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Separatistas são os homens!

Pois bem, se eu tivesse um saco, ele estaria explodindo em abscessos de tão cheio. Parece que a desinformação é mesmo um câncer, que consegue transformar vítimas em algozes e manipular até o mais óbvio dos contextos.

Ok, eu explico, mas já vou avisando que vai ser polêmico. Não se pode escapar de ler/ouvir da boca dos homens – ou em alguns casos até de mulheres – que o feminismo é coisa de lésbica mal-comida, certo? Esse é o clichê dos clichês, que felizmente com um pouco de conversa pode ser revertido. Mas, quando o assunto é separatismo lésbico, ou moças que escolheram amar outras mulheres e fazem disso uma posição política, se afastando ao máximo dos homens, aí parece que todo mundo vira lesma com sal. “Viu só, viu só, a que ponto chegam essas feministas? Onde já se viu discriminar homens? Isso sim é sexismo mimimi!”

Não precisa nem chegar ao radical separatismo lésbico para as pessoas surtarem, você pode comentar sobre Mujeres Libres e outros grupos que admitem apenas mulheres, de uma simples oficina ou evento com temas específicos para mulheres, ou até mesmo uma reunião de amigas para debater feminismo para a qual os rapazes – pobrezinhos – não recebem o convite VIP. Tudo vira motivo para dizer “Oh, corram para as montanhas, elas estão discriminando homens!”. Daí vem aquele papo todo de que se o feminismo quer ser justo é preciso acolher os homens, ou estaremos praticando um sexismo inverso. Nesse caso, acolher os homens significa trazê-los para nossos encontros, ouvir o que eles têm a dizer sobre feminismo e em hipótese alguma criar espaços restritos para mulheres.

O argumento dos homens é que precisamos de união, caminhar juntos, sem nenhum tipo de discriminação, tolerância feelings e tal e tal. Muito bonito, louvável, pena que na prática não é bem assim que funciona. As feministas que já tiveram a experiência de admitir homens na roda de discussão com certeza experimentaram algumas das facetas do patriarcado que restavam dentro deles, porque, afinal, é muito difícil desconstruir a ideia de superioridade masculina, ainda mais quando traz privilégios diretos. Claro que admiramos os mínimos progressos dos homens ao nosso redor, e sempre que possível estamos tentando fazê-los compreender melhor o peso do patriarcado e suas conseqüências sobre as mulheres. Aos poucos, aqueles mais próximos já não chamam as mulheres de putas porque fazem sexo, já não as culpam por estupro ou esbravejam toda vez que vêem uma delas atrás do volante no trânsito, mas ainda não podemos comemorar nenhuma vitória.

Tomemos como exemplo algumas reuniões de grupos feministas, anarquistas ou mesmo uma reunião do movimento sindicalista, em que temos exemplos suficientes de homens que levantam a voz para as mulheres quase que automaticamente, enquanto tendem a ouvir mais os outros homens da mesa. Como disse nosso queridinho José Serra “Com mulher não tem competição”, porque, afinal, elas são inferiores. Tenho dois casos recentes para dividir: Um foi com uma organização sindical que não vou citar o nome aqui, da qual uma amiga minha feminista estava participando ativamente. Um dos caras que fazia o discurso socialista mais incrível, que fazia todo mundo se sentir inspirado, era o mesmo cara que sentava o traseiro peludo na cadeira na hora de jantar em público e mandava a esposa dele pegar tudo o que queria. A mulher quase não tinha tempo para comer sua própria comida, porque o cidadão a fazia de garçonete particular. Daí, quando outras pessoas do movimento foram discutir o problema, o homem ficou possesso e se desligou de lá. É bem como dizem por aí, até o menor dos operários tem uma escrava em casa.

Mujeres Libres

Tenho minhas próprias experiências em outros grupos também, sempre observei que basta um homem entrar em uma discussão feminista que ele começa a advogar pelo seu “gênero”. É incrível, estamos ali falando dos problemas das mulheres, que muitas vezes incluem os homens como algozes, e lá vai o rapaz libertário dizer que as coisas não são bem assim, porque afinal, ele é homem e é super legal. É a velha cultura da exceção, só porque alguns homens não estupram ou socam mulheres não quer dizer que a maioria esmagadora dos que o fazem não sejam homens e tenham uma educação muito semelhante. Ao invés de apoiar as mulheres e conversar com outros homens para criar uma consciência melhor, os caras entram na defensiva, e com isso também inibem as mulheres de falar. Outro detalhe é o constrangimento que muitas mulheres sentem em revelar que sofreram algum tipo de abuso sexual, físico ou moral perto de outro homem, pelo medo de serem julgadas (mas como você estava vestida mesmo?). Isso traz ainda mais problemas para a visibilidade das opressões contra as mulheres, porque como tod@s bem sabem, toda mulher tem uma história de horror para contar.

