Arquivo de fevereiro \03\UTC 2010

Amor romântico: Coisas que não te contaram.

Quanto tempo sem postar! Sinto vergonha da minha falta de tempo para coisas que são tão importantes, como esse pequeno espaço que me realiza e me faz sentir útil para tantas pessoas.

E que surpresa, receber tantos feedbacks lindos de garotas incríveis! Tenho que declarar que uma das maiores felicidades que explodem dentro de mim vem desses comentários singelos, cheios de entusiasmo e identificações. Sinto um carinho verdadeiro, uma conexão entre nossos problemas e angústias, e estarei aqui para vivenciar essa troca sempre.

Isso me leva ao assunto que tem sido “trending topic” ultimamente, e que foi confirmado por uma amiga querida que está passando por uma situação de sofrimento. Da série “coisas que queriam te enfiar goela abaixo”, apresento-lhes o tal “amor romântico”.

Idealizado por fábulas, contos e religiões, usado e abusado pela indústria cultural, ele permanece entre nós, imortal. A base é um casal heterossexual, com papéis sexuais bem definidos e em um ambiente extremamente favorável, que repentinamente se fartam de um amor intocável e permanecem felizes para sempre no mar de rosas. Curiosamente, o mito é vendido para uma esmagadora maioria de mulheres.

De brinde, ganhamos a instituição do casamento, que legitima definitivamente aquele amor invencível e nos condena a uma vida inteira de companheirismo, paixão e harmonia. É relativamente “mais fácil” terminar um namoro, mas um casamento é como se fosse um contrato que exige um esforço sacrificante para a manutenção do acordo, uma prisão disfarçada de escolha, que torna muito mais difícil uma decisão que deveria ser rápida e sem dor: livrar-se de quem nos faz mal.

Nos iniciam nesse mundo obscuro dos coraçõezinhos quando ainda somos muito crianças para resistir, ganhamos lições diversas que nos convencem a precisar de outra pessoa para sermos “completas”.Essa pessoa é, claro, um homem. Junto com os mandamentos da busca ofegante por um amor de conto de fadas, nos empurram um ideal feminino de submissão, fragilidade e “entrega”. Aprendemos que ser mulher é querer um homem, e dedicar boa parte de nossas energias para que essa relação tenha sucesso – mesmo que a duras penas.

Enquanto isso, nossos queridos irmãozinhos aprendem valores um tanto diferentes. São incentivados a ter coragem, ousadia, independência e principalmente autonomia, ao mesmo tempo em que recebem a cartilha do dominador. Aprendem que serão sempre o centro das atenções das mulheres, cuidados por mães, professoras e namoradas, e que as terão à disposição.

Ao invés de bonecas imbecis e bebês de plástico, do treinamento rigoroso da maternidade e servidão, ganham jogos de estratégia, carrinhos e bolas de futebol. Aprendem que a coletividade pode conseguir muitos aliados, enfrentam o mundo ao ar livre muito cedo e desenvolvem a capacidade de raciocínio lógico.

Tudo isso faz uma grande diferença, somos discriminadas pelo gênero desde a infância e construídas sob um modelo patético de “mulher”. Nossa vulnerabilidade não é genética, não veio da mão do deus macho, é obra de uma educação medíocre embasada em preconceitos e estereótipos. Somos condicionadas a não nos sentir completas, nunca, de forma alguma.

Coincidentemente, a solução apresentada para todos os nossos problemas de auto-estima e auto-realização é um parceiro homem. “Tá precisando é de uma rola bem grande”, como diriam as criaturinhas desprezíveis ocupando espaço por aí. Se estamos “sozinhas”, somos solitárias ou lésbicas,desprezadas pelo tão importante e fundamental macho da espécie. Se reclamamos de algo, somos histéricas ou “mal-comidas”, afinal, todos os nossos problemas só podem ter origem na falta de um pinto entrando e saindo, oras!

