Arquivo de outubro \21\UTC 2009

Love Your Body Day!


Dia de Amar Seu Corpo

É isso aí, um dia para amarmos e celebrarmos nossos corpos. Consegui uma brecha sofrida no meio de todas as minhas atividades caóticas do dia-a-dia para participar dessa blogagem coletiva. Não estou com nenhum tempo para embasamentos teóricos, então corro o risco de não tratar o tema com toda a complexidade que ele exige, mas whatever, preciso escrever.

Pois é, mulheres, estamos aqui ainda reivindicando esse corpo que, definitivamente, nos pertence. Enquanto somos engolidas pela mídia e pelos patrulheiros que nos dizem o contrário, lutamos pelo direito de amar nosso instrumento de vida e expressão. Nossa história é marcada pela dominação de nossos corpos, fomos submetidas a estupros, moldadas de acordo com o desejo do macho, e o direito de controlar nossa reprodução nos foi negado tanto quanto o direito de expressar nossa sexualidade.

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As formas de controle sobre nossos corpos mudam, mas permanecem. Os espartilhos de ontem são os sutiãs de bojo de hoje, o apedrejamento público cedeu espaço para mais horrores da violência doméstica, o cárcere privado tornou-se uma rotina dupla de trabalho (com foco ainda no privado), a sexualidade reprimida mudou de cara e é promovida através do sexo pornográfico. Os direitos reprodutivos ainda são negados, dentre eles métodos acessíveis de anticoncepção de qualidade, informação e aborto seguro.

Nossa nudez, antes pecaminosa, agora é de domínio público. Ganhamos o direito de abrir nossas pernas para uma câmera, exibir nossos corpos talhados de acordo com a ditadura vigente para então receber o julgamento minucioso do macho. Ganhamos também o direito de fazer sexo com quem bem entendermos, e levamos de brinde todo tipo de ofensa e misoginia logo que tentamos fazer uso dele. Ah, claro, podemos usar as roupas decotadas e curtas que quisermos, mas as formas do nosso corpo serão sempre brutalmente sexualizadas a cada esquina, em cada pedaço.

Se pudesse eleger a pior violência contra meu corpo, escolheria justamente a sexualização compulsiva. Os padrões de beleza cumprem seu papel determinando quais “pedaços” serão o alvo da vez do olhar masculino inquisidor. Mas, sendo gordas ou magras, peitos pequenos ou grandes, negras ou brancas, embora todos esses fatores impliquem em diferenças no assédio, estamos todas sujeitas a uma aprovação constante do macho. Nosso corpo é perseguido, um seio à mostra é um convite explícito ao sexo, não existe outra possibilidade de interpretação da nossa nudez. Se tentamos exibir nossos corpos com orgulho, somos logo reduzidas a objetos sexuais, brinquedinhos de vouyers.

Acho que cabe a minha história pessoal nisso, passei boa parte da minha idade escolar sendo uma pessoa considerada gorda. Desde muito pequena tive problemas para socializar, talvez porque a educação que recebi não condizia com o mundo real, e este é um erro comum dos pais. Vivia muito reclusa, gostava de estudar a maior parte do tempo e muito raramente fazia alguma atividade física, era a aluna genial, a criança prodígio que todos os adultos amavam, na proporção que as outras crianças odiavam.

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A escolinha que freqüentei criava abismos entre os gêneros, com orientadoras muito patéticas. Bem estilo “meninos de um lado e meninas do outro”. Não demorou pra eu sofrer perseguição na escola, era a única que sabia ler no Jardim I, mas nunca conseguia correr o suficiente para pegar os melhores brinquedos do banco de areia. Minha melhor amiga na época, me lembro bem, era uma menina negra, mas ninguém podia dizer que ela era negra que eu respondia “não, minha amiga é branca!”, meu estômago embrulha quando me lembro disso. Enfim, da pré escola até a oitava série acabei descontando minha vida anti-social na comida, e claro que a forma que meu corpo adquiriu fazia com que tudo piorasse a cada dia.

Lembro-me bem da minha querida Deborah, que sofreu o mesmo, nos diziam “você tem um rosto tão bonito, só falta emagrecer”. Éramos cabeças flutuantes, do pescoço para baixo nosso corpo era como uma bola disforme, gerava raiva e repulsa nas pessoas. O meu corpo era como uma prisão para mim, enquanto as minhas colegas populares viam seus seios crescerem e seus supostos privilégios aumentarem. Os garotos eram todos doentios, criaturinhas patriarcais estridentes. Eles me perseguiam e me julgavam, por ser gorda, se achavam no direito de dar uma sentença para o meu corpo a todo o momento. O mesmo faziam às garotas consideradas bonitas, tratando seus corpos como coisas comestíveis e muitas vezes menosprezando na cara dura a capacidade intelectual delas.

