Arquivo de agosto \14\UTC 2009

Caso Abdelmassih: O médico estuprador

“Roger Abdelmassih, 65, o especialista em reprodução in vitro mais conhecido no país, foi indiciado na manhã desta terça (23) pela Polícia Civil de São Paulo sob a acusação de estupro e atentado violento ao pudor. Mais de 60 pacientes acusam-no de abuso sexual.”

Veja a cobertura completa do caso aqui, que também é a fonte dos recortes apresentados.

cretino

Roger Abdelmassih não é apenas um tarado cheio de dinheiro protegido por uma fortuna e uma coleção de rabos presos, ele é um médico pioneiro e respeitado em todo o mundo por sua carreira brilhante. E acima de tudo, o cretino é muito esperto.

Como muitos estupradores, Abdelmassih sabe como se aproveitar do medo e do horror de uma mulher. Ele usa de todo o seu poder e prestígio para manter suas vítimas caladas e vulneráveis, e isso só é possível porque as mulheres já são inferiorizadas normalmente.

As mulheres que procuram a clínica de fertilização do Dr. Abdelmassih sonham com a maternidade, estão no seu momento mais delicado e investem pesado para isso – porque podem. A maioria dos abusos cometidos pelo médico ocorreu no momento pós-sedação, em que as mulheres se encontravam absolutamente indefesas e confusas.

“Acordando, ainda grogue, vi que eu estava com o pênis do doutor na mão. Tentei me levantar, cheguei a sentar na maca. Aí, o dr. Roger abaixou o jaleco, disse ‘calma, calma, calma’ e saiu da sala. E fui chorando ao encontro do meu marido, que aguardava na recepção da clínica.” Depoimento de Ivanilde Serebrenic

“[Ao acordar da sedação para retirada de óvulos] ele me deu um abraço e perguntou se podia me dar um beijo. Quando dei o rosto, ele veio com a língua e eu gritei: ’Para com isso, para!’. E ele disse: “Vai ser bom para você, você precisa relaxar.” Relato de Crystiane Souza

O quanto relaxante pode ser o beijo forçado de um velho violento? Abdelmassih sabe que as mulheres não desejam o contato sexual com ele, mas também se acha no direito de abusar delas apenas por serem mulheres. Ele sabe que sairá impune, por isso intimida suas vítimas e pede para que fiquem calmas, para que deixem o processo fluir já que é bastante comum sofrer abuso.

“Sob efeito de medicamentos e se sentindo frágil, sem forças, a paciente não pôde reagir quando o médico Roger Abdelmassih, 65, aproximou-se, levantou a camisola dela, abaixou a sua calça, pôs o pênis para fora e a estuprou. ” Sobre depoimento de uma paciente que não quis se identificar.

nojo

O mais engraçado nessa história é que acusam o médico de mais de 60 “abusos”, porém apenas um “estupro”. Estupro no caso seria apenas penetração, todo o restante do comportamento sexual violento não figura estupro algum.

“[O médico] passou a mão nos meus seios, na minha vagina e chegou a colocar o pênis para fora [da calça]. Graças a Deus neste momento alguém tentou entrar no quarto. Ele me soltou e corri para o banheiro. Fiquei lá, chorando.”

Monika

Monika

Porque chorar e não acabar com a raça do infeliz? O próprio médico usou em sua defesa o argumento de que as mulheres retornavam ao seu consultório, questionando “se você fosse vítima de um abuso, voltaria ao meu consultório?”. É conveniente acreditar que mulheres poderiam simplesmente reagir e abandonar o tratamento dos seus sonhos pelo qual pagaram muito dinheiro, ignorando toda a pressão que sofrem em uma situação como essa. Mesmo assim, algumas mulheres não suportaram e deixaram de freqüentar a clínica.

“[…]contei ao meu marido, que não acreditou. Ele disse: “A gente tem muito dinheiro lá [na clínica] e tem um objetivo, que é ter uma filha. Você é descolada, saberá se virar bem,” contou Monika Bartkevitch.

Monika não só sofreu nas mãos do médico estuprador, como também foi humilhada e acabou se separando de um marido machista, que por acaso pertencia ao meio médico e tinha medo de denunciar o “colega”.

“[…]ainda tinha de enfrentar familiares e amigos que perguntavam se eu havia dado abertura. Isso quase me deixou louca. Eu me perguntava, será que fiz algo errado?”

