Arquivo para categoria Auto-biográfico

Mini Manifesto contra a Família Nuclear

Férias são totalmente indispensáveis na vida, e hoje significam um dos únicos períodos em que se retoma o fôlego, como se passássemos o ano todo sem ar e de repente fosse possível respirar de novo. Para quem mora em São Paulo, enfrenta 3 horas de transporte público caótico diariamente para ganhar as migalhas de papel no final do mês – que ainda assim garantem o posto na classe C – não dá para dispensar esses dias de glória.

Mas, me pego pensando o quanto é impossível fugir da realidade, e não entendo como tem gente que pode apertar o “off” e se jogar na piscina como se nada mais importasse. Olha, confesso que tentei ser uma dessas pessoas esse ano, mas não tenho um estômago tão foda assim.

Londrina, Paraná. Cidade do interior com clima urbano, mas o lugar onde eu fico é totalmente rural, uma chácara com piscina e muito verde. Todo mundo aqui fala “porrrta”, adora sertanejo e está sempre tranqüilo. São minha família por parte de mãe, pra qualquer canto que eu olhe tem uma tia, um primo, ou algo assim.  A casa é enorme e está sempre cheia, alguns móveis são tão antigos que me fazem lembrar a minha infância em detalhes, basta prestar atenção no formato da prateleira e naquele puxador de metal engraçado da gaveta.


São boa gente, sim, muito boa. Solícitos ao extremo, agradáveis, sorridentes e simples. Mas, acabaram sendo objetos da minha incontrolável leitura crítica. E isso me trouxe inspiração para falar de um tema que já estava na minha cabeça: a família nuclear.

Para que o nosso sistema se sustente, existe uma base que precisa ser mantida a todo custo, que é a nossa estrutura familiar composta de um casal heterossexual e seus descendentes, que vivem em uma propriedade privada e sustentam todas as instituições conhecidas (igreja, escola). Aqui não faltam situações para analisar essas famílias, já que acabei ficando em contato com muitas delas em um período curto – em São Paulo quase não vejo parentes.

É engraçado quando você sai de um ambiente totalmente construído para você, seu círculo de amigos libertários, que falam de política o tempo todo e te fazem sentir em algum tipo de utopia, e de repente a realidade te dá um soco na cara trazendo de volta o status quo. Somos uma minoria, o mundo lá fora é muito maior, mais feio, e eles conseguiram enfiar os valores mais cretinos goela abaixo das pessoas.

Você olha ao redor e captura uma série de cenas que perturbam a sua mente. Aqui, as mulheres são servas dos maridos, fazendo todas as suas vontades e as dos seus filhos também. O olhar delas é triste, perdido, por mais que estejam sorrindo e conversando, muitas já são conhecidas por seus misteriosos problemas psicológicos – que incrivelmente só acontecem com mulheres. As crianças são ensinadas no mais duro sexismo, as coisas de meninas e meninos estão absurdamente segregadas, eles têm pavor de tudo que é feminino e elas estão sempre ansiosas para atender às expectativas da feminilidade. A homofobia está presente com toda a força, e ninguém consegue entender porque eu defendo “essa gente”. Os animais então, coitados, são vistos como lixo, usados e explorados em todos os contextos possíveis e imagináveis: alimentação, vestuário, entretenimento barato, qualquer destino de utilitarismo e sofrimento que puderem lhes dar. Dei de cara com um porco morto em cima da mesa, e mais quilos de outros animais despedaçados, especialmente na tal noite de Natal, mas é claro que não me pronunciei a respeito.

Aliás, a religião parece ser justamente a base dessa organização familiar. O Deus homem, branco e hetero manda por aqui. A misoginia corre solta na festa da ignorância, é um tal de marido xingando a mulher porque quer janta, mulher xingando a outra de vagabunda porque não limpa a casa, mãe falando pra filha não se sujar porque ela é menina, homem falando que é macho pra caralho o tempo inteiro. Pára que eu quero descer!

Mas, vamos fazer disso uma observação organizada, segue meu pequeno manifesto contra a família nuclear:

Casamento – o contrato da vida a dois

O que é esse tal de casamento heterossexual? Lembro do desespero de algumas tias que já tinham passado dos 30, e que não tinham conseguido o tal marido. As meninas ainda são educadas para conseguir um provedor, por mais que sejam incentivadas a ter sua carreira, é sempre necessário que o homem lhe dê as condições materiais para viver.

A família começa a pressionar a garota por volta dos 20, principalmente se ela já namora. É preciso que uma nova família seja criada, ninguém sabe ao certo por que, simplesmente tem que ser assim. Mesmo que os filhos não estejam nos planos – o que já configura “desgosto” – uma garota não pode ser solteira, não pode aproveitar uma vida sexual ativa longe do matrimônio, ou ela não é mulher o suficiente. O homem, por sua vez, tem muito mais tempo e liberdade, porque ainda reina a ideia de que as mulheres precisam de alguma forma ser “guardadas”, reservadas para o homem ideal. As mulheres experientes e confiantes sofrem ataques de todo tipo, que tentam rebaixá-las ao status de “usadas”, para que sua auto-estima seja esmagada e elas estejam disponíveis enfim para o ritual do casamento.

A “mulher para casar” é praticamente um cachorro obediente, tem como formação ideal todas as habilidades para cuidar de uma casa, uma sexualidade contida, temperamento dócil e ainda é bela. O “homem para casar” só precisa de um emprego médio e alguma demonstração de poder financeiro, mais nada. Alguns ainda são bons namorados, e logo após o casamento colocam a mulher no seu “devido lugar”.

A cerimônia religiosa já começa com o pai entregando sua filha ao marido, representando os anos de subjugação da mulher a uma figura masculina proprietária, seja pai, marido, irmão, o que for. Espera-se ainda em pleno 2010 que ela seja virgem, ou pelo menos com pouca experiência sexual. O casamento católico tem um apelo de eternidade, como se Deus estivesse selando aquela união (ou seria condenando?). A ameaça presente é de que terminar um casamento cristão é algum tipo de pecado, ou seja, os dois vão ter que fazer um esforço tremendo para manter a relação, por mais que esteja uma merda. Que tipo de relação amorosa tem um contrato desses? Chamam de amor essa prisão perpétua?

