.

Não espere ser protegida, espere compartilhar segurança. Não espere ganhar, espere

uma troca. Não aceite conviver com um homem que define seus papéis na relação

apenas pelo seu gênero, por mais que ele pareça afetuoso, conteste e exija, seja

uma voz ativa e tomadora de decisões.

Relacionamentos não se baseiam apenas em amor, tenha em mente que uma relação sem

respeito e cooperação não vale a pena. Que adianta ficar com um cara que te

considera menos capaz de realizar uma tarefa, só porque ele é carinhoso? Carinho

não realiza ninguém, só serve como bengala de frustrações, você precisa de alguém

que te admire, te estimule e confie na sua capacidade. E, acima de tudo, precisa

de respeito às suas decisões, desejos e necessidades, não deixe de fazer algo que

quer para satisfazer alguém que deveria lhe querer o bem. Agregue valor à sua

própria confiança, um homem que mente e trai não merece segunda chance, pois isso

é sinal de que ele não reconhece seus direitos de escolha.

Nesse ponto o casamento colabora com nossas prisões privadas. Muitas mulheres

temem o divórcio porque acreditam que uma “união de tantos anos merece maior

esforço e tolerância para continuar”, mas quase sempre esses esforços significam

anulação, sofrimento e negação. Elas se sacrificam pela manutenção de um

relacionamento perdido, porque temem prestar contas ao Estado com seu contrato de

união civil e à religião com seu deus falocêntrico impiedoso.Por esses e outros

motivos condeno o casamento como uma união anti-amor, patriarcal e desigual,

fundada em sexismo e heteronormatividade.

As mulheres carregam nas costas uma História de submissão e sacrifícios pelo amor

romântico, enquanto permaneciam exploradas pelos “donos de seus corações”. Não

esqueçam nunca que já fomos consideradas propriedades, já estivemos restritas a um

cárcere privado e que ainda hoje muitas de nós não podem nem escolher o homem que

estará no “comando”.Ainda existem injustiças horríveis cometidas contra as

mulheres em nome de amores romãnticos, somos diariamente iludidas, enganadas e

desprezadas. Cabe a nós mudar nossa realidade através desse exercício de

consciência que eu proponho, da desconstrução, vamos recuperar a autonomia que nos

arrancaram e acabar com nossa dependência instituída por essa educação precária.

Amem, mulheres! Mas amem primeiro a si mesmas, sejam pessoas realizadas e

completas, mulheres inteiras. Não vamos esperar a misericórdia dos homens, vamos nos fortalecer para construir um mundo mais justo.

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Justiça para Geisy Arruda!

Todo mundo já escreveu sobre a Geisy Arruda, mas o caso ainda está pegando fogo então eu vou dar a minha contribuição.

Muitos estão dizendo que a imprensa exagera, que ninguém conhece a verdade dos fatos e que “todos tiveram sua parcela de erro”.

Analisemos.

geisy2

Fato 1: Geisy foi xingada de puta e recebeu ameaças de estupro, sejam elas com intuito “corretivo” de trogloditas ou por pura humilhação simbólica. Isso está comprovado pelos vídeos e estudantes.

Fato 2: Geisy estava com um microvestido cor-de-rosa e percorreu um caminho maior que o habitual para encontrar um banheiro que não estivesse em manutenção. esse fato foi interpretado como uma “tentativa de Geisy de se expor mais e mais”.

Fato 3: Geisy demonstrou uma atitude de desprezo e provocação com os gracejos que ouviu. A reação dela nessa situação foi relacionada com seu comportamento habitual, o que mostra que ela deve ser uma moça que usa roupas consideradas “provocantes” e que não atende aos apelos e assédios dos colegas ao redor.

geisy

Eu sei muito bem o que as pessoas que defendem a Universidade pensam. Em suas cabecinhas, Geisy é “puta”, deve fazer sexo com qualquer um, provocou toda a situação e pior, ainda quer se promover em cima disso se fazendo de vítima na imprensa. E tem mais, faculdade não é lugar pra se vestir “desse jeito”, e uma aluna da UNIBAN declarou que “mulher que se veste assim é objeto mesmo”.

Primeiro, que mesmo que Geisy fosse prostituta, estaria em seu pleno direito de estudar. Mas, ela não é. Tampouco temos informações sobre a vida sexual da moça, que também não faria diferença alguma, afinal somos livres para nos relacionarmos uns com os outros e teoricamente não deveríamos sofrer violência por exercer esse direito.

O mais grave é dizer que Geisy “provocou” essa situação.Pior, dizer que a culpa não foi do micro-vestido, como alegaram ao expulsá-la, mas sim da “postura” de Geisy. Existem premissas nojentas para essa afirmação, a primeira é de que a postura adequada de uma mulher é totalmente diferente da de Geisy, ou seja, ao invés de vestir-se como quiser e andar livremente seria obrigação feminina da moça usar roupas que não mostrem seu corpo e comportar-se de forma passiva, silenciosa e submissa. Outro agravante seria a forma física de Geisy, que difere dos padrões impostos ás mulheres e por isso desqualifica a “beleza” que deveria ser mostrada com o vestido, e já que não há diversão para os primatas heterossexuais, logo a exibição de Geisy se torna uma AFRONTA.

geisy3

A faculdade também supõe que Geisy provocou os colegas através de atos “rebeldes” como rebolar, ignorar ou demonstrar indiferença com a atitude. Mesmo que a moça tivesse mostrado as tais partes íntimas, o que não foi confirmado por ela e nem há provas, sua atitude foi nada mais nada menos que defensiva. Geisy mostrou através de um comportamento irreverente que não importava o quanto as pessoas a julgassem, esperneassem e desejassem que ela cobrisse seu corpo, ela continuaria daquela forma, a forma que ela escolheu para se vestir e se comportar. A própria Geisy não se acha um objeto, ela conhece muito bem seus desejos, emoções, objetivos, há um universo particular na vida da moça que não sucumbe ao terrorismo de uma turba.

Quem determina afinal que o corpo de uma mulher tem apenas o significado sexual? O sentir-se bela de Geisy é condenado à insinuação sexual por qual autoridade suprema? Coxas à mostra são aval de estupro e linchamento? Se Geisy realmente desejava conseguir sexo com aquela roupa, os alunos determinaram que ela estava DISPONÍVEL para isso naquele momento na faculdade com que direito?

Mulheres vestidas nos moldes que consideramos “sexy” não carregam um selo de “Available” na testa. Ora essa, foi construída uma imagem de sexualidade extrema e sujeição vinculada à decotes, saias curtas e vestidinhos, sob um pretexto de “libertação”. Mas, o que vemos, é justamente o contrário: ao invés de exercerem a liberdade ao usar roupas que expõem o corpo, as mulheres são simplesmente condenadas a um estado de disponibilidade sexual de acordo com a conveniência dos machos!

Não julgo que estamos em condições de abolir tais roupas que carregam os símbolos do patriarcado com suas formas, pelo contrário, as mulheres precisam ter autonomia e posse sobre seus corpos suficiente para usar o que quiserem e serem respeitadas da mesma forma.

O que vemos é o oposto, moças como Geisy são consideradas disponíveis como alvos nos espaços públicos, as roupas que mostram o corpo funcionam como um código que legitima a aproximação e a invasão do espaço. Quando Geisy reagiu com provocações, os homens que a afrontavam não suportaram, e as mulheres que tinham em si esse preconceito internalizado se revoltaram com a “ousadia” da colega.

“Imagine, que audácia dessa moça, nos provocar e zombar de nossas investidas? Somos machos, precisamos colocar essa vagabunda no seu devido lugar, quem ela acha que é pra mostrar essas curvas na faculdade, nem mesmo “bela” ela é.” Os Alunos

“Essa menina é prostituta mesmo. Vem pra faculdade com essa roupa indecente, e eu que fui criada sob as rédeas do meu pai uso roupas mais adequadas ao ambiente em que eu estou. Afinal, mulheres não podem simplesmente sair se mostrando, precisamos conter nossas formas para o bem da família e da sociedade. Ainda bem que eu estou do lado das santas e vou poder casar com um homem que me domine!” As Alunas

Geisy4

Que mulher nunca rebateu um assédio nas ruas e foi xingada de prontidão? Já me aconteceu inúmeras vezes. Esses vermes não suportam que uma mulher desafie a autoridade que eles supõem ter sobre nossos corpos, a reação é como a dos alunos, retaliação, indignação. Geisy é símbolo porque reagiu de forma tão chocante para os machistas que causou uma verdadeira rebelião contra a autonomia da mulher.

O mais bizarro de tudo isso é ver milhares de machinhos “solidários” a Geisy, postando mensagens mundo afora que acusam os alunos de “gays” e “invejosas”. Quem odeia as mulheres, os gays ou os heterossexuais que estupram, matam, surram e abusam delas todos os dias? Porque raios essa gente estúpida relaciona ódio contra a mulher com homossexualidade? Os gays não precisam odiar as mulheres, por muitas vezes acabam se aliando a elas por serem minorias com afinidades. A justificativa é que somente gays poderiam ofender uma mulher, porque heteros obviamente precisam fodê-la, e por isso estão sendo homossexuais ao odiá-la. E, convenhamos, é desesperador ver como essas pessoas ainda usam a homossexualidade como OFENSA deliberadamente, isso é uma doença social.

Outra pérola são os mesmos machinhos compadecidos de Geisy deixando recados em sua suposta página do orkut solicitando msn e oferecendo “apoio”. O apoio seria uma rola na bunda, no caso, com perdão da expressão. Que interesse um jovem heterossexual sexista teria em defender uma moça que não fosse fodê-la no final? E ainda assim, com certeza esses mesmos defensores se juntariam ao coro de “Puta!” logo depois de praticarem o ato. Porque, como já sabemos, mulheres que fazem sexo são prostitutas e merecem ser queimadas, ou linchadas por ilustres universitários brasileiros.

geisy5

É tanta porcaria que dá vontade de parar, mas prossigo. Eis que a faculdade decide que o comportamento irreverente de Geisy é uma ameaça à moral e bons costumes patriarcais, e assim decide expulsá-la. A opinião pública parece estar a favor da moça, e desconfio que isso se deve ao fato de que a notícia original foi pautada por blogs (ainda bem). Os movimentos sociais reagem e organizam uma manifestação na porta da UNIBAN pela revogação da expulsão e punição dos responsáveis. Estavam presentes a UNE, a SOF e a Marcha Mundial das Mulheres.