A mesma educação que me engessou em uma feminilidade doente fez com que eu não reagisse à grande parte dos ataques, quando mais nova. Mas, quando completei treze anos, estranhamente comecei a emagrecer, creio que pelo crescimento ou algo assim, porque continuava comendo muito e mal. E eis que ganhei meu novo papel feminino na sociedade, de bola disforme inteligente a receptáculo de esperma inútil.

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É, eu queria ser sexy, queria que meu corpo fosse belo, quente e saboroso. Usava roupas consideradas “provocantes” e sentia o “poder” de ser atraente para os machos. Estranhamente, cada relacionamento que eu pensava ter era mais fracassado que o outro, e eu estava sempre insatisfeita com aquele corpo que tanto lutava para manter a libido. Nem sei como chamar o sexo que praticava naquela época, uma reprodução do que a pornografia ensina com um toque brochante da realidade. Satisfazer o macho, simular satisfação. E estar sempre tentando melhorar todos os “defeitos horríveis” que faziam meu corpo não ser bom o suficiente.

Eu tinha um complexo tosco com a minha barriga, não por ter “pancinha”, mas por causa das “abas” de gordurinha lateral que sempre tive. Também achava meus seios e nádegas “menores” do que deveriam ser. Por fim odiava minhas estrias nas laterais, gostar mesmo eu só gostava das pernas (por sinal, super torneadas e “adequadas”) e do meu rosto. Lembro de ter ouvido coisas muito violentas durante relacionamentos, do tipo “você seria tão mais linda se fosse mais branquinha”, “seus seios não são tão redondos (como os de silicone, quem sabe)”, “Seu pé é horrível, parece que sobra um pedaço de tão grande”, “você não tem uma bunda tão boa quando a dela, mas…”. Isso sem falar na vigilância do peso, engordou um poquinho? Toma-lhe bronca dos senhores do engenho.

Isso tudo me dá uma náusea desgraçada, mas é bom olhar pra trás e enxergar com outros olhos. Olha que absurdo o que reservam ao sexo feminino, um terrorismo sem fim e ódio ao próprio corpo. E eles estão sempre ali, os machinhos, agentes que mantêm a “ordem”. Pobres das mulheres que também me patrulhavam, dava para ver que elas eram tão vítimas daquilo quanto eu, com suas angústias, noites de choro e inseguranças.

Vivenciei alguns papéis bem diversos do que é “tornar-se mulher” nessa sociedade. O que todos têm em comum é que em nenhum deles o nosso corpo nos pertence. E isso me lembra o post da Lola sobre as gordas terem sido barradas em uma certa boate, um rapaz comentou: “É uma pena que as gordas não possam entrar, afinal alguns caras gostam de gordas”. É bem isso, as variações dos corpos femininos só existem em função do homem, a gorda só pode existir se um cara aceitar fodê-la.

lindasÉ triste e desesperador ligar a televisão, folhear revistas e jornais, assistir a filmes ou qualquer coisa que venha da mídia ou da indústria cultural no geral. Todos os padrões opressores e sem sentido estão por toda a parte, legitimados, normatizados, enfiados nas nossas gargantas. Nosso corpo tem preço, é vendido e reproduzido na forma de pornografia e prostituição. Mulheres estão mutilando seus seios para enfiar uma prótese de silicone, implorando pelo direito de se sentirem bem com seus corpos. “Coloquei porque me sinto melhor de seios grandes, foi por mim e não pelos outros,” diz a moça com seus seios novos de alguns milhares de reais, com a ingênua ideia de que sua repulsa por seus seios pequenos veio de si mesma. A pressão para moldar o corpo feminino é tamanha que temos o silicone, a lipoaspiração e todos esses tratamentos estéticos dementes sendo vendidos como nunca.

A mulher retratada como ideal tem um corpo sem gosto, sem cheiro e sem expressão. É um sex toy, a lá Angelina Jolie. Não existem pêlos, os órgãos genitais são infantis, a barriga é reta, os seios volumosos e a bunda bochechuda. O cu é cor-de-rosa, e só falta saírem flores dele. A beleza é branca, ariana. A postura é preferencialmente delicada, submissa e ao mesmo tempo sexy, provocante. A famosa dama na sala e puta na cama, leia-se escrava na sala e porn star na cama. É irreal, estúpido e inaceitável.

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Podemos, enfim, resistir? Como podemos tomar nossos corpos de volta? Quando seremos reconhecidas como SUJEITOS de nossos corpos?

O caminho é a desconstrução. Se nos fortalecermos como mulheres, nos unirmos contra o olhar do macho, estaremos construindo uma nova forma de resistência, para enfim alcançar a liberdade e tomar de volta o que é nosso por direito. Uma mulher que tem o apoio de outras mulheres e aprender a aceitar suas formas, cores, gostos e odores, é uma muralha contra o patriarcado. Para mim, a chave está em não esperar a benevolência dos homens, porque eu não acredito que eles vão abrir mão de seus privilégios. Se apoiarem, ótimo, se não, tudo bem também. Não dependeremos disso para nada.

