Arquivo de janeiro \17\UTC 2011

Em plena Era do tesão, minha libido ainda é subversão!

Um dia comum, caminhando até o restaurante ou qualquer coisa do tipo, trocando umas palavras preguiçosas com um amigo e colega de trabalho. Logo o assunto caminha para sexo, porque nada é mais eficiente quando se trata de combater o profundo tédio do horário comercial. Não me importo, falo de sexo como se falasse do clima, quanto mais se fala maior a chance de desmistificar as besteiras que enfiaram nas nossas cabeças. E, como dizem alguns amigos meus, buceta é uma das minhas palavras preferidas.

Logo os tópicos chegam até o tal do ménage, o tão desejado sexo a três. A versão com duas mulheres é o sonho de todo cara médio, muito embora a maioria ainda vá descobrir que não é do jeito que disseram e que satisfazer uma mulher já é complicado, imagine duas. Mas, enfim, vale tudo pelo fetiche de ter não apenas um – mas dois dos seres mais sexualizados do planeta em uma única relação. Até aí ok, mas vamos ver o que acontece quando chegamos até o ménage que envolve dois homens e uma mulher.

“_Se ela quer fazer isso, problema dela, sorte dos caras!”.

[pausa para processamento da informação]

WTF?

[busca no banco de dados culturais, históricos e sociais no contexto ocidental contemporâneo]

AH TÁ.

[momento #feministadepressão]

Pois é, o que poderia ser pior para uma mulher do que FAZER SEXO? O que a levaria a ter maiores perdas significativas em sua vida, moral e direitos do que uma sessão de sexo com dois homens? E claro, NUNCA uma mulher poderia fazer sexo grupal com total consciência e segurança dos seus desejos, porque afinal, a autonomia sexual pertence ao homem e ela será meramente “usada”. Não era uma vontade da moça, foi um momento de coerção e agora ela foi definitivamente lesada por ter gozado com dois homens.

Não sei se dou risada ou se choro. Em pleno 2011, com toda essa efervescência erótica, corpos rosados sorridentes por toda a parte, lábios convidativos e publicidade carnal, as pessoas ainda acreditam que as mulheres não gostam de sexo ou que existe alguma coisa errada (não se sabe bem o que) na escolha feminina de fazer sexo com dois ou mais homens.De alguma forma, esses homens se convenceram de que a mulher TEM ALGO A PERDER no sexo, que a relação sexual subtrai alguma misteriosa força da mulher e adiciona ao homem.

As mulheres pioneiras em abordagem sexual ainda causam ojeriza nesses homens que dizem ser fanáticos por sexo, quando na realidade parecem mais preocupados com a carga simbólica de foder uma mulher do que com o próprio prazer. Às vezes penso que, para a maioria dos homens, é mais prazeroso apresentar as conquistas ao grupo de amigões do que desfrutar dos momentos com as parceiras. Tenho a impressão de que eles mentalizam listas quantitativas de relações sexuais, na tentativa de manter um poder sobre as mulheres que não faz mais sentido algum.

Qualquer homem vai dar um chiliquinho se ouvir uma feminista falando mal de penetração e sugerindo outras maneiras de fazer sexo, porque para a maioria deles essa prática é a essência de tudo. Ok, não teria problema eles terem essa preferência, mas por que afinal os próprios homens tendem a demonizar a penetração como ato agressivo e de domínio? A ideia de dois homens e uma mulher soa para eles como um castigo para a tal mulher, porque supostamente “sofrerá” a penetração de ambos. Peraí? SOFRERÁ? E eu achando que aquilo que eu sentia durante a relação com um homem era TESÃO.

Mas, infelizmente parece que o tesão das mulheres é algo extremamente “sujo” no mundo dos homens, a própria pornografia muitas vezes retrata a mulher em suposto sofrimento enquanto é penetrada. Não são raras as vezes em que homens reagem agressivamente ao comportamento insinuante de uma mulher, soltando pérolas como “essa vagabunda gosta de pica”. PORRA, e não é pra gostar então? É pra detestar?

Parece que esses homens gostam de pensar nas mulheres sob as óticas mais conservadoras, a velha máxima da “dama na sala, puta na cama”. Mulher não pode falar de sexo, não pode querer sexo, não pode ousar, não pode abordar…na verdade, até pode, mas vai ter que suportar um tratamento desrespeitoso e segregador só porque teve a audácia de expressar sua sexualidade. “Safadinha ela, hein”, afinal, mulher que é mulher precisa fazer “cu doce”, lançar um teatrinho do recato para lembrar aos homens que eles ainda mandam.