Tem gente que ainda justifica o casamento dizendo que nós precisamos de alguém quando estivermos velhos. A situação precária dos idosos e aposentados é um método de coerção bastante eficiente, ao menos no nosso país, mas o pensamento estabelecido de que apenas familiares são companhias confiáveis é falso. É possível, ainda, ter um@ companheir@ quando mais velha, e não faz sentido nenhum justificar uma vida inteira de tédio matrimonial com o receio de uma aposentadoria ruim, isso é masoquismo.

Lar doce lar – cárcere privado

Ele vai ser o responsável por comprar uma casa confortável, onde vai colocar sua mulher para trabalhar feito uma escrava. E isso não vai ser considerado trabalho, é apenas a “obrigação feminina” cozinhar, lavar, passar, limpar, porque vem impresso no DNA de toda mulher que essas tarefas repetitivas e exaustantes são a realização da sua vida. O circo fica completo quando chega o filho, que demanda toda a atenção da mulher, mas ela ainda tem que cuidar da casa e do outro “filhão” que é o marido, chegando tarde do trabalho e esperando a janta no prato. Quando a mulher trabalha, ao invés de conquistar independência ela conquista uma jornada tripla do inferno, por mais que trabalhe o mesmo tanto que o homem ainda tem o segundo expediente quando chega em casa.

Daí os livros começam a retratar a multi-mulher, a mulher moderna, que se desdobra para cumprir suas tarefas, e ninguém enxerga que isso é um abuso enorme. Elas são incentivadas a prosseguir com seu trabalho sem fim, aplaudidas pelo patriarcado quando fazem exatamente o que os homens querem: trabalhar feito camelas para manter suas famílias. Nada pode ser mais honroso para uma mulher na nossa sociedade do que conseguir trabalhar, cuidar dos filhos, da casa e do marido, por mais que isso tome qualquer tempo produtivo e roube toda a sua autonomia. Parabéns, mulher multi-escravizada.

O romance e o sexo vão pro lixo bem rápido, dando lugar ao teatro heterossexual da dor de cabeça feminina e insatisfação masculina. São uns artistas mesmo, conseguem dividir o teto com uma pessoa que repudiam e dão os filhos como desculpa. Os homens ainda têm seu tempo com os amigos, suas válvulas de escape, estão sempre dando um jeito de continuar vivendo – até mesmo através de amantes. A mulher se torna a figura da “patroa”, uma mulher amarga que exerce algum tipo de ”autoridade” com o marido, quando na real os homens só cedem aos esperneios delas porque não querem perder os privilégios da serva. Um homem não é capaz de lavar e passar sua própria camisa, de fazer sua própria comida, não é capaz de enxergar que a sua casa é de tod@s que ali residem e deveria ser cuidada por tod@s. Quando muito, contratam uma empregada negra e pobre por uma miséria, quando seria muito mais justo que os residentes cuidassem da sua casa,e não que colocassem esse peso nas costas de outra mão de obra barata – sempre feminina.

Quando um homem está com uma roupa mal passada, culpam a mulher. Se o filho está mal educado, só pode ser problema da mãe. Se a casa não está limpa o suficiente, já recai sobre as costas dela, a patroa. Culpar a mãe é uma velha máxima que o feminismo denuncia, já que o pai é uma figura secundária que apenas serve de provedor para a família. As responsabilidades de uma mãe são tantas que não permitem que ela tenha o tempo necessário para sua própria realização, ela trabalha a serviço da sociedade, e sua auto-estima quase sempre é um fracasso. Muito se enganam aqueles que acreditam que basta uma família bem cuidada para que a missão da mulher esteja cumprida e ela se sinta realizada, a maioria das mulheres, quando se vê nessa situação, percebe que falta algo muito importante. E daí surgem muitos quadros de depressão em mulheres casadas, pois elas sequer conseguem compreender o que está faltando. Imagino que muitas mães de família se perguntem todos os dias “Por que sou tão infeliz?” – e não foram poucas as que me confessaram isso.

A resposta é simples, essas mulheres são condicionadas para a auto-anulação em busca da felicidade dos outros. Não se trata de altruísmo lindo e maravilhoso, e sim de uma relação de servidão. A mãe que se sacrifica pelo marido e pelos filhos não pode deixar de transparecer sua amargura, e também de passar para frente todos os valores que tornaram a vida dela um inferno, para que sejam reproduzidos na próxima geração. Daí entram aqueles paradoxos da mulher machista, que na verdade é uma situação óbvia, a maior vítima do machismo é também a mais vulnerável, que mais absorve as determinações e não consegue enxergar outro modo de vida. É como um trabalhador escravizado, que não tem condições ou informação suficiente para reivindicar seus direitos, e se torna presa fácil dos mais poderosos. Quais são os direitos da mãe? Quem lhe deu tantos deveres e porque ela deveria cumpri-los?

E claro que o patriarcado aplaude as mães, quanto mais se sacrificam pelos outros melhor. Mãe é sagrada, ninguém pode xingá-la. Mãe não é mulher, é uma criatura assexuada e divina com o poder de cuidar de todo mundo, e de se esquecer totalmente nesse processo. Não é à toa que mulheres famosas e ricas contratam equipes de babás, fazem lipoaspiração, contam com mil empregadas, elas não são querem ser “mães”. Porque as verdadeiras mães ficam gordas, de seios flácidos, olheiras, extremamente cansadas e mau-humoradas, vivem em função dos filhos e ainda têm um lar doce lar para varrer, lavar, passar, encerar, e um marido super bacana para alimentar. Mães não saem para dançar, não lêem nem escrevem, não criam posições sexuais, não visitam cinemas ou museus, não viajam, não se masturbam. Isso parece uma vida digna? Para quem? Só se for para o Estado.

A prole – ápice da família nuclear

Não basta existir apenas o casal heterossexual, é preciso que ambos reproduzam para dar continuidade a uma linhagem, mantendo a cultura da herança e da valorização do “mesmo sangue”. Não interessa se o mundo está super lotado, se as pessoas se espremem nos transportes públicos, se os recursos estão se esgotando e logo o planeta pode entrar em colapso com tanta exploração, o que importa mesmo é manter o nome da família. Adoção? Só quando não há outra maneira, e ainda é uma prática pouco incentivada.