Daí, se resolvemos nos relacionar com um cara e descobrimos que ele é um merdinha, e então trocamos, e fazemos isso repetidas vezes na incessante busca de um cara menos incompetente, nos chamam de “putas”. Dizem até que não estamos nos dando “valor”, quando na verdade isso só oculta a falta de qualquer valor ou apreço que eles sintam por nós, um verdadeiro nojo. Enquanto isso, eles trocam de parceiras o tempo todo e se orgulham de separar o ato sexual de qualquer afeto e consideração.

Não é uma fórmula perfeita? Faça-as sentirem-se incompletas e então lhes dê uma cara-metade. Um homem perfeito, romântico, que atenda a todas as nossas necessidades e finalmente dê algum sentido à nossa existência supérflua e cruel. Alguém pra nos dizer o quanto parecemos bonitas, já que enxergamos mosntros nos espelhos e nos sentimos culpadas por isso. Finalmente alguém pra nos convencer de que somos alguém e não alguma coisa, como sempre nos ensinaram, uau. Mas a verdade, mulheres, é que não precisamos de um salvador, muito menos de um príncipe.

Definição de romance pelo dicionário: fantasia. O que mais precisamos dizer?! Não é real, não é saudável e muito menos justo.Se você só se sentiu completa depois de conhecer um homem e se apaixonar, significa que uma parte de você sempre esteve vazia, e isso é péssimo. Se você não consegue ficar sozinha, quer dizer que está sujeita a uma relação de dependência, auto-depreciação e possessividade. É um clichê dos grandes, mas é verdadeiro demais: Antes de se tornar “nós”, precisamos ser “eu”.

Antes de proclamar as palavras mágicas “não sei o que seria de mim sem você”, pense no quanto você está se anulando na situação. Nunca se sinta um fracasso se ainda se sentir dependente de um cara, não se esqueça que você foi totalmente condicionada a ver as coisas dessa maneira. O caminho? Mais uma vez a desconstrução, e isso só é possível com auto-conhecimento.

Conhecer a si própria e ter autonomia não significa excluir os relacionamentos amorosos. Eu acredito em relações justas, em que o companheirismo é essencial e o afeto cria uma união harmoniosa e cheia de respeito, sem dependência, possessividade e ilusão. O amor romântico nada mais é do que uma mentira, porque promete uma relação eterna que tem como base apenas o misterioso sentimento “amor”, quando na verdade se parece mais com uma paixão cega, infantil e inconsequente.

Se podemos chamar algo de amor, com certeza não é essa sensação obscura que nos condena a viver acorrentadas a uma pessoa, desejando sua presença em cada passo das nossas vidas e projetando nela grandes objetivos. Insisto que em uma relação real ambos devem perseguir seus objetivos juntos, prestar apoio mútuo e construir uma base sólida de respeito e cumplicidade, sem o contrato ditatorial do “pra sempre”.

Quantas mulheres permanecem com homens que as espancam? Ou as humilham? Quantas mulheres você conhece que suportaram traições? Quantas abriram mão de desejos próprios por causa dos parceiros? Quantas sofrem com um ciúme doentio e se auto-depreciam por causa dele? Quantas já abaixaram a cabeça para uma condição do companheiro e sofreram caladas? Quantas vêm desabafar com você o inferno que está sendo o relacionamento delas e a falta de coragem pra tomar uma decisão?

A vida real é muito mais hostil com as mulheres. Aqui fora os príncipes são muito mais autônomos, seguros de si e treinados para a indiferença. E estarão sempre prontos para se aproveitar dessa insegurança enraizada dentro de nós, construindo verdadeiros romances poéticos enquanto nos sugam toda a individualidade. Isso não quer dizer que homens não têm sentimentos, quer dizer que estão muito mais preparados para lidar com eles, porque têm como base suas próprias realizações.

E como mudar? Como sair da posição de vítima do patriarcado e retomar o poder sobre a própria vida? Tudo o que eu tenho são experiências próprias e um punhado de conselhos sinceros.

Em primeiro lugar, descubra algo que você ame muito fazer. Eu descobri que amava escrever, lutar por causas sociais, ajudar as minorias e ver resultados de todo o trabalho que eu puder fazer.Muitas descobrem a realização em um esporte, na música, nas artes plásticas, na filantropia, na carreira, são inúmeras possibilidades, e todas temos muitas.