É com essa grande hipocrisia que os homens reivindicam a posição de sujeitos em qualquer relação sexual, usando todas as estratégias que seus privilégios lhes dão para colocar as mulheres no papel do objeto. A sexualidade feminina, para eles, permanece em função dos homens, como nos deprimentes velhos tempos. O prazer da mulher é uma ameaça, ao mesmo tempo em que eles só falam de sexo, não querem que elas se expressem da mesma maneira.

A buceta, para eles, é um mero receptáculo que satisfaz as necessidades do pinto. Não conseguem perceber o vigor dos músculos vaginais, a capacidade de movimentação e pressão que esse órgão tem e o quanto seu papel pode ser considerado ativo. Um homem não tem a simples capacidade de enxergar uma cena de sexo em que um homem penetra uma mulher por trás como uma relação de troca entre iguais, fica claro que, para eles, a pessoa penetrada carrega o fardo da inferioridade e da passividade.

A relação entre prazer e domínio é evidente nos valores masculinos tradicionais, seguindo como principal motivação sexual a lógica da presa/predador. Os mesmos homens que se dizem máquinas sexuais insaciáveis são os criadores de uma cartilha que impõe vários obstáculos ao exercício da sexualidade feminina, eles mesmos dificultam o prazer da mulher e reprimem seus interesses com seus valores machistas. Parece que não interessa fazer bastante sexo de qualidade, e sim utilizar o sexo como instrumento de poder contra as mulheres. Cada vez mais eu me convenço de que PRAZER não é a prioridade da vida sexual dos homens.

Para ilustrar um pouco, vamos ver alguns trechos de um texto qualquer que encontrei na internet (não vou nem citar a fonte para não causar mimimi’s):

“Este amigo me confidenciou da dificuldade em respeitar suas parceiras, pois já no primeiro encontro são estas que partem para os finalmente, tocando em partes que atiçam o seu desejo sexual… Não consigo imaginar um homem respeitando uma mulher assim.”

É extremamente perturbador como a maioria dos homens se acha no direito de respeitar ou não uma mulher de acordo com a sua vida sexual. Eles conseguem jogar no lixo toda a ideia de justiça, igualdade e companheirismo em troca do privilégio de julgar uma mulher e suas escolhas, dividindo toda a população feminina entre “decente” e “vadia”. Como é possível conciliar uma moral sexual cristã e conservadora, que acredita que o sexo é uma coisa imunda, e uma cultura que evidencia ao máximo o tesão do homem? A resposta é simples, jogando toda a sujeira nas costas das mulheres.

O cristianismo prega que a melhor mulher do mundo é uma virgem, passiva e maternal, e a pior foi responsável por seduzir um homem e estragar tudo. Isso soa ridículo para a maior parte das pessoas que se julgam um pouco informadas, mas ainda está 100% presente na mentalidade atual. A premissa do pensamento cristão é de que o sexo serve para reprodução, e por isso qualquer atividade sexual além desse objetivo é perversa. Com certeza não precisamos mais reproduzir, pelo contrário, a necessidade atual da humanidade é conter a super população e investir no planejamento familiar, que traz autonomia e melhores condições para tod@s. Dessa forma, podemos dizer que o sexo já é reconhecido como uma forma de relacionamento que traz intimidade, tesão e realização para as pessoas, mas ao mesmo tempo sobrevivem os valores que demonizam o prazer sexual – e que, curiosamente, pesam muito mais para as mulheres.

Claro que faz mais sentido colocar a culpa na mulher, é sempre conveniente atacar os mais fracos e vulneráveis. Apesar de considerar o sexo pecaminoso, os bons cristãos aplicaram essa regra apenas às suas dóceis esposas mantidas em cárcere doméstico, criando prostíbulos e determinando que algumas mulheres seriam servas sexuais marginalizadas e outras escravas particulares e mães das crianças. Enquanto as esposas eram privadas de uma vida sexual prazerosa e saudável, as prostitutas eram privadas da vida plena em sociedade e ficavam expostas a todo tipo de exploração e abusos, além de, é claro, não viverem plenamente seus próprios desejos. Assim, a educação sexual feminina foi direcionada para a total passividade e repressão dos próprios desejos, sob a ameaça de marginalização em caso de desobediência.

