Amor romântico: Coisas que não te contaram.

Quanto tempo sem postar! Sinto vergonha da minha falta de tempo para coisas que são tão importantes, como esse pequeno espaço que me realiza e me faz sentir útil para tantas pessoas.

E que surpresa, receber tantos feedbacks lindos de garotas incríveis! Tenho que declarar que uma das maiores felicidades que explodem dentro de mim vem desses comentários singelos, cheios de entusiasmo e identificações. Sinto um carinho verdadeiro, uma conexão entre nossos problemas e angústias, e estarei aqui para vivenciar essa troca sempre.

Isso me leva ao assunto que tem sido “trending topic” ultimamente, e que foi confirmado por uma amiga querida que está passando por uma situação de sofrimento. Da série “coisas que queriam te enfiar goela abaixo”, apresento-lhes o tal “amor romântico”.

Idealizado por fábulas, contos e religiões, usado e abusado pela indústria cultural, ele permanece entre nós, imortal. A base é um casal heterossexual, com papéis sexuais bem definidos e em um ambiente extremamente favorável, que repentinamente se fartam de um amor intocável e permanecem felizes para sempre no mar de rosas. Curiosamente, o mito é vendido para uma esmagadora maioria de mulheres.

De brinde, ganhamos a instituição do casamento, que legitima definitivamente aquele amor invencível e nos condena a uma vida inteira de companheirismo, paixão e harmonia. É relativamente “mais fácil” terminar um namoro, mas um casamento é como se fosse um contrato que exige um esforço sacrificante para a manutenção do acordo, uma prisão disfarçada de escolha, que torna muito mais difícil uma decisão que deveria ser rápida e sem dor: livrar-se de quem nos faz mal.

Nos iniciam nesse mundo obscuro dos coraçõezinhos quando ainda somos muito crianças para resistir, ganhamos lições diversas que nos convencem a precisar de outra pessoa para sermos “completas”.Essa pessoa é, claro, um homem. Junto com os mandamentos da busca ofegante por um amor de conto de fadas, nos empurram um ideal feminino de submissão, fragilidade e “entrega”. Aprendemos que ser mulher é querer um homem, e dedicar boa parte de nossas energias para que essa relação tenha sucesso – mesmo que a duras penas.

Enquanto isso, nossos queridos irmãozinhos aprendem valores um tanto diferentes. São incentivados a ter coragem, ousadia, independência e principalmente autonomia, ao mesmo tempo em que recebem a cartilha do dominador. Aprendem que serão sempre o centro das atenções das mulheres, cuidados por mães, professoras e namoradas, e que as terão à disposição.

Ao invés de bonecas imbecis e bebês de plástico, do treinamento rigoroso da maternidade e servidão, ganham jogos de estratégia, carrinhos e bolas de futebol. Aprendem que a coletividade pode conseguir muitos aliados, enfrentam o mundo ao ar livre muito cedo e desenvolvem a capacidade de raciocínio lógico.

Tudo isso faz uma grande diferença, somos discriminadas pelo gênero desde a infância e construídas sob um modelo patético de “mulher”. Nossa vulnerabilidade não é genética, não veio da mão do deus macho, é obra de uma educação medíocre embasada em preconceitos e estereótipos. Somos condicionadas a não nos sentir completas, nunca, de forma alguma.

Coincidentemente, a solução apresentada para todos os nossos problemas de auto-estima e auto-realização é um parceiro homem. “Tá precisando é de uma rola bem grande”, como diriam as criaturinhas desprezíveis ocupando espaço por aí. Se estamos “sozinhas”, somos solitárias ou lésbicas,desprezadas pelo tão importante e fundamental macho da espécie. Se reclamamos de algo, somos histéricas ou “mal-comidas”, afinal, todos os nossos problemas só podem ter origem na falta de um pinto entrando e saindo, oras!

Daí, se resolvemos nos relacionar com um cara e descobrimos que ele é um merdinha, e então trocamos, e fazemos isso repetidas vezes na incessante busca de um cara menos incompetente, nos chamam de “putas”. Dizem até que não estamos nos dando “valor”, quando na verdade isso só oculta a falta de qualquer valor ou apreço que eles sintam por nós, um verdadeiro nojo. Enquanto isso, eles trocam de parceiras o tempo todo e se orgulham de separar o ato sexual de qualquer afeto e consideração.

Não é uma fórmula perfeita? Faça-as sentirem-se incompletas e então lhes dê uma cara-metade. Um homem perfeito, romântico, que atenda a todas as nossas necessidades e finalmente dê algum sentido à nossa existência supérflua e cruel. Alguém pra nos dizer o quanto parecemos bonitas, já que enxergamos mosntros nos espelhos e nos sentimos culpadas por isso. Finalmente alguém pra nos convencer de que somos alguém e não alguma coisa, como sempre nos ensinaram, uau. Mas a verdade, mulheres, é que não precisamos de um salvador, muito menos de um príncipe.