Pra que serve essa merda de patche?

Isso sem mencionar o tratamento velado reservado às mulheres nas organizações. Até entre aqueles que se dizem libertários ou contra-culturais impera o status-quo, em que mulheres servem basicamente para decoração e deleite dos machos do bando. Não é raro andar por meinhos libertários e escutar os comentários mais trogloditas do mundo, o cidadão faz questão de ir na palestra feminista, com patch do Crass na jaqueta e símbolo de ♀=♂, e falar bem alto entre os amigões que a garota palestrante podia calar a boca chupando o pau dele. E ainda temos aquelas cenas alternativas que são dominadas por homens, com bandas de homens, zines de homens, onde as mulheres são tratadas ainda como “gostosas” ou “barangas”, “santinhas” ou “putas”, e os caras ainda têm a cara de pau de dizer que elas é que não se interessam em estar ali, ou só vão pelo namorado.

Enfim, fica claro que esses espaços “mistos” não servem ou servem muito pouco à luta das mulheres. E isso não acontece porque os homens são todos essencialmente malvados e odiamos todos eles, mas porque os valores vigentes apontam para a superioridade masculina e é quase impossível que os caras não se contaminem com tudo que lhes foi ensinado sobre a dominação das mulheres. Você tem um garoto que desde pequeno recebe estímulos para ser livre enquanto sua irmã é oprimida, que tem a mãe sempre à disposição e a vê sendo calada frequentemente pelo pai, que se torna seu herói…precisa do que mais?

Agora, outra reflexão, já pararam para pensar em quais são os espaços “femininos” hoje na nossa sociedade? Os homens contam com a partida de futebol, o boteco, o puteiro, as casas de jogos, sempre gozam da companhia dos amigos até mesmo quando casados (a célebre escapada da megera). Já as mulheres, onde se encontram para trocar idéias? No salão de beleza? No shopping fazendo compras? No parquinho cuidando das crianças? Por que será que a ideia que se faz de mulheres juntas em um bar ou qualquer lugar de confraternização é tido como ameaçador pelos homens, em especial maridos? Por que os pais dizem às suas filhas “Vai deixar de sair com seu noivo para sair com amigas? Isso não está certo.” E uma questão que vi esses dias e achei muito interessante: Pense em algum filme, qualquer um que você já tenha visto na vida, que tenha um diálogo de mais de 3 minutos entre duas mulheres, e que elas não estejam conversando sobre homens (o protagonista, no caso). Difícil, né?

A verdade é que a convivência entre homens é estimulada, enquanto que as mulheres são incentivadas a competir umas com as outras em função dos homens. A rivalidade feminina é uma estratégia esperta do patriarcado, que joga umas contra as outras na busca pela atenção dos machos enquanto eles criam laços fortes entre si. A amizade entre os homens é um pacto, e garante muitos momentos de confraternização e fortalecimento dos laços. A amizade entre mulheres é vista como algo superficial, infantil e sempre frágil, como se a primeira aproximação de um “partidão” pudesse gerar uma briga e uma disputa. Os espaços públicos, por sua vez, também pertencem aos homens, já que ainda hoje é perigoso para uma mulher andar sozinha por aí, ainda mais de noite, afinal seu corpo pode ser alvo da invasão de um homem pelo simples fato de ser mulher. Claro que as mulheres já saem sozinhas, já tiveram muitas conquistas, mas ainda existe esse clima de medo, em que só andar com um homem ao lado é totalmente seguro. Se você anda sozinha, sem um “homem proprietário”, torna-se alvo de abusos verbais e até agressões físicas.