Com certeza já tivemos grandes avanços na mudança dessas imposições, pois hoje muitas mulheres estão conquistando a sonhada vida sexual livre. Hoje já é possível encontrar mulheres que vivenciam seus desejos e conhecem seus corpos, mas não sem a resistência dos homens e o julgamento da sociedade. Posso me colocar como exemplo nessa questão, pois me considero totalmente livre para escolher o que me dá prazer e quant@s parceir@s eu quiser, sem nenhum tipo de receio. Mas, por outro lado, preciso estar sempre atenta para as pessoas que desejo me relacionar, pois corro o risco de ser desrespeitada por alguém que ainda me julga um objeto da sua vontade. O preço que eu pago também é alto, pois as cobranças e pressões surgem de todos os lados. Família, conhecidos, meros colegas, todos se sentem no direito de analisar meu comportamento e fazer suas considerações, ou mesmo acusações covardes na tentativa de reprimir meu direito de escolha. Reajo a tudo fortalecendo minha auto-estima, pois sei que estou apenas exercendo meus direitos básicos enquanto ser humano, como os homens fazem. Busco meu prazer, minha satisfação, mas não me esqueço que estou vivendo em um mundo em que estupros acontecem dentro do próprio casamento e meninas pouco sabem sobre seus próprios orgasmos e corpos, enquanto os homens vivem livremente sua sexualidade com total aprovação social.

Por que eu faria sexo com alguém que não me respeita? Por que qualquer mulher faria sexo se soubesse que os homens a menosprezam por isso? Por que não podemos simplesmente expressar nossos desejos e continuarmos sendo seres humanos plenos em nossos direitos? Não somos sujas ou vagabundas, ou qualquer outro adjetivo hostil, só porque sentimos prazer e gostamos disso. Isso é o mínimo que poderíamos exigir de uma relação saudável.

“Se as mulheres conseguirem se respeitar, os homens poderão se controlar e levar uma relação sem prejuízo para os dois. Homem não deixa de ser homem por respeitar sua namorada/parceira. Mulher não perde sua feminilidade se não se entregar já no primeiro encontro. Querer conquistar o parceiro deste jeito, é o meio mais fácil para não conquistar ninguém. Um tesouro que já foi descoberto, não desperta mais o mesmo interesse de antes.”

É muito comum escutar a velha frase “mulher tem que se dar o respeito”. Claro, afinal, não podemos esperar respeito dos nossos companheiros homens, não é, temos que entrar na defensiva e nos privar para agradá-los, tornando-se assim “mulheres de respeito”. Quanta bobagem! Mulher não tem que se dar ao respeito, mulher já merece o respeito só por ser uma PESSOA, que como qualquer outra, sente desejo sexual e quer trocar isso com outr@s. Homens e mulheres precisam ter sua sexualidade respeitada, para o mínimo de justiça. Então, não, as mulheres não precisam “se dar ao respeito”, VOCÊ TEM QUE RESPEITÁ-LAS.

Alguém me explica, afinal de contas, essa lógica de sexo no primeiro encontro “tirar a graça” da relação, tornar as coisas “fáceis demais”. Porque, pelo que parece, só conta para as mulheres essa regrinha, o fato do homem estar sentindo desejo desde o primeiro contato não é alvo de reprovação em momento algum. Pelo menos para mim, para fazer sexo, basta ter vontade e escolher@ parceir@, e claro, proteger-se. É incrível como a mulher precisa sempre fazer uma frescurada sem fim para chegar ao “finalmente”, e depois são os mesmos homens que reclamam disso. Daí vem esses homens dizendo que quando é fácil não é legal, oras, não é legal justamente porque eles não conseguem conceber que a mulher tem o MESMO desejo sexual, é sempre preciso que ela abra mão disso para colocar o homem na posição superior, de controlador da situação. O macho precisa sempre sentir que está conquistando a fêmea, mesmo que ela já estivesse interessada desde o primeiro momento, do contrário, ele fica frustrado, porque a situação fica muito igualitária, né? Onde já se viu, ambos com tesão, ambos tomando a iniciativa e curtindo numa boa?