Definição de romance pelo dicionário: fantasia. O que mais precisamos dizer?! Não é real, não é saudável e muito menos justo.Se você só se sentiu completa depois de conhecer um homem e se apaixonar, significa que uma parte de você sempre esteve vazia, e isso é péssimo. Se você não consegue ficar sozinha, quer dizer que está sujeita a uma relação de dependência, auto-depreciação e possessividade. É um clichê dos grandes, mas é verdadeiro demais: Antes de se tornar “nós”, precisamos ser “eu”.

Antes de proclamar as palavras mágicas “não sei o que seria de mim sem você”, pense no quanto você está se anulando na situação. Nunca se sinta um fracasso se ainda se sentir dependente de um cara, não se esqueça que você foi totalmente condicionada a ver as coisas dessa maneira. O caminho? Mais uma vez a desconstrução, e isso só é possível com auto-conhecimento.

Conhecer a si própria e ter autonomia não significa excluir os relacionamentos amorosos. Eu acredito em relações justas, em que o companheirismo é essencial e o afeto cria uma união harmoniosa e cheia de respeito, sem dependência, possessividade e ilusão. O amor romântico nada mais é do que uma mentira, porque promete uma relação eterna que tem como base apenas o misterioso sentimento “amor”, quando na verdade se parece mais com uma paixão cega, infantil e inconsequente.

Se podemos chamar algo de amor, com certeza não é essa sensação obscura que nos condena a viver acorrentadas a uma pessoa, desejando sua presença em cada passo das nossas vidas e projetando nela grandes objetivos. Insisto que em uma relação real ambos devem perseguir seus objetivos juntos, prestar apoio mútuo e construir uma base sólida de respeito e cumplicidade, sem o contrato ditatorial do “pra sempre”.

Quantas mulheres permanecem com homens que as espancam? Ou as humilham? Quantas mulheres você conhece que suportaram traições? Quantas abriram mão de desejos próprios por causa dos parceiros? Quantas sofrem com um ciúme doentio e se auto-depreciam por causa dele? Quantas já abaixaram a cabeça para uma condição do companheiro e sofreram caladas? Quantas vêm desabafar com você o inferno que está sendo o relacionamento delas e a falta de coragem pra tomar uma decisão?

A vida real é muito mais hostil com as mulheres. Aqui fora os príncipes são muito mais autônomos, seguros de si e treinados para a indiferença. E estarão sempre prontos para se aproveitar dessa insegurança enraizada dentro de nós, construindo verdadeiros romances poéticos enquanto nos sugam toda a individualidade. Isso não quer dizer que homens não têm sentimentos, quer dizer que estão muito mais preparados para lidar com eles, porque têm como base suas próprias realizações.

E como mudar? Como sair da posição de vítima do patriarcado e retomar o poder sobre a própria vida? Tudo o que eu tenho são experiências próprias e um punhado de conselhos sinceros.

Em primeiro lugar, descubra algo que você ame muito fazer. Eu descobri que amava escrever, lutar por causas sociais, ajudar as minorias e ver resultados de todo o trabalho que eu puder fazer.Muitas descobrem a realização em um esporte, na música, nas artes plásticas, na filantropia, na carreira, são inúmeras possibilidades, e todas temos muitas.

Depois, descubra milhares de coisas menores que você ame fazer. Identifique suas preferências, muitas de nós nunca paramos para pensar nisso! Procure um tipo de leitura, cinema ou música que você adore, vá ao teatro, invista em coisas que te dêem prazer e acrescentem conhecimento. Una-se com outras mulheres, jogue futebol, jogue videogame, faça um cosplay, vá dançar.

Deixe o relacionamento dos seus sonhos para o momento em que estiver mais completa, você terá muito mais para compartilhar e estará sempre pronta para fazer as melhores escolhas sem cometer sacrifícios. Se não der certo, agradeça por ter percebido os erros a tempo, e procure alguém que possa te acompanhar e trazer mais prazeres. Defina suas regras, respeite suas próprias decisões, seja firme, e nunca, nunca mesmo, seja tolerante a ponto de se machucar.

Algo que eu sempre tenho em mente é que exercitar o perdão nem sempre é um bom negócio. Vivemos tensionadas, se não pudermos confiar em alguém com certeza essa pessoa não merece nossa companhia.Estabeleça limites para atitudes que você não gosta, e não tenha qualquer receio ou medo de se arrepender na hora de dar um basta no relacionamento. Não é questão de imaginar que “tem mais um monte por aí”, e sim que uma relação que não é mais agradável e causa mais aborrecimentos do que alegrias não tem lugar na vida de uma pessoa auto-realizada.