Culpe a vítima. Culpe a mãe. Culpe a mulher, a vagabunda eterna. Um estuprador nojento ataca uma mulher e ainda a culpam por não ter conseguido se defender, enchem-na de interrogatórios humilhantes e a fazem reviver cada momento de sofrimento procurando alguma evidência que a torne suja e imoral. Aliás, esta é uma grande arma do Dr. Abdelmassih, ele sabe que a pressão da imprensa, da justiça e de todo o público obrigarão suas vítimas a um constrangimento contínuo e desgastante.

“Neste último mês passei por momentos horríveis, pois tive que falar com várias pessoas da imprensa e relatar com todos os detalhes para as autoridades.

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Ivanilde

Uma mulher que sofreu abuso, que foi tocada contra sua vontade por um homem, é vista como cúmplice e desafiada a confirmar sua história de horror milhares de vezes. Ivanilde, Crystiane e Monika são mulheres muito corajosas, que saíram do anonimato e vão enfrentar seu estuprador na justiça. Elas querem inspirar as outras 58 mulheres a fazer o mesmo, mas sabem que tomar a decisão de se expor publicamente em um caso como esse ainda é assustador para uma mulher. Nenhuma delas teria aparecido para depor se alguém não tivesse tomado a iniciativa, pois denunciar um homem poderoso representa um risco constante de derrota e mais humilhação.

“Abdelmassih já atribuiu as acusações a um complô de médicos concorrentes, a uma campanha mobilizada pela internet por uma das ex-pacientes, às “alucinações sexuais” por causa do efeito da anestesia, às fofocas e mentiras e agora à frustração de mulheres que passaram pela clínica.”

O argumento de que as mulheres teriam ficado frustradas por não engravidar já é totalmente inválido, porque em muitos dos casos a fertilização teve sucesso. Os anestesistas confirmaram que as alucinações sexuais não eram possíveis e parece que 61 mulheres não relatariam abusos por causa de um complô de médicos. O canalha é cara-de-pau.

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O monstro e seus comparsas, advogados do diabo

Apesar de todos os indícios, o monstro será defendido na justiça por dois advogados criminalistas ultra respeitados. Abdelmassih é um doutorzinho de merda escondido atrás de muito corporativismo e pronto para humilhar pela segunda vez todas as mulheres que estuprou. Não tenho dúvidas de que perante o juiz não faltarão argumentos para retratar as mulheres como verdadeiras “vadias”, culpadas pelos seus corpos libidinosos e por não carregarem uma Glock no bolso quando vão até a clínica de fertilização.

Desejo que essas mulheres agüentem firmes e acabem com o desgraçado, façam isso por elas mesmas e por todas as outras. Não é por acaso que os índices de estupro ainda são gigantescos, que ainda temos que temer pela nossa integridade física cada vez que saímos de casa, que até mesmo em nossos lares somos vítimas do abuso, que nos culpam pela violência que sofremos e que tememos a figura de um homem poderoso que toma o direito sobre nossos próprios corpos e nos invade brutalmente.

Reagir é a regra, lembrem-se que estamos nos defendendo, e para isso VALE TUDO (até a Glock na clínica não é uma má idéia).

E é claro, terei minha própria visão reforçada quando entre os termos mais procurados do meu blog eu encontrar “vídeos de estupro”, “mulheres sendo estupradas”, “vadias sendo estupradas”. Acontecerá, acredite.

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O meu Brainstorm da Pornografia

Na velha discussão feminista sobre pornografia, erotismo e sexualidade, eu me coloco definitivamente do lado antipornografia e bem resistente quando o assunto é “encontrar o delicado limiar entre pornô e erótico”. E isso não chega nem perto de puritanismo ou problemas com a expressão da minha sexualidade, pra mim a pornografia do senso comum é violência e não sexo, pornografia é a teoria e o estupro é a prática.

binthebunny

“A pornografia interfere na maneira de uma pessoa perceber o sexo. Ela estimula uma relação de mão única com o objeto do desejo, admiração e satisfação, e estimula uma relação de uma pessoa (a que está vendo a pornografia) com uma idéia, um ente com quem não se trava relações, só se obtém satisfações. Esse ente, o objeto do desejo e satisfação é manipulado como o observador bem – ou mal – entender. A pornografia possibilita que uma pessoa possa dedicar ao objeto de seu desejo pensamentos recriminados ou considerados negativos por si mesma, sem em nenhum momento ter resposta negativa a essas idéias, ou resposta alguma. Consequentemente, a pornografia constrói a noção de que essa pessoa possa dedicar sentimentos, idéias e até atos negativos ao objeto de seu desejo sem que haja uma resposta negativa, ou mesmo uma privação da satisfação de seu desejo e ansiedade. Com certeza alimenta uma forma de se relacionar com o objeto de desejos como se fosse um objeto. Com certeza é um treinamento para estupros. E com certeza é condição de possibilidade de que se veja a sexualidade, e sobretudo o sexo como algo ruim, negativo, violento, sujo, pervertido.” Manifesto Antipornografia