E daí vem a psicologia evolutiva e bobagens do nível dizendo que a seleção natural fez os homens mais promíscuos, como se homens e mulheres gozassem da mesma posição social e tivessem as mesmas liberdades. Minha libido diz o contrário, mas bem que eu poderia ter me tornado mais um exemplo de mulher contida e reprimida, esperando o príncipe encantado me deflorar, não faltaram estímulos e inclusive pressões para isso. Eu entendo perfeitamente as mulheres que perdem o interesse pelo sexo, afinal o cenário não é nada animador para quem quer vivenciar uma vida sexual agradável e sem incômodos. Sempre estamos correndo o risco de sofrer repressão e rejeição quando reclamamos o direito ao nosso corpo a aos nossos desejos, mas no fim das contas vale muito mais a pena do que entrar nessa lógica heterossexual irritante.

Por isso, sim, continuo falando sobre sexo, o quanto for preciso, e sem medo de parecer “vadia” ou qualquer outro rótulo esquisito criado pelos homens. Essa briga é minha e faço questão de exigir meus direitos, porque acredito que faz parte da minha auto-estima e realização pessoal ter uma vida sexual completa, e que nenhum ser humano, independente do sexo/gênero, tem o direito de me reprimir ou julgar meu caráter baseado em valores conservadores e cristianismo barato.

Por sorte ainda existem homens que estão preocupados com o prazer e a satisfação da sua companheira, acima de qualquer moral hipócrita que limite os desejos e a felicidade, e que são capazes de respeitar uma mulher mesmo que seja uma transa casual. Penso que as mulheres não devem aceitar uma relação com homens que não reconheçam sua autonomia, mas também conheço o alto poder dissimulador masculino e sei que nem sempre conseguimos evitar esses indivíduos. Por isso, a receita é estar sempre com a auto-estima fortalecida para combater esses valores que ameaçam nossa integridade, e nunca abrir mão das próprias vontades para se encaixar em um modelo que não é justo e não trará nenhuma realização.

Pense sempre que o julgamento social é um dos preços da liberdade, e que no fim das contas vale muito mais a pena investir na própria felicidade do que mentir para si mesma. A gente sempre acaba encontrando alguém bacana nesse caminho, por mais que ele pareça difícil, nada pode ser mais delicioso do que encontrar pessoas que te valorizam e respeitam suas decisões sem nenhum preconceito. Se não for pra viver algo verdadeiro, eu prefiro não viver mais nada – e ninguém vai conseguir me parar.

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Mini Manifesto contra a Família Nuclear

Férias são totalmente indispensáveis na vida, e hoje significam um dos únicos períodos em que se retoma o fôlego, como se passássemos o ano todo sem ar e de repente fosse possível respirar de novo. Para quem mora em São Paulo, enfrenta 3 horas de transporte público caótico diariamente para ganhar as migalhas de papel no final do mês – que ainda assim garantem o posto na classe C – não dá para dispensar esses dias de glória.

Mas, me pego pensando o quanto é impossível fugir da realidade, e não entendo como tem gente que pode apertar o “off” e se jogar na piscina como se nada mais importasse. Olha, confesso que tentei ser uma dessas pessoas esse ano, mas não tenho um estômago tão foda assim.

Londrina, Paraná. Cidade do interior com clima urbano, mas o lugar onde eu fico é totalmente rural, uma chácara com piscina e muito verde. Todo mundo aqui fala “porrrta”, adora sertanejo e está sempre tranqüilo. São minha família por parte de mãe, pra qualquer canto que eu olhe tem uma tia, um primo, ou algo assim.  A casa é enorme e está sempre cheia, alguns móveis são tão antigos que me fazem lembrar a minha infância em detalhes, basta prestar atenção no formato da prateleira e naquele puxador de metal engraçado da gaveta.


São boa gente, sim, muito boa. Solícitos ao extremo, agradáveis, sorridentes e simples. Mas, acabaram sendo objetos da minha incontrolável leitura crítica. E isso me trouxe inspiração para falar de um tema que já estava na minha cabeça: a família nuclear.

Para que o nosso sistema se sustente, existe uma base que precisa ser mantida a todo custo, que é a nossa estrutura familiar composta de um casal heterossexual e seus descendentes, que vivem em uma propriedade privada e sustentam todas as instituições conhecidas (igreja, escola). Aqui não faltam situações para analisar essas famílias, já que acabei ficando em contato com muitas delas em um período curto – em São Paulo quase não vejo parentes.

É engraçado quando você sai de um ambiente totalmente construído para você, seu círculo de amigos libertários, que falam de política o tempo todo e te fazem sentir em algum tipo de utopia, e de repente a realidade te dá um soco na cara trazendo de volta o status quo. Somos uma minoria, o mundo lá fora é muito maior, mais feio, e eles conseguiram enfiar os valores mais cretinos goela abaixo das pessoas.