Ter filhos é uma espécie de complemento para essas pessoas, e muitas vezes um ato bastante egoísta. Pouquíssimos são aqueles preparad@s para tornar-se educad@res, que dispensam um tempo ao menos para ler sobre pedagogia, planejar a orientação das crianças. O interesse de tutelar crianças não parece partir do desejo de orientar, construir e desenvolver um ser humano, e sim do desejo da própria felicidade, da sensação de completude que só o cumprimento das regras sociais pode trazer. Casais não têm filh@s pensando no desafio de apresentar nosso mundo conturbado a uma nova pessoa e guiá-la da melhor forma possível, eles pensam, primeiramente, no bem estar próprio. O que uma criança pode fazer pela minha vida? O que o sorrisinho dengoso de um bebê trará de bom nessa casa? Será que os pequenos correndo e posando para fotos vão tornar minha família mais feliz?

O que se segue ao nascimento das crianças normalmente são alguns desastres pedagógicos, e claro, reprodução dos mesmos valores de sempre. As mães são as donas dos filhos, dita a nossa cultura. 90% das responsabilidades envolvendo a criança, especialmente necessidades básicas, serão jogadas nas costas da mulher. O pai é uma figura mais distante, ainda seguindo seu papel de provedor, e frequentemente adotando o papel de “normatizador” da família, aquele que cria as regras e deve ser mais respeitado do que a mãe.

O problema já começa na criação totalmente diferente que meninos e meninas recebem. Enquanto os meninos são incentivados a praticar esportes, criar estratégias, construir cidades, operar máquinas, as meninas são levadas ao mundo da fantasia onde princesas encontram seus príncipes, ou ao mundo das bonecas onde elas são treinadas para a maternidade e serviços domésticos. Eu simplesmente tenho náuseas quando vejo todas aquelas panelinhas, bebês pra trocar fraldas, mini chapinhas, quer dizer, a brincadeira da menina é se programar para o serviço de casa, para cuidar de criança e se embelezar para os meninos. Do outro lado, vejo os meninos se divertindo horrores com carrinhos, trenzinhos, cidades de montar e jogos coletivos, exercitando todas as suas capacidades físicas, intelectuais e sociais.

Outro problema é a presença da violência na educação dessas crianças. Alguns insistem que dar um tapa é algum tipo de direito do educador, para mim sempre será uma profunda incompetência desses pais e prova de que eles não sabem lidar com suas próprias angústias, frustrações e impulsos violentos. Meninos e meninas são ensinad@s a impor limites através da violência, seja física ou psicológica, e ainda dizem que o ser humano tem o ódio como “característica inerente”. Ainda há aqueles tipos de pais que ignoram quase que completamente os filhos, opinião de criança é sempre insignificante para eles, elas não têm nenhum tipo de direito à expressão ou autonomia para eles. “Criança disse? Bobagem!” Além disso, nunca encontram tempo para desenvolver atividades inteligentes, que estimulem o convívio social e o desenvolvimento dos pequenos. O resultado são milhares de futuros adultos com baixa auto-estima e complexo de inferioridade, o que pode ser expressado tanto com timidez extrema como com agressividade.

A adolescência é um mistério ainda maior para os pais medianos da sociedade, por se tratar do período de contestação, em que o jovem mais necessita de esclarecimentos, orientações e confiança. Assuntos como drogas e sexo costumam ser ainda grandes tabus na mesa de jantar, o que apenas prejudica o desenvolvimento do adolescente e o deixa mais expost@ à falta de informação e perigos das ruas. O patriarcado também está bastante presente nessa fase, especialmente na diferença brutal entre a abordagem das questões sexuais para meninos e meninas. Eles, como sempre, são incentivados a ter muitas parceiras, enquanto elas são reprimidas e estimuladas a ter vergonha, receio e medo da própria sexualidade.

Essa adolescente é pressionada pelos pais a manter-se virgem e ao mesmo tempo pressionada a ter sua primeira relação sexual pelos amigos da escola. No fim das contas, o que a sociedade acaba valorizando em pleno 2011 é a “aura” da virgindade, a garota pode até ter no histórico relações sexuais, mas que sejam – ou pareçam – poucas e com pouquíssimos parceiros.  Experiência sexual não é recomendada para as moças, mesmo que seja um bom caminho para descoberta do próprio corpo, desejos e orgasmo. Masturbação feminina parece palavrão, enquanto a cena do garoto no banheiro com a Playboy é encarada como natural e engraçadinha.

No plano afetivo, a maioria das garotas ainda está com a cabeça nos príncipes, não da mesma forma encantadora que a Disney colocou, mas através da dependência emocional e da esperança em encontrar o homem perfeito. Enquanto isso, no mundo real, os garotos fortalecem a auto-estima e a própria identidade em seus relacionamentos, cientes de que não existe uma princesa para esperar, e sim muitas pessoas diferentes para conhecer e entender novas visões. Eis que os interesses da garota se chocam com a dura realidade dos garotos, e os relacionamentos se tornam bastante conturbados e desequilibrados.

Nessa etapa, as garotas são convencidas por todos ao redor de que os “homens são assim mesmo”, carregando para sempre um conformismo sobre as “profundas diferenças” entre homens e mulheres. E nesse ponto, um desses relacionamentos conturbados com um rapaz pode se tornar um novo casamento, pois ela não vai arranjar nada melhor mesmo. Na melhor das hipóteses, ela pode ter um bom relacionamento com um homem acima da média, mas não que isso vá impedir toda a lógica do contrato da vida a dois, cárcere privado e geração da prole, para recomeçar o ciclo familiar.

Enfim…

Se todo esse processo de formação de famílias prossegue normalmente, as estrutura sociais se mantêm intactas e seus valores são repassados de geração em geração. A família nuclear é a garantia de que o Estado pode prosperar e de que os “bons costumes” estão seguros, mesmo que sua inconsistência seja gritante. É incrível como as pessoas se prendem a esse modelo como sua única segurança de uma existência plena, e ao mesmo tempo parecem tão infelizes, perdidas e confusas.

A minha proposta para resolver essa questão seria o incentivo às organizações familiares alternativas, consangüíneas ou não. Que todos os grupos de pessoas que se identificam profundamente e partilham a mesma moradia tenham o mesmo status familiar, sejam heterossexuais ou homossexuais, com crianças ou sem, morando com amigos ou parentes. Que seja possível constituir famílias de todas as formas, e que todas sejam reconhecidas e respeitadas. E, o mais importante, que os novos valores que evidenciam a liberdade e os potenciais humanos, independente do sexo ou gênero, sejam aplicados nessas famílias. Que haja liberdade para a sexualidade, para a expressão política, para os novos pensamentos e reflexões que precisam chegar a tod@s os indivídu@s.