Depois, descubra milhares de coisas menores que você ame fazer. Identifique suas preferências, muitas de nós nunca paramos para pensar nisso! Procure um tipo de leitura, cinema ou música que você adore, vá ao teatro, invista em coisas que te dêem prazer e acrescentem conhecimento. Una-se com outras mulheres, jogue futebol, jogue videogame, faça um cosplay, vá dançar.

Deixe o relacionamento dos seus sonhos para o momento em que estiver mais completa, você terá muito mais para compartilhar e estará sempre pronta para fazer as melhores escolhas sem cometer sacrifícios. Se não der certo, agradeça por ter percebido os erros a tempo, e procure alguém que possa te acompanhar e trazer mais prazeres. Defina suas regras, respeite suas próprias decisões, seja firme, e nunca, nunca mesmo, seja tolerante a ponto de se machucar.

Algo que eu sempre tenho em mente é que exercitar o perdão nem sempre é um bom negócio. Vivemos tensionadas, se não pudermos confiar em alguém com certeza essa pessoa não merece nossa companhia.Estabeleça limites para atitudes que você não gosta, e não tenha qualquer receio ou medo de se arrepender na hora de dar um basta no relacionamento. Não é questão de imaginar que “tem mais um monte por aí”, e sim que uma relação que não é mais agradável e causa mais aborrecimentos do que alegrias não tem lugar na vida de uma pessoa auto-realizada.

Não espere ser protegida, espere compartilhar segurança. Não espere ganhar, espere uma troca. Não aceite conviver com um homem que define seus papéis na relação apenas pelo seu gênero, por mais que ele pareça afetuoso, conteste e exija, seja uma voz ativa e tomadora de decisões.

Relacionamentos não se baseiam apenas em amor, tenha em mente que uma relação sem respeito e cooperação não vale a pena. Que adianta ficar com um cara que te considera menos capaz de realizar uma tarefa, só porque ele é carinhoso? Carinho não realiza ninguém, só serve como bengala de frustrações, você precisa de alguém que te admire, te estimule e confie na sua capacidade. E, acima de tudo, precisa de respeito às suas decisões, desejos e necessidades, não deixe de fazer algo que quer para satisfazer alguém que deveria lhe querer o bem. Agregue valor à sua própria confiança, um homem que mente e trai não merece segunda chance, pois isso é sinal de que ele não reconhece seus direitos de escolha.

Nesse ponto o casamento colabora com nossas prisões privadas. Muitas mulheres temem o divórcio porque acreditam que uma “união de tantos anos merece maior esforço e tolerância para continuar”, mas quase sempre esses esforços significam anulação, sofrimento e negação. Elas se sacrificam pela manutenção de um relacionamento perdido, porque temem prestar contas ao Estado com seu contrato de união civil e à religião com seu deus falocêntrico impiedoso.Por esses e outros motivos condeno o casamento como uma união anti-amor, patriarcal e desigual, fundada em sexismo e heteronormatividade.

As mulheres carregam nas costas uma História de submissão e sacrifícios pelo amor romântico, enquanto permaneciam exploradas pelos “donos de seus corações”. Não esqueçam nunca que já fomos consideradas propriedades, já estivemos restritas a um cárcere privado e que ainda hoje muitas de nós não podem nem escolher o homem que estará no “comando”.Ainda existem injustiças horríveis cometidas contra as mulheres em nome de amores romãnticos, somos diariamente iludidas, enganadas e desprezadas. Cabe a nós mudar nossa realidade através desse exercício de consciência que eu proponho, da desconstrução, vamos recuperar a autonomia que nos arrancaram e acabar com nossa dependência instituída por essa educação precária.


Amem, mulheres! Mas amem primeiro a si mesmas, sejam pessoas realizadas e completas, mulheres inteiras. Não vamos esperar a misericórdia dos homens, vamos nos fortalecer para construir relacionamentos mais justos.

Quanto tempo sem postar! Sinto vergonha da minha falta de tempo para coisas que

são tão importantes, como esse pequeno espaço que me realiza e me faz sentir útil

para tantas pessoas.