Este trecho acima é um dos meus preferidos do manifesto, porque expõe claramente a verdadeira relação que há por trás de toda pornografia comercializada. Mais do que a inocente apimentada de relacionamento ou estímulo para masturbação solitária, o formato pornográfico comum proporciona ao indivíduo que se torne espectador de sua sexualidade, que sujeite objetos à suas vontades e anseios sem qualquer conseqüência.

nojo

É assim que eles gostam.

Eu já consumi pornografia. Fui exposta muito cedo a esse tipo de conteúdo, assim como a maioria das crianças. No início é uma curiosidade, “o que essas pessoas estão fazendo?”, logo que a ideia de sexo é compreendida a pornografia parece ser o primeiro contato direto com o assunto, somos praticamente educad*s por ela. Se antes os garotos eram levados até os prostíbulos, hoje lhes dão revistas pornográficas. Afirmo com toda a certeza que a pornografia construiu na minha mente um formato de sexualidade totalmente deturpado, hoje posso analisar e constatar esse fato.

Quando assistimos pornografia estamos vivendo nossos desejos por meio de outros. Pior, estamos assimilando que aquilo é sexo legítimo, sexo “explícito”, ou seja, o verdadeiro e mais exposto possível. Aprendi que sexo “bom” mesmo era daquele jeito, rápido, bruto, impessoal, focado em um pinto que ejacula mil litros, de preferência em um rosto feminino.

Neste momento preciso traduzir alguns trechos de uma lista feita por uma diretora de filmes pornográficos “feministas” (chegaremos lá) sobre clichês do pornô:

argh

Dá vontade de vomitar...ou espancar esse velho.

1. Mulheres usam salto alto na cama.
2. Homens nunca são impotentes.
3. Ao fazer sexo oral em uma mulher 10 segundos são mais que satisfatórios.
4. Se uma mulher for pega masturbando-se por um estranho, ela não gritará ou ficará constrangida, ao invés disse insistirá para fazer sexo com ele.
5. Todo homem tem pelo menos um litro de esperma.
6. Se houverem dois litros, melhor ainda (a garota não sente nojo!).
7. Garotas jovens e belas adoram fazer sexo com homens feios de meia-idade.
8. Mulheres sempre gozam quando os homens gozam.
9. Todas as mulheres trepam berrando.
10. Aqueles peitos são de verdade.
11. Dupla penetração faz uma mulher sorrir.
12. Homens asiáticos não existem.
13. Nem homens de pau pequeno.
14. Se você encontra um cara fazendo sexo com sua namorada em uma moita, ele não reclamará se você esfregar seu pinto na boca da garota.
15. Todas as mulheres adoram levar tapas na bunda.
16. Enfermeiras chupam o pau de pacientes.
17. Quando sua namorada te encontrar sendo chupado pela melhor amiga dela, ela ficará bravinha por alguns instantes antes de trepar com os dois.
18. Mulheres nunca têm dor de cabeça, nem menstruam.
19. Quando uma mulher está chupando um pau, é importante que o indivíduo a lembre constantemente: “Chupa!”.
20. Um cu é sempre limpo e delicioso.
21. Mulheres sempre ficam surpresas e gratas quando abrem as calças de um homem e encontram…um pau.

Estes são apenas alguns dos milhares de clichês pornográficos. Sem falar nos ditos pornôs “inclusivos” que colocam pessoas consideradas “feias” para fazer sexo, normalmente em situações duplamente humilhantes e brutais. Sempre percebi que os pornôs envolvendo mulheres negras, especialmente lésbicas, faziam questão de apresentar cenas bastante agressivas, com movimentos que, sinceramente, NUNCA causariam tesão em alguém. Essas mulheres são retratadas de forma selvagem, embrutecida e violenta, parece que esta seria a única forma de vender material excitante de pessoas que são marginalizadas por sua aparência e cor.