Você olha ao redor e captura uma série de cenas que perturbam a sua mente. Aqui, as mulheres são servas dos maridos, fazendo todas as suas vontades e as dos seus filhos também. O olhar delas é triste, perdido, por mais que estejam sorrindo e conversando, muitas já são conhecidas por seus misteriosos problemas psicológicos – que incrivelmente só acontecem com mulheres. As crianças são ensinadas no mais duro sexismo, as coisas de meninas e meninos estão absurdamente segregadas, eles têm pavor de tudo que é feminino e elas estão sempre ansiosas para atender às expectativas da feminilidade. A homofobia está presente com toda a força, e ninguém consegue entender porque eu defendo “essa gente”. Os animais então, coitados, são vistos como lixo, usados e explorados em todos os contextos possíveis e imagináveis: alimentação, vestuário, entretenimento barato, qualquer destino de utilitarismo e sofrimento que puderem lhes dar. Dei de cara com um porco morto em cima da mesa, e mais quilos de outros animais despedaçados, especialmente na tal noite de Natal, mas é claro que não me pronunciei a respeito.

Aliás, a religião parece ser justamente a base dessa organização familiar. O Deus homem, branco e hetero manda por aqui. A misoginia corre solta na festa da ignorância, é um tal de marido xingando a mulher porque quer janta, mulher xingando a outra de vagabunda porque não limpa a casa, mãe falando pra filha não se sujar porque ela é menina, homem falando que é macho pra caralho o tempo inteiro. Pára que eu quero descer!

Mas, vamos fazer disso uma observação organizada, segue meu pequeno manifesto contra a família nuclear:

Casamento – o contrato da vida a dois

O que é esse tal de casamento heterossexual? Lembro do desespero de algumas tias que já tinham passado dos 30, e que não tinham conseguido o tal marido. As meninas ainda são educadas para conseguir um provedor, por mais que sejam incentivadas a ter sua carreira, é sempre necessário que o homem lhe dê as condições materiais para viver.

A família começa a pressionar a garota por volta dos 20, principalmente se ela já namora. É preciso que uma nova família seja criada, ninguém sabe ao certo por que, simplesmente tem que ser assim. Mesmo que os filhos não estejam nos planos – o que já configura “desgosto” – uma garota não pode ser solteira, não pode aproveitar uma vida sexual ativa longe do matrimônio, ou ela não é mulher o suficiente. O homem, por sua vez, tem muito mais tempo e liberdade, porque ainda reina a ideia de que as mulheres precisam de alguma forma ser “guardadas”, reservadas para o homem ideal. As mulheres experientes e confiantes sofrem ataques de todo tipo, que tentam rebaixá-las ao status de “usadas”, para que sua auto-estima seja esmagada e elas estejam disponíveis enfim para o ritual do casamento.

A “mulher para casar” é praticamente um cachorro obediente, tem como formação ideal todas as habilidades para cuidar de uma casa, uma sexualidade contida, temperamento dócil e ainda é bela. O “homem para casar” só precisa de um emprego médio e alguma demonstração de poder financeiro, mais nada. Alguns ainda são bons namorados, e logo após o casamento colocam a mulher no seu “devido lugar”.

A cerimônia religiosa já começa com o pai entregando sua filha ao marido, representando os anos de subjugação da mulher a uma figura masculina proprietária, seja pai, marido, irmão, o que for. Espera-se ainda em pleno 2010 que ela seja virgem, ou pelo menos com pouca experiência sexual. O casamento católico tem um apelo de eternidade, como se Deus estivesse selando aquela união (ou seria condenando?). A ameaça presente é de que terminar um casamento cristão é algum tipo de pecado, ou seja, os dois vão ter que fazer um esforço tremendo para manter a relação, por mais que esteja uma merda. Que tipo de relação amorosa tem um contrato desses? Chamam de amor essa prisão perpétua?

Tem gente que ainda justifica o casamento dizendo que nós precisamos de alguém quando estivermos velhos. A situação precária dos idosos e aposentados é um método de coerção bastante eficiente, ao menos no nosso país, mas o pensamento estabelecido de que apenas familiares são companhias confiáveis é falso. É possível, ainda, ter um@ companheir@ quando mais velha, e não faz sentido nenhum justificar uma vida inteira de tédio matrimonial com o receio de uma aposentadoria ruim, isso é masoquismo.

