Mulher legal tem nome: homem.

O tempo nunca esteve tão curto, os dias parecem demandar pelos menos umas 30 horas ao invés de 24, mas sobrou uma brecha para uma reflexão rápida.

Imagine só que basta uma mulher ser espontânea, ou não apresentar as “frescuras” que lhe seriam óbvias, ou expressar sua sexualidade de alguma forma, para que logo receba um apelido bastante significativo: “homem”.

homens bebendo

Tenho passado por isso com muita freqüência, como se tivesse optado por uma identidade de gênero “masculina” apenas por agir com naturalidade. É incrível como os homens esperam que as mulheres tenham seu comportamento regrado e submisso em TODAS as situações, até mesmo em um ambiente de descontração ou conversa entre amigos. Mulheres não falam alto, não falam palavrão, não “zoam”, não arrotam, não gostam de se divertir, não falam de sexualidade, não fazem piadas, não “intimam”, não falam sobre coisas que dão “nojinho” e, principalmente, nunca se fazem ouvir em uma rodinha de homens.

Quando uma mera mortal ousa fazer uso de qualquer um desses itens, é logo taxada de HOMEM. Pois eu digo: Não, obrigada. Sou MULHER!

Isso mesmo, mulher que faz tudo isso e o que mais eu quiser. Mulher que se desconstrói todos os dias, não por obrigação, mas por NECESSIDADE de ser livre. Não preciso ser um homem para me comunicar com espontaneidade.

Mulheres são também as “iludidas”.

videogame

Frases clássicas: “Ah, se minha mulher souber disso fudeu!”, “Não, vai que minha mulher descobre...”, “Puta, que merda, minha mulher vai atrapalhar tudo..”, “Ah, sabe como é, mulher não entende essas coisas”. Elas não são capazes de “entender” os valores masculinos e todo esse lifestyle livre, espontâneo e ousado que parece ser exclusivo dos machinhos. Mulher não participa da hora divertida, engraçada, da descontração plena. Mulher é problema, é espinho no sapato, tem que tratar assim e assado, não pode estar presente quando a coisa fica muito “real”. A companhia feminina é chata, “fresca”, limitada e pouco expressiva. Se possível, dispensável.

dona_de_casa

Amizade ente mulher e homem? Não, esquece, afinal é praticamente uma imposição que ambos acabem na cama. Até a visão das amiguinhas se descobrindo sexualmente parece super aceitável, mas quem vê por aí os amigos homens camaradas vítimas da “ameaça sexual” em suas relações? Mulheres que mantém amizades com homens são então um tipo de alvo contínuo das segundas intenções? Afinal, quando será que um macho vai encarar sua amiga mulher com as mesmas possibilidades sexuais que seu amigo homem? Nunca, porque uma mulher companheira e participativa é inevitavelmente uma oferta de sexo.

Acho que eu nem precisaria dizer isso, mas é claro que existem suas exceções. Eu trabalho com a regra.

A sexualidade da mulher é mais obscura aos homens do que parece, e quando nós mesmas falamos no assunto parece que o ambiente se torna tenso de tão surpreendente. Há aqueles que logo imaginam, “uma mulher que fala de sexo deve estar querendo sexo”, convém destruir o discurso desses pobres coitados. Nossa sexualidade é viva, vigorosa e deve ser motivo de orgulho ao invés de vergonha. Menstruamos, gozamos, nos masturbamos, sentimos tesão e nosso genitais não podem ser sinônimo de passividade, não somos meros receptáculos e muito menos dependentes de um pênis. Também não demonstramos perversão ou descontrole ao falar dessa sexualidade, estamos apenas nos expressando e mostrando a todos esses machos que não somos seus objetos sexuais, somos sujeitos plenos de nossa sexualidade.