Não espere ser protegida, espere compartilhar segurança. Não espere ganhar, espere uma troca. Não aceite conviver com um homem que define seus papéis na relação apenas pelo seu gênero, por mais que ele pareça afetuoso, conteste e exija, seja uma voz ativa e tomadora de decisões.

Relacionamentos não se baseiam apenas em amor, tenha em mente que uma relação sem respeito e cooperação não vale a pena. Que adianta ficar com um cara que te considera menos capaz de realizar uma tarefa, só porque ele é carinhoso? Carinho não realiza ninguém, só serve como bengala de frustrações, você precisa de alguém que te admire, te estimule e confie na sua capacidade. E, acima de tudo, precisa de respeito às suas decisões, desejos e necessidades, não deixe de fazer algo que quer para satisfazer alguém que deveria lhe querer o bem. Agregue valor à sua própria confiança, um homem que mente e trai não merece segunda chance, pois isso é sinal de que ele não reconhece seus direitos de escolha.

Nesse ponto o casamento colabora com nossas prisões privadas. Muitas mulheres temem o divórcio porque acreditam que uma “união de tantos anos merece maior esforço e tolerância para continuar”, mas quase sempre esses esforços significam anulação, sofrimento e negação. Elas se sacrificam pela manutenção de um relacionamento perdido, porque temem prestar contas ao Estado com seu contrato de união civil e à religião com seu deus falocêntrico impiedoso.Por esses e outros motivos condeno o casamento como uma união anti-amor, patriarcal e desigual, fundada em sexismo e heteronormatividade.

As mulheres carregam nas costas uma História de submissão e sacrifícios pelo amor romântico, enquanto permaneciam exploradas pelos “donos de seus corações”. Não esqueçam nunca que já fomos consideradas propriedades, já estivemos restritas a um cárcere privado e que ainda hoje muitas de nós não podem nem escolher o homem que estará no “comando”.Ainda existem injustiças horríveis cometidas contra as mulheres em nome de amores romãnticos, somos diariamente iludidas, enganadas e desprezadas. Cabe a nós mudar nossa realidade através desse exercício de consciência que eu proponho, da desconstrução, vamos recuperar a autonomia que nos arrancaram e acabar com nossa dependência instituída por essa educação precária.


Amem, mulheres! Mas amem primeiro a si mesmas, sejam pessoas realizadas e completas, mulheres inteiras. Não vamos esperar a misericórdia dos homens, vamos nos fortalecer para construir relacionamentos mais justos.

Quanto tempo sem postar! Sinto vergonha da minha falta de tempo para coisas que

são tão importantes, como esse pequeno espaço que me realiza e me faz sentir útil

para tantas pessoas.

E que surpresa, receber tantos feedbacks lindos de garotas incríveis! Tenho que

declarar que uma das maiores felicidades que explodem dentro de mim vem desses

comentários singelos, cheios de entusiasmo e identificações. Sinto um carinho

verdadeiro, uma conexão entre nossos problemas e angústias, e estarei aqui para

vivenciar essa troca sempre.

Isso me leva ao assunto que tem sido “trending topic” ultimamente, e que foi

confirmado por uma amiga querida que está passando por uma situação de sofrimento.

Da série “coisas que queriam te enfiar goela abaixo”, apresento-lhes o tal “amor

romântico”.

Idealizado por fábulas, contos e religiões, usado e abusado pela indústria

cultural, ele permanece entre nós, imortal. A base é um casal heterossexual, com

papéis sexuais bem definidos e em um ambiente extremamente favorável, que

repentinamente se fartam de um amor intocável e permanecem felizes para sempre no

mar de rosas. Curiosamente, o mito é vendido para uma esmagadora maioria de

mulheres.

De brinde, ganhamos a instituição do casamento, que legitima definitivamente

aquele amor invencível e nos condena a uma vida inteira de companheirismo, paixão

e harmonia. É relativamente “mais fácil” terminar um namoro, mas um casamento é

como se fosse um contrato que exige um esforço sacrificante para a manutenção do

acordo, uma prisão disfarçada de escolha, que torna muito mais difícil uma decisão

que deveria ser rápida e sem dor: livrar-se de quem nos faz mal.