Lar doce lar – cárcere privado

Ele vai ser o responsável por comprar uma casa confortável, onde vai colocar sua mulher para trabalhar feito uma escrava. E isso não vai ser considerado trabalho, é apenas a “obrigação feminina” cozinhar, lavar, passar, limpar, porque vem impresso no DNA de toda mulher que essas tarefas repetitivas e exaustantes são a realização da sua vida. O circo fica completo quando chega o filho, que demanda toda a atenção da mulher, mas ela ainda tem que cuidar da casa e do outro “filhão” que é o marido, chegando tarde do trabalho e esperando a janta no prato. Quando a mulher trabalha, ao invés de conquistar independência ela conquista uma jornada tripla do inferno, por mais que trabalhe o mesmo tanto que o homem ainda tem o segundo expediente quando chega em casa.

Daí os livros começam a retratar a multi-mulher, a mulher moderna, que se desdobra para cumprir suas tarefas, e ninguém enxerga que isso é um abuso enorme. Elas são incentivadas a prosseguir com seu trabalho sem fim, aplaudidas pelo patriarcado quando fazem exatamente o que os homens querem: trabalhar feito camelas para manter suas famílias. Nada pode ser mais honroso para uma mulher na nossa sociedade do que conseguir trabalhar, cuidar dos filhos, da casa e do marido, por mais que isso tome qualquer tempo produtivo e roube toda a sua autonomia. Parabéns, mulher multi-escravizada.

O romance e o sexo vão pro lixo bem rápido, dando lugar ao teatro heterossexual da dor de cabeça feminina e insatisfação masculina. São uns artistas mesmo, conseguem dividir o teto com uma pessoa que repudiam e dão os filhos como desculpa. Os homens ainda têm seu tempo com os amigos, suas válvulas de escape, estão sempre dando um jeito de continuar vivendo – até mesmo através de amantes. A mulher se torna a figura da “patroa”, uma mulher amarga que exerce algum tipo de ”autoridade” com o marido, quando na real os homens só cedem aos esperneios delas porque não querem perder os privilégios da serva. Um homem não é capaz de lavar e passar sua própria camisa, de fazer sua própria comida, não é capaz de enxergar que a sua casa é de tod@s que ali residem e deveria ser cuidada por tod@s. Quando muito, contratam uma empregada negra e pobre por uma miséria, quando seria muito mais justo que os residentes cuidassem da sua casa,e não que colocassem esse peso nas costas de outra mão de obra barata – sempre feminina.

Quando um homem está com uma roupa mal passada, culpam a mulher. Se o filho está mal educado, só pode ser problema da mãe. Se a casa não está limpa o suficiente, já recai sobre as costas dela, a patroa. Culpar a mãe é uma velha máxima que o feminismo denuncia, já que o pai é uma figura secundária que apenas serve de provedor para a família. As responsabilidades de uma mãe são tantas que não permitem que ela tenha o tempo necessário para sua própria realização, ela trabalha a serviço da sociedade, e sua auto-estima quase sempre é um fracasso. Muito se enganam aqueles que acreditam que basta uma família bem cuidada para que a missão da mulher esteja cumprida e ela se sinta realizada, a maioria das mulheres, quando se vê nessa situação, percebe que falta algo muito importante. E daí surgem muitos quadros de depressão em mulheres casadas, pois elas sequer conseguem compreender o que está faltando. Imagino que muitas mães de família se perguntem todos os dias “Por que sou tão infeliz?” – e não foram poucas as que me confessaram isso.

A resposta é simples, essas mulheres são condicionadas para a auto-anulação em busca da felicidade dos outros. Não se trata de altruísmo lindo e maravilhoso, e sim de uma relação de servidão. A mãe que se sacrifica pelo marido e pelos filhos não pode deixar de transparecer sua amargura, e também de passar para frente todos os valores que tornaram a vida dela um inferno, para que sejam reproduzidos na próxima geração. Daí entram aqueles paradoxos da mulher machista, que na verdade é uma situação óbvia, a maior vítima do machismo é também a mais vulnerável, que mais absorve as determinações e não consegue enxergar outro modo de vida. É como um trabalhador escravizado, que não tem condições ou informação suficiente para reivindicar seus direitos, e se torna presa fácil dos mais poderosos. Quais são os direitos da mãe? Quem lhe deu tantos deveres e porque ela deveria cumpri-los?