Como se não bastasse todo esse cenário favorável aos homens na sociedade, ainda querem excluir os únicos espaços unicamente femininos que existem com o argumento do sexismo! Como se, realmente, as mulheres estivessem se empoderando para atacar os homens, quando na verdade ainda estamos no primeiro passo em busca da igualdade de direitos: o fortalecimento das mulheres e identificação entre si. É um egoísmo tremendo um homem apontar para uma feminista e dizer que ela está sendo sexista por fazer uma reunião apenas de mulheres, sabendo que não há outras oportunidades como esta em que elas poderão trocar experiências e se apoiar para lutar contra a opressão masculina. Basicamente, os homens já têm toda a liberdade que poderiam desejar, mas não se conformam de ser excluídos de uma simples reunião entre mulheres que buscam a mesma liberdade. Isso se chama birra, costume de ser privilegiado em tudo.

E enfim podemos chegar até a revelação do dia (wow): A verdade, querid@s, é que as feministas não são separatistas, OS HOMENS É QUE SÃO SEPARATISTAS.

Ou vai dizer que você nunca reparou como eles formam seus grupos de amigos e transformam isso em um universo PARALELO? Eu já convivi bastante entre homens, já ouvi absurdos – e ouço, sempre – mas posso afirmar que existem coisas ainda mais pesadas que eles só dizem quando estão juntos, e são segredos de Estado. Os homens podem até fingir que tratam as mulheres com igualdade, mas são os primeiros a falar um monte pelas costas delas quando estão com os amigos. Eles narram como gostariam de transar com aquela amiga de vários anos que nem imagina, como a namorada é chata e menos gostosa que fulana, ou como a enganaram para poder sair naquele dia, diversos comentários que não teriam coragem de dizer em nenhum outro local, senão na segurança do universo masculino. Na vida real, não têm coragem ou dignidade suficiente sequer para dizer à própria esposa que gostaria de sair ou que algo lhe desagradou, preferem enxergar as mulheres como idiotas e fazem das traições e mentiras um jogo divertido.

Um dos primeiros mandamentos na vida dos homens é justamente de não tratar as mulheres como iguais, elas são sempre mais frágeis, mais burras, ou só servem para sexo. Quantas vezes a gente não escuta os rapazes dizendo “Eu gosto é de mulher”. Sempre que eu ouço essa frase eu sinto um embrulho no estômago, e tenho vontade de responder “Gosta o cacete, se gostasse você respeitaria, na verdade você ODEIA! O que você gosta é de arrombar mulheres.” “Gostar” de mulher significa apreciar a penetração nas bucetas delas, basicamente. E isso pode facilmente ser interpretado como ódio, porque eles mesmos dizem que “foderam a vagabunda, aquela piranha desgraçada, bem feito, tomou rola”, é sempre degradante ou humilhante para a mulher fazer sexo, porque eles sempre se acham os donos da situação. Quando o cara vê uma mulher bonita e sexy posando de lingerie, ele tem dois sentimentos: Tesão e ódio. Ele tem prazer e admiração pelo corpo da mulher, mas acha automaticamente que ela não presta, que só mulher vadia comete esse crime que é seduzir e gostar de sexo, e que ela nunca vai ser “mulher para casar”.

Sou uma eterna desconfiada das intenções dos homens para com as mulheres, mas tenho meus motivos. O universo masculino não poupa ninguém, é um território em que a justiça e igualdade são jogadas na lata do lixo, em troca de algumas risadas. Enquanto eles falam tanto de sexo hetero, na verdade não conseguem cumprir o princípio básico da relação sexual satisfatória, que é o respeito. Eles precisam “comer” as mulheres, precisam condená-las por gostarem de sexo e procurar a mais travada de todas para ter uma relação séria, para não correr riscos e enfim eleger a “patroa”, que será sempre o motivo de zombaria da noite com os amigões. E precisam, principalmente, dar um jeito de inferiorizar todas as mulheres com quem convivem e excluí-las de seus momentos de confraternização, afinal, elas só seriam chamadas para a diversão caso o interesse fosse foder umas bucetas. Eu não sei como alguns homens deitam a cabeça no travesseiro e dormem, levando essa vida dupla que exclui metade da humanidade, mas tomara que eu nunca compreenda de fato.

 

União de Mulheres de São Paulo - Almoço de Confraternização =)

O meu ponto aqui é que precisamos defender os espaços femininos, não para criar um grupo separatista de repulsa ao sexo oposto como nossos amigos homens fizeram, mas para fortalecer as mulheres e derrubar a rivalidade feminina, assim podemos nos identificar umas com as outras e nos apoiar nos momentos difíceis. As histórias que surgem em grupos de mulheres são incríveis, e sempre muitos semelhantes umas com as outras, e isso nos ajuda perceber melhor nossa posição na sociedade e a lutar pela justiça em todos os espaços. E toda vez que um homem lhe dizer que as feministas são sexistas e os discriminam, tente lembrá-lo de seus privilégios sociais e do mundo masculino que ele construiu com seus amigos, talvez ele tenha a sensibilidade de reconhecer esse abismo histórico e social entre homens e mulheres, ou apenas tente defender os outros homens e divagar sobre a união dos sexos – na teoria.

