Arquivo de julho \29\UTC 2009

Assédio e abuso verbal nas ruas: bons motivos para resistir.

Para ter certeza de que as mulheres são inferiorizadas, basta ser uma delas e estar andando pelas ruas. Sinto-me um soldado pronto para a guerra cada vez que faço algo tão simples quanto sair para trabalhar, estudar ou comprar um pão.

Você está andando pela calçada, feliz e tranqüila, quando avista um grupo de homens que podem estar do mesmo lado da rua ou do outro. Imediatamente as criaturas começam a medir você de cima a baixo, com expressões tão sádicas que nem os próprios acreditariam se tirássemos uma foto. Você logicamente começa a se sentir constrangida, ansiosa e incomodada, sabe o que vem logo em seguida.

A agressão varia muito, mas é encarada de forma tão natural que chega a ser bizarro. Lá estão os trolls popularmente “mexendo” com a mulher, dizendo desde gracinhas peraltas até insultos sexuais violentos, com o mesmo tom audacioso e cheio de desprezo. Assediam as mulheres quando querem, como querem e da forma que bem entendem, perturbam nosso direito de ir e vir e gozam da impunidade.

mujer

Sobre o velho discurso de que as mulheres “gostam” do assédio nas ruas, posso oferecer meu depoimento pessoal. Admito, já me impulsionei a gostar da situação, em certa época da minha vida acreditei que as ditas cantadas eram uma forma de admiração, significavam que eu era atraente e interessante. Quanta ingenuidade.

Só fui realmente entender que estava sofrendo uma violência quando parei para analisar porque aquilo era um tanto “estranho”, meio repugnante, mas ao mesmo tempo necessário e agradável. Na verdade, a minha auto-estima dependia de algo tão grosseiro quanto um assédio para manter-se bem porque era simplesmente esmagada de todos os lados. Levam as mulheres a crer que elas precisam da atenção e da aprovação de um homem, que seus corpos devem ser objetos de pura luxúria para que se mantenham orgulhosas e “poderosas”.

Assim são enfiados goela abaixo padrões femininos e cada vez mais somos cobertas de exigências. Quando enfim somos reconhecidas pelos homens a quem tanto devemos e precisamos, surge uma falsa sensação de êxito. Muitas mulheres enfrentam esse condicionamento e encaram o assédio como uma vantagem, mas ainda assim reconhecem que tem algo errado no processo. Pude conhecer e ter contato com diversas mulheres que hoje odeiam e repudiam essa prática, embora no passado tenham aceitado. Há ainda aquelas que, expostas a uma reflexão sobre o assunto, parecem despertar repentinamente para algo que nunca sentiram antes.

Podem insistir o quanto quiserem que existem algumas mulheres que gostam e pronto, mas apresento um FATO: Todas as mulheres alguma vez na vida já mudaram de calçada ao avistar uma reunião de homens. Todas já se sentiram humilhadas, constrangidas ou profundamente irritadas com um assédio, e a maioria tem uma bela história de horror pra contar, como maravilhosamente exposto no blog Escreva Lola Escreva. E mesmo que muitas mulheres supostamente aceitassem o assédio, ainda existiriam milhares de outras que detestam e possuem o direito de ficar em paz.

cantada

Um homem que assedia na rua não espera que a mulher sinta-se lisonjeada e vá ao seu encontro para uma noite de sexo, não espera sequer que ela lhe responda. Eles fazem isso porque simplesmente se acham no direito de fazê-lo, sentem prazer em constranger mulheres e objetificá-las, enfatizando o desequilíbrio das relações de poder. Quando estão em grupos, deliciam-se com o status másculo que recebem ao assediar uma mulher, já que estão protegidos e apoiados por suas corjas. Quando sós, sentem-se seguros da mesma forma, o que uma mulher poderia fazer a respeito?