Os alunos trogloditas saem à porta para defender, desta vez, seus próprios rabos. Alguns insistem no comportamento ousado de Geisy como impróprio e defendem a expulsão, outros dizem não ter culpa de nada e ficam se cagando de medo do mercado de trabalho cuspir neles. Houve também uma moça muito truculenta expressando seu horror à Geisy e afirmando que mulheres “que se vestem assim na faculdades são objetos mesmo”. Ainda tivemos um cidadão capaz de agredir um ativista anarquista porque ele comparou Geisy à sua mãe, até imagino que o moço tentou compará-las para ver se o neandertal acordava de seu pesadelo patriarcal, compreendendo que ambas são mulheres e tem os mesmo direitos, mas não foi tão fácil assim.

Sobre ser objeto, reafirmo que objetificação é o que impuseram à Geisy baseados em um preconceito violento que determina comportamentos de “santas” ou “putas” às mulheres. Objetificar com base no gênero, na roupa e no modo de agir é típico de quem acredita que mulheres são mesmo brinquedos masculinos, sem vontade própria ou capacidade moral. A própria moça que proferiu essa ideia não pode ser culpada pela interpretação, afinal ela foi criada dentro da mesma cultura que condena Geisy, e sabe-se lá que julgamentos ela já sofreu na sua vida social universitária por ser mulher e fora dos padrões.

Com certeza essa Universidade sofreu um abalo na imagem, e acho justo. Já que vivemos à mercê de instituições para garantir nossa segurança, o mínimo que podemos fazer é exigir que cumpram essa tarefa. Os alunos que não participaram podem não ter culpa alguma do ocorrido, mas talvez devessem criar alguma mobilização a favor da Geisy, já que a neutralidade em uma situação dessas é no mínimo assustadora. Sim, temos que nos preocupar com o que acontece ao nosso redor, e essa atitude é esperada de universitários. Sobre a imagem no mercado de trabalho, me parece lógico que todos sofrerão as consequências do que fizeram à garota, não adianta tentarem defender a instituição ou os colegas na esperança de irem bem na entrevista, uma mulher foi linchada por não corresponder ao modelo ideal como resultado de uma cultura machista, e todos pagarão por isso.

Sobre a reação de Geisy, a moça está buscando seus direitos e com certeza usando da imprensa para divulgar o caso. Estão dizendo que ela “se faz” de vítima, mas não tem essa, a moça É vítima. São os defensores da universidade e machistas de merda que querem transformá-la em ré. Claro que a imprensa tem seu papel de sempre de sensacionalista e oportunista, mas nesse caso específico acredito que a exposição é mais que adequada. E, mais uma vez, o fato da notícia original ter sido pautada em um blog, e já com uma abordagem crítica, facilitou muito a divulgação pró-Geisy. Só existem duas hipóteses em que Geisy pode ser considerada “culpada”:

afeganistão

1- Se ela for um homem disfarçado líder de uma conspiração gigantesca de machistas que pretendiam criar uma situação de linchamento dentro de uma faculdade e expulsar a aluna em seguida para que uma mulher nunca mais ousasse se vestir assim.

2- Se estiver todo mundo mentindo e na verdade o caso todo é um golpe publicitário para a nova campanha da Zara e seu novo vestidinho cor-de-rosa nas cores flúor da tendência.

Quais as desculpas para apontar a imprensa como mentirosa e a Geisy como culpada? Ela se mostrou, provocou, tem comportamento de “puta”, hm, e o que mais? Tudo já devidamente desmistificado.

Dizem por aí que Geisy afirmou que gostaria de ser atriz, e isso foi suficiente pra desencadear uma nova acusação: “Geisy quer se promover”. Ah, não me diga, a garota de classe B/C, hostilizada, fora dos padrões de beleza, com uma educação baseada no senso-comum, estudante de turismo, tentou aproveitar uma exposição na mídia pra conquistar o desejado posto de atriz famosa? Que absurdo! Que tipo de aproveitadora ela é, afinal? Se a ironia não foi suficiente, dã, é CLARO que uma garota nessas condições adoraria buscar uma compensação na situação e se colocar como atriz, posar na playboy ou qualquer outra idiotice que confere status à figura feminina no patriarcado. E a culpa, deixa eu adivinhar, é dela?

Algo que me surpreendeu foi a presença de Sabrina Sato na manifestação, declarando apoio à Geisy. Com um mini-vestido cor-de-rosa, para simbolizar o caso, Sabrina também foi assediada, aos brados de “gostosa” por um bando de trolls. Um aluno chegou a dizer que não chamaram Geisy de gostosa porque daria a entender que os alunos gostavam de “baranga”. Mais uma vez a violência sexista impera, Sabrina Sato pode (e deve) usar roupas curtas porque seu corpo tem o padrão decorativo e é alvo da sexualização sedenta dos machinhos, enquanto as formas de Geisy configuram praticamente um insulto por não serem consideradas “atraentes”. E claro, ser chamada de gostosa é uma violência em potencial, já que significa “nós queremos te comer agora”, e pressupõe que a moça estaria se oferecendo.

sabrina

Sabrina sofreu perseguição e fez algumas entrevistas, mas o que mais me chamou a atenção foi uma cena da moça erguendo o microfone animada para registrar o grito de guerra da Marcha Mundial das Mulheres: “A violência contra a mulher, não é o mundo que a gente quer!” Em certa parte do coro, diz-se “nossa beleza não tem padrão”, e Sabrina permanece apoiando a manifestação. Isso me deixa muito feliz e ao mesmo tempo triste, feliz porque a atitude da moça é linda, e triste porque ao mesmo tempo ela representa uma mulher caricata e sujeita em um dos programa humorísticos mais violentos da televisão. Mas, o ato de Sabrina me leva a crer que ela apoia o movimento e acredita que o padrão do corpo feminino é violento, mesmo que se encaixe nos moldes obrigatoriamente em seu trabalho. Ou, na pior das hipóteses, estou sendo ingênua demais e a moça quis apenas gravar seu programa. Prefiro ser otimista.

Ao menos, como resultado da manifestação, a expulsão foi revogada. Mas isso não é nem de longe suficiente, os responsáveis precisam ser punidos e a segurança de Geisy deve ser garantida, pois o que mais esses “talibans” querem é humilhá-la novamente. A moça declarou que só quer entrar na sala, sentar, estudar e “passar de ano”, e eu acredito que, mesmo que ela tenha sido instruída em suas declarações e mantenha um expressão premeditada, ela realmente quer apenas paz.

No mesmo caso, temos várias formas de preconceito e violência de gênero. Odeiam e culpam Geisy porque ela se mostra dona de seu corpo e atitudes, porque ela não se encaixa no padrão de beleza feminino, porque é nordestina, porque é pobre e porque reage contra as agressões. Além disso, ainda arranjam espaço pra odiar gays também, acusando os agressores de homossexualidade (oh, insulto!). E por fim temos a questão política da Universidade, que não hesita em expulsar uma mulher de classe mais baixa que sofreu humilhação dentro da instituição para agradar milhares de alunos que pagam uma gorda mensalidade.

uniban

Geisy é um símbolo para a luta das mulheres, pois expôs um problema muito grave que é ignorado por toda uma sociedade: a violência e abuso a que as mulheres são sujeitas nos espaços públicos e privados. As vaias e urros de “puta”cheios de ódio foram para Geisy e para todas as mulheres deste país, sejamos solidárias com Geisy por ela e por nós mesmas.

Deixo um recado para as meninas da Uniban que são contra Geisy: Sei que agora vocês estão preocupadas com a imagem da universidade e que provavelmente odeiam ainda mais Geisy Arruda, mas pensem que amanhã vocês podem ser as próximas vítimas da violência de gênero, que aparece na forma de assédio, abuso, estupro, coerção e humilhação. Alguma de vocês já sofreu um abuso verbal de um homem na rua e se sentiu constrangida? Já foi analisada de cima a baixo e avaliada por homens que não conhecia? Já deixou de usar uma roupa porque teve vergonha e receio de sair sozinha com ela? Já foi assediada no trabalho ou considerada menos competente apenas por ser mulher? Já deixaram de levar algo que você disse a sério porque é uma mulher? Já se sentiu mal com a forma do seu corpo? Já teve seu comportamento considerado impróprio para uma mulher? Já sentiu vontade de transar com alguém e não o fez por medo de ser considerada vadia?

minha escolha

Tudo isso, moças, é violência de gênero. A mesma que a Geisy sofreu. Vocês não podem odiar e culpar uma mulher porque os homens o fazem, porque ela parece “provocante” ao olhar de vocês. Experimentem admirar essa mulher, questionar o que lhes foi condicionado a pensar sobre o corpo feminino, experimentem desafiar os olhares de reprovação masculinos.

Geisy não vive, não se veste e não se comporta em função de criaturas masculinas heterossexuais. Nós, mulheres, não podemos viver sob julgamento de homens, escolhendo nosso modo de agir e a expressão do nosso corpo de acordo com a aceitação deles. A moça do mini-vestido rosa é um símbolo, é a realidade da violência contra a mulher que veio à tona e mobilizou a opinião pública.

Justiça para Geisy, pelo fim do terrorismo patriarcal!

Fica recomendada, salvo citação criacionista, a análise do Dr. Jacob Pinheiro sobre o ocorrido: Youtube.

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Love Your Body Day!


Dia de Amar Seu Corpo

É isso aí, um dia para amarmos e celebrarmos nossos corpos. Consegui uma brecha sofrida no meio de todas as minhas atividades caóticas do dia-a-dia para participar dessa blogagem coletiva. Não estou com nenhum tempo para embasamentos teóricos, então corro o risco de não tratar o tema com toda a complexidade que ele exige, mas whatever, preciso escrever.