PS: Se você é homem e garante que seu grupo de amigos não trata as mulheres dessa maneira, PARABÉNS! Mas, mais uma vez, não estou falando de você, e tenho certeza que você conhece muitos que agem dessa maneira – por isso a necessidade da crítica.

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Homofobia em pauta: Liberdade para viver a sexualidade ou liberdade para discriminar?

Depois de quase um ano de ausência, retorno ao meu bloguinho! Layout novo (leia-se um tema qualquer do WordPress),uma vida um pouco nova também. Acabei de me formar, finalmente! O TCC foi uma das épocas mais infernais da minha vida e quase sugou minha alma, mas agora estou respirando de alívio.

Acabei alimentando meu vício da escrita com o Formspring, entre outras redes sociais. Mas senti muita falta de ter esse espação pra sair digitando livremente, como antes. Espero conseguir manter o blog atualizado daqui em diante, porque o que mais me realiza é ter o feedback das mulheres que conseguem novas perspectivas para suas vidas depois de ler um texto meu.

Como sempre no nosso querido país, fechamos o ano com alguma polêmica que recebeu destaque na imprensa. Neste ano, especialmente por causa das eleições, surgiu um velho termo conhecido nosso que caiu na linguagem do povo: homofobia. Basicamente o preconceito e intolerância contra a população LGBTT, a grande discussão ao redor da homofobia tem sido a aprovação do PCL 122, o projeto que torna crime a discriminação por orientação sexual e identidade de gênero.

 

Fotos da manifestação contra a declaração homofóbica do Mackenzie em São Paulo

É importante diferenciar os dois termos: orientação sexual indica por qual gênero a pessoa se sentirá atraída emocionalmente e sexualmente (classificação que um belo dia não precisará mais existir) e identidade de gênero indica com qual dos gêneros a pessoa se identifica, independente do seu sexo biológico, podendo inclusive se ver como um indivíduo intersexual. Como ainda temos papéis sociais determinantes baseados nas categorias de homem e mulher, faz-se necessário o emprego desse termo para garantir a liberdade de escolha dos transgêneros e intersexos. Logo, a lei deveria garantir enfim direitos e cidadania a lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, punindo o abuso verbal e físico que essas pessoas sofrem diariamente.

Claro que os reaças não iam deixar passar uma dessas sem espernear, e o grande mimimi do momento é o argumento de que “o PCL 122 é inconstitucional porque fere a liberdade de expressão”. Minha história pessoal com a tal “liberdade de expressão” é bem turbulenta, sempre vi todo tipo de gente preconceituosa e reacionária usar esse termo como muleta para promover absurdos. Não é à toa que muitos também se levantaram para dizer que a lei contra o racismo fere essa tal liberdade de expressar ódio e discriminar pessoas.

Não se trata de obrigar todo mundo a amar @s LGBT e levá-l@s para comer macarrão no Domingo, se o cidadão insiste em não gostar da presença de alguém por causa de sua sexualidade, deixa ele, oras. O que não pode acontecer é esse mesmo cidadão promover o ódio e a exclusão dessas pessoas na sociedade, gerando repressão, violência e discriminação. A ideia que faz uma pessoa chamar um homossexual de “viadinho, boiola, sapatão” é a mesma que causa a violência física nas ruas, trata-se de um fator cultural.

Voltando um pouco na história, chegamos a lidar muito bem com a homossexualidade. Na Grécia, por exemplo, as relações homossexuais eram muito comuns e vistas como reforços para laços afetivos e intelectuais entre cidadãos. Quem colocou o peso do pecado sobre o ombro do LGBTT foi, pra variar, o cristianismo e sua valorização doentia do sexo como ferramenta de reprodução. Centralizar a sexualidade na procriação está fora de cogitação na época dos anticoncepcionais, planejamento familiar e, principalmente, liberdade sexual. Já está mais do que claro que não precisamos aumentar nossa superpopulação, e que as relações sexuais são uma forma muito mais intensa de ligação física e emocional entre as pessoas do que simples atos mecânicos de reprodução em massa.