Nos iniciam nesse mundo obscuro dos coraçõezinhos quando ainda somos muito

crianças para resistir, ganhamos lições diversas que nos convencem a precisar de

outra pessoa para sermos “completas”.Essa pessoa é, claro, um homem. Junto com os

mandamentos da busca ofegante por um amor de conto de fadas, nos empurram um ideal

feminino de submissão, fragilidade e “entrega”. Aprendemos que ser mulher é querer

um homem, e dedicar boa parte de nossas energias para que essa relação tenha

sucesso – mesmo que a duras penas.

Enquanto isso, nossos queridos irmãozinhos aprendem valores um tanto diferentes.

São incentivados a ter coragem, ousadia, independência e principalmente autonomia,

ao mesmo tempo em que recebem a cartilha do dominador. Aprendem que serão sempre o

centro das atenções das mulheres, cuidados por mães, professoras e namoradas, e

que as terão à disposição.

Ao invés de bonecas imbecis e bebês de plástico, do treinamento rigoroso da

maternidade e servidão, ganham jogos de estratégia, carrinhos e bolas de futebol.

Aprendem que a coletividade pode conseguir muitos aliados, enfrentam o mundo ao ar

livre muito cedo e desenvolvem a capacidade de raciocínio lógico.

Tudo isso faz uma grande diferença, somos discriminadas pelo gênero desde a

infância e construídas sob um modelo patético de “mulher”. Nossa vulnerabilidade

não é genética, não veio da mão do deus macho, é obra de uma educação medíocre

embasada em preconceitos e estereótipos. Somos condicionadas a não nos sentir

completas, nunca, de forma alguma.

Coincidentemente, a solução apresentada para todos os nossos problemas de auto-

estima e auto-realização é um parceiro homem. “Tá precisando é de uma rola bem

grande”, como diriam as criaturinhas desprezíveis ocupando espaço por aí. Se

estamos “sozinhas”, somos solitárias ou lésbicas,desprezadas pelo tão importante e

fundamental macho da espécie. Se reclamamos de algo, somos histéricas ou “mal-

comidas”, afinal, todos os nossos problemas só podem ter origem na falta de um

pinto entrando e saindo, oras!

Daí, se resolvemos nos relacionar com um cara e descobrimos que ele é um merdinha,

e então trocamos, e fazemos isso repetidas vezes na incessante busca de um cara

menos incompetente, nos chamam de “putas”. Dizem até que não estamos nos dando

“valor”, quando na verdade isso só oculta a falta de qualquer valor ou apreço que

eles sintam por nós, um verdadeiro nojo. Enquanto isso, eles trocam de parceiras o

tempo todo e se orgulham de separar o ato sexual de qualquer afeto e consideração.

Não é uma fórmula perfeita? Faça-as sentirem-se incompletas e então lhes dê uma

cara-metade. Um homem perfeito, romântico, que atenda a todas as nossas

necessidades e finalmente dê algum sentido à nossa existência supérflua e cruel.

Alguém pra nos dizer o quanto parecemos bonitas, já que enxergamos mosntros nos

espelhos e nos sentimos culpadas por isso. Finalmente alguém pra nos convencer de

que somos alguém e não alguma coisa, como sempre nos ensinaram, uau. Mas a

verdade, mulheres, é que não precisamos de um salvador, muito menos de um

príncipe.

Definição de romance pelo dicionário: fantasia. O que mais precisamos dizer?! Não

é real, não é saudável e muito menos justo.Se você só se sentiu completa depois de

conhecer um homem e se apaixonar, significa que uma parte de você sempre esteve

vazia, e isso é péssimo. Se você não consegue ficar sozinha, quer dizer que está

sujeita a uma relação de dependência, auto-depreciação e possessividade. É um

clichê dos grandes, mas é verdadeiro demais: Antes de se tornar “nós”, precisamos

ser “eu”.

Antes de proclamar as palavras mágicas “não sei o que seria de mim sem você”,

pense no quanto você está se anulando na situação. Nunca se sinta um fracasso se

ainda se sentir dependente de um cara, não se esqueça que você foi totalmente

condicionada a ver as coisas dessa maneira. O caminho? Mais uma vez a

desconstrução, e isso só é possível com auto-conhecimento.

Conhecer a si própria e ter autonomia não significa excluir os relacionamentos

amorosos. Eu acredito em relações justas, em que o companheirismo é essencial e o

afeto cria uma união harmoniosa e cheia de respeito, sem dependência,

possessividade e ilusão. O amor romântico nada mais é do que uma mentira, porque

promete uma relação eterna que tem como base apenas o misterioso sentimento

“amor”, quando na verdade se parece mais com uma paixão cega, infantil e

inconsequente.