E claro que o patriarcado aplaude as mães, quanto mais se sacrificam pelos outros melhor. Mãe é sagrada, ninguém pode xingá-la. Mãe não é mulher, é uma criatura assexuada e divina com o poder de cuidar de todo mundo, e de se esquecer totalmente nesse processo. Não é à toa que mulheres famosas e ricas contratam equipes de babás, fazem lipoaspiração, contam com mil empregadas, elas não são querem ser “mães”. Porque as verdadeiras mães ficam gordas, de seios flácidos, olheiras, extremamente cansadas e mau-humoradas, vivem em função dos filhos e ainda têm um lar doce lar para varrer, lavar, passar, encerar, e um marido super bacana para alimentar. Mães não saem para dançar, não lêem nem escrevem, não criam posições sexuais, não visitam cinemas ou museus, não viajam, não se masturbam. Isso parece uma vida digna? Para quem? Só se for para o Estado.

A prole – ápice da família nuclear

Não basta existir apenas o casal heterossexual, é preciso que ambos reproduzam para dar continuidade a uma linhagem, mantendo a cultura da herança e da valorização do “mesmo sangue”. Não interessa se o mundo está super lotado, se as pessoas se espremem nos transportes públicos, se os recursos estão se esgotando e logo o planeta pode entrar em colapso com tanta exploração, o que importa mesmo é manter o nome da família. Adoção? Só quando não há outra maneira, e ainda é uma prática pouco incentivada.

Ter filhos é uma espécie de complemento para essas pessoas, e muitas vezes um ato bastante egoísta. Pouquíssimos são aqueles preparad@s para tornar-se educad@res, que dispensam um tempo ao menos para ler sobre pedagogia, planejar a orientação das crianças. O interesse de tutelar crianças não parece partir do desejo de orientar, construir e desenvolver um ser humano, e sim do desejo da própria felicidade, da sensação de completude que só o cumprimento das regras sociais pode trazer. Casais não têm filh@s pensando no desafio de apresentar nosso mundo conturbado a uma nova pessoa e guiá-la da melhor forma possível, eles pensam, primeiramente, no bem estar próprio. O que uma criança pode fazer pela minha vida? O que o sorrisinho dengoso de um bebê trará de bom nessa casa? Será que os pequenos correndo e posando para fotos vão tornar minha família mais feliz?

O que se segue ao nascimento das crianças normalmente são alguns desastres pedagógicos, e claro, reprodução dos mesmos valores de sempre. As mães são as donas dos filhos, dita a nossa cultura. 90% das responsabilidades envolvendo a criança, especialmente necessidades básicas, serão jogadas nas costas da mulher. O pai é uma figura mais distante, ainda seguindo seu papel de provedor, e frequentemente adotando o papel de “normatizador” da família, aquele que cria as regras e deve ser mais respeitado do que a mãe.

O problema já começa na criação totalmente diferente que meninos e meninas recebem. Enquanto os meninos são incentivados a praticar esportes, criar estratégias, construir cidades, operar máquinas, as meninas são levadas ao mundo da fantasia onde princesas encontram seus príncipes, ou ao mundo das bonecas onde elas são treinadas para a maternidade e serviços domésticos. Eu simplesmente tenho náuseas quando vejo todas aquelas panelinhas, bebês pra trocar fraldas, mini chapinhas, quer dizer, a brincadeira da menina é se programar para o serviço de casa, para cuidar de criança e se embelezar para os meninos. Do outro lado, vejo os meninos se divertindo horrores com carrinhos, trenzinhos, cidades de montar e jogos coletivos, exercitando todas as suas capacidades físicas, intelectuais e sociais.

Outro problema é a presença da violência na educação dessas crianças. Alguns insistem que dar um tapa é algum tipo de direito do educador, para mim sempre será uma profunda incompetência desses pais e prova de que eles não sabem lidar com suas próprias angústias, frustrações e impulsos violentos. Meninos e meninas são ensinad@s a impor limites através da violência, seja física ou psicológica, e ainda dizem que o ser humano tem o ódio como “característica inerente”. Ainda há aqueles tipos de pais que ignoram quase que completamente os filhos, opinião de criança é sempre insignificante para eles, elas não têm nenhum tipo de direito à expressão ou autonomia para eles. “Criança disse? Bobagem!” Além disso, nunca encontram tempo para desenvolver atividades inteligentes, que estimulem o convívio social e o desenvolvimento dos pequenos. O resultado são milhares de futuros adultos com baixa auto-estima e complexo de inferioridade, o que pode ser expressado tanto com timidez extrema como com agressividade.