O que me incomoda profundamente é a seguinte cena, que insiste em se repetir: Há vários homens no ambiente e uma mulher, os homens dizem algo que julgam “inapropriado” para a presença feminina e logo alguém resolve justificar “Fica tranqüilo, essa daqui é praticamente um homem!”. O mais triste é ver o sorrisinho da moça depois de sua grande conquista, como é ilustre ser um homem também! Pra que ser mulher? Pra que defender a liberdade das mulheres se eu posso me adequar com meus méritos de homem? Mal sabe a moça que suas credenciais masculinas atribuídas têm validade baixa, talvez lhe serão úteis até que se relacione com um dos machos do bando.

cabeleireuiro

Infelizmente não tenho a obra “Mulher Inteira” à mão nesse momento, mas se não me engano é neste livro que a Germaine Greer analisa uma situação em que uma mulher discute dentro de um grupo predominantemente masculino. O resultado é enraizado, homens dando pouca atenção ao que a mulher diz e buscando uma posição de dominação todo o tempo. Eu sinto isso da mesma forma, por isso faço questão de disputar a voz e me fazer ouvir.

A minha mensagem para as mulheres é que levantem sua voz, sejam espontâneas e infiltrem-se nesse submundo macho das confraternizações. Não existem limitações ou ponderações exclusivas para o discurso de uma mulher, libertem-se de todo esse senso comum e não tenham receio de se expressar. Não precisamos nos prender a uma construção doentia que nos afunda em contenções e máscaras cor-de-rosa, muito menos nos limitar ao salão de beleza enquanto os machinhos nos evitam em algum lugar verdadeiramente divertido.

“Sou tão fêmea que sou subversiva”

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  1. #1 por Camila em 22/09/2009 - 21:23

    Passei aqui hoje exatamente porque já estava sentindo falta dos seus posts!

    Falta de tempo é um problema, heim?

  2. #2 por Lola em 23/09/2009 - 11:25

    Mais um ótimo texto. Estou pra escrever sobre isso faz tempo, já tenho tudo anotado, tudo certinho. Aí vou te linkar, porque tem tudo a ver com o que quero dizer. É sobre estudos que mostram como homens e mulheres se comportam quando estão em grupos mistos. Tudo que vc observou é provado cientificamente, através de pesquisas. Muito triste.

  3. #3 por Deborah Sá em 24/09/2009 - 17:37

    Concordo com você. Embora nunca me chamem de “homem”. Estou mais para a feminista-vegetariana-chata-mal-comida que leva tudo a sério. Uma das coisas que mais me deixam chateada é não acreditarem que há quem GOSTE de mim como sou. Do tipo “ah, duvido que seu namorado goste dessa sua axila peluda”.
    Tenho rótulo de “intragável”. Mas você sabe que sou um doce né chuchu? =*

    Continue escrevendo, adoro ler o que escreve =)

    Qualquer dia desses vamos comer uma pizza lá no Vegacy?

    Beijos e abraços 🙂

  4. #4 por m. em 02/10/2009 - 15:07

    putz, cely, muito bom esse texto. MUITO BOM! tirou palavras da minha boca, palavras que eu nem saberia como dizer, mas que queriam dizer tudo isso ai que vc disse. eu sempre, SEMPRE, passei por isso. “porra, essa aqui é a maira, ela é tipo um de nos, ta ligado”, “ah, a maira é massa, ela é tipo um garoto”,”ah, adoro o seu senso de humor é meio masculino ne”….quando eu era novinha, achava ate q era uma especie de “elogio”, já q eu preferia ser um “homem” do que uma “bobinha, etc”. mas com o tempo vi q nao era elogio coisa nenhuma! e comecei a revidar! “nao, nao sou homem nenhum”, “olha, se isso era pra ser um elogio, nao funcionou”. EU SOU MULHER! “a minha maneira de ser. pq nao existem formulas. nao existem formas.

    =*

    • #5 por whothehelliscely em 07/10/2009 - 13:52

      É isso mesmo maíra! Tem que revidar, somos mulheres e não precisamos de uma identidade macho pra ser respeitadas.

  5. #6 por Isolda em 04/11/2009 - 10:59

    hehehhe tenho um blog em fase de construção,espero fazer textos assim e que nem os da Jana,que são também de deixar de cabelo em pé 🙂

    • #7 por whothehelliscely em 10/11/2009 - 23:40

      Pelo que você escreveu, com certeza vou amar ler seu blog!

  6. #8 por Cil em 04/01/2010 - 1:37

    Amei seu post. No meu caso a coisa foi tão ruim que até hoje não tive namorado de verdade. Fazer o quê????

    • #9 por whothehelliscely em 02/02/2010 - 22:51

      Tá certa querida, enquanto não achar alguém que te trate como a grande mulher que é não caia no comodismo de se relacionar com um idiota! Beijinho.

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