Pois é, mulheres, estamos aqui ainda reivindicando esse corpo que, definitivamente, nos pertence. Enquanto somos engolidas pela mídia e pelos patrulheiros que nos dizem o contrário, lutamos pelo direito de amar nosso instrumento de vida e expressão. Nossa história é marcada pela dominação de nossos corpos, fomos submetidas a estupros, moldadas de acordo com o desejo do macho, e o direito de controlar nossa reprodução nos foi negado tanto quanto o direito de expressar nossa sexualidade.

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As formas de controle sobre nossos corpos mudam, mas permanecem. Os espartilhos de ontem são os sutiãs de bojo de hoje, o apedrejamento público cedeu espaço para mais horrores da violência doméstica, o cárcere privado tornou-se uma rotina dupla de trabalho (com foco ainda no privado), a sexualidade reprimida mudou de cara e é promovida através do sexo pornográfico. Os direitos reprodutivos ainda são negados, dentre eles métodos acessíveis de anticoncepção de qualidade, informação e aborto seguro.

Nossa nudez, antes pecaminosa, agora é de domínio público. Ganhamos o direito de abrir nossas pernas para uma câmera, exibir nossos corpos talhados de acordo com a ditadura vigente para então receber o julgamento minucioso do macho. Ganhamos também o direito de fazer sexo com quem bem entendermos, e levamos de brinde todo tipo de ofensa e misoginia logo que tentamos fazer uso dele. Ah, claro, podemos usar as roupas decotadas e curtas que quisermos, mas as formas do nosso corpo serão sempre brutalmente sexualizadas a cada esquina, em cada pedaço.

Se pudesse eleger a pior violência contra meu corpo, escolheria justamente a sexualização compulsiva. Os padrões de beleza cumprem seu papel determinando quais “pedaços” serão o alvo da vez do olhar masculino inquisidor. Mas, sendo gordas ou magras, peitos pequenos ou grandes, negras ou brancas, embora todos esses fatores impliquem em diferenças no assédio, estamos todas sujeitas a uma aprovação constante do macho. Nosso corpo é perseguido, um seio à mostra é um convite explícito ao sexo, não existe outra possibilidade de interpretação da nossa nudez. Se tentamos exibir nossos corpos com orgulho, somos logo reduzidas a objetos sexuais, brinquedinhos de vouyers.

Acho que cabe a minha história pessoal nisso, passei boa parte da minha idade escolar sendo uma pessoa considerada gorda. Desde muito pequena tive problemas para socializar, talvez porque a educação que recebi não condizia com o mundo real, e este é um erro comum dos pais. Vivia muito reclusa, gostava de estudar a maior parte do tempo e muito raramente fazia alguma atividade física, era a aluna genial, a criança prodígio que todos os adultos amavam, na proporção que as outras crianças odiavam.

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A escolinha que freqüentei criava abismos entre os gêneros, com orientadoras muito patéticas. Bem estilo “meninos de um lado e meninas do outro”. Não demorou pra eu sofrer perseguição na escola, era a única que sabia ler no Jardim I, mas nunca conseguia correr o suficiente para pegar os melhores brinquedos do banco de areia. Minha melhor amiga na época, me lembro bem, era uma menina negra, mas ninguém podia dizer que ela era negra que eu respondia “não, minha amiga é branca!”, meu estômago embrulha quando me lembro disso. Enfim, da pré escola até a oitava série acabei descontando minha vida anti-social na comida, e claro que a forma que meu corpo adquiriu fazia com que tudo piorasse a cada dia.

Lembro-me bem da minha querida Deborah, que sofreu o mesmo, nos diziam “você tem um rosto tão bonito, só falta emagrecer”. Éramos cabeças flutuantes, do pescoço para baixo nosso corpo era como uma bola disforme, gerava raiva e repulsa nas pessoas. O meu corpo era como uma prisão para mim, enquanto as minhas colegas populares viam seus seios crescerem e seus supostos privilégios aumentarem. Os garotos eram todos doentios, criaturinhas patriarcais estridentes. Eles me perseguiam e me julgavam, por ser gorda, se achavam no direito de dar uma sentença para o meu corpo a todo o momento. O mesmo faziam às garotas consideradas bonitas, tratando seus corpos como coisas comestíveis e muitas vezes menosprezando na cara dura a capacidade intelectual delas.

A mesma educação que me engessou em uma feminilidade doente fez com que eu não reagisse à grande parte dos ataques, quando mais nova. Mas, quando completei treze anos, estranhamente comecei a emagrecer, creio que pelo crescimento ou algo assim, porque continuava comendo muito e mal. E eis que ganhei meu novo papel feminino na sociedade, de bola disforme inteligente a receptáculo de esperma inútil.

linda

É, eu queria ser sexy, queria que meu corpo fosse belo, quente e saboroso. Usava roupas consideradas “provocantes” e sentia o “poder” de ser atraente para os machos. Estranhamente, cada relacionamento que eu pensava ter era mais fracassado que o outro, e eu estava sempre insatisfeita com aquele corpo que tanto lutava para manter a libido. Nem sei como chamar o sexo que praticava naquela época, uma reprodução do que a pornografia ensina com um toque brochante da realidade. Satisfazer o macho, simular satisfação. E estar sempre tentando melhorar todos os “defeitos horríveis” que faziam meu corpo não ser bom o suficiente.

Eu tinha um complexo tosco com a minha barriga, não por ter “pancinha”, mas por causa das “abas” de gordurinha lateral que sempre tive. Também achava meus seios e nádegas “menores” do que deveriam ser. Por fim odiava minhas estrias nas laterais, gostar mesmo eu só gostava das pernas (por sinal, super torneadas e “adequadas”) e do meu rosto. Lembro de ter ouvido coisas muito violentas durante relacionamentos, do tipo “você seria tão mais linda se fosse mais branquinha”, “seus seios não são tão redondos (como os de silicone, quem sabe)”, “Seu pé é horrível, parece que sobra um pedaço de tão grande”, “você não tem uma bunda tão boa quando a dela, mas…”. Isso sem falar na vigilância do peso, engordou um poquinho? Toma-lhe bronca dos senhores do engenho.

Isso tudo me dá uma náusea desgraçada, mas é bom olhar pra trás e enxergar com outros olhos. Olha que absurdo o que reservam ao sexo feminino, um terrorismo sem fim e ódio ao próprio corpo. E eles estão sempre ali, os machinhos, agentes que mantêm a “ordem”. Pobres das mulheres que também me patrulhavam, dava para ver que elas eram tão vítimas daquilo quanto eu, com suas angústias, noites de choro e inseguranças.

Vivenciei alguns papéis bem diversos do que é “tornar-se mulher” nessa sociedade. O que todos têm em comum é que em nenhum deles o nosso corpo nos pertence. E isso me lembra o post da Lola sobre as gordas terem sido barradas em uma certa boate, um rapaz comentou: “É uma pena que as gordas não possam entrar, afinal alguns caras gostam de gordas”. É bem isso, as variações dos corpos femininos só existem em função do homem, a gorda só pode existir se um cara aceitar fodê-la.

lindasÉ triste e desesperador ligar a televisão, folhear revistas e jornais, assistir a filmes ou qualquer coisa que venha da mídia ou da indústria cultural no geral. Todos os padrões opressores e sem sentido estão por toda a parte, legitimados, normatizados, enfiados nas nossas gargantas. Nosso corpo tem preço, é vendido e reproduzido na forma de pornografia e prostituição. Mulheres estão mutilando seus seios para enfiar uma prótese de silicone, implorando pelo direito de se sentirem bem com seus corpos. “Coloquei porque me sinto melhor de seios grandes, foi por mim e não pelos outros,” diz a moça com seus seios novos de alguns milhares de reais, com a ingênua ideia de que sua repulsa por seus seios pequenos veio de si mesma. A pressão para moldar o corpo feminino é tamanha que temos o silicone, a lipoaspiração e todos esses tratamentos estéticos dementes sendo vendidos como nunca.

A mulher retratada como ideal tem um corpo sem gosto, sem cheiro e sem expressão. É um sex toy, a lá Angelina Jolie. Não existem pêlos, os órgãos genitais são infantis, a barriga é reta, os seios volumosos e a bunda bochechuda. O cu é cor-de-rosa, e só falta saírem flores dele. A beleza é branca, ariana. A postura é preferencialmente delicada, submissa e ao mesmo tempo sexy, provocante. A famosa dama na sala e puta na cama, leia-se escrava na sala e porn star na cama. É irreal, estúpido e inaceitável.

lindaaaaa

Podemos, enfim, resistir? Como podemos tomar nossos corpos de volta? Quando seremos reconhecidas como SUJEITOS de nossos corpos?

O caminho é a desconstrução. Se nos fortalecermos como mulheres, nos unirmos contra o olhar do macho, estaremos construindo uma nova forma de resistência, para enfim alcançar a liberdade e tomar de volta o que é nosso por direito. Uma mulher que tem o apoio de outras mulheres e aprender a aceitar suas formas, cores, gostos e odores, é uma muralha contra o patriarcado. Para mim, a chave está em não esperar a benevolência dos homens, porque eu não acredito que eles vão abrir mão de seus privilégios. Se apoiarem, ótimo, se não, tudo bem também. Não dependeremos disso para nada.

Em primeiro lugar, olhe-se no espelho. Conheça suas formas, toque-se. Aprenda a olhar para toda essa doença imposta às mulheres como uma estratégia, vai ser impossível não se afetar nem um pouco por ela, mas tenha sempre em mente que estamos em uma guerra psicológica. Não se sinta um fracasso se, mesmo depois de saber tudo sobre a situação feminina, você morra de vontade de emagrecer e de ser vista como uma mulher bonita. Infelizmente, as pessoas ao nosso redor vão seguir o ciclo e tentar nos convencer a entrar nos padrões, pessoas com as quais muitas vezes temos uma relação de afeto e confiança. Às vezes é desesperador lutar por uma mudança, mas lembre-se que se adequar ao padrão (quando possível) e/ou fingir que nada está acontecendo é uma covardia imensa, com você mesma, que continuará aprisionada, e com todas as outras mulheres.