Acredito que toda a transformação precisa ter início nesses micro-ambientes, para enfim atingir a sociedade por inteiro. Afinal, de que adianta a gente repensar todos os valores humanos, partilhar descobertas e novas visões apenas entre amig@s de grupos restritos, enquanto as famílias mais próximas ainda vivem sobre uma lógica dominante que arrepia até o nosso último fio de cabelo?

PS: Muitas questões desse texto precisam ser aprofundadas, este é apenas o esboço do que está por vir.

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Amor romântico: Coisas que não te contaram.

Quanto tempo sem postar! Sinto vergonha da minha falta de tempo para coisas que são tão importantes, como esse pequeno espaço que me realiza e me faz sentir útil para tantas pessoas.

E que surpresa, receber tantos feedbacks lindos de garotas incríveis! Tenho que declarar que uma das maiores felicidades que explodem dentro de mim vem desses comentários singelos, cheios de entusiasmo e identificações. Sinto um carinho verdadeiro, uma conexão entre nossos problemas e angústias, e estarei aqui para vivenciar essa troca sempre.

Isso me leva ao assunto que tem sido “trending topic” ultimamente, e que foi confirmado por uma amiga querida que está passando por uma situação de sofrimento. Da série “coisas que queriam te enfiar goela abaixo”, apresento-lhes o tal “amor romântico”.

Idealizado por fábulas, contos e religiões, usado e abusado pela indústria cultural, ele permanece entre nós, imortal. A base é um casal heterossexual, com papéis sexuais bem definidos e em um ambiente extremamente favorável, que repentinamente se fartam de um amor intocável e permanecem felizes para sempre no mar de rosas. Curiosamente, o mito é vendido para uma esmagadora maioria de mulheres.

De brinde, ganhamos a instituição do casamento, que legitima definitivamente aquele amor invencível e nos condena a uma vida inteira de companheirismo, paixão e harmonia. É relativamente “mais fácil” terminar um namoro, mas um casamento é como se fosse um contrato que exige um esforço sacrificante para a manutenção do acordo, uma prisão disfarçada de escolha, que torna muito mais difícil uma decisão que deveria ser rápida e sem dor: livrar-se de quem nos faz mal.

Nos iniciam nesse mundo obscuro dos coraçõezinhos quando ainda somos muito crianças para resistir, ganhamos lições diversas que nos convencem a precisar de outra pessoa para sermos “completas”.Essa pessoa é, claro, um homem. Junto com os mandamentos da busca ofegante por um amor de conto de fadas, nos empurram um ideal feminino de submissão, fragilidade e “entrega”. Aprendemos que ser mulher é querer um homem, e dedicar boa parte de nossas energias para que essa relação tenha sucesso – mesmo que a duras penas.

Enquanto isso, nossos queridos irmãozinhos aprendem valores um tanto diferentes. São incentivados a ter coragem, ousadia, independência e principalmente autonomia, ao mesmo tempo em que recebem a cartilha do dominador. Aprendem que serão sempre o centro das atenções das mulheres, cuidados por mães, professoras e namoradas, e que as terão à disposição.

Ao invés de bonecas imbecis e bebês de plástico, do treinamento rigoroso da maternidade e servidão, ganham jogos de estratégia, carrinhos e bolas de futebol. Aprendem que a coletividade pode conseguir muitos aliados, enfrentam o mundo ao ar livre muito cedo e desenvolvem a capacidade de raciocínio lógico.

Tudo isso faz uma grande diferença, somos discriminadas pelo gênero desde a infância e construídas sob um modelo patético de “mulher”. Nossa vulnerabilidade não é genética, não veio da mão do deus macho, é obra de uma educação medíocre embasada em preconceitos e estereótipos. Somos condicionadas a não nos sentir completas, nunca, de forma alguma.

Coincidentemente, a solução apresentada para todos os nossos problemas de auto-estima e auto-realização é um parceiro homem. “Tá precisando é de uma rola bem grande”, como diriam as criaturinhas desprezíveis ocupando espaço por aí. Se estamos “sozinhas”, somos solitárias ou lésbicas,desprezadas pelo tão importante e fundamental macho da espécie. Se reclamamos de algo, somos histéricas ou “mal-comidas”, afinal, todos os nossos problemas só podem ter origem na falta de um pinto entrando e saindo, oras!

Daí, se resolvemos nos relacionar com um cara e descobrimos que ele é um merdinha, e então trocamos, e fazemos isso repetidas vezes na incessante busca de um cara menos incompetente, nos chamam de “putas”. Dizem até que não estamos nos dando “valor”, quando na verdade isso só oculta a falta de qualquer valor ou apreço que eles sintam por nós, um verdadeiro nojo. Enquanto isso, eles trocam de parceiras o tempo todo e se orgulham de separar o ato sexual de qualquer afeto e consideração.

Não é uma fórmula perfeita? Faça-as sentirem-se incompletas e então lhes dê uma cara-metade. Um homem perfeito, romântico, que atenda a todas as nossas necessidades e finalmente dê algum sentido à nossa existência supérflua e cruel. Alguém pra nos dizer o quanto parecemos bonitas, já que enxergamos mosntros nos espelhos e nos sentimos culpadas por isso. Finalmente alguém pra nos convencer de que somos alguém e não alguma coisa, como sempre nos ensinaram, uau. Mas a verdade, mulheres, é que não precisamos de um salvador, muito menos de um príncipe.

Definição de romance pelo dicionário: fantasia. O que mais precisamos dizer?! Não é real, não é saudável e muito menos justo.Se você só se sentiu completa depois de conhecer um homem e se apaixonar, significa que uma parte de você sempre esteve vazia, e isso é péssimo. Se você não consegue ficar sozinha, quer dizer que está sujeita a uma relação de dependência, auto-depreciação e possessividade. É um clichê dos grandes, mas é verdadeiro demais: Antes de se tornar “nós”, precisamos ser “eu”.

Antes de proclamar as palavras mágicas “não sei o que seria de mim sem você”, pense no quanto você está se anulando na situação. Nunca se sinta um fracasso se ainda se sentir dependente de um cara, não se esqueça que você foi totalmente condicionada a ver as coisas dessa maneira. O caminho? Mais uma vez a desconstrução, e isso só é possível com auto-conhecimento.