Até existem estudos que refutam a tradução bíblica que condena a homossexualidade, mas mesmo que tenham cometido um erro, não importa, já que não pretendo legitimar o livro cristão como verdade ou base para nada. Encaro simplesmente como um livro histórico que reproduz o pensamento da época, e por isso a homofobia relatada. Mas, como o pensamento mítico e a tradição levaram multidões a tratar a bíblia como “palavra de deus”, essa é uma justificativa comum para a intolerância contra os homossexuais. Ainda assim, não faria sentido, pois os cristãos dizem “odeie a homossexualidade, não a pessoa homossexual”, o que é um paradoxo absurdo, pois se eles não reconhecem todas as sexualidades como condutas morais legítimas, então eles estão automaticamente cerceando a liberdade dessas pessoas em sociedade, tornando-as marginalizadas. Além do mais, uma doutrina que enfatiza o “amor ao próximo” jamais poderia promover o ódio, até mesmo contra aqueles que realmente prejudicam as pessoas ao redor, mas parece que os cristãos escolheram o LGBTT como alvo do seu ressentimento e horror. O ranço conservador dessas pessoas deixa claro que não estão a serviço de um “mundo mais justo” ou dos ensinamentos de Jesus, mas da satisfação de seus anseios preconceituosos e políticas higienistas.

Certa vez vi um ativista gay no programa do Jô Soares que disse algo muito interessante: “Jesus com certeza teria mais aspectos semelhantes à cultura gay do que à do macho. Cooperação, gentileza, afeto e proximidade são valores que passam longe do ideal masculino, que é a base de comportamento dos próprios cristãos.”

Outra causa óbvia da homofobia é o patriarcado – aqui usado para definir o conjunto de opressões contra o feminino e valores centrados na figura do homem na sociedade. Qualquer manifestação “afeminada” em homens ou “masculinizada” em mulheres são crimes contra o patriarca, que define a ditadura dos papéis sociais e exclui aqueles que não se enquadram em suas regras. Um gay pode até ser gay, mas nunca ter trejeitos femininos, porque é como se fosse um rebaixamento na horda masculina, agir feito mulher? Que horror! Uma lésbica é sempre uma mulher “mal-comida” que ainda não encontrou um “homem que dê jeito”, a única permissão cultural para as mulheres é ser bissexual, para satisfazer mais uma vez os desejos masculinos. Travestis e transgêneros então nem se fala, são tidos como aberrações, absolutamente marginalizados e agredidos diariamente. Qualquer transgressão aos modelos de homem e mulher é punida com a discriminação, com base no argumento da “normalidade”, ou pior, da “natureza humana”. Nossa orientação sexual e identidade de gênero é construída de acordo com os valores vigentes, educação e relação com o meio, e a liberdade de expressar a própria sexualidade deve ser um direito garantido a tod@s sem distinção.

Vi algumas pessoas dizendo “Os gays querem se achar especiais, somos todos iguais e essas leis são discriminatórias”. Fico pensando em que tipo de condomínio esses cidadãos passaram suas vidas, regados a privilégios, acreditando que todas as pessoas são tratadas igualmente na sociedade. Precisamos da lei Maria da Penha porque o Brasil é um país machista, em que muitos homens ainda vêem mulheres como propriedades, então é justo que haja proteção especial na lei para elas, já que lesão corporal por si só não aborda todo o contexto da violência doméstica. Mesma coisa para negr@s, que ainda lutam contra o racismo e para isso contam com uma lei que pune as discriminações, em mais uma tentativa de reparar os danos históricos a esse povo e suas conseqüências atuais. A lei da homofobia é mais um desses casos, em que precisamos lançar mão de uma ferramenta legal específica justamente porque os cidadãos LGBT são tratados de forma específica, com preconceito e ódio. Não haveria razão para criar leis para cada população minoritária se não houvesse tanto preconceito, é uma necessidade que demonstra o caos em que estamos inseridas. Digo isso tudo partindo da situação atual, em que temos um Estado, capitalismo, e tudo mais, não significa que acredito no sistema, mas que essas medidas são necessárias para que essas pessoas vivam com dignidade.