O segredo para se manter firme? Justamente a união com outras mulheres. Dividir experiências, diferenças corporais e conhecimento com mulheres é maravilhoso, faz com que a gente se sinta mais forte e segura. Chega de encontrar com mulher só em salão de beleza, saia com as suas amigas para programa culturais, shows, festas, pratiquem uma arte marcial ou esporte juntas. Conversem sobre tudo, sem pudores. Apóiem-se e ajudem-se, por experiência própria digo que muitas vezes tudo o que uma mulher precisa é de informação.

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A situação é um pouco mais complicada nos relacionamentos heterossexuais. Precisamos, antes de mais nada, desconstruir o “amor romântico”, o ideal do príncipe encantado. Mulher nenhuma precisa de um homem para “completá-la”, somos pessoas COMPLETAS, inteiras. Tampa da panela uma ova, esqueçam essa idiotice. Primeiro fortaleçam a auto-estima, depois pensem em viver grandes romances, porque se lembrem que vocês estarão completamente vulneráveis.

A grande maioria dos homens está com o macho enraizado na própria educação, estão prontos para exercer o papel dominante e inquisidor. Por isso, é importante buscar o equilíbrio das relações de poder com eles, na medida do possível. Se o seu namorado está dizendo que tem algo de errado com seu corpo, está lhe fazendo mal ou você se sente subjugada, sério, desista. Não vale a pena manter qualquer relação com um machista, é MASOQUISMO. Você precisa ter controle sobre sua vida e sobre suas escolhas, e consequentemente sobre o seu corpo.

corpos

Hoje posso dizer que o feminismo me fez apoiar mulheres e receber o apoio delas, e que a força que isso somado à teoria me trouxe é fanstástica. Eu amo meu corpo, na maior parte do tempo me sinto no controle da situação. Claro, como eu já disse antes, eventualmente me sinto pressionada por algum agente externo, não sou de ferro (como eu queria ser). Meu companheiro tornou-se feminista e me apóia sempre que pode, consciente de sua situação como homem no patriarcado e lutando para desconstruir isso também.

Enxergo história e personalidade no meu corpo, gosto das minhas formas e proporções. Procuro roupas de modelagem diferente, que caiam bem, não tento forçar a barra com roupas que foram feitas para um tipo físico padrão. Gosto de moda alternativa, sobreposições no vestuário, brinco com looks e expressões. Adoro cabelos coloridos e sempre que posso estou usando cores diferentes, já foi laranja, vermelho, ruivo e agora roxo. Tenho uma queda por visagismo, aquela noção de que bonito é diferente de belo, e que definitivamente não existe padrão de beleza, por mais bonitas que soem as formas mais simétricas pela construção da cultura. Admiro as outras mulheres ao invés de criticá-las, cultivo uma atitude de libertação da beleza, em que todas as formas têm seu espaço e graça própria.

fofas

Também acredito muito no respeito pelo corpo alheio, na consideração total do sujeito que há em cada corpo. Eu vejo uma unidade entre corpo e alma, não simplesmente uma imagem ou um monte de carne, existe um mundo de complexidades naquela pessoa, não somente uma forma física. Luto para que eu e as outras mulheres possamos andar livres com nossos corpos, respeitando nossas próprias formas e harmonizando-as com nossos pensamentos e desejos.

Queridas moças que lêem este blog, vamos celebrar nossos corpos! Vamos continuar lutando por esse direito pleno, não somente hoje como todos os dias, através das nossas atitudes e ativismo.

Para encerrar (eu sempre escrevo mais do que planejava), uma foto bem pessoal no escritório, só pra ilustrar o meu LYBD.

eooo

Beijo carinhoso para todas!

PS: As fotos utilizadas da campanha DOVE não demonstram meu apoio pela marca, já que obviamente mulheres que se aceitam e são lindas não costumam comprar “creme redutor”.

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Mulher legal tem nome: homem.

O tempo nunca esteve tão curto, os dias parecem demandar pelos menos umas 30 horas ao invés de 24, mas sobrou uma brecha para uma reflexão rápida.

Imagine só que basta uma mulher ser espontânea, ou não apresentar as “frescuras” que lhe seriam óbvias, ou expressar sua sexualidade de alguma forma, para que logo receba um apelido bastante significativo: “homem”.

homens bebendo

Tenho passado por isso com muita freqüência, como se tivesse optado por uma identidade de gênero “masculina” apenas por agir com naturalidade. É incrível como os homens esperam que as mulheres tenham seu comportamento regrado e submisso em TODAS as situações, até mesmo em um ambiente de descontração ou conversa entre amigos. Mulheres não falam alto, não falam palavrão, não “zoam”, não arrotam, não gostam de se divertir, não falam de sexualidade, não fazem piadas, não “intimam”, não falam sobre coisas que dão “nojinho” e, principalmente, nunca se fazem ouvir em uma rodinha de homens.

Quando uma mera mortal ousa fazer uso de qualquer um desses itens, é logo taxada de HOMEM. Pois eu digo: Não, obrigada. Sou MULHER!

Isso mesmo, mulher que faz tudo isso e o que mais eu quiser. Mulher que se desconstrói todos os dias, não por obrigação, mas por NECESSIDADE de ser livre. Não preciso ser um homem para me comunicar com espontaneidade.

Mulheres são também as “iludidas”.

videogame

Frases clássicas: “Ah, se minha mulher souber disso fudeu!”, “Não, vai que minha mulher descobre...”, “Puta, que merda, minha mulher vai atrapalhar tudo..”, “Ah, sabe como é, mulher não entende essas coisas”. Elas não são capazes de “entender” os valores masculinos e todo esse lifestyle livre, espontâneo e ousado que parece ser exclusivo dos machinhos. Mulher não participa da hora divertida, engraçada, da descontração plena. Mulher é problema, é espinho no sapato, tem que tratar assim e assado, não pode estar presente quando a coisa fica muito “real”. A companhia feminina é chata, “fresca”, limitada e pouco expressiva. Se possível, dispensável.

dona_de_casa

Amizade ente mulher e homem? Não, esquece, afinal é praticamente uma imposição que ambos acabem na cama. Até a visão das amiguinhas se descobrindo sexualmente parece super aceitável, mas quem vê por aí os amigos homens camaradas vítimas da “ameaça sexual” em suas relações? Mulheres que mantém amizades com homens são então um tipo de alvo contínuo das segundas intenções? Afinal, quando será que um macho vai encarar sua amiga mulher com as mesmas possibilidades sexuais que seu amigo homem? Nunca, porque uma mulher companheira e participativa é inevitavelmente uma oferta de sexo.

Acho que eu nem precisaria dizer isso, mas é claro que existem suas exceções. Eu trabalho com a regra.

A sexualidade da mulher é mais obscura aos homens do que parece, e quando nós mesmas falamos no assunto parece que o ambiente se torna tenso de tão surpreendente. Há aqueles que logo imaginam, “uma mulher que fala de sexo deve estar querendo sexo”, convém destruir o discurso desses pobres coitados. Nossa sexualidade é viva, vigorosa e deve ser motivo de orgulho ao invés de vergonha. Menstruamos, gozamos, nos masturbamos, sentimos tesão e nosso genitais não podem ser sinônimo de passividade, não somos meros receptáculos e muito menos dependentes de um pênis. Também não demonstramos perversão ou descontrole ao falar dessa sexualidade, estamos apenas nos expressando e mostrando a todos esses machos que não somos seus objetos sexuais, somos sujeitos plenos de nossa sexualidade.

O que me incomoda profundamente é a seguinte cena, que insiste em se repetir: Há vários homens no ambiente e uma mulher, os homens dizem algo que julgam “inapropriado” para a presença feminina e logo alguém resolve justificar “Fica tranqüilo, essa daqui é praticamente um homem!”. O mais triste é ver o sorrisinho da moça depois de sua grande conquista, como é ilustre ser um homem também! Pra que ser mulher? Pra que defender a liberdade das mulheres se eu posso me adequar com meus méritos de homem? Mal sabe a moça que suas credenciais masculinas atribuídas têm validade baixa, talvez lhe serão úteis até que se relacione com um dos machos do bando.

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Infelizmente não tenho a obra “Mulher Inteira” à mão nesse momento, mas se não me engano é neste livro que a Germaine Greer analisa uma situação em que uma mulher discute dentro de um grupo predominantemente masculino. O resultado é enraizado, homens dando pouca atenção ao que a mulher diz e buscando uma posição de dominação todo o tempo. Eu sinto isso da mesma forma, por isso faço questão de disputar a voz e me fazer ouvir.

A minha mensagem para as mulheres é que levantem sua voz, sejam espontâneas e infiltrem-se nesse submundo macho das confraternizações. Não existem limitações ou ponderações exclusivas para o discurso de uma mulher, libertem-se de todo esse senso comum e não tenham receio de se expressar. Não precisamos nos prender a uma construção doentia que nos afunda em contenções e máscaras cor-de-rosa, muito menos nos limitar ao salão de beleza enquanto os machinhos nos evitam em algum lugar verdadeiramente divertido.