Se podemos chamar algo de amor, com certeza não é essa sensação obscura que nos

condena a viver acorrentadas a uma pessoa, desejando sua presença em cada passo

das nossas vidas e projetando nela grandes objetivos. Insisto que em uma relação

real ambos devem perseguir seus objetivos juntos, prestar apoio mútuo e construir

uma base sólida de respeito e cumplicidade, sem o contrato ditatorial do “pra

sempre”.

Quantas mulheres permanecem com homens que as espancam? Ou as humilham? Quantas

mulheres você conhece que suportaram traições? Quantas abriram mão de desejos

próprios por causa dos parceiros? Quantas sofrem com um ciúme doentio e se auto-

depreciam por causa dele? Quantas já abaixaram a cabeça para uma condição do

companheiro e sofreram caladas? Quantas vêm desabafar com você o inferno que está

sendo o relacionamento delas e a falta de coragem pra tomar uma decisão?

A vida real é muito mais hostil com as mulheres. Aqui fora os príncipes são muito

mais autônomos, seguros de si e treinados para a indiferença. E estarão sempre

prontos para se aproveitar dessa insegurança enraizada dentro de nós, construindo

verdadeiros romances poéticos enquanto nos sugam toda a individualidade. Isso não

quer dizer que homens não têm sentimentos, quer dizer que estão muito mais

preparados para lidar com eles, porque têm como base suas próprias realizações.

E como mudar? Como sair da posição de vítima do patriarcado e retomar o poder

sobre a própria vida? Tudo o que eu tenho são experiências próprias e um punhado

de conselhos sinceros.

Em primeiro lugar, descubra algo que você ame muito fazer. Eu descobri que amava

escrever, lutar por causas sociais, ajudar as minorias e ver resultados de todo o

trabalho que eu puder fazer.Muitas descobrem a realização em um esporte, na

música, nas artes plásticas, na filantropia, na carreira, são inúmeras

possibilidades, e todas temos muitas.

Depois, descubra milhares de coisas menores que você ame fazer. Identifique suas

preferências, muitas de nós nunca paramos para pensar nisso! Procure um tipo de

leitura, cinema ou música que você adore, vá ao teatro, invista em coisas que te

dêem prazer e acrescentem conhecimento. Una-se com outras mulheres, jogue futebol,

jogue videogame, faça um cosplay, vá dançar.

Deixe o relacionamento dos seus sonhos para o momento em que estiver mais

completa, você terá muito mais para compartilhar e estará sempre pronta para fazer

as melhores escolhas sem cometer sacrifícios. Se não der certo, agradeça por ter

percebido os erros a tempo, e procure alguém que possa te acompanhar e trazer mais

prazeres. Defina suas regras, respeite suas próprias decisões, seja firme, e

nunca, nunca mesmo, seja tolerante a ponto de se machucar.

Algo que eu sempre tenho em mente é que exercitar o perdão nem sempre é um bom

negócio. Vivemos tensionadas, se não pudermos confiar em alguém com certeza essa

pessoa não merece nossa companhia.Estabeleça limites para atitudes que você não

gosta, e não tenha qualquer receio ou medo de se arrepender na hora de dar um

basta no relacionamento. Não é questão de imaginar que “tem mais um monte por aí”,

e sim que uma relação que não é mais agradável e causa mais aborrecimentos do que

alegrias não tem lugar na vida de uma pessoa auto-realizada.

Não espere ser protegida, espere compartilhar segurança. Não espere ganhar, espere

uma troca. Não aceite conviver com um homem que define seus papéis na relação

apenas pelo seu gênero, por mais que ele pareça afetuoso, conteste e exija, seja

uma voz ativa e tomadora de decisões.

Relacionamentos não se baseiam apenas em amor, tenha em mente que uma relação sem

respeito e cooperação não vale a pena. Que adianta ficar com um cara que te

considera menos capaz de realizar uma tarefa, só porque ele é carinhoso? Carinho

não realiza ninguém, só serve como bengala de frustrações, você precisa de alguém

que te admire, te estimule e confie na sua capacidade. E, acima de tudo, precisa

de respeito às suas decisões, desejos e necessidades, não deixe de fazer algo que

quer para satisfazer alguém que deveria lhe querer o bem. Agregue valor à sua

própria confiança, um homem que mente e trai não merece segunda chance, pois isso

é sinal de que ele não reconhece seus direitos de escolha.

Nesse ponto o casamento colabora com nossas prisões privadas. Muitas mulheres

temem o divórcio porque acreditam que uma “união de tantos anos merece maior

esforço e tolerância para continuar”, mas quase sempre esses esforços significam

anulação, sofrimento e negação. Elas se sacrificam pela manutenção de um

relacionamento perdido, porque temem prestar contas ao Estado com seu contrato de

união civil e à religião com seu deus falocêntrico impiedoso.Por esses e outros

motivos condeno o casamento como uma união anti-amor, patriarcal e desigual,

fundada em sexismo e heteronormatividade.