Conhecer a si própria e ter autonomia não significa excluir os relacionamentos amorosos. Eu acredito em relações justas, em que o companheirismo é essencial e o afeto cria uma união harmoniosa e cheia de respeito, sem dependência, possessividade e ilusão. O amor romântico nada mais é do que uma mentira, porque promete uma relação eterna que tem como base apenas o misterioso sentimento “amor”, quando na verdade se parece mais com uma paixão cega, infantil e inconsequente.

Se podemos chamar algo de amor, com certeza não é essa sensação obscura que nos condena a viver acorrentadas a uma pessoa, desejando sua presença em cada passo das nossas vidas e projetando nela grandes objetivos. Insisto que em uma relação real ambos devem perseguir seus objetivos juntos, prestar apoio mútuo e construir uma base sólida de respeito e cumplicidade, sem o contrato ditatorial do “pra sempre”.

Quantas mulheres permanecem com homens que as espancam? Ou as humilham? Quantas mulheres você conhece que suportaram traições? Quantas abriram mão de desejos próprios por causa dos parceiros? Quantas sofrem com um ciúme doentio e se auto-depreciam por causa dele? Quantas já abaixaram a cabeça para uma condição do companheiro e sofreram caladas? Quantas vêm desabafar com você o inferno que está sendo o relacionamento delas e a falta de coragem pra tomar uma decisão?

A vida real é muito mais hostil com as mulheres. Aqui fora os príncipes são muito mais autônomos, seguros de si e treinados para a indiferença. E estarão sempre prontos para se aproveitar dessa insegurança enraizada dentro de nós, construindo verdadeiros romances poéticos enquanto nos sugam toda a individualidade. Isso não quer dizer que homens não têm sentimentos, quer dizer que estão muito mais preparados para lidar com eles, porque têm como base suas próprias realizações.

E como mudar? Como sair da posição de vítima do patriarcado e retomar o poder sobre a própria vida? Tudo o que eu tenho são experiências próprias e um punhado de conselhos sinceros.

Em primeiro lugar, descubra algo que você ame muito fazer. Eu descobri que amava escrever, lutar por causas sociais, ajudar as minorias e ver resultados de todo o trabalho que eu puder fazer.Muitas descobrem a realização em um esporte, na música, nas artes plásticas, na filantropia, na carreira, são inúmeras possibilidades, e todas temos muitas.

Depois, descubra milhares de coisas menores que você ame fazer. Identifique suas preferências, muitas de nós nunca paramos para pensar nisso! Procure um tipo de leitura, cinema ou música que você adore, vá ao teatro, invista em coisas que te dêem prazer e acrescentem conhecimento. Una-se com outras mulheres, jogue futebol, jogue videogame, faça um cosplay, vá dançar.

Deixe o relacionamento dos seus sonhos para o momento em que estiver mais completa, você terá muito mais para compartilhar e estará sempre pronta para fazer as melhores escolhas sem cometer sacrifícios. Se não der certo, agradeça por ter percebido os erros a tempo, e procure alguém que possa te acompanhar e trazer mais prazeres. Defina suas regras, respeite suas próprias decisões, seja firme, e nunca, nunca mesmo, seja tolerante a ponto de se machucar.

Algo que eu sempre tenho em mente é que exercitar o perdão nem sempre é um bom negócio. Vivemos tensionadas, se não pudermos confiar em alguém com certeza essa pessoa não merece nossa companhia.Estabeleça limites para atitudes que você não gosta, e não tenha qualquer receio ou medo de se arrepender na hora de dar um basta no relacionamento. Não é questão de imaginar que “tem mais um monte por aí”, e sim que uma relação que não é mais agradável e causa mais aborrecimentos do que alegrias não tem lugar na vida de uma pessoa auto-realizada.

Não espere ser protegida, espere compartilhar segurança. Não espere ganhar, espere uma troca. Não aceite conviver com um homem que define seus papéis na relação apenas pelo seu gênero, por mais que ele pareça afetuoso, conteste e exija, seja uma voz ativa e tomadora de decisões.

Relacionamentos não se baseiam apenas em amor, tenha em mente que uma relação sem respeito e cooperação não vale a pena. Que adianta ficar com um cara que te considera menos capaz de realizar uma tarefa, só porque ele é carinhoso? Carinho não realiza ninguém, só serve como bengala de frustrações, você precisa de alguém que te admire, te estimule e confie na sua capacidade. E, acima de tudo, precisa de respeito às suas decisões, desejos e necessidades, não deixe de fazer algo que quer para satisfazer alguém que deveria lhe querer o bem. Agregue valor à sua própria confiança, um homem que mente e trai não merece segunda chance, pois isso é sinal de que ele não reconhece seus direitos de escolha.

Nesse ponto o casamento colabora com nossas prisões privadas. Muitas mulheres temem o divórcio porque acreditam que uma “união de tantos anos merece maior esforço e tolerância para continuar”, mas quase sempre esses esforços significam anulação, sofrimento e negação. Elas se sacrificam pela manutenção de um relacionamento perdido, porque temem prestar contas ao Estado com seu contrato de união civil e à religião com seu deus falocêntrico impiedoso.Por esses e outros motivos condeno o casamento como uma união anti-amor, patriarcal e desigual, fundada em sexismo e heteronormatividade.

As mulheres carregam nas costas uma História de submissão e sacrifícios pelo amor romântico, enquanto permaneciam exploradas pelos “donos de seus corações”. Não esqueçam nunca que já fomos consideradas propriedades, já estivemos restritas a um cárcere privado e que ainda hoje muitas de nós não podem nem escolher o homem que estará no “comando”.Ainda existem injustiças horríveis cometidas contra as mulheres em nome de amores romãnticos, somos diariamente iludidas, enganadas e desprezadas. Cabe a nós mudar nossa realidade através desse exercício de consciência que eu proponho, da desconstrução, vamos recuperar a autonomia que nos arrancaram e acabar com nossa dependência instituída por essa educação precária.


Amem, mulheres! Mas amem primeiro a si mesmas, sejam pessoas realizadas e completas, mulheres inteiras. Não vamos esperar a misericórdia dos homens, vamos nos fortalecer para construir relacionamentos mais justos.