E que surpresa, receber tantos feedbacks lindos de garotas incríveis! Tenho que

declarar que uma das maiores felicidades que explodem dentro de mim vem desses

comentários singelos, cheios de entusiasmo e identificações. Sinto um carinho

verdadeiro, uma conexão entre nossos problemas e angústias, e estarei aqui para

vivenciar essa troca sempre.

Isso me leva ao assunto que tem sido “trending topic” ultimamente, e que foi

confirmado por uma amiga querida que está passando por uma situação de sofrimento.

Da série “coisas que queriam te enfiar goela abaixo”, apresento-lhes o tal “amor

romântico”.

Idealizado por fábulas, contos e religiões, usado e abusado pela indústria

cultural, ele permanece entre nós, imortal. A base é um casal heterossexual, com

papéis sexuais bem definidos e em um ambiente extremamente favorável, que

repentinamente se fartam de um amor intocável e permanecem felizes para sempre no

mar de rosas. Curiosamente, o mito é vendido para uma esmagadora maioria de

mulheres.

De brinde, ganhamos a instituição do casamento, que legitima definitivamente

aquele amor invencível e nos condena a uma vida inteira de companheirismo, paixão

e harmonia. É relativamente “mais fácil” terminar um namoro, mas um casamento é

como se fosse um contrato que exige um esforço sacrificante para a manutenção do

acordo, uma prisão disfarçada de escolha, que torna muito mais difícil uma decisão

que deveria ser rápida e sem dor: livrar-se de quem nos faz mal.

Nos iniciam nesse mundo obscuro dos coraçõezinhos quando ainda somos muito

crianças para resistir, ganhamos lições diversas que nos convencem a precisar de

outra pessoa para sermos “completas”.Essa pessoa é, claro, um homem. Junto com os

mandamentos da busca ofegante por um amor de conto de fadas, nos empurram um ideal

feminino de submissão, fragilidade e “entrega”. Aprendemos que ser mulher é querer

um homem, e dedicar boa parte de nossas energias para que essa relação tenha

sucesso – mesmo que a duras penas.

Enquanto isso, nossos queridos irmãozinhos aprendem valores um tanto diferentes.

São incentivados a ter coragem, ousadia, independência e principalmente autonomia,

ao mesmo tempo em que recebem a cartilha do dominador. Aprendem que serão sempre o

centro das atenções das mulheres, cuidados por mães, professoras e namoradas, e

que as terão à disposição.

Ao invés de bonecas imbecis e bebês de plástico, do treinamento rigoroso da

maternidade e servidão, ganham jogos de estratégia, carrinhos e bolas de futebol.

Aprendem que a coletividade pode conseguir muitos aliados, enfrentam o mundo ao ar

livre muito cedo e desenvolvem a capacidade de raciocínio lógico.

Tudo isso faz uma grande diferença, somos discriminadas pelo gênero desde a

infância e construídas sob um modelo patético de “mulher”. Nossa vulnerabilidade

não é genética, não veio da mão do deus macho, é obra de uma educação medíocre

embasada em preconceitos e estereótipos. Somos condicionadas a não nos sentir

completas, nunca, de forma alguma.

Coincidentemente, a solução apresentada para todos os nossos problemas de auto-

estima e auto-realização é um parceiro homem. “Tá precisando é de uma rola bem

grande”, como diriam as criaturinhas desprezíveis ocupando espaço por aí. Se

estamos “sozinhas”, somos solitárias ou lésbicas,desprezadas pelo tão importante e

fundamental macho da espécie. Se reclamamos de algo, somos histéricas ou “mal-

comidas”, afinal, todos os nossos problemas só podem ter origem na falta de um

pinto entrando e saindo, oras!

Daí, se resolvemos nos relacionar com um cara e descobrimos que ele é um merdinha,

e então trocamos, e fazemos isso repetidas vezes na incessante busca de um cara

menos incompetente, nos chamam de “putas”. Dizem até que não estamos nos dando

“valor”, quando na verdade isso só oculta a falta de qualquer valor ou apreço que

eles sintam por nós, um verdadeiro nojo. Enquanto isso, eles trocam de parceiras o

tempo todo e se orgulham de separar o ato sexual de qualquer afeto e consideração.