As mulheres carregam nas costas uma História de submissão e sacrifícios pelo amor

romântico, enquanto permaneciam exploradas pelos “donos de seus corações”. Não

esqueçam nunca que já fomos consideradas propriedades, já estivemos restritas a um

cárcere privado e que ainda hoje muitas de nós não podem nem escolher o homem que

estará no “comando”.Ainda existem injustiças horríveis cometidas contra as

mulheres em nome de amores romãnticos, somos diariamente iludidas, enganadas e

desprezadas. Cabe a nós mudar nossa realidade através desse exercício de

consciência que eu proponho, da desconstrução, vamos recuperar a autonomia que nos

arrancaram e acabar com nossa dependência instituída por essa educação precária.

Amem, mulheres! Mas amem primeiro a si mesmas, sejam pessoas realizadas e

completas, mulheres inteiras. Não vamos esperar a misericórdia dos homens, vamos nos fortalecer para construir um mundo mais justo.

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  1. #1 por adília em 04/02/2010 - 19:20

    Voce tardou mas valeu a pena esperar: o texto é muito bom. Você escreve muito bem de forma clara mas vívida e é um prazer ler. Concordo a 300 por cento com o que diz sobre o amor romantico eu própria já tive oportunidade de o denunciar em varios posts, mas temo não ter conseguido o alcance que o seu texto provavelmente vai conseguir.
    Um outro aspecto que também é uma autentica gaiola é a sacralidade da maternidade que vem apensa à exaltação do amor romantico. As maças podres tem um ultimo post sobre o assunto, um pouco dificl e se calhar vazado em termos demasiado radicais, mas parece-me que só se ganhava tentando chegar a maior numero de pessoas como acontece com os seus textos.
    Abraço e parabéns, Adília

  2. #2 por carol em 07/02/2010 - 22:27

    Texto ANIMAL! Li e reli e reli e reli. E o melhor: eu pessoalmente estive pensando muito nesse assunto nos últimos tempos, e cheguei a conclusões incríveis que vão muito a favor com o que você escreveu agora.

    Só para resumir: eu cheguei à brilhante conclusão (devia ser tão óbvio!!! mas pra mim não foi =P) de que temos que ter consciência da nossa IDENTIDADE. Temos que saber o que somos, quem somos, de onde viemos, o que as nossas atividades (trabalho, escola) significam para a gente, do que gostamos (que é aquilo o que você falou sobre descobrir o que se gosta de fazer). E, uma vez sabendo disso, NÃO LARGAR MÃO! Porque é isso o que nos dá base, é isso o que afinal somos, e, quando tudo o mais vai embora, e quando estamos tristes, é pra lá que a gente volta, é de quem nós somos é que nós vamos tirar forças.

    Se a gente muda muito em função de outra pessoa (um homem, no caso), nos tornamos extremamente vulneráveis à opinião e aprovação dessa pessoa, e com o passar dos meses e dos anos acabamos por esquecer quem realmente somos. E aí nos tornamos incrivelmente dependentes, de forma que não “imaginamos a vida sem aquela pessoa”; e aí aguentamos humilhações e/ou nos tornamos completamente “perdidas” no caso de uma separação. E aí dá-lhe tempo (anos?) para resgatar tudo.

    Nossa eu escrevi! Ainda bem que eu quis resumir… 🙂 hehehe!
    Um beijão e parabéns pelo ótimo texto!!! \o/

  3. #3 por Marcelo Salgado em 14/02/2010 - 17:40

    Achei seu blog por acaso. Muito interessante..! Há na sua escrita, além de inteligência e clareza, também uma amargura muito honesta. Parabéns por essa expressão tão bem feita e sincera.

    Discordo de algumas coisas. Acho que, em certos momentos, você soa um tanto hiperfeminista demais, um tanto over. Em outros, soa mais adequada. Mas eu levaria tempo demais pra debater ponto a ponto contigo..! Hehehe.

    Parabéns por escrever assim.

    Marcelo (Ariano)

    • #4 por whothehelliscely em 19/02/2010 - 1:13

      Oi Marcelo, obrigada pela sua opinião. Gostaria mesmo de saber onde soa “hiperfeminista”, porque posso repensar algum ponto. Sabe, cara, são coisas que me tocam diariamente, o tempo todo, é difícil não expressar isso de forma exaltada às vezes.