Quanto tempo sem postar! Sinto vergonha da minha falta de tempo para coisas que

são tão importantes, como esse pequeno espaço que me realiza e me faz sentir útil

para tantas pessoas.

E que surpresa, receber tantos feedbacks lindos de garotas incríveis! Tenho que

declarar que uma das maiores felicidades que explodem dentro de mim vem desses

comentários singelos, cheios de entusiasmo e identificações. Sinto um carinho

verdadeiro, uma conexão entre nossos problemas e angústias, e estarei aqui para

vivenciar essa troca sempre.

Isso me leva ao assunto que tem sido “trending topic” ultimamente, e que foi

confirmado por uma amiga querida que está passando por uma situação de sofrimento.

Da série “coisas que queriam te enfiar goela abaixo”, apresento-lhes o tal “amor

romântico”.

Idealizado por fábulas, contos e religiões, usado e abusado pela indústria

cultural, ele permanece entre nós, imortal. A base é um casal heterossexual, com

papéis sexuais bem definidos e em um ambiente extremamente favorável, que

repentinamente se fartam de um amor intocável e permanecem felizes para sempre no

mar de rosas. Curiosamente, o mito é vendido para uma esmagadora maioria de

mulheres.

De brinde, ganhamos a instituição do casamento, que legitima definitivamente

aquele amor invencível e nos condena a uma vida inteira de companheirismo, paixão

e harmonia. É relativamente “mais fácil” terminar um namoro, mas um casamento é

como se fosse um contrato que exige um esforço sacrificante para a manutenção do

acordo, uma prisão disfarçada de escolha, que torna muito mais difícil uma decisão

que deveria ser rápida e sem dor: livrar-se de quem nos faz mal.

Nos iniciam nesse mundo obscuro dos coraçõezinhos quando ainda somos muito

crianças para resistir, ganhamos lições diversas que nos convencem a precisar de

outra pessoa para sermos “completas”.Essa pessoa é, claro, um homem. Junto com os

mandamentos da busca ofegante por um amor de conto de fadas, nos empurram um ideal

feminino de submissão, fragilidade e “entrega”. Aprendemos que ser mulher é querer

um homem, e dedicar boa parte de nossas energias para que essa relação tenha

sucesso – mesmo que a duras penas.

Enquanto isso, nossos queridos irmãozinhos aprendem valores um tanto diferentes.

São incentivados a ter coragem, ousadia, independência e principalmente autonomia,

ao mesmo tempo em que recebem a cartilha do dominador. Aprendem que serão sempre o

centro das atenções das mulheres, cuidados por mães, professoras e namoradas, e

que as terão à disposição.

Ao invés de bonecas imbecis e bebês de plástico, do treinamento rigoroso da

maternidade e servidão, ganham jogos de estratégia, carrinhos e bolas de futebol.

Aprendem que a coletividade pode conseguir muitos aliados, enfrentam o mundo ao ar

livre muito cedo e desenvolvem a capacidade de raciocínio lógico.

Tudo isso faz uma grande diferença, somos discriminadas pelo gênero desde a

infância e construídas sob um modelo patético de “mulher”. Nossa vulnerabilidade

não é genética, não veio da mão do deus macho, é obra de uma educação medíocre

embasada em preconceitos e estereótipos. Somos condicionadas a não nos sentir

completas, nunca, de forma alguma.

Coincidentemente, a solução apresentada para todos os nossos problemas de auto-

estima e auto-realização é um parceiro homem. “Tá precisando é de uma rola bem

grande”, como diriam as criaturinhas desprezíveis ocupando espaço por aí. Se

estamos “sozinhas”, somos solitárias ou lésbicas,desprezadas pelo tão importante e

fundamental macho da espécie. Se reclamamos de algo, somos histéricas ou “mal-

comidas”, afinal, todos os nossos problemas só podem ter origem na falta de um

pinto entrando e saindo, oras!

Daí, se resolvemos nos relacionar com um cara e descobrimos que ele é um merdinha,

e então trocamos, e fazemos isso repetidas vezes na incessante busca de um cara

menos incompetente, nos chamam de “putas”. Dizem até que não estamos nos dando

“valor”, quando na verdade isso só oculta a falta de qualquer valor ou apreço que

eles sintam por nós, um verdadeiro nojo. Enquanto isso, eles trocam de parceiras o

tempo todo e se orgulham de separar o ato sexual de qualquer afeto e consideração.

Não é uma fórmula perfeita? Faça-as sentirem-se incompletas e então lhes dê uma

cara-metade. Um homem perfeito, romântico, que atenda a todas as nossas

necessidades e finalmente dê algum sentido à nossa existência supérflua e cruel.

Alguém pra nos dizer o quanto parecemos bonitas, já que enxergamos mosntros nos

espelhos e nos sentimos culpadas por isso. Finalmente alguém pra nos convencer de

que somos alguém e não alguma coisa, como sempre nos ensinaram, uau. Mas a

verdade, mulheres, é que não precisamos de um salvador, muito menos de um

príncipe.

Definição de romance pelo dicionário: fantasia. O que mais precisamos dizer?! Não

é real, não é saudável e muito menos justo.Se você só se sentiu completa depois de

conhecer um homem e se apaixonar, significa que uma parte de você sempre esteve

vazia, e isso é péssimo. Se você não consegue ficar sozinha, quer dizer que está

sujeita a uma relação de dependência, auto-depreciação e possessividade. É um

clichê dos grandes, mas é verdadeiro demais: Antes de se tornar “nós”, precisamos

ser “eu”.

Antes de proclamar as palavras mágicas “não sei o que seria de mim sem você”,

pense no quanto você está se anulando na situação. Nunca se sinta um fracasso se

ainda se sentir dependente de um cara, não se esqueça que você foi totalmente

condicionada a ver as coisas dessa maneira. O caminho? Mais uma vez a

desconstrução, e isso só é possível com auto-conhecimento.

Conhecer a si própria e ter autonomia não significa excluir os relacionamentos

amorosos. Eu acredito em relações justas, em que o companheirismo é essencial e o

afeto cria uma união harmoniosa e cheia de respeito, sem dependência,

possessividade e ilusão. O amor romântico nada mais é do que uma mentira, porque

promete uma relação eterna que tem como base apenas o misterioso sentimento

“amor”, quando na verdade se parece mais com uma paixão cega, infantil e

inconsequente.