O projeto não limita ou atenta contra a liberdade de expressão, de opinião, de credo ou de pensamento. Ao contrário, contribui para garanti-las a todos, evitando que parte significativa da população, hoje discriminada, seja agredida ou preterida exatamente por fazer uso de tais liberdades em consonância com sua orientação sexual e identidade de gênero;

PCL 122

O medo dos reaças é, logicamente, de enfim serem punidos por sua fúria contra as minorias. Querem difamar as pessoas LGBT à vontade, com apoio do Estado e da sociedade, promover a discriminação e construir o império do homem-branco-hetero-classe-média. Vão continuar lutando por uma sociedade conservadora e elitista, mantendo seus valores de machos e explorando tod@s que não sejam como eles. Cabe a nós resistir e batalhar pela conquista dos direitos LGBT, pela aprovação do PCL 122 e pela transformação diária da consciência alheia, combatendo os estereótipos e a opressão contra a sexualidade.

Pude participar da manifestação de apoio aos jovens homossexuais que sofreram a agressão na Avenida Paulista por um bando de rapazes homofóbicos armados com lâmpadas, na semana passada. Como diziam os ativistas, a homofobia mata e a impunidade remata, já que um gay é assassinado a cada dois dias no Brasil.  Os números são assustadores, mas nem precisa muito para perceber a homofobia no nosso dia-a-dia, desde os comentários mais fúteis e brincadeirinhas até ofensas mais sérias, como agressões verbais gratuitas nas vias públicas.

Aproveitando o assunto, resolvi fazer uma lista das piores frases homofóbicas que escutamos por aí e fazer uma pequena análise de cada uma:

“Eu respeito o cara ser gay, mas precisa ser uma bichona? Ficar fazendo escândalo?”

Pois é, você pode até ser homossexual sabe, mas nunca faça a passiva! O proibido é ser afeminado, é falar alto, é desfilar e rebolar. Afinal, um homem de verdade não se rebaixa ao feminino, está para sempre preso às suas obrigações masculinas de ser um bruto travadão que anda de braços abertos. E bonito é escândalo de machinho, né? Lindo é o cara falar grosso e alto, mexer com mulheres na rua, dar aquela risada de Brutus e ficar berrando com os amiguinhos em todos os espaços públicos, só para lembrar a tod@s que ele está ali. Pois doa a quem doer, os homossexuais podem e devem se expressar, escolher aspectos do seu comportamento que mais lhe agradem, independente de serem considerados femininos ou masculinos. Um exemplo bastante expressivo é o caso do Marrocos, onde os homens que mantêm relações homossexuais como ativos não são considerados gays, apenas os passivos (???). E se o cidadão não gosta de pessoas escandalosas, não pode simplesmente acusar os gays, e sim todo mundo que fala alto e invade o espaço dele, inclusive homens heteros. Pessoalmente, AMO e admiro homens “afeminados”, ou seja, homens delicados, gentis, com senso fashion (ui!) e que se cuidam, e alguns até são heterossexuais.

“Não quero que meu filho veja dois machos se beijando na rua”

Nossa, ver um casal de gays se beijando vai automaticamente mudar a orientação sexual do seu filho e condená-lo para sempre, né. As crianças devem ser expostas à diversidade sexual desde cedo, para que respeitem e reconheçam todas as formas de amor e afeto. Um beijo homossexual não é algo depravado ou ofensivo, é um ato que demonstra a ligação afetiva entre duas pessoas humanas e que precisa ser valorizado como tal. Alguns ainda argumentam que não gostam também quando heterossexuais se beijam nos espaços públicos, mas fica nítida a discriminação quando se trata de homossexuais. Esses pais homofóbicos querem evitar a todo custo que seus filhos vejam os homossexuais se relacionando porque temem que estes se tornem lésbicas e gays, quando na verdade todos os homossexuais nascem de pais heterossexuais e recebem estímulos da cultura hetero desde pequenos, e ainda assim constroem sua orientação de forma diferente. Fora a opressão violenta que as crianças sofrem para que não “desviem” do caminho heterossexual, e a quantidade de distúrbios de auto-estima que isso gera (inclusive os próprios homofóbicos muitas vezes são inrustidos).