Mulheres no pornô geral são representadas, em 99% das vezes, como a parte “dominada” na pornografia. Sim, porque nesses filmes sempre há uma relação dominador/dominado no sexo, não existe troca. Lembrando que mesmo em filmes que usam a figura da “dominatrix” ou filmes gays masculinos impera a ideia de papéis ativos e passivos, regra geral com variações de gênero – diz-se que o passivo é a “mulher”, ou seja, toda passividade e submissão têm caráter feminino. E quando não nos excitamos com nosso papel passivão, dizem que o problema está conosco.

jaajajahahah

Que porra é essa?

Lésbicas na pornografia heterossexual são tão plásticas que dão nojo. É possível sentir a repugnância que as heterossexuais fantasiadas de lésbicas ninfetas expressam ao fazerem sexo oral em outra mulher. E claro, o homem está ali, mediando a situação com seu pênis ereto, o verdadeiro protagonista. Por que afinal mulheres não sentem tesão com filmes de homens gays? Deveria ser super excitante a ideia de flagrar dois homens fazendo sexo e juntar-se a eles pela lógica da “igualdade” que certas pessoas promovem, mas não é bem assim que funciona.

As taras são diversas, mas a campeã parece ser o estupro, com a maior incidência de buscas no Google. Até mesmo os filmes que não promovem explicitamente o ato de forçar sexo a uma mulher se apropriam da ideia para “excitar”. Sexo oral claramente forçado, com aqueles empurrões grotescos, expressões de agonia e dor, penetração brutal, gang bang violento, bondage, tudo isso é simplesmente estupro. Aí vem gente dizer que na esfera da fantasia tudo é permitido, que não significa que a pessoa realmente faria aquilo, mas soa muito ingênuo acreditar que uma pessoa que busca essas representações para satisfazer seus desejos não assimila os valores do ato. Meu cérebro não derreteu ainda, não vou cair numa dessas, queridos estupradores potenciais.

Há ainda homens que alegam não gostar de pornografia , preferindo algo “não vulgar”. Muitos recorrem ao estereótipo da mulher “sexy”, através da playboy ou do “Sexy Time” do MultiShow. Julgam que, se não há penetração em órgãos genitais expostos, trata-se da mais leve e saudável forma de exploração do sexo possível, não pode haver algo de errado em belas mulheres siliconadas e photoshopadas em momentos de pura lascívia. Talvez o padrão violento seja suficiente para justificar o repúdio a essas práticas, mas acrescento ainda que os motivos que levam essas garotas a prostituírem a imagem de seus corpos são os mesmos que as colocam sob risco iminente de estupro na própria sociedade.

horror

A expressão mais excitante para um macho

Um fenômeno que observei foi a invasão de vídeos exibicionistas de mulheres no Yotube rebolando para a câmera de calcinha. Alguns vídeos parecem ter sido feitos para alguém e depois “vazaram”, outros são feitos para divulgação mesmo. Para aqueles que foram colocados na internet sem permissão, é a mesma situação de milhares de mulheres expostas em vídeos e fotos nas comunidades estilo “caiu na NET”, onde o ex-namorado predador se vinga da garota tornando públicas suas intimidades. Produzir material pornográfico para o namorado é vendida como uma ideia excitante e proveitosa para a vida sexual do casal, embora o homem nunca o faça. É realmente muito excitante poder objetificar a própria companheira, justo aquela mulher que parecia ser a única com características de sujeito, que não podia ser usada como as atrizes do pornô, torna-se disponível. E produzir material exibicionista para vários homens? Dizem que é uma “escolha” deliberada, uma forma genuína de prazer. Eu digo que uma mulher no contexto feminino de sujeição precisa provar constantemente que é atraente e capaz de seduzir um homem, já que sua auto-estima é esmagada por todos os lados e seu único valor como indivíduo parece depender de aprovação masculina. Parte dessa necessidade de mostrar-se sexualmente disponível em busca do status da fêmea no patriarcado está exposta nesses vídeos, é uma das poucas saídas que muitas mulheres encontram para sentirem-se valorizadas e desejadas de alguma forma, mesmo que através de insultos.

Mas voltando à indústria pornográfica, este artigo da antropóloga colombiana María Elvira Díaz Benítez, “Nas redes do sexo: bastidores e cenários do pornô brasileiro”, vale uma leitura porque explica bem a questão dos estereótipos femininos trabalhados na pornografia, desde a latina caliente até a ninfetinha asiática. E também um pouco sobre os estereótipos masculinos, como o negro bestial e o tiozão viril.

horrível

Garotas dominadas? Enfia no seu cu seu fetiche.