Não é uma fórmula perfeita? Faça-as sentirem-se incompletas e então lhes dê uma

cara-metade. Um homem perfeito, romântico, que atenda a todas as nossas

necessidades e finalmente dê algum sentido à nossa existência supérflua e cruel.

Alguém pra nos dizer o quanto parecemos bonitas, já que enxergamos mosntros nos

espelhos e nos sentimos culpadas por isso. Finalmente alguém pra nos convencer de

que somos alguém e não alguma coisa, como sempre nos ensinaram, uau. Mas a

verdade, mulheres, é que não precisamos de um salvador, muito menos de um

príncipe.

Definição de romance pelo dicionário: fantasia. O que mais precisamos dizer?! Não

é real, não é saudável e muito menos justo.Se você só se sentiu completa depois de

conhecer um homem e se apaixonar, significa que uma parte de você sempre esteve

vazia, e isso é péssimo. Se você não consegue ficar sozinha, quer dizer que está

sujeita a uma relação de dependência, auto-depreciação e possessividade. É um

clichê dos grandes, mas é verdadeiro demais: Antes de se tornar “nós”, precisamos

ser “eu”.

Antes de proclamar as palavras mágicas “não sei o que seria de mim sem você”,

pense no quanto você está se anulando na situação. Nunca se sinta um fracasso se

ainda se sentir dependente de um cara, não se esqueça que você foi totalmente

condicionada a ver as coisas dessa maneira. O caminho? Mais uma vez a

desconstrução, e isso só é possível com auto-conhecimento.

Conhecer a si própria e ter autonomia não significa excluir os relacionamentos

amorosos. Eu acredito em relações justas, em que o companheirismo é essencial e o

afeto cria uma união harmoniosa e cheia de respeito, sem dependência,

possessividade e ilusão. O amor romântico nada mais é do que uma mentira, porque

promete uma relação eterna que tem como base apenas o misterioso sentimento

“amor”, quando na verdade se parece mais com uma paixão cega, infantil e

inconsequente.

Se podemos chamar algo de amor, com certeza não é essa sensação obscura que nos

condena a viver acorrentadas a uma pessoa, desejando sua presença em cada passo

das nossas vidas e projetando nela grandes objetivos. Insisto que em uma relação

real ambos devem perseguir seus objetivos juntos, prestar apoio mútuo e construir

uma base sólida de respeito e cumplicidade, sem o contrato ditatorial do “pra

sempre”.

Quantas mulheres permanecem com homens que as espancam? Ou as humilham? Quantas

mulheres você conhece que suportaram traições? Quantas abriram mão de desejos

próprios por causa dos parceiros? Quantas sofrem com um ciúme doentio e se auto-

depreciam por causa dele? Quantas já abaixaram a cabeça para uma condição do

companheiro e sofreram caladas? Quantas vêm desabafar com você o inferno que está

sendo o relacionamento delas e a falta de coragem pra tomar uma decisão?

A vida real é muito mais hostil com as mulheres. Aqui fora os príncipes são muito

mais autônomos, seguros de si e treinados para a indiferença. E estarão sempre

prontos para se aproveitar dessa insegurança enraizada dentro de nós, construindo

verdadeiros romances poéticos enquanto nos sugam toda a individualidade. Isso não

quer dizer que homens não têm sentimentos, quer dizer que estão muito mais

preparados para lidar com eles, porque têm como base suas próprias realizações.

E como mudar? Como sair da posição de vítima do patriarcado e retomar o poder

sobre a própria vida? Tudo o que eu tenho são experiências próprias e um punhado

de conselhos sinceros.

Em primeiro lugar, descubra algo que você ame muito fazer. Eu descobri que amava

escrever, lutar por causas sociais, ajudar as minorias e ver resultados de todo o

trabalho que eu puder fazer.Muitas descobrem a realização em um esporte, na

música, nas artes plásticas, na filantropia, na carreira, são inúmeras

possibilidades, e todas temos muitas.