“Sou tão fêmea que sou subversiva”

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O meu Brainstorm da Pornografia

Na velha discussão feminista sobre pornografia, erotismo e sexualidade, eu me coloco definitivamente do lado antipornografia e bem resistente quando o assunto é “encontrar o delicado limiar entre pornô e erótico”. E isso não chega nem perto de puritanismo ou problemas com a expressão da minha sexualidade, pra mim a pornografia do senso comum é violência e não sexo, pornografia é a teoria e o estupro é a prática.

binthebunny

“A pornografia interfere na maneira de uma pessoa perceber o sexo. Ela estimula uma relação de mão única com o objeto do desejo, admiração e satisfação, e estimula uma relação de uma pessoa (a que está vendo a pornografia) com uma idéia, um ente com quem não se trava relações, só se obtém satisfações. Esse ente, o objeto do desejo e satisfação é manipulado como o observador bem – ou mal – entender. A pornografia possibilita que uma pessoa possa dedicar ao objeto de seu desejo pensamentos recriminados ou considerados negativos por si mesma, sem em nenhum momento ter resposta negativa a essas idéias, ou resposta alguma. Consequentemente, a pornografia constrói a noção de que essa pessoa possa dedicar sentimentos, idéias e até atos negativos ao objeto de seu desejo sem que haja uma resposta negativa, ou mesmo uma privação da satisfação de seu desejo e ansiedade. Com certeza alimenta uma forma de se relacionar com o objeto de desejos como se fosse um objeto. Com certeza é um treinamento para estupros. E com certeza é condição de possibilidade de que se veja a sexualidade, e sobretudo o sexo como algo ruim, negativo, violento, sujo, pervertido.” Manifesto Antipornografia

Este trecho acima é um dos meus preferidos do manifesto, porque expõe claramente a verdadeira relação que há por trás de toda pornografia comercializada. Mais do que a inocente apimentada de relacionamento ou estímulo para masturbação solitária, o formato pornográfico comum proporciona ao indivíduo que se torne espectador de sua sexualidade, que sujeite objetos à suas vontades e anseios sem qualquer conseqüência.

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É assim que eles gostam.

Eu já consumi pornografia. Fui exposta muito cedo a esse tipo de conteúdo, assim como a maioria das crianças. No início é uma curiosidade, “o que essas pessoas estão fazendo?”, logo que a ideia de sexo é compreendida a pornografia parece ser o primeiro contato direto com o assunto, somos praticamente educad*s por ela. Se antes os garotos eram levados até os prostíbulos, hoje lhes dão revistas pornográficas. Afirmo com toda a certeza que a pornografia construiu na minha mente um formato de sexualidade totalmente deturpado, hoje posso analisar e constatar esse fato.

Quando assistimos pornografia estamos vivendo nossos desejos por meio de outros. Pior, estamos assimilando que aquilo é sexo legítimo, sexo “explícito”, ou seja, o verdadeiro e mais exposto possível. Aprendi que sexo “bom” mesmo era daquele jeito, rápido, bruto, impessoal, focado em um pinto que ejacula mil litros, de preferência em um rosto feminino.

Neste momento preciso traduzir alguns trechos de uma lista feita por uma diretora de filmes pornográficos “feministas” (chegaremos lá) sobre clichês do pornô:

argh

Dá vontade de vomitar...ou espancar esse velho.

1. Mulheres usam salto alto na cama.
2. Homens nunca são impotentes.
3. Ao fazer sexo oral em uma mulher 10 segundos são mais que satisfatórios.
4. Se uma mulher for pega masturbando-se por um estranho, ela não gritará ou ficará constrangida, ao invés disse insistirá para fazer sexo com ele.
5. Todo homem tem pelo menos um litro de esperma.
6. Se houverem dois litros, melhor ainda (a garota não sente nojo!).
7. Garotas jovens e belas adoram fazer sexo com homens feios de meia-idade.
8. Mulheres sempre gozam quando os homens gozam.
9. Todas as mulheres trepam berrando.
10. Aqueles peitos são de verdade.
11. Dupla penetração faz uma mulher sorrir.
12. Homens asiáticos não existem.
13. Nem homens de pau pequeno.
14. Se você encontra um cara fazendo sexo com sua namorada em uma moita, ele não reclamará se você esfregar seu pinto na boca da garota.
15. Todas as mulheres adoram levar tapas na bunda.
16. Enfermeiras chupam o pau de pacientes.
17. Quando sua namorada te encontrar sendo chupado pela melhor amiga dela, ela ficará bravinha por alguns instantes antes de trepar com os dois.
18. Mulheres nunca têm dor de cabeça, nem menstruam.
19. Quando uma mulher está chupando um pau, é importante que o indivíduo a lembre constantemente: “Chupa!”.
20. Um cu é sempre limpo e delicioso.
21. Mulheres sempre ficam surpresas e gratas quando abrem as calças de um homem e encontram…um pau.

Estes são apenas alguns dos milhares de clichês pornográficos. Sem falar nos ditos pornôs “inclusivos” que colocam pessoas consideradas “feias” para fazer sexo, normalmente em situações duplamente humilhantes e brutais. Sempre percebi que os pornôs envolvendo mulheres negras, especialmente lésbicas, faziam questão de apresentar cenas bastante agressivas, com movimentos que, sinceramente, NUNCA causariam tesão em alguém. Essas mulheres são retratadas de forma selvagem, embrutecida e violenta, parece que esta seria a única forma de vender material excitante de pessoas que são marginalizadas por sua aparência e cor.

Mulheres no pornô geral são representadas, em 99% das vezes, como a parte “dominada” na pornografia. Sim, porque nesses filmes sempre há uma relação dominador/dominado no sexo, não existe troca. Lembrando que mesmo em filmes que usam a figura da “dominatrix” ou filmes gays masculinos impera a ideia de papéis ativos e passivos, regra geral com variações de gênero – diz-se que o passivo é a “mulher”, ou seja, toda passividade e submissão têm caráter feminino. E quando não nos excitamos com nosso papel passivão, dizem que o problema está conosco.

jaajajahahah

Que porra é essa?

Lésbicas na pornografia heterossexual são tão plásticas que dão nojo. É possível sentir a repugnância que as heterossexuais fantasiadas de lésbicas ninfetas expressam ao fazerem sexo oral em outra mulher. E claro, o homem está ali, mediando a situação com seu pênis ereto, o verdadeiro protagonista. Por que afinal mulheres não sentem tesão com filmes de homens gays? Deveria ser super excitante a ideia de flagrar dois homens fazendo sexo e juntar-se a eles pela lógica da “igualdade” que certas pessoas promovem, mas não é bem assim que funciona.

As taras são diversas, mas a campeã parece ser o estupro, com a maior incidência de buscas no Google. Até mesmo os filmes que não promovem explicitamente o ato de forçar sexo a uma mulher se apropriam da ideia para “excitar”. Sexo oral claramente forçado, com aqueles empurrões grotescos, expressões de agonia e dor, penetração brutal, gang bang violento, bondage, tudo isso é simplesmente estupro. Aí vem gente dizer que na esfera da fantasia tudo é permitido, que não significa que a pessoa realmente faria aquilo, mas soa muito ingênuo acreditar que uma pessoa que busca essas representações para satisfazer seus desejos não assimila os valores do ato. Meu cérebro não derreteu ainda, não vou cair numa dessas, queridos estupradores potenciais.

Há ainda homens que alegam não gostar de pornografia , preferindo algo “não vulgar”. Muitos recorrem ao estereótipo da mulher “sexy”, através da playboy ou do “Sexy Time” do MultiShow. Julgam que, se não há penetração em órgãos genitais expostos, trata-se da mais leve e saudável forma de exploração do sexo possível, não pode haver algo de errado em belas mulheres siliconadas e photoshopadas em momentos de pura lascívia. Talvez o padrão violento seja suficiente para justificar o repúdio a essas práticas, mas acrescento ainda que os motivos que levam essas garotas a prostituírem a imagem de seus corpos são os mesmos que as colocam sob risco iminente de estupro na própria sociedade.

horror

A expressão mais excitante para um macho

Um fenômeno que observei foi a invasão de vídeos exibicionistas de mulheres no Yotube rebolando para a câmera de calcinha. Alguns vídeos parecem ter sido feitos para alguém e depois “vazaram”, outros são feitos para divulgação mesmo. Para aqueles que foram colocados na internet sem permissão, é a mesma situação de milhares de mulheres expostas em vídeos e fotos nas comunidades estilo “caiu na NET”, onde o ex-namorado predador se vinga da garota tornando públicas suas intimidades. Produzir material pornográfico para o namorado é vendida como uma ideia excitante e proveitosa para a vida sexual do casal, embora o homem nunca o faça. É realmente muito excitante poder objetificar a própria companheira, justo aquela mulher que parecia ser a única com características de sujeito, que não podia ser usada como as atrizes do pornô, torna-se disponível. E produzir material exibicionista para vários homens? Dizem que é uma “escolha” deliberada, uma forma genuína de prazer. Eu digo que uma mulher no contexto feminino de sujeição precisa provar constantemente que é atraente e capaz de seduzir um homem, já que sua auto-estima é esmagada por todos os lados e seu único valor como indivíduo parece depender de aprovação masculina. Parte dessa necessidade de mostrar-se sexualmente disponível em busca do status da fêmea no patriarcado está exposta nesses vídeos, é uma das poucas saídas que muitas mulheres encontram para sentirem-se valorizadas e desejadas de alguma forma, mesmo que através de insultos.

Mas voltando à indústria pornográfica, este artigo da antropóloga colombiana María Elvira Díaz Benítez, “Nas redes do sexo: bastidores e cenários do pornô brasileiro”, vale uma leitura porque explica bem a questão dos estereótipos femininos trabalhados na pornografia, desde a latina caliente até a ninfetinha asiática. E também um pouco sobre os estereótipos masculinos, como o negro bestial e o tiozão viril.

horrível

Garotas dominadas? Enfia no seu cu seu fetiche.

É claro que os bastidores do mundo pornô tentam mostrar uma imagem positiva e saudável de suas práticas. Fala-se muito em escolhas, especialmente as escolhas da mulher, que parece “optar” por ser humilhada em um set de filmagem. Para esse assunto eu indico um post escrito pela blogueira Marjorie, simplesmente fantástico, abordando a questão da livre escolha entre outros assuntos, veja aqui.  Alguns recortes do texto:

“Por exemplo: “se eu escolhi ser prostituta/stripper/atriz pornô/whatever, se eu fiz isso porque quero, então eu não sou uma mulher objetificada. Eu sou sujeito das minhas ações e quem disser que estou numa posição de passividade ou vulnerabilidade está errado. É paternalista dar a entender que eu sou burra, não sei o que faço ou sou apenas um joguete do patriarcado.”

“[…]o contexto em que uma determinada escolha é tomada a dota de um significado particular.”