Se ela usa um decote, eles logo julgam que está se oferecendo. Se em um dia quente de verão eu resolvo usar uma saia, estou colocando meu corpo em uma vitrine e me sujeitando ao julgamento de um bando de machinhos. A culpa não é da mulher e do seu corpo, a culpa é da ótica masculina que recorta nossos corpos em partes e sexualiza cada uma delas. Se não podemos sair às ruas com nossos corpos sem sofrer assédio, que porra de liberdade é essa afinal?

Os homens que assediam acham realmente que podem invadir nosso espaço e fazem de tudo para que possamos ouvir seus insultos. São protegidos culturalmente e sua atitude é legitimada pelo machismo. Quando confrontados, estão sempre prontos para negar o que fizeram, fazer deboches ou simplesmente agir com violência. Uma reação feminina nunca é esperada, é cômodo que elas permaneçam boas ouvintes submissas e envergonhadas.

A seguir alguns argumentos de homens, retirados de comentários do artigo sobre assédio nas ruas publicado no Mídia Independente, aqui, e de um documento encontrado na web comentando o mesmo artigo, disponível aqui:

Machista

“Não entendam mal, e o tesão como fica? Como animal do sexo masculino não posso deixar de olhar ou até mesmo desejar uma femea que eventualmente me chame a atenção, não foram poucas as vezes que senti desejo sexual ao ver uma bela mulher com um vestido ou uma saia bem sensual.”

Começamos por “animal do sexo masculino”. O cidadão se define praticamente a partir de argumentos biológicos de que homens são naturalmente vorazes sexualmente e não conseguem resistir. Como se realmente houvesse um comportamento “natural” no ser humano, e como se a construção social e história de opressão das mulheres, inclusive com a divisão do trabalho, não influenciassem o comportamento sexual que vemos hoje. Querem castrar a mulher de toda e qualquer virilidade, justificando o assédio através de uma suposta natureza masculina promíscua. Como somos selvagens e fiéis aos nossos instintos, não é mesmo?

O vestido e a saia são vistos como sensuais e provocantes, independente da vontade da mulher que está vestindo. Não teremos o direito de resignificar nossas vestes e expressões corporais enquanto existirem estereótipos prontos para qualquer coisa que usemos. O desejo sexual do cidadão é um problema exclusivamente dele, poderá sentir o que quiser desde que respeite a mulher como indivíduo e seu espaço. O que temos a ver com suas ereções? Não precisamos compartilhar dessa fantasia e muito menos ser comunicadas a respeito.

“Creio que a maior parte das mulheres se interessariam se fosse um cara rico numa Ferrari.”

Machismo pouco é bobagem. O estereótipo da mulher interesseira é mais uma das coisas que temos que suportar. Mulheres já foram usadas como verdadeiros mostruários ambulantes das riquezas de seus maridos, encerradas em suas casas compensando toda a frustração em bens materiais. Conquistaram o direito básico do acesso ao mercado de trabalho há pouquíssimo tempo, ainda ganham menos, sofrem assédio e raramente alcançam posições superiores. Enquanto disputam o acúmulo de capital em uma competição inteiramente masculina e desigual, não é de se surpreender que muitas ainda enxerguem no dinheiro e status uma compensação para seus problemas, ou mesmo para o homem rico que terão de aturar ao seu lado. Felizmente, a situação tende a melhorar e cada vez mais mulheres pagam suas contas e não dependem mais de riquinhos em Ferraris.

De qualquer forma, assédio não tem idade, classe social e cor, não são raras as vezes que o executivo babão é tão repugnante quanto o pedreiro da esquina em seu abuso verbal.

“Use a tal burca dos muculmanos, ai ninguem olhara nem desejara vcs. Mas oq ue vcs fazem no verao? Colocam uma mini blusa, um salto, pernas e barrigas de fora. E ai saem desfilando na rua. E querem o que?”