Depois, descubra milhares de coisas menores que você ame fazer. Identifique suas

preferências, muitas de nós nunca paramos para pensar nisso! Procure um tipo de

leitura, cinema ou música que você adore, vá ao teatro, invista em coisas que te

dêem prazer e acrescentem conhecimento. Una-se com outras mulheres, jogue futebol,

jogue videogame, faça um cosplay, vá dançar.

Deixe o relacionamento dos seus sonhos para o momento em que estiver mais

completa, você terá muito mais para compartilhar e estará sempre pronta para fazer

as melhores escolhas sem cometer sacrifícios. Se não der certo, agradeça por ter

percebido os erros a tempo, e procure alguém que possa te acompanhar e trazer mais

prazeres. Defina suas regras, respeite suas próprias decisões, seja firme, e

nunca, nunca mesmo, seja tolerante a ponto de se machucar.

Algo que eu sempre tenho em mente é que exercitar o perdão nem sempre é um bom

negócio. Vivemos tensionadas, se não pudermos confiar em alguém com certeza essa

pessoa não merece nossa companhia.Estabeleça limites para atitudes que você não

gosta, e não tenha qualquer receio ou medo de se arrepender na hora de dar um

basta no relacionamento. Não é questão de imaginar que “tem mais um monte por aí”,

e sim que uma relação que não é mais agradável e causa mais aborrecimentos do que

alegrias não tem lugar na vida de uma pessoa auto-realizada.

Não espere ser protegida, espere compartilhar segurança. Não espere ganhar, espere

uma troca. Não aceite conviver com um homem que define seus papéis na relação

apenas pelo seu gênero, por mais que ele pareça afetuoso, conteste e exija, seja

uma voz ativa e tomadora de decisões.

Relacionamentos não se baseiam apenas em amor, tenha em mente que uma relação sem

respeito e cooperação não vale a pena. Que adianta ficar com um cara que te

considera menos capaz de realizar uma tarefa, só porque ele é carinhoso? Carinho

não realiza ninguém, só serve como bengala de frustrações, você precisa de alguém

que te admire, te estimule e confie na sua capacidade. E, acima de tudo, precisa

de respeito às suas decisões, desejos e necessidades, não deixe de fazer algo que

quer para satisfazer alguém que deveria lhe querer o bem. Agregue valor à sua

própria confiança, um homem que mente e trai não merece segunda chance, pois isso

é sinal de que ele não reconhece seus direitos de escolha.

Nesse ponto o casamento colabora com nossas prisões privadas. Muitas mulheres

temem o divórcio porque acreditam que uma “união de tantos anos merece maior

esforço e tolerância para continuar”, mas quase sempre esses esforços significam

anulação, sofrimento e negação. Elas se sacrificam pela manutenção de um

relacionamento perdido, porque temem prestar contas ao Estado com seu contrato de

união civil e à religião com seu deus falocêntrico impiedoso.Por esses e outros

motivos condeno o casamento como uma união anti-amor, patriarcal e desigual,

fundada em sexismo e heteronormatividade.

As mulheres carregam nas costas uma História de submissão e sacrifícios pelo amor

romântico, enquanto permaneciam exploradas pelos “donos de seus corações”. Não

esqueçam nunca que já fomos consideradas propriedades, já estivemos restritas a um

cárcere privado e que ainda hoje muitas de nós não podem nem escolher o homem que

estará no “comando”.Ainda existem injustiças horríveis cometidas contra as

mulheres em nome de amores romãnticos, somos diariamente iludidas, enganadas e

desprezadas. Cabe a nós mudar nossa realidade através desse exercício de

consciência que eu proponho, da desconstrução, vamos recuperar a autonomia que nos

arrancaram e acabar com nossa dependência instituída por essa educação precária.

Amem, mulheres! Mas amem primeiro a si mesmas, sejam pessoas realizadas e

completas, mulheres inteiras. Não vamos esperar a misericórdia dos homens, vamos nos fortalecer para construir um mundo mais justo.

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