“Vulnerabilidade que a Charlotte não escolheu, mas que pode vir de brinde com sua escolha. Logo, não adianta ser sujeito na hora de escolher, se o contexto te coloca numa posição subordinada depois. O féladaputa do contexto pode te transformar em vítima da sua própria escolha.”

rape2

Cala a boca, mulher.

“Contextualizar a escolha, dizendo que ela pode levar a uma situação de vulnerabilidade, não é negar o fato de que escolher é uma ação. Nem dizer que o autor da escolha não pense por si. Está-se apenas inserindo esta escolha em um mundo e, então, refletindo quanto à influência do mundo sobre a escolha e o efeito dessa escolha no mundo.”

Perfeito, eu não poderia explicar melhor. É isso, nossas escolhas estão sempre inseridas em um contexto, não podemos simplesmente nos separar do mundo inteiro e colocar nossas escolhas em uma bolha em que tudo acontece conforme o esperado. Então, se a atriz pornô escolheu deliberadamente sua profissão, isso não significa que a situação não a torna vulnerável e vítima dentro de um sistema de desigualdade em que mulheres são inferiorizadas. Vítima da própria escolha. Quantas dessas mulheres têm a opção de conhecer outros caminhos? Ou mesmo, quantas tiveram condições de fazer uma análise crítica sobre a pornografia? Não é à toa que várias usam drogas e o índice de suicídio é altíssimo, como no mundo da prostituição, esqueçam o glamour e a liberdade do pornô.

linda lovelace

Até que ela parece feliz, não é mesmo?

Alguém tem um exemplo melhor que Linda Lovelace? A atriz de “Garganta Profunda” que apanhava e era estuprada no set e só foi protagonista do filme pornográfico mais famoso da História porque foi FORÇADA? Não por acaso, Linda milita contra a pornografia hoje em dia. Ela vivia presa ao homem que a obrigou a realizar o filme, o mesmo homem que a prostituía, estuprava e fazia com que outros homens a estuprassem. É possível ver os hematomas de Linda durante o filme. Ela demorou anos para tomar coragem e fugir do agressor, porque se sentia dependente dele. E ainda tem gente que culpa as mulheres por não conseguirem se defender de certas coisas, ao invés de culpar quem as ataca!

lindalovelace sofrendo

Tente isso e veja se é bom.

Este é um vídeo muito interessante, http://br.youtube.com/watch?v=r0q_VGacfNk , descrição: “Este poderoso vídeo é em memória de centenas de estrelas pornográficas mortas. Este vídeo é dedicado às estrelas pornográficas ainda vivas. Minha esperança é que este vídeo toque muitas vidas e que elas parem de ver e fazer pornografia. A Pornografia não é glamurosa.”

Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) e depressão são comuns em pessoas que estão na indústria pornográfica. A razão mais buscada pelas mulheres parece ser o cachê mais alto e pelos homens a oportunidade de reafirmar sua virilidade e potência. No set de filmagem nem a lubrificação vaginal é real, ou não suportaria todas as modalidades de penetração por tanto tempo. Trecho de entrevista com psicólogo especialista em relacionamentos e ansiedade Alexandre Bez:

Problemas familiares podem ajudar na escolha pela profissão de ator/atriz pornô?
Dr. Alexandre Bez: Sim, devemos lembrar que para todos nós a questão familiar é muito importante. Assim como problemas de ordem social, econômica ou sentimental, falta de carinho ou constantes dificuldades na família podem ser catalisadores para uma pessoa encarar esse tipo de profissão.

Pois é, desde a formação no núcleo familiar existem estímulos e situações que nos levam a fazer escolhas que não são “livres”, pois não temos acesso real a diversas escolhas e reflexões. Não podemos culpar as mulheres por promoverem uma indústria pornográfica que inferioriza elas mesmas, precisamos focar nossos objetivos naqueles que produzem e consomem esses materiais.

pornô feminista

Pornografia feminista, será?

Mas espera aí, não tem mulher que gosta de pornografia? A maioria, mesmo sem contextualizar, parece sentir uma certa repugnância dos formatos masculinos de pornografia, como os clichês acima citados. O que me surpreendeu foi descobrir que existe uma onda de diretoras de pornografia “feminista” invadindo a Europa.

A proposta, tenho que admitir, é louvável. Uma das diretoras, que já foi atriz pornô e hoje é cientista política, reconhece que os filmes insultavam sua inteligência e a colocavam como um objeto domesticado. Os filmes produzidos por ela exploram a sexualidade feminina, orgasmos reais, homens que realmente existem na trama, relações de respeito mútuo e algumas peculiaridades de filmagem como nunca exibir ejaculação masculina e dar preferência ao foco nas expressões faciais de prazer ao invés dos genitais. Duas entrevistas com diretoras explicam mais sobre, aqui e aqui.

suicide

Liberdade? Ah tah, valeu.

Elas afirmam que seus filmes seriam ótimos para educar homens em novos papéis sexuais, mais humanos e reais, além de serem feitos com responsabilidade e envolvimento dos protagonistas. Eu não invalido totalmente a ideia porque de alguma forma é diferente, mas infelizmente está inserido no mesmo contexto machista em que vivemos. Não é um pornô com uma perspectiva feminista que vai revolucionar a indústria pornográfica masculina, além de não estar livre da questão do voyeurismo impessoal. Pesquisei algumas capas de filmes e encontrei alguns clichês como mulheres de seios enormes nuas, fantasiadas e com um padrão próximo ao convencional, não vou arriscar generalizar, mas foi a impressão. Ainda prefiro a extinção dos formatos pornográficos comuns do que reformas desse tipo, acho a questão perigosa. Além do mais, adivinhe como era o troféu que premiava as melhores diretoras? Em formato de PINTO.

Também encontrei referências das diretoras enaltecendo o Suicide Girls. Para mim, esse site sempre foi uma Playboy alternativa e de péssimo gosto. Alt-porn não é menos violento nem menos opressor só porque mostra algumas garotas fora do padrão com piercings e tatuagens, buscando um lugar ao sol para serem admiradas com sua resistência estética. Se fosse realmente uma representação de resistência aos padrões, por que colocariam essas mulheres “exóticas” na mesma posição sexualizada e objetificada das garotas da Playboy? No fim, toda a subversão de valores alternativos acaba na masturbação do macho que consome o material.

São 5 páginas de Word e eu não consigo sentir que disse tudo o que pensava sobre a pornografia, na verdade são inúmeras as implicações envolvidas. Sou definitivamente antipornografia, enxergo nesses materiais um ódio repulsivo contra a mulher e um conservadorismo nas questões de gênero absurdo, além de uma forma de construção de uma sexualidade falsa, egoísta, impessoal. Não é a minha sexualidade, não envolve respeito ou responsabilidade, não implica um contato íntimo e real, destrói relações. Eu me sinto livre por não consumir pornografia, assim como conheci pessoas que admitiram sentir-se escravizadas por um vício pornográfico. E o que mais me dói em tudo isso, é ver como as mulheres são constantemente condenadas pela estética pornográfica comum, como a sexualidade feminina é obscura nessa indústria e o quanto ela tem poder de influência sobre os homens.

Sobre o que chamam de pornografia alternativa, feita com casais reais, mulheres que representam sujeitos e coisas assim, ainda não tenho opinião formada. É claro que não se deve condenar todas as representações sexuais, o problema é a delicadeza de lidar com isso em um mundo machista que glamouriza o egoísmo. Eu, pessoalmente, não assistiria nem se fosse o vídeo da Maria e do João em casa fazendo um papai-mamãe cheio de ternura, dispenso. Estou bastante satisfeita com a minha sexualidade assim.

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Assédio e abuso verbal nas ruas: bons motivos para resistir.

Para ter certeza de que as mulheres são inferiorizadas, basta ser uma delas e estar andando pelas ruas. Sinto-me um soldado pronto para a guerra cada vez que faço algo tão simples quanto sair para trabalhar, estudar ou comprar um pão.

Você está andando pela calçada, feliz e tranqüila, quando avista um grupo de homens que podem estar do mesmo lado da rua ou do outro. Imediatamente as criaturas começam a medir você de cima a baixo, com expressões tão sádicas que nem os próprios acreditariam se tirássemos uma foto. Você logicamente começa a se sentir constrangida, ansiosa e incomodada, sabe o que vem logo em seguida.

A agressão varia muito, mas é encarada de forma tão natural que chega a ser bizarro. Lá estão os trolls popularmente “mexendo” com a mulher, dizendo desde gracinhas peraltas até insultos sexuais violentos, com o mesmo tom audacioso e cheio de desprezo. Assediam as mulheres quando querem, como querem e da forma que bem entendem, perturbam nosso direito de ir e vir e gozam da impunidade.

mujer

Sobre o velho discurso de que as mulheres “gostam” do assédio nas ruas, posso oferecer meu depoimento pessoal. Admito, já me impulsionei a gostar da situação, em certa época da minha vida acreditei que as ditas cantadas eram uma forma de admiração, significavam que eu era atraente e interessante. Quanta ingenuidade.

Só fui realmente entender que estava sofrendo uma violência quando parei para analisar porque aquilo era um tanto “estranho”, meio repugnante, mas ao mesmo tempo necessário e agradável. Na verdade, a minha auto-estima dependia de algo tão grosseiro quanto um assédio para manter-se bem porque era simplesmente esmagada de todos os lados. Levam as mulheres a crer que elas precisam da atenção e da aprovação de um homem, que seus corpos devem ser objetos de pura luxúria para que se mantenham orgulhosas e “poderosas”.

Assim são enfiados goela abaixo padrões femininos e cada vez mais somos cobertas de exigências. Quando enfim somos reconhecidas pelos homens a quem tanto devemos e precisamos, surge uma falsa sensação de êxito. Muitas mulheres enfrentam esse condicionamento e encaram o assédio como uma vantagem, mas ainda assim reconhecem que tem algo errado no processo. Pude conhecer e ter contato com diversas mulheres que hoje odeiam e repudiam essa prática, embora no passado tenham aceitado. Há ainda aquelas que, expostas a uma reflexão sobre o assunto, parecem despertar repentinamente para algo que nunca sentiram antes.