Queremos respeito, como já foi dito antes, fodam-se vocês e sua ótica machista nojenta. Temos o direito de andar nas ruas como bem entendermos sem sofrer qualquer violência ou abuso. A burka também não protege as muçulmanas da violência desse suposto “desejo”, são estupradas e molestadas da mesma forma, com vestes diferentes.

troll

“Se fosse por mulheres assim o mundo ja tinha sido extinto, nao procriariamos.”

Praticamente a máxima do machismo, parabéns para o indivíduo que escreveu isso. Exatamente, para muitos homens ABUSO é parte do sexo. Enxergam a posição submissa de uma mulher como critério para uma relação sexual bem sucedida. O cara simplesmente disse que sem assédio e abuso, as mulheres não fazem sexo e logo não procriamos. Além de ignorante, promove a heteronormatividade.

“Não temos maiores problemas na vida? Mulheres fortes nao se afetam por estas bobagens.”

Eu realmente não suporto essas pessoas que tentam fugir de uma discussão alegando que existem outros assuntos mais importantes. O que está em pauta são os direitos das mulheres, sou uma mulher e quero meus direitos, se alguém acha que existem coisas mais importantes, nunca perca seu tempo expondo uma opinião ridícula a respeito. O cidadão da frase parece achar que a “força” da mulher está em ignorar o assédio, fingir que nada aconteceu. Como dizem por aí, e estão certíssimos, “o seu silêncio não vai proteger você”.

“ Quando passa uma Ferrari eu digo que carrao. Quando vemos uma bela casa olhamos para ela. E isto ? ofensa?”

Perfeito, cara. Mostrou com belos efeitos comparativos o que as mulheres são na ótica masculina: objetos. Tente ofender uma casa ou uma Ferrari.

“Se nao quer chamar a atencao nao se produza, ou se produz para que?”

Se não quer ser assaltado, não saia de casa, oras. Mesmo que você goste de precise carregar sua carteira, é culpa sua que os assaltantes estão te atacando, assim como é culpa das mulheres quando são estupradas.

“Eu sou dos que olham uma mulher como um pedaco de carne, mas a primeira vista somos exatamente isto, um pedaco de carne muito bem enfeitado.”

É exatamente por isso que o feminismo é a noção de que as mulheres são pessoas. Sou um indivíduo, queiram os homens ou não, e terão que me respeitar. Pedaços de carne, exatamente como são tratados os animais de abate, resumidos a um objeto de consumo com suas vidas totalmente desprezadas.

“Eu como homem de vez em quando sou elogiado, nao me sinto ofendido, faz parte da vida. Mesmo que seja uma macaca.”

Fiquei em dúvida se o termo “macaca” faz referência a uma primata ou se foi algum tipo de insulto racista medíocre. No caso deste cidadão, eu arriscaria na segunda hipótese. Quantos homens sofrem assédio e abuso verbal nas ruas, e quantos deles realmente se sentiriam ofendidos nessa situação? É como um branco dizer que é melhor que um negro e depois um negro dizer que é melhor que um branco, dá pra sentir uma diferença gritante? Sim, a posição inferiorizada da mulher é decisiva para definição das relações de poder, um homem “assediado” jamais levaria a sério ou sequer ficaria constrangido. Engraçado também como o rapaz insiste na palavra “elogiar”, considerando o assédio uma atitude positiva e de admiração.

chuck

“Eu sou homem, mas morro de medo de assalto e de outros problemas”

Enquanto você teme um assalto, eu tenho que temer pela minha integridade física e moral só porque sou mulher.

“Vc esta se colocando numa situação péssima”

Até NISSO as mulheres são culpadas, por se incomodarem com o assédio e sentirem a repressão elas são culpadas e têm que resolver isso. Os homens NUNCA têm culpa de nada que fazem. Eu me coloquei nessa situação, de repente eu inventei que ser chamada de “gostosa” e ouvir um neandertal dizer que “quer ser pai dos meus filhos” depois de sussurrar “delícia” é uma forma de abuso, quando na verdade são homens bem intencionados seguindo sua cartilha de testosterona para inocentemente agradar as mulheres.