Em primeiro lugar, olhe-se no espelho. Conheça suas formas, toque-se. Aprenda a olhar para toda essa doença imposta às mulheres como uma estratégia, vai ser impossível não se afetar nem um pouco por ela, mas tenha sempre em mente que estamos em uma guerra psicológica. Não se sinta um fracasso se, mesmo depois de saber tudo sobre a situação feminina, você morra de vontade de emagrecer e de ser vista como uma mulher bonita. Infelizmente, as pessoas ao nosso redor vão seguir o ciclo e tentar nos convencer a entrar nos padrões, pessoas com as quais muitas vezes temos uma relação de afeto e confiança. Às vezes é desesperador lutar por uma mudança, mas lembre-se que se adequar ao padrão (quando possível) e/ou fingir que nada está acontecendo é uma covardia imensa, com você mesma, que continuará aprisionada, e com todas as outras mulheres.

O segredo para se manter firme? Justamente a união com outras mulheres. Dividir experiências, diferenças corporais e conhecimento com mulheres é maravilhoso, faz com que a gente se sinta mais forte e segura. Chega de encontrar com mulher só em salão de beleza, saia com as suas amigas para programa culturais, shows, festas, pratiquem uma arte marcial ou esporte juntas. Conversem sobre tudo, sem pudores. Apóiem-se e ajudem-se, por experiência própria digo que muitas vezes tudo o que uma mulher precisa é de informação.

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A situação é um pouco mais complicada nos relacionamentos heterossexuais. Precisamos, antes de mais nada, desconstruir o “amor romântico”, o ideal do príncipe encantado. Mulher nenhuma precisa de um homem para “completá-la”, somos pessoas COMPLETAS, inteiras. Tampa da panela uma ova, esqueçam essa idiotice. Primeiro fortaleçam a auto-estima, depois pensem em viver grandes romances, porque se lembrem que vocês estarão completamente vulneráveis.

A grande maioria dos homens está com o macho enraizado na própria educação, estão prontos para exercer o papel dominante e inquisidor. Por isso, é importante buscar o equilíbrio das relações de poder com eles, na medida do possível. Se o seu namorado está dizendo que tem algo de errado com seu corpo, está lhe fazendo mal ou você se sente subjugada, sério, desista. Não vale a pena manter qualquer relação com um machista, é MASOQUISMO. Você precisa ter controle sobre sua vida e sobre suas escolhas, e consequentemente sobre o seu corpo.

corpos

Hoje posso dizer que o feminismo me fez apoiar mulheres e receber o apoio delas, e que a força que isso somado à teoria me trouxe é fanstástica. Eu amo meu corpo, na maior parte do tempo me sinto no controle da situação. Claro, como eu já disse antes, eventualmente me sinto pressionada por algum agente externo, não sou de ferro (como eu queria ser). Meu companheiro tornou-se feminista e me apóia sempre que pode, consciente de sua situação como homem no patriarcado e lutando para desconstruir isso também.

Enxergo história e personalidade no meu corpo, gosto das minhas formas e proporções. Procuro roupas de modelagem diferente, que caiam bem, não tento forçar a barra com roupas que foram feitas para um tipo físico padrão. Gosto de moda alternativa, sobreposições no vestuário, brinco com looks e expressões. Adoro cabelos coloridos e sempre que posso estou usando cores diferentes, já foi laranja, vermelho, ruivo e agora roxo. Tenho uma queda por visagismo, aquela noção de que bonito é diferente de belo, e que definitivamente não existe padrão de beleza, por mais bonitas que soem as formas mais simétricas pela construção da cultura. Admiro as outras mulheres ao invés de criticá-las, cultivo uma atitude de libertação da beleza, em que todas as formas têm seu espaço e graça própria.

fofas

Também acredito muito no respeito pelo corpo alheio, na consideração total do sujeito que há em cada corpo. Eu vejo uma unidade entre corpo e alma, não simplesmente uma imagem ou um monte de carne, existe um mundo de complexidades naquela pessoa, não somente uma forma física. Luto para que eu e as outras mulheres possamos andar livres com nossos corpos, respeitando nossas próprias formas e harmonizando-as com nossos pensamentos e desejos.

Queridas moças que lêem este blog, vamos celebrar nossos corpos! Vamos continuar lutando por esse direito pleno, não somente hoje como todos os dias, através das nossas atitudes e ativismo.

Para encerrar (eu sempre escrevo mais do que planejava), uma foto bem pessoal no escritório, só pra ilustrar o meu LYBD.

eooo

Beijo carinhoso para todas!

PS: As fotos utilizadas da campanha DOVE não demonstram meu apoio pela marca, já que obviamente mulheres que se aceitam e são lindas não costumam comprar “creme redutor”.

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