Podem insistir o quanto quiserem que existem algumas mulheres que gostam e pronto, mas apresento um FATO: Todas as mulheres alguma vez na vida já mudaram de calçada ao avistar uma reunião de homens. Todas já se sentiram humilhadas, constrangidas ou profundamente irritadas com um assédio, e a maioria tem uma bela história de horror pra contar, como maravilhosamente exposto no blog Escreva Lola Escreva. E mesmo que muitas mulheres supostamente aceitassem o assédio, ainda existiriam milhares de outras que detestam e possuem o direito de ficar em paz.

cantada

Um homem que assedia na rua não espera que a mulher sinta-se lisonjeada e vá ao seu encontro para uma noite de sexo, não espera sequer que ela lhe responda. Eles fazem isso porque simplesmente se acham no direito de fazê-lo, sentem prazer em constranger mulheres e objetificá-las, enfatizando o desequilíbrio das relações de poder. Quando estão em grupos, deliciam-se com o status másculo que recebem ao assediar uma mulher, já que estão protegidos e apoiados por suas corjas. Quando sós, sentem-se seguros da mesma forma, o que uma mulher poderia fazer a respeito?

Se ela usa um decote, eles logo julgam que está se oferecendo. Se em um dia quente de verão eu resolvo usar uma saia, estou colocando meu corpo em uma vitrine e me sujeitando ao julgamento de um bando de machinhos. A culpa não é da mulher e do seu corpo, a culpa é da ótica masculina que recorta nossos corpos em partes e sexualiza cada uma delas. Se não podemos sair às ruas com nossos corpos sem sofrer assédio, que porra de liberdade é essa afinal?

Os homens que assediam acham realmente que podem invadir nosso espaço e fazem de tudo para que possamos ouvir seus insultos. São protegidos culturalmente e sua atitude é legitimada pelo machismo. Quando confrontados, estão sempre prontos para negar o que fizeram, fazer deboches ou simplesmente agir com violência. Uma reação feminina nunca é esperada, é cômodo que elas permaneçam boas ouvintes submissas e envergonhadas.

A seguir alguns argumentos de homens, retirados de comentários do artigo sobre assédio nas ruas publicado no Mídia Independente, aqui, e de um documento encontrado na web comentando o mesmo artigo, disponível aqui:

Machista

“Não entendam mal, e o tesão como fica? Como animal do sexo masculino não posso deixar de olhar ou até mesmo desejar uma femea que eventualmente me chame a atenção, não foram poucas as vezes que senti desejo sexual ao ver uma bela mulher com um vestido ou uma saia bem sensual.”

Começamos por “animal do sexo masculino”. O cidadão se define praticamente a partir de argumentos biológicos de que homens são naturalmente vorazes sexualmente e não conseguem resistir. Como se realmente houvesse um comportamento “natural” no ser humano, e como se a construção social e história de opressão das mulheres, inclusive com a divisão do trabalho, não influenciassem o comportamento sexual que vemos hoje. Querem castrar a mulher de toda e qualquer virilidade, justificando o assédio através de uma suposta natureza masculina promíscua. Como somos selvagens e fiéis aos nossos instintos, não é mesmo?

O vestido e a saia são vistos como sensuais e provocantes, independente da vontade da mulher que está vestindo. Não teremos o direito de resignificar nossas vestes e expressões corporais enquanto existirem estereótipos prontos para qualquer coisa que usemos. O desejo sexual do cidadão é um problema exclusivamente dele, poderá sentir o que quiser desde que respeite a mulher como indivíduo e seu espaço. O que temos a ver com suas ereções? Não precisamos compartilhar dessa fantasia e muito menos ser comunicadas a respeito.

“Creio que a maior parte das mulheres se interessariam se fosse um cara rico numa Ferrari.”

Machismo pouco é bobagem. O estereótipo da mulher interesseira é mais uma das coisas que temos que suportar. Mulheres já foram usadas como verdadeiros mostruários ambulantes das riquezas de seus maridos, encerradas em suas casas compensando toda a frustração em bens materiais. Conquistaram o direito básico do acesso ao mercado de trabalho há pouquíssimo tempo, ainda ganham menos, sofrem assédio e raramente alcançam posições superiores. Enquanto disputam o acúmulo de capital em uma competição inteiramente masculina e desigual, não é de se surpreender que muitas ainda enxerguem no dinheiro e status uma compensação para seus problemas, ou mesmo para o homem rico que terão de aturar ao seu lado. Felizmente, a situação tende a melhorar e cada vez mais mulheres pagam suas contas e não dependem mais de riquinhos em Ferraris.

De qualquer forma, assédio não tem idade, classe social e cor, não são raras as vezes que o executivo babão é tão repugnante quanto o pedreiro da esquina em seu abuso verbal.

“Use a tal burca dos muculmanos, ai ninguem olhara nem desejara vcs. Mas oq ue vcs fazem no verao? Colocam uma mini blusa, um salto, pernas e barrigas de fora. E ai saem desfilando na rua. E querem o que?”

Queremos respeito, como já foi dito antes, fodam-se vocês e sua ótica machista nojenta. Temos o direito de andar nas ruas como bem entendermos sem sofrer qualquer violência ou abuso. A burka também não protege as muçulmanas da violência desse suposto “desejo”, são estupradas e molestadas da mesma forma, com vestes diferentes.

troll

“Se fosse por mulheres assim o mundo ja tinha sido extinto, nao procriariamos.”

Praticamente a máxima do machismo, parabéns para o indivíduo que escreveu isso. Exatamente, para muitos homens ABUSO é parte do sexo. Enxergam a posição submissa de uma mulher como critério para uma relação sexual bem sucedida. O cara simplesmente disse que sem assédio e abuso, as mulheres não fazem sexo e logo não procriamos. Além de ignorante, promove a heteronormatividade.

“Não temos maiores problemas na vida? Mulheres fortes nao se afetam por estas bobagens.”

Eu realmente não suporto essas pessoas que tentam fugir de uma discussão alegando que existem outros assuntos mais importantes. O que está em pauta são os direitos das mulheres, sou uma mulher e quero meus direitos, se alguém acha que existem coisas mais importantes, nunca perca seu tempo expondo uma opinião ridícula a respeito. O cidadão da frase parece achar que a “força” da mulher está em ignorar o assédio, fingir que nada aconteceu. Como dizem por aí, e estão certíssimos, “o seu silêncio não vai proteger você”.

“ Quando passa uma Ferrari eu digo que carrao. Quando vemos uma bela casa olhamos para ela. E isto ? ofensa?”

Perfeito, cara. Mostrou com belos efeitos comparativos o que as mulheres são na ótica masculina: objetos. Tente ofender uma casa ou uma Ferrari.

“Se nao quer chamar a atencao nao se produza, ou se produz para que?”

Se não quer ser assaltado, não saia de casa, oras. Mesmo que você goste de precise carregar sua carteira, é culpa sua que os assaltantes estão te atacando, assim como é culpa das mulheres quando são estupradas.

“Eu sou dos que olham uma mulher como um pedaco de carne, mas a primeira vista somos exatamente isto, um pedaco de carne muito bem enfeitado.”

É exatamente por isso que o feminismo é a noção de que as mulheres são pessoas. Sou um indivíduo, queiram os homens ou não, e terão que me respeitar. Pedaços de carne, exatamente como são tratados os animais de abate, resumidos a um objeto de consumo com suas vidas totalmente desprezadas.

“Eu como homem de vez em quando sou elogiado, nao me sinto ofendido, faz parte da vida. Mesmo que seja uma macaca.”

Fiquei em dúvida se o termo “macaca” faz referência a uma primata ou se foi algum tipo de insulto racista medíocre. No caso deste cidadão, eu arriscaria na segunda hipótese. Quantos homens sofrem assédio e abuso verbal nas ruas, e quantos deles realmente se sentiriam ofendidos nessa situação? É como um branco dizer que é melhor que um negro e depois um negro dizer que é melhor que um branco, dá pra sentir uma diferença gritante? Sim, a posição inferiorizada da mulher é decisiva para definição das relações de poder, um homem “assediado” jamais levaria a sério ou sequer ficaria constrangido. Engraçado também como o rapaz insiste na palavra “elogiar”, considerando o assédio uma atitude positiva e de admiração.

chuck

“Eu sou homem, mas morro de medo de assalto e de outros problemas”

Enquanto você teme um assalto, eu tenho que temer pela minha integridade física e moral só porque sou mulher.

“Vc esta se colocando numa situação péssima”

Até NISSO as mulheres são culpadas, por se incomodarem com o assédio e sentirem a repressão elas são culpadas e têm que resolver isso. Os homens NUNCA têm culpa de nada que fazem. Eu me coloquei nessa situação, de repente eu inventei que ser chamada de “gostosa” e ouvir um neandertal dizer que “quer ser pai dos meus filhos” depois de sussurrar “delícia” é uma forma de abuso, quando na verdade são homens bem intencionados seguindo sua cartilha de testosterona para inocentemente agradar as mulheres.

A resistência masculina às ideias feministas é óbvia e previsível, assim como seus ataques baratos e esperneios infantis. Quando se sentem ameaçados já começam a dizer que eu não tenho senso de humor, que sou mal-amada, preciso de uma rola, qualquer tentativa infeliz de insulto. Pior, começam a tentar esconder a situação, dizem que é exagero e procuram tapar o sol com a peneira.

Afinal, vejam que maravilhoso, conquistamos o direito ao voto e ao mercado de trabalho, enquanto a maioria de políticos ainda é masculina e a competitividade do business coloca homens sobre as mulheres. Também conquistamos o direito de foder quem quisermos, mais que isso, ganhamos um bombardeio de incentivos para aumentar nossa disponibilidade sexual e glorificar a penetração. Ao invés de queimar nossos sutiãs, estamos os recheando, às vezes através da mutilação deliberada.

Como bônus, ganhamos o assédio nas ruas e o abuso verbal, cuja violência aos poucos está sendo reconhecida pelas mulheres.