A resistência masculina às ideias feministas é óbvia e previsível, assim como seus ataques baratos e esperneios infantis. Quando se sentem ameaçados já começam a dizer que eu não tenho senso de humor, que sou mal-amada, preciso de uma rola, qualquer tentativa infeliz de insulto. Pior, começam a tentar esconder a situação, dizem que é exagero e procuram tapar o sol com a peneira.

Afinal, vejam que maravilhoso, conquistamos o direito ao voto e ao mercado de trabalho, enquanto a maioria de políticos ainda é masculina e a competitividade do business coloca homens sobre as mulheres. Também conquistamos o direito de foder quem quisermos, mais que isso, ganhamos um bombardeio de incentivos para aumentar nossa disponibilidade sexual e glorificar a penetração. Ao invés de queimar nossos sutiãs, estamos os recheando, às vezes através da mutilação deliberada.

Como bônus, ganhamos o assédio nas ruas e o abuso verbal, cuja violência aos poucos está sendo reconhecida pelas mulheres.

Temos que nos virar para encontrar meios de lutar, uma mulher não conta com proteção legal e o abuso verbal sofrido dificilmente é enquadrado em danos morais, imagine em assédio sexual. Policiais podem no máximo rir da sua cara.

Como já mencionado antes, o nosso silêncio não irá nos proteger. Portanto, a solução que parece mais viável no momento é resistir. Disseminar a ideia e organizar mulheres é importante, mas também é preciso reagir de imediato.

girlready

Não, não deixe que eles o façam. Quando for assediada, conteste, resista, grite, acreditem em mim, a maioria dos homens fica sem reação porque nunca esperam que a mulher tenha a coragem de enfrentá-los.   Claro, considere se está em um local arriscado ou não. A possibilidade do cara que mexeu com você ser um psicopata armado que vai te estourar em público é quase nula, e lembre-se que a cultura do MEDO tem sido induzida nas mulheres e que há uma razão para isto.

A mulher amedrontada se torna vulnerável e é um alvo em potencial, não reage e suporta calada as mais diversas agressões. Não somos frágeis, tampouco covardes. Somos mulheres e não precisamos nos sujeitar a abusos masculinos por receio ou medo, as estatísticas demonstram que homens estão mais propensos a ter uma morte violenta do que as mulheres, mas nós é que somos educadas para temer tudo e todos.

Boa

Superado o complexo de vulnerabilidade imposto, resta criar seu discurso e reagir quando necessário. O importante é nunca ficar em silêncio, fingir que não ouviu o assédio e não sentir-se intimidada, afinal são apenas homens. Na sequência uma breve lista de dicas para você, mulher, que se sente ofendida e constrangida, reagir ao assédio:

– Tudo o que o cara não espera é que você reaja, lembre-se disso, você tem praticamente um elemento surpresa.
– Quando passarem por você sussurando obscenidades, pare, vire-se e grite algo como “Você falou comigo?”. Ele vai tomar um susto e dizer que não.
– Se o elemento estiver parado no caminho e começar a te medir, passe encarando-o firme e com o pensamento fixo “fala alguma coisa pra você ver”. Quase nunca ousam.
– Quando disserem um desaforo pra você em alto e bom tom, e costumam fazê-lo em grupo, pare, vire-se e diga no mesmo tom o que tiver vontade. Discuta, se necessário, lembre-se que são apenas homens e eles te xingaram sem motivo, use isso ao seu favor. Normalmente o discurso “e se fosse sua mãe ou irmã”, algo sobre respeito e uma boa tirada funcionam bem, o grupo ri do indivíduo e no máximo te acusam de estar nervosinha.
– Para caras de carro, a regra é fazer gestos pouco amigáveis.
– Se ousarem te tocar, pegar no seu braço, cabelo, ou qualquer coisa, a ordem é fazer um escândalo fenomenal. Se tiver confiança suficiente, um pouco de técnica e nenhum medo de trocar uns socos, parta pra agressão (pouco recomendável).
– NUNCA se encolha, fique envergonhada, faça carinha de brava, saia andando depressa, finja que não ouviu ou dê risada.
– Se comentarem sobre seu corpo ou roupa, revide dizendo que não comentou sobre o corpo do indivíduo e que ele não tem esse direito. Parece engraçado, mas muito pedem desculpas ou ficam sem graça.
– O elemento surpresa aliado a um berro repentino costumam dar um bom susto no machinho e render boas risadas para todos em volta. Humilhe-o sempre que puder.
– Lembre-se: Uma mulher reclamando de assédio é defendida pelas pessoas em volta na esmagadora maioria das vezes, aprenda a usar uma das poucas vantagens que o papel de vítima lhe trouxe ao seu favor enquanto for preciso.
– Esta não é nada ética, mas sinceramente quando estou de saco cheio esvazio o estoque de palavrões e aproveito os efeitos terapêuticos.

Essas dicas são bem pessoais e são baseadas nas minhas experiências como cidadã de São Paulo moradora da Zona Leste, considerada “branca” e de classe média. Importante ressaltar que a eficácia das recomendações está sujeita à milhares de circunstâncias e podem expor a mulher a alto risco dependendo do local e pessoas envolvidas. Saiba onde fazer, o que fazer, quando fazer e como fazer, e não fique intimidada sem necessidade.

O assédio nas ruas é um ótimo indicativo da situação da mulher, especialmente no Brasil. Nós não podemos aceitar essa liberdade pela metade.

Resista por você e por todas as mulheres.

, , , , , , , , ,

19 Comentários

Goru Hentai: Expressão do ódio contra a mulher

ATENÇÃO, CONTEÚDO PESADO E VIOLENTO.

Ok, já temos um jogo de videogame cujo objetivo principal é estuprar uma mulher e sua filha e depois fazer com que abortem, temos snuff movies (filmes pornográficos em que a mulher é estuprada e morta), temos as mais diversas perversidades e fetiches possíveis sobre o corpo feminino. Mas sempre se criam novas formas de mostrar até que ponto chega a violência contra a mulher.

Como se não bastassem todos aqueles hentais em que enfiam tentáculos nojentos em mulheres, sempre mostrando cuidadosamente o sofrimento das vítimas, parece que uma nova “onda” de hentais invadiu o imaginário masculino japonês.

O nome da doença é “Goru”, uma espécie de hentai em que são exibidas mulheres dilaceradas, com seus órgãos expostos e em situações de extrema dor e mutilação. São jovens, estão sempre nuas, com expressões agonizantes e preferencialmente com seios e órgãos genitais estripados. É como se não fosse mais suficiente explorar seios, canais vaginais, bundas e outros “pedaços” recortados de mulheres, agora a expressão superior da objetificação pornográfica é dilacerar as partes femininas para encontrar outras formas de excitação.

Goru

Não ouso colocar imagens maiores.

Não conseguiria mostrar certa imagem que vi, um hentai retratando uma garota decapitada, enquanto sua cabeça permanecia no chão um homem penetrava o pescoço aberto e o outro dilacerava os genitais. Muita gente já considera a nova perversidade como doente, sanguinária, absurda e etc. Mas, sinceramente, essas coisas para mim são bastante previsíveis, são nada mais que a representação extrema de uma situação bastante comum.

É engraçado ver pessoas que admitem os hentais em que mulheres são penetradas contra sua vontade por tentáculos monstruosos e recriminam os Goru. É ainda mais curioso observar que grande parte dos estímulos supostamente sexuais promovidos por estes desenhos partem do sofrimento de uma mulher, seja ele físico ou psicológico.

Estupro