Se podemos chamar algo de amor, com certeza não é essa sensação obscura que nos

condena a viver acorrentadas a uma pessoa, desejando sua presença em cada passo

das nossas vidas e projetando nela grandes objetivos. Insisto que em uma relação

real ambos devem perseguir seus objetivos juntos, prestar apoio mútuo e construir

uma base sólida de respeito e cumplicidade, sem o contrato ditatorial do “pra

sempre”.

Quantas mulheres permanecem com homens que as espancam? Ou as humilham? Quantas

mulheres você conhece que suportaram traições? Quantas abriram mão de desejos

próprios por causa dos parceiros? Quantas sofrem com um ciúme doentio e se auto-

depreciam por causa dele? Quantas já abaixaram a cabeça para uma condição do

companheiro e sofreram caladas? Quantas vêm desabafar com você o inferno que está

sendo o relacionamento delas e a falta de coragem pra tomar uma decisão?

A vida real é muito mais hostil com as mulheres. Aqui fora os príncipes são muito

mais autônomos, seguros de si e treinados para a indiferença. E estarão sempre

prontos para se aproveitar dessa insegurança enraizada dentro de nós, construindo

verdadeiros romances poéticos enquanto nos sugam toda a individualidade. Isso não

quer dizer que homens não têm sentimentos, quer dizer que estão muito mais

preparados para lidar com eles, porque têm como base suas próprias realizações.

E como mudar? Como sair da posição de vítima do patriarcado e retomar o poder

sobre a própria vida? Tudo o que eu tenho são experiências próprias e um punhado

de conselhos sinceros.

Em primeiro lugar, descubra algo que você ame muito fazer. Eu descobri que amava

escrever, lutar por causas sociais, ajudar as minorias e ver resultados de todo o

trabalho que eu puder fazer.Muitas descobrem a realização em um esporte, na

música, nas artes plásticas, na filantropia, na carreira, são inúmeras

possibilidades, e todas temos muitas.

Depois, descubra milhares de coisas menores que você ame fazer. Identifique suas

preferências, muitas de nós nunca paramos para pensar nisso! Procure um tipo de

leitura, cinema ou música que você adore, vá ao teatro, invista em coisas que te

dêem prazer e acrescentem conhecimento. Una-se com outras mulheres, jogue futebol,

jogue videogame, faça um cosplay, vá dançar.

Deixe o relacionamento dos seus sonhos para o momento em que estiver mais

completa, você terá muito mais para compartilhar e estará sempre pronta para fazer

as melhores escolhas sem cometer sacrifícios. Se não der certo, agradeça por ter

percebido os erros a tempo, e procure alguém que possa te acompanhar e trazer mais

prazeres. Defina suas regras, respeite suas próprias decisões, seja firme, e

nunca, nunca mesmo, seja tolerante a ponto de se machucar.

Algo que eu sempre tenho em mente é que exercitar o perdão nem sempre é um bom

negócio. Vivemos tensionadas, se não pudermos confiar em alguém com certeza essa

pessoa não merece nossa companhia.Estabeleça limites para atitudes que você não

gosta, e não tenha qualquer receio ou medo de se arrepender na hora de dar um

basta no relacionamento. Não é questão de imaginar que “tem mais um monte por aí”,

e sim que uma relação que não é mais agradável e causa mais aborrecimentos do que

alegrias não tem lugar na vida de uma pessoa auto-realizada.

Não espere ser protegida, espere compartilhar segurança. Não espere ganhar, espere

uma troca. Não aceite conviver com um homem que define seus papéis na relação

apenas pelo seu gênero, por mais que ele pareça afetuoso, conteste e exija, seja

uma voz ativa e tomadora de decisões.

Relacionamentos não se baseiam apenas em amor, tenha em mente que uma relação sem

respeito e cooperação não vale a pena. Que adianta ficar com um cara que te

considera menos capaz de realizar uma tarefa, só porque ele é carinhoso? Carinho

não realiza ninguém, só serve como bengala de frustrações, você precisa de alguém

que te admire, te estimule e confie na sua capacidade. E, acima de tudo, precisa

de respeito às suas decisões, desejos e necessidades, não deixe de fazer algo que

quer para satisfazer alguém que deveria lhe querer o bem. Agregue valor à sua

própria confiança, um homem que mente e trai não merece segunda chance, pois isso

é sinal de que ele não reconhece seus direitos de escolha.

Nesse ponto o casamento colabora com nossas prisões privadas. Muitas mulheres

temem o divórcio porque acreditam que uma “união de tantos anos merece maior

esforço e tolerância para continuar”, mas quase sempre esses esforços significam

anulação, sofrimento e negação. Elas se sacrificam pela manutenção de um

relacionamento perdido, porque temem prestar contas ao Estado com seu contrato de

união civil e à religião com seu deus falocêntrico impiedoso.Por esses e outros

motivos condeno o casamento como uma união anti-amor, patriarcal e desigual,

fundada em sexismo e heteronormatividade.

As mulheres carregam nas costas uma História de submissão e sacrifícios pelo amor

romântico, enquanto permaneciam exploradas pelos “donos de seus corações”. Não

esqueçam nunca que já fomos consideradas propriedades, já estivemos restritas a um

cárcere privado e que ainda hoje muitas de nós não podem nem escolher o homem que

estará no “comando”.Ainda existem injustiças horríveis cometidas contra as

mulheres em nome de amores romãnticos, somos diariamente iludidas, enganadas e

desprezadas. Cabe a nós mudar nossa realidade através desse exercício de

consciência que eu proponho, da desconstrução, vamos recuperar a autonomia que nos

arrancaram e acabar com nossa dependência instituída por essa educação precária.

Amem, mulheres! Mas amem primeiro a si mesmas, sejam pessoas realizadas e

completas, mulheres inteiras. Não vamos esperar a misericórdia dos homens, vamos nos fortalecer para construir um mundo mais justo.

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Porque eu chutei as drogas

Vamos a mais um assunto polêmico. Como milhares de outras pessoas por aí, na minha vida eu fiz o caminho clássico na rota do consumo de drogas: Primeiro de tudo o álcool, depois o cigarro, então cresce a quantidade de álcool, daí vem o baseadinho, depois a carrerinha, mescladinhos e droga-de-rave, no meio ali também dá pra colocar uma cola de sapateiro, umas anfetaminas, até mesmo um benflogin. Só não cheguei na picada, ainda bem.