Temos que nos virar para encontrar meios de lutar, uma mulher não conta com proteção legal e o abuso verbal sofrido dificilmente é enquadrado em danos morais, imagine em assédio sexual. Policiais podem no máximo rir da sua cara.

Como já mencionado antes, o nosso silêncio não irá nos proteger. Portanto, a solução que parece mais viável no momento é resistir. Disseminar a ideia e organizar mulheres é importante, mas também é preciso reagir de imediato.

girlready

Não, não deixe que eles o façam. Quando for assediada, conteste, resista, grite, acreditem em mim, a maioria dos homens fica sem reação porque nunca esperam que a mulher tenha a coragem de enfrentá-los.   Claro, considere se está em um local arriscado ou não. A possibilidade do cara que mexeu com você ser um psicopata armado que vai te estourar em público é quase nula, e lembre-se que a cultura do MEDO tem sido induzida nas mulheres e que há uma razão para isto.

A mulher amedrontada se torna vulnerável e é um alvo em potencial, não reage e suporta calada as mais diversas agressões. Não somos frágeis, tampouco covardes. Somos mulheres e não precisamos nos sujeitar a abusos masculinos por receio ou medo, as estatísticas demonstram que homens estão mais propensos a ter uma morte violenta do que as mulheres, mas nós é que somos educadas para temer tudo e todos.

Boa

Superado o complexo de vulnerabilidade imposto, resta criar seu discurso e reagir quando necessário. O importante é nunca ficar em silêncio, fingir que não ouviu o assédio e não sentir-se intimidada, afinal são apenas homens. Na sequência uma breve lista de dicas para você, mulher, que se sente ofendida e constrangida, reagir ao assédio:

– Tudo o que o cara não espera é que você reaja, lembre-se disso, você tem praticamente um elemento surpresa.
– Quando passarem por você sussurando obscenidades, pare, vire-se e grite algo como “Você falou comigo?”. Ele vai tomar um susto e dizer que não.
– Se o elemento estiver parado no caminho e começar a te medir, passe encarando-o firme e com o pensamento fixo “fala alguma coisa pra você ver”. Quase nunca ousam.
– Quando disserem um desaforo pra você em alto e bom tom, e costumam fazê-lo em grupo, pare, vire-se e diga no mesmo tom o que tiver vontade. Discuta, se necessário, lembre-se que são apenas homens e eles te xingaram sem motivo, use isso ao seu favor. Normalmente o discurso “e se fosse sua mãe ou irmã”, algo sobre respeito e uma boa tirada funcionam bem, o grupo ri do indivíduo e no máximo te acusam de estar nervosinha.
– Para caras de carro, a regra é fazer gestos pouco amigáveis.
– Se ousarem te tocar, pegar no seu braço, cabelo, ou qualquer coisa, a ordem é fazer um escândalo fenomenal. Se tiver confiança suficiente, um pouco de técnica e nenhum medo de trocar uns socos, parta pra agressão (pouco recomendável).
– NUNCA se encolha, fique envergonhada, faça carinha de brava, saia andando depressa, finja que não ouviu ou dê risada.
– Se comentarem sobre seu corpo ou roupa, revide dizendo que não comentou sobre o corpo do indivíduo e que ele não tem esse direito. Parece engraçado, mas muito pedem desculpas ou ficam sem graça.
– O elemento surpresa aliado a um berro repentino costumam dar um bom susto no machinho e render boas risadas para todos em volta. Humilhe-o sempre que puder.
– Lembre-se: Uma mulher reclamando de assédio é defendida pelas pessoas em volta na esmagadora maioria das vezes, aprenda a usar uma das poucas vantagens que o papel de vítima lhe trouxe ao seu favor enquanto for preciso.
– Esta não é nada ética, mas sinceramente quando estou de saco cheio esvazio o estoque de palavrões e aproveito os efeitos terapêuticos.

Essas dicas são bem pessoais e são baseadas nas minhas experiências como cidadã de São Paulo moradora da Zona Leste, considerada “branca” e de classe média. Importante ressaltar que a eficácia das recomendações está sujeita à milhares de circunstâncias e podem expor a mulher a alto risco dependendo do local e pessoas envolvidas. Saiba onde fazer, o que fazer, quando fazer e como fazer, e não fique intimidada sem necessidade.

O assédio nas ruas é um ótimo indicativo da situação da mulher, especialmente no Brasil. Nós não podemos aceitar essa liberdade pela metade.

Resista por você e por todas as mulheres.

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Machos para Machos

Hoje eu estava navegando por aí em um momento de ócio, lendo blogs alheios, como sempre faço. Acabei em um blog com temática gay, escrito por um rapaz homossexual politizado e cheios de ótimas idéias, quando me deparei com um post sobre erotismo e aquela coisa toda, com um link para um site chamado “Eles para Elas”.

Pra começar acho que o nome deveria ser mesmo “Eles para Eles”, ou em um futuro utópico “El@s para El@s” (ok, não podia perder essa).Todo o ambiente do website parecia pensado para o imaginário masculino, até a linguagem corporal dos modelos buscava referências do universo gay. Fiquei pensando se realmente uma mulher poderia comprar aquela idéia de erótico escrachado, entre peitos depilados e gominhos de esteróides. Claro, caímos na velha questão dos esterótipos, sexualidade vendida, nú opressor, e tudo mais. Mas parece que a tentativa de vender corpos masculinos às mulheres acaba num fiasco, quem realmente se apropria do conteúdo são, pra variar, outros homens.

Fala-se muito sobre a inserção dos desejos femininos no mercado da libido, tentam até mesmo confrontar o status quo machista argumentando que homens também são expostos, condicionados e sujeitos às ditaduras do corpo. Porém, infelizmente o que temos são alguns modelos depilados e cheirando testosterona que posam nús em posições viris e atraem o público gay. E o que dizem deles socialmente? Simplesmente não são chamados de putos, vadios, vagabundos,e se o são, com certeza em um sentido favorável. No máximo os amigos dão uma risadinha e falam que é coisa de “gay”, mas isso é facilmente resolvido com uma pose de “macho” e algumas mulheres como troféis.

É impossível ficar excitada com uma coisa dessas, sério. Pessoalmente, eu tenho problemas com associações de “macho”, qualquer referência que me remeta aos trolls, trogloditas e nenandertais do dia-a-dia me deixa em profundo estado de náusea. Esses músculos dourados banhados a um óleo possivelmente nojento, conquistados com uma puxação de ferro sem propósito infinita, esse olhar de potencial estuprador, essa barba por fazer que denuncia um look “rústico” digno do macho, argh. É um conjunto de valores estúpidos reunidos em uma única imagem.

Odeio machos, odeio. Não homens, que fique claro, apenas machos. O masculino estereotipado me cansa, me dá desgosto. Na categoria de macho não precisa ser anaboliza-boy não, pode ser o tio da esquina ou o garoto aparentemente legal, o que conta é o comportamento bruto e ignorante, o machismo inconsciente, a voracidade sexual biologicamente argumentada e a busca incessante pelo status.

Uma dica infalível para reconhecer o macho é perceber o quanto e como ele fala de moças, parece que quando o assunto é um ser tipicamente feminino muda o tom de voz, as pupilas dilatam e são vomitados comentários nojentos de todos os tipos. O primeiro passo costuma ser a “avaliação geral” da mulher, pois para um macho é impossível falar de uma suposta fêmea sem fazer seu julgamento sobre seu corpo, por mais que isso soe ridículo. É sempre a “gata”, ou a “baranga”, ou a “mal cuidada”, a “razoável”, a “bonitinha”, a “gostosinha”. Como se realmente importasse a opinião dele sobre o corpo que pertence a ela.

O macho não consegue ver as mulheres como pessoas, ele enxerga partes expostas na vitrine prontas para serem provadas. Todas as moças que ele considera bonitas demandam uma super estratégia para conseguir sexo, é inadmissível permitir que mulheres bonitas sejam apenas boas amizades e companhias, é preciso enfiar o pau nelas.

O macho não gosta de sexo, ele só precisa gozar. Ele acha que pornografia é sexo legítimo, bate punhetas para a Playboy com naturalidade, cria fantasias de sexo anal com qualquer bunda que vê pela frente, busca um sentido para a própria vida na penetração e vê o mundo como uma selva em que ele é o predador e as mulheres são as presas.

A palavra “gostosa” é o mantra do macho. Gostosa, comestível, aproveitável, utilizável, nem ele sabe porque usa tanto esse termo, mas tem tudo a ver com o que ele pensa sobre mulheres.

Para o macho mulher tem que seguir a cartilha da feminilidade à risca, incluindo depilação, creminho, malhação e as posições novas que a revista Marie Claire ensina para enlouquecer seu homem.Não importa tanto o estilo que ela vista, contanto que se mostre sempre disponível, sexy e dengosinha e procure um dos padrões femininos vigentes para se adequar.

O novo macho não entende o que é machismo e adora dizer que isso não existe, afinal ele é burro demais para entender suas atitudes ou esperto demais para mantê-las como estão confortavelmente. Ele é frequentemente homofóbico, acha uma mulher lésbica desperdício e um homem gay sinônimo de mais mulheres a disposição. Porque o que importa é gozar, e gozar com uma mulher, por uma mulher, na presença de uma mulher, atrás de uma mulher, em cima de uma mulher, pensando em uma mulher, etc. etc. etc.

Finalmente, o estilo macho não é exclusividade de pobre, pedreiro, playboy, ou qualquer estereótipo, o macho pode estar vivendo sob o seu teto com uma máscara de homem. O macho está na padaria, na boate gay, na pracinha, no clube alternativo, no show de hardcore, na igrejinha e na sessão de filme cult, não há limites para o seu alcance.

Se eu pudesse exterminava essas pragas, mas o máximo que eu posso fazer é manter a calma e tentar um papinho subversivo qualquer.Quem sabe um dia eu consigo fazer com que estes homens enxerguem, pelo menos uma vez, mulheres como indivíduos conscientes e autônomos. Enquanto isso, curtimos o avanço do mercado de corpos na construção de machos viris e fêmeas de plástico.

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