É claro que os bastidores do mundo pornô tentam mostrar uma imagem positiva e saudável de suas práticas. Fala-se muito em escolhas, especialmente as escolhas da mulher, que parece “optar” por ser humilhada em um set de filmagem. Para esse assunto eu indico um post escrito pela blogueira Marjorie, simplesmente fantástico, abordando a questão da livre escolha entre outros assuntos, veja aqui.  Alguns recortes do texto:

“Por exemplo: “se eu escolhi ser prostituta/stripper/atriz pornô/whatever, se eu fiz isso porque quero, então eu não sou uma mulher objetificada. Eu sou sujeito das minhas ações e quem disser que estou numa posição de passividade ou vulnerabilidade está errado. É paternalista dar a entender que eu sou burra, não sei o que faço ou sou apenas um joguete do patriarcado.”

“[…]o contexto em que uma determinada escolha é tomada a dota de um significado particular.”

“Vulnerabilidade que a Charlotte não escolheu, mas que pode vir de brinde com sua escolha. Logo, não adianta ser sujeito na hora de escolher, se o contexto te coloca numa posição subordinada depois. O féladaputa do contexto pode te transformar em vítima da sua própria escolha.”

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Cala a boca, mulher.

“Contextualizar a escolha, dizendo que ela pode levar a uma situação de vulnerabilidade, não é negar o fato de que escolher é uma ação. Nem dizer que o autor da escolha não pense por si. Está-se apenas inserindo esta escolha em um mundo e, então, refletindo quanto à influência do mundo sobre a escolha e o efeito dessa escolha no mundo.”

Perfeito, eu não poderia explicar melhor. É isso, nossas escolhas estão sempre inseridas em um contexto, não podemos simplesmente nos separar do mundo inteiro e colocar nossas escolhas em uma bolha em que tudo acontece conforme o esperado. Então, se a atriz pornô escolheu deliberadamente sua profissão, isso não significa que a situação não a torna vulnerável e vítima dentro de um sistema de desigualdade em que mulheres são inferiorizadas. Vítima da própria escolha. Quantas dessas mulheres têm a opção de conhecer outros caminhos? Ou mesmo, quantas tiveram condições de fazer uma análise crítica sobre a pornografia? Não é à toa que várias usam drogas e o índice de suicídio é altíssimo, como no mundo da prostituição, esqueçam o glamour e a liberdade do pornô.

linda lovelace

Até que ela parece feliz, não é mesmo?

Alguém tem um exemplo melhor que Linda Lovelace? A atriz de “Garganta Profunda” que apanhava e era estuprada no set e só foi protagonista do filme pornográfico mais famoso da História porque foi FORÇADA? Não por acaso, Linda milita contra a pornografia hoje em dia. Ela vivia presa ao homem que a obrigou a realizar o filme, o mesmo homem que a prostituía, estuprava e fazia com que outros homens a estuprassem. É possível ver os hematomas de Linda durante o filme. Ela demorou anos para tomar coragem e fugir do agressor, porque se sentia dependente dele. E ainda tem gente que culpa as mulheres por não conseguirem se defender de certas coisas, ao invés de culpar quem as ataca!

lindalovelace sofrendo

Tente isso e veja se é bom.

Este é um vídeo muito interessante, http://br.youtube.com/watch?v=r0q_VGacfNk , descrição: “Este poderoso vídeo é em memória de centenas de estrelas pornográficas mortas. Este vídeo é dedicado às estrelas pornográficas ainda vivas. Minha esperança é que este vídeo toque muitas vidas e que elas parem de ver e fazer pornografia. A Pornografia não é glamurosa.”

Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) e depressão são comuns em pessoas que estão na indústria pornográfica. A razão mais buscada pelas mulheres parece ser o cachê mais alto e pelos homens a oportunidade de reafirmar sua virilidade e potência. No set de filmagem nem a lubrificação vaginal é real, ou não suportaria todas as modalidades de penetração por tanto tempo. Trecho de entrevista com psicólogo especialista em relacionamentos e ansiedade Alexandre Bez:

Problemas familiares podem ajudar na escolha pela profissão de ator/atriz pornô?
Dr. Alexandre Bez: Sim, devemos lembrar que para todos nós a questão familiar é muito importante. Assim como problemas de ordem social, econômica ou sentimental, falta de carinho ou constantes dificuldades na família podem ser catalisadores para uma pessoa encarar esse tipo de profissão.