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Vamos lá, experimente uma...

Meus motivos correram em volta do psicológico, um histórico ruim, falta de estrutura familiar, incompreensão, aniquilação de identidade, patriarquismo, sujeição, auto-rebaixamento compulsivo. Chega a ser engraçada a forma com que nossos pais são condicionados a nos ensinar sobre drogas, primeiro eles nos educam grosseiramente até que percamos nossa auto-estima e então, na fase em que mais estamos fragilizados, eles só sabem dizer que “vai nos fazer mal e vamos viciar e nos acabar”. Ora, eu já me sentia acabada, já não me considerava um indivíduo, tinha minhas mágoas à flor da pele e meus anseios ignorados, e ainda queriam me tirar o direito de me anestesiar?

Na minha débil mentalidade de garotinha perturbada eu fui um alvo fácil das drogas, ninguém ali estava preparado para me oferecer uma base firme ou fortalecer minha auto-estima, pobres dos meus pais que só reagiram ao que lhes foi ensinado e devem ter sentido o peso do fracasso naqueles tempos. Por essas e outras, por favor, só tenham filhos após os 30 e depois de ler muito sobre o assunto, aliás, dedicarei um post a isso no futuro.

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dad's tolerance

Por incrível que pareça, as drogas pesadas tinham um poder destrutivo menor para o meu estado emocional do que o álcool em si, a popular brejinha. Mas isso não era tão significativo assim, porque eu nunca usava drogas ilícitas antes de estar suficientemente bêbada. Ou seja, me auto-destruir estava sempre ao alcance, bastava uma parada no boteco que eu podia entornar um conhaque barato e esquecer meu rumo.
A coisa desandou loucamente, a cada idiotice cometida no meio de uma “brisa” eu afundava um pouco mais, até estar atolada na merda até a testa. Não tem salvação não, é uma praga que vai te consumindo, apropriando a sua mente, enganando seus sentidos. Você imagina que está se divertindo, você troca qualquer resquício de consciência por mais uma onda de prazer, até que sua identidade não tenha mais valor algum.
Apoiada no senso comum de que eu não poderia me acabar “tanto”, acabei largando as drogas mais pesadas. Mas a sensação de vazio nunca melhorava, e o vilão álcool continuava presente em todos os momentos que deveriam ser de “lazer”.

Para os momentos em que não se podia encher a cara e gritar, servia um maço de Marlboro mesmo, pra dar aquela “relaxada”. Escravidão pouca é bobagem, eu dependi de drogas por muito tempo.

Não vou usar a frase do xDestroy Babylonx, “Vegan Straight Edge saved my life”, como imaginam, mas acho que foi próximo disso. Devo muito ao homem que eu amo por isso, primeiro eu descobri o amor-próprio, depois o veganismo me fez sentir na pele a compaixão e o valor da ética, e em seguida o straight edge me fez refletir por muito tempo. Ainda tenho meus receios pessoais quanto à identidade straight edge, por isso não aproprio, mas a idéia me levou a um novo ponto de vista sobre drogas. Para mim não bastava negar as drogas somente por mim mesma afinal, eu precisava negar as drogas por um motivo político.

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My faith

O que “fizeram” a mim e a tantas outras pessoas não era normal, todos os aspectos da construção social levavam ao cenário perfeito da disseminação das drogas:
“Mentira mental é a definição perfeita para a cultura do álcool na vida das pessoas, a pessoa que não consegue um bem-estar satisfatório sem beber costuma se convencer de que essa é uma situação normal e que o conforto da bebida é a única saída. É também encorajada pela mídia a prosseguir com hábito e levar de uma forma “bem-humorada”, chegando ao extremo de se divertir com a mazela “bebo pra esquecer”. Dentre outras muitas frases de efeito com significados miseráveis que são encaradas como normais: “bebo pra ficar ruim, se fosse prá ficar bom tomava remédio”, “bebo sim e to vivendo”, “bebo sim e vc que é feio”, essas pérolas são incrustadas na consciência das pessoas sem NENHUM filtro crítico.” Por mim mesma

I want you to be a drunk rapist.

Levou tempo e esforço para que eu percebesse que tinha perdido a capacidade de me divertir sem o álcool, foi chocante entender o quão reprimida eu era, acreditando nas ilusões baratas que me vendiam. O próximo passo foi perceber a indústria, a cultura da glamourização da droga, o incentivo da mídia. Vi como as mulheres eram objetificadas e usadas de forma degradante nas propagandas de álcool, como os machos criaram valores masculinistas associados às bebidas. Vi os jovens de todas as idades cultuando a ditadura do álcool, competindo entre si para decidir quem consegue desestabilizar mais a própria consciência e intoxicar mais o corpo sem desmaiar, exibindo suas latinhas vazias como campeões, enquanto nem mesmo podiam andar sem tropeçar. Criou-se uma hierarquia doentia de dominância através do álcool, as pessoas procuram se auto-afirmar e provar sua resistência e valor pela ingestão de uma droga depressora!

Eles dizem que isso é "engraçado".

Ver tudo isso me fez acordar de um pesadelo e renascer em outro muito maior, a realidade é realmente um desafio para qualquer mente sóbria. Descobri minha própria consciência, passei a almejar o conhecimento, neguei os princípios deturpados que outrora me enfiaram goela abaixo. Entendi que o álcool não era somente uma porta de entrada para as outras drogas, é também um vício que estará sempre presente como principal e mais perigosa influência, trazendo consigo o selo de aprovação da sociedade. Consegui analisar o rosto do trabalhador do mainstream caindo de bêbado no boteco depois do expediente, e encontrar a mesma expressão frustrada do jovem com jaco de rebites encostado em um balcão da Augusta elogiando sua Heineken. Todos no mesmo barco, todos privados de sua autonomia.

Abandonar todas as substâncias que alteram minha mente fez de mim uma pessoa mais forte, mas também escancarou as infinitas possibilidades de queda e fracasso que a nossa sociedade oferece. Viver sóbria é uma luta constante contra a indignação, é ter os seus impulsos à flor da pele e somente a seu próprio controle para aliviá-los. Não tem espaço para escapismo, ou você confronta ou você desaba.

Como diz a Davin do xKingdomx, o que temos na vida senão nossas próprias consciências?

DON’T FUCKING TRY TO PROVE YOUR MATURITY BY AVOIDING YOUR LIFE!

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