A adolescência é um mistério ainda maior para os pais medianos da sociedade, por se tratar do período de contestação, em que o jovem mais necessita de esclarecimentos, orientações e confiança. Assuntos como drogas e sexo costumam ser ainda grandes tabus na mesa de jantar, o que apenas prejudica o desenvolvimento do adolescente e o deixa mais expost@ à falta de informação e perigos das ruas. O patriarcado também está bastante presente nessa fase, especialmente na diferença brutal entre a abordagem das questões sexuais para meninos e meninas. Eles, como sempre, são incentivados a ter muitas parceiras, enquanto elas são reprimidas e estimuladas a ter vergonha, receio e medo da própria sexualidade.

Essa adolescente é pressionada pelos pais a manter-se virgem e ao mesmo tempo pressionada a ter sua primeira relação sexual pelos amigos da escola. No fim das contas, o que a sociedade acaba valorizando em pleno 2011 é a “aura” da virgindade, a garota pode até ter no histórico relações sexuais, mas que sejam – ou pareçam – poucas e com pouquíssimos parceiros.  Experiência sexual não é recomendada para as moças, mesmo que seja um bom caminho para descoberta do próprio corpo, desejos e orgasmo. Masturbação feminina parece palavrão, enquanto a cena do garoto no banheiro com a Playboy é encarada como natural e engraçadinha.

No plano afetivo, a maioria das garotas ainda está com a cabeça nos príncipes, não da mesma forma encantadora que a Disney colocou, mas através da dependência emocional e da esperança em encontrar o homem perfeito. Enquanto isso, no mundo real, os garotos fortalecem a auto-estima e a própria identidade em seus relacionamentos, cientes de que não existe uma princesa para esperar, e sim muitas pessoas diferentes para conhecer e entender novas visões. Eis que os interesses da garota se chocam com a dura realidade dos garotos, e os relacionamentos se tornam bastante conturbados e desequilibrados.

Nessa etapa, as garotas são convencidas por todos ao redor de que os “homens são assim mesmo”, carregando para sempre um conformismo sobre as “profundas diferenças” entre homens e mulheres. E nesse ponto, um desses relacionamentos conturbados com um rapaz pode se tornar um novo casamento, pois ela não vai arranjar nada melhor mesmo. Na melhor das hipóteses, ela pode ter um bom relacionamento com um homem acima da média, mas não que isso vá impedir toda a lógica do contrato da vida a dois, cárcere privado e geração da prole, para recomeçar o ciclo familiar.

Enfim…

Se todo esse processo de formação de famílias prossegue normalmente, as estrutura sociais se mantêm intactas e seus valores são repassados de geração em geração. A família nuclear é a garantia de que o Estado pode prosperar e de que os “bons costumes” estão seguros, mesmo que sua inconsistência seja gritante. É incrível como as pessoas se prendem a esse modelo como sua única segurança de uma existência plena, e ao mesmo tempo parecem tão infelizes, perdidas e confusas.

A minha proposta para resolver essa questão seria o incentivo às organizações familiares alternativas, consangüíneas ou não. Que todos os grupos de pessoas que se identificam profundamente e partilham a mesma moradia tenham o mesmo status familiar, sejam heterossexuais ou homossexuais, com crianças ou sem, morando com amigos ou parentes. Que seja possível constituir famílias de todas as formas, e que todas sejam reconhecidas e respeitadas. E, o mais importante, que os novos valores que evidenciam a liberdade e os potenciais humanos, independente do sexo ou gênero, sejam aplicados nessas famílias. Que haja liberdade para a sexualidade, para a expressão política, para os novos pensamentos e reflexões que precisam chegar a tod@s os indivídu@s.

Acredito que toda a transformação precisa ter início nesses micro-ambientes, para enfim atingir a sociedade por inteiro. Afinal, de que adianta a gente repensar todos os valores humanos, partilhar descobertas e novas visões apenas entre amig@s de grupos restritos, enquanto as famílias mais próximas ainda vivem sobre uma lógica dominante que arrepia até o nosso último fio de cabelo?

PS: Muitas questões desse texto precisam ser aprofundadas, este é apenas o esboço do que está por vir.

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