Pois é, desde a formação no núcleo familiar existem estímulos e situações que nos levam a fazer escolhas que não são “livres”, pois não temos acesso real a diversas escolhas e reflexões. Não podemos culpar as mulheres por promoverem uma indústria pornográfica que inferioriza elas mesmas, precisamos focar nossos objetivos naqueles que produzem e consomem esses materiais.

pornô feminista

Pornografia feminista, será?

Mas espera aí, não tem mulher que gosta de pornografia? A maioria, mesmo sem contextualizar, parece sentir uma certa repugnância dos formatos masculinos de pornografia, como os clichês acima citados. O que me surpreendeu foi descobrir que existe uma onda de diretoras de pornografia “feminista” invadindo a Europa.

A proposta, tenho que admitir, é louvável. Uma das diretoras, que já foi atriz pornô e hoje é cientista política, reconhece que os filmes insultavam sua inteligência e a colocavam como um objeto domesticado. Os filmes produzidos por ela exploram a sexualidade feminina, orgasmos reais, homens que realmente existem na trama, relações de respeito mútuo e algumas peculiaridades de filmagem como nunca exibir ejaculação masculina e dar preferência ao foco nas expressões faciais de prazer ao invés dos genitais. Duas entrevistas com diretoras explicam mais sobre, aqui e aqui.

suicide

Liberdade? Ah tah, valeu.

Elas afirmam que seus filmes seriam ótimos para educar homens em novos papéis sexuais, mais humanos e reais, além de serem feitos com responsabilidade e envolvimento dos protagonistas. Eu não invalido totalmente a ideia porque de alguma forma é diferente, mas infelizmente está inserido no mesmo contexto machista em que vivemos. Não é um pornô com uma perspectiva feminista que vai revolucionar a indústria pornográfica masculina, além de não estar livre da questão do voyeurismo impessoal. Pesquisei algumas capas de filmes e encontrei alguns clichês como mulheres de seios enormes nuas, fantasiadas e com um padrão próximo ao convencional, não vou arriscar generalizar, mas foi a impressão. Ainda prefiro a extinção dos formatos pornográficos comuns do que reformas desse tipo, acho a questão perigosa. Além do mais, adivinhe como era o troféu que premiava as melhores diretoras? Em formato de PINTO.

Também encontrei referências das diretoras enaltecendo o Suicide Girls. Para mim, esse site sempre foi uma Playboy alternativa e de péssimo gosto. Alt-porn não é menos violento nem menos opressor só porque mostra algumas garotas fora do padrão com piercings e tatuagens, buscando um lugar ao sol para serem admiradas com sua resistência estética. Se fosse realmente uma representação de resistência aos padrões, por que colocariam essas mulheres “exóticas” na mesma posição sexualizada e objetificada das garotas da Playboy? No fim, toda a subversão de valores alternativos acaba na masturbação do macho que consome o material.

São 5 páginas de Word e eu não consigo sentir que disse tudo o que pensava sobre a pornografia, na verdade são inúmeras as implicações envolvidas. Sou definitivamente antipornografia, enxergo nesses materiais um ódio repulsivo contra a mulher e um conservadorismo nas questões de gênero absurdo, além de uma forma de construção de uma sexualidade falsa, egoísta, impessoal. Não é a minha sexualidade, não envolve respeito ou responsabilidade, não implica um contato íntimo e real, destrói relações. Eu me sinto livre por não consumir pornografia, assim como conheci pessoas que admitiram sentir-se escravizadas por um vício pornográfico. E o que mais me dói em tudo isso, é ver como as mulheres são constantemente condenadas pela estética pornográfica comum, como a sexualidade feminina é obscura nessa indústria e o quanto ela tem poder de influência sobre os homens.

Sobre o que chamam de pornografia alternativa, feita com casais reais, mulheres que representam sujeitos e coisas assim, ainda não tenho opinião formada. É claro que não se deve condenar todas as representações sexuais, o problema é a delicadeza de lidar com isso em um mundo machista que glamouriza o egoísmo. Eu, pessoalmente, não assistiria nem se fosse o vídeo da Maria e do João em casa fazendo um papai-mamãe cheio de ternura, dispenso. Estou bastante satisfeita com a minha sexualidade assim.

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