      Abs

  4. #5 por Pati Narita em 19/02/2010 - 1:54

    Obrigada por ter um blog, querida, só posso dizer isso. ^^

    • #6 por whothehelliscely em 22/02/2010 - 2:36

      Obrigada por ler meu blog, amo =**

  5. #7 por Ana em 19/02/2010 - 9:23

    só uma coisa:

    ARRASOU no texto!!Palmas pra ti!! =)

    • #8 por whothehelliscely em 22/02/2010 - 2:35

      Obrigada, flor ^^

  6. #9 por Vivi em 02/03/2010 - 16:53

    Em nome de todas nós posso dizer: Obrigado Cely! Obrigado por mostrar nosso grito, nossa voz!

    • #10 por whothehelliscely em 02/03/2010 - 18:59

      Eu é que agradeço por esse feedback maravilhoso Vivi!! Mesmo que ainda possa fazer muito pouco, sonho em ser a voz de muitas mulheres!

      Um grande beijo.

  7. #11 por Jessica em 09/03/2010 - 10:30

    Concordei com a parte da complementação. Sempre vejo em twitters, orkus e fotologs: “Fulano me completa”.

    É de rir.

    • #12 por whothehelliscely em 09/03/2010 - 19:52

      Hehehe e não é mesmo?

      Sejamos complet@s por si só! ;]

  8. #13 por Flávia em 16/03/2010 - 13:19

    Seu blog é incível. Li ele inteiro, de cabo a rabo. Já sou leitora assídua da Deborah e da Lola, mas sempre gosto de ler novos blogs feministas, pq as vezes o jeito q uma pessoa fala algo, facilita pra outras entenderem…=)
    Será q eu poderia pegar o seu texto anti-pornografia e divulgá-lo por aí? Está tudo super bem desconstruído nele, tudo bem claro.

    Enfim, voltarei mais vezes!

    • #14 por whothehelliscely em 19/03/2010 - 0:17

      Oi querida Flávia!

      Pode pegar o texto à vontade! Fico super feliz de ter uma leitora nova ^^

      Beijos!

  9. #15 por Sa em 21/03/2010 - 18:13

    Que lerinha pequena do seu blog, tenta mudar isso pra ficar mais agradável a leitura…
    Abraços.

    • #16 por whothehelliscely em 25/03/2010 - 21:28

      Oi querida,

      Obrigada pelo toque! Estava usando o ctrl + rolagem como truque pra melhorar isso, mas preciso tomar vergonha na cara e mudar hahaha

      Bjs

  10. #17 por Leandro Leite em 15/04/2010 - 0:16

    Oi oi, sabe Cely, eu poderia ficar horas desenvolvendo um comentário inteligente pra te impressionar, mas só tenho a dizer que eu nunca tinha visto as coisas dessa maneira. Sério, logo eu que achava as feministas um monte de mulheres histéricas e desocupadas (não se sinta ofendida, ainda bem que podemos mudar de pensamento e atitude, certo?).
    Posta mais viu?

  11. #18 por Tereca em 19/06/2010 - 20:22

    Parabéns pelo texto. Voc~e escrve muito bem e nos faz refletir. E nós mulheres, que nos valorizamos tão pouco!!!! e covardes, muitas vezes, estes homens que se aproximam.. covardes, porque têm medo deles próprios. Por isso essa imagem e muitas vezes um coração de pedra.

  12. #19 por Ághata em 14/08/2010 - 19:15

    Cely!!
    Querida, volte a escrever! Você faz falta!

    Excelente o último post!

  13. #20 por Luna em 17/09/2010 - 19:07

    Achei um ótimo texto, muito bem escrito, assim como os outro que escreveu.
    Meu único “porém” aqui é que, no seu discurso, assim como no de várias outras pessoas que eu mesmo assim admiro, existe um vício de generalização que, no meu ponto de vista, tira um pouco da credibilidade das suas críticas. Claro que você está falando da maioria, e eu concordo com o que fala, mas o fato é que, quando você coloca essa maioria sem distinção, como se estivesse falando pra absolutamente todo mundo, a coisa parece mais uma agressão (gratuita) do que uma forma de tentar conscientizar alguém, que eu acho que deveria ser a proposta inicial.

    Mas como já disse, seus pensamentos conquistaram minha admiração! Pena que você não escreve com mais frequencia… ;]

    PS: fiz um comentário num texto seu antigo e acharia legal se vc lesse. É aquele sobre pornografia. https://whothehelliscely.wordpress.com/2009/08/06/o-meu-brainstorm-da-pornografia/#comment-228

    Beijos.