“Prefiro ter um filho aleijado a um filho gay”

Essa frase demonstra o quanto a mentalidade que considera a homossexualidade uma doença ainda é forte. Ter um filho gay, para essas pessoas, é o estigma do fracasso, como se eles estivessem contribuindo para o crescimento da população LGBT, logo eles, homofóbicos! É muito triste ver tamanha repulsa contra um ser humano apenas por sua orientação sexual, ainda que, ao se tratar de um filho, muitos pais acabem cedendo e aceitando a sexualidade diferente. O mundo que queremos construir vai aceitar a diversidade sexual com naturalidade, e os pais não terão mais que se preocupar em gerar crianças heterossexuais e “protegê-las” dos malvados homossexuais, pois não existirá uma sensação de rivalidade entre as orientações sexuais.

“É lésbica porque ainda não me conheceu/falta de rola”

Mais comum ainda é ver o ressentimento do homem heterossexual ao constatar que lésbicas existem, e que não são todas as mulheres que precisam de um pênis para regular sua sexualidade. Mais difícil ainda para eles é ver que a penetração não é o clímax do sexo, e que eles são totalmente dispensáveis para uma parcela das mulheres. A cultura patriarcal diz que a mulher sempre está em função do homem, e as lésbicas fogem a essa regra e se tornam uma ameaça em potencial para as normas de conduta. É natural então que os homens sintam repulsa por elas e tentem a todo custo colocá-las como “mal-comidas” e marginais, em um ato extremamente infantil do tipo “é claro que você precisa de mim, eu sou o maioral, ora bolas!”.

“Isso aí é coisa de viado”

Qualquer deslize da cartilha heteronormativa do machão neandertal é logo punido com o estigma homossexual. Um homem não pode recusar uma relação com uma mulher que eles estará sendo “gay”, ele não pode não gostar de futebol, não pode dançar, não pode costurar, não pode gesticular direito ou soltar os quadris. O único fator que faz de alguém homossexual é se relacionar sexual ou afetivamente com parceiros do mesmo sexo, e ainda se o indivíduo se reconhecer como tal. Mas, na prática, a homossexualidade é utilizada para zombar das pessoas, como se fosse algo terrível e vergonhoso. A exemplo do meu parceiro, todos os homens deveriam responder “é, sou gay mesmo, e daí?”.

“Vai tomar no seu cu/vai dar a bunda/queima rosca/ré no quibe”

Enfim, o mito do sagrado CU masculino. Ele está presente em 90% das piadas entre homens e parece ser um campo de batalha, que os homens passam a vida inteira tentando defender das insinuações alheias. Nada pode ser mais ofensivo do que sexo anal para um homem, pois se trata do passaporte oficial para uma longa vida homossexual. O cu das mulheres, por outro lado, quando mais for usado nas relações melhor, ou seja, enquanto o cu feminino deve ser perseguido, o cu masculino precisa ser guardado a sete chaves e protegido de qualquer coisa penetrante. É engraçado que um símbolo de ofensa seja, na realidade, uma prática sexual extremamente prazerosa e saudável para os homens, seja realizada por uma mulher ou por outro homem, com dedos ou objetos. Fazer sexo anal não faz de ninguém homossexual, é uma forma de obter prazer sexual absolutamente normal. Mas, infelizmente, as pessoas insistem nesse gigantesco tabu, quando na realidade poderiam ser mais satisfeitas sexualmente se fizessem uso dele.

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Minhas amygas lindas =

“Lésbica até vai, mas gay é muito feio de ver”

Mais um sintoma do machismo compulsivo, em que casais de lésbicas servem como fetiche, mesmo que isso prejudique sua liberdade. Os gays se beijando, por outro lado, são ofensivos e “nojentos”, e justamente por não agradarem os homens ao redor precisam ser banidos. Tornar as lésbicas meros objetos de voyeurismo tem um sintoma muito grave, porque um casal de moças não pode sequer andar de mãos dadas para provocar olhares insistentes, por vezes agressões do tipo “posso entrar no meio?”. Enquanto duas mulheres se beijando for sinônimo de ménage e não de um simples casal, as lésbicas terão sua liberdade ferida e não poderão andar sossegadas pelas ruas.

Enfim, as frases são inúmeras, e com certeza são ouvidas diariamente por todas nós. É parte da nossa missão também quebrar esses tabus e reverter o preconceito, e um bom começo é chamar a atenção das pessoas sobre o significado e equívoco dessas expressões, que só colaboram com a injustiça cometida contra a população LGBT e promovem a discriminação na sociedade.  Somos tod@s responsáveis por garantir a dignidade das pessoas independente da orientação sexual e identidade de gênero, e esse é o único caminho para construir um mundo mais justo e humano.

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