    • #21 por whothehelliscely em 05/12/2010 - 20:24

      Olá Luna,

      Você acha que se eu pontuasse alguns casos “exceção” o texto ficaria melhor? Acho que posso tentar!

      bjs

  14. #22 por Gabriela em 01/10/2010 - 15:50

    Olá Cely, (é a gabi de porto ferreira) como diz no começo do texto maior correria, mas arrumei um tempo e depois desse texto nao podia deixar de comentar.
    Estou em um relacionamento há 3 anos, no começo de 2010 percebi o quanto me afastei das pessoas e o quanto sentia falta de mim mesma, da minha cerveja no domingo atarde na varanda juntamente com a minha vó tomando sorvete e tricotando (interior flor rsrs)
    Voltando, fiquei mó dividida, mas no final voltei as minhas origens e percebi que não precisei deixar mais uma pessoa que amo, pois atraves do dialogo consegui meu espaço de volta.

    Bom comentei a minha historia, pois em uma parte do texto vc diz que uma hora achamos a pessoa certa e no meu caso achei, pois sou livre mesmo estando com alguem, todavia não me sinto mais presa, me amo e vivo…intensamente!!

    • #23 por whothehelliscely em 05/12/2010 - 20:19

      Fico feliz por você gatz!

      Obrigada por dividir sua experiência ;]

  15. #24 por Giulia em 31/10/2010 - 0:38

    Caramba, Cely. Me sinto até esquisita vindo falar essas coisas pra você, pq já te “conheço” de comunidades veganas e sou super envergonhada hehe.

    Seus textos não poderiam ter vindo em melhor hora pra mim (mentira né, poderiam ter vindo bem antes hahah). Me interessei pelo feminismo recentemente sem muita pretensão (e, ironicamente, por causa do machismo dos veganos), mas a oportunidade veio por um motivo horrível: “surtei”, minha saúde começou a ir pro saco e tive que parar minha vida pra me recuperar. Com o tempo livre e oportunidade (que infelizmente a maioria não tem) de focar em mim mesma, pude buscar coisas que me fizessem bem. Achava que tudo era resultado de um super estresse quase que corriqueiro, mas mal sabia eu o que tava carregando nas costas.

    Antes de vir pra cá, li alguns textos e comecei a abrir minha mente, mas foi aqui que eu realmente consegui assimilar o que tava me fazendo sofrer. Consegui entender pq me sentia tão esquizofrênica, meus medos e minhas atitudes. Principalmente, consegui entender pq diabos eu sofria e me sentia TÃO mal, sendo que tenho “tudo”. Melhor ainda, consegui ME entender em vez de acreditar no que me disseram e fizeram acreditar que eu sou.

    Bom, até daria pra ficar falando mais um monte de coisas me explicando e exemplificando, mas acho que você entende o que quero dizer.

    Só posso dizer obrigada. Basicamente você mudou minha vida e num momento bastante delicado. Meu grito de socorro tava muito bem enterrado pelas pessoas e, depois dos teus textos, me sinto livre pra me descobrir. Agora posso seguir em frente fazendo o que acho certo. Na verdade, você me deu a oportunidade de saber realmente o que eu acho certo.

    Parabéns!

    • #25 por whothehelliscely em 05/12/2010 - 20:18

      Caramba Giulia, que emocionante!

      Fico triste de só ter lido agora, tive que ficar um bom tempo longe do blog por causa do meu TCC! Mas agora vejo o quanto é importante escrever, que eu posso realmente alcançar mulheres como você que precisam de ajuda.

      Muito obrigada mesmo por ter comentado aqui!

      Bjs

  16. #26 por Aleska em 31/10/2010 - 19:22

    Oi, eu sou amiga da Raíza do garrafa ao mar. Já que ela te deu o selo que eu passei pra ela XD vim te convidar a escrever um artigo para um jornalzinho que devo publicar agora em novembro no Rio de Janeiro. Se quiser mais informações no meu blog tem a proposta do jornal. Beijos!

  17. #27 por IGN em 13/12/2010 - 23:30

    Gostei do texto mas acho que tinha que ser mais chocante,tipo,”enquanto nós mulheres estamos aprendendo a amar os homens,eles estão a prendendo a nos tratar como mercadorias na pornografia e nos bordéis”.Muita coisa não muda no Brasil porque aqui o feminismo faz vista grossa para estas questões,e são formas de exploração feminina super crueis e nocivas: adestram os homens a nos definirem como mercadorias,problema que vc definiu muito bem sobre o separatismo machista.

    • #28 por cely em 14/12/2010 - 22:48

      Outra ótima colocação sua =]

      Preciso vociferar mais hehehe! Temos muito o que denunciar a respeito dessas práticas negligenciadas, como a prostituição e a indústria porn. Quando for enviar o material, me fale um pouquinho mais sobre você.

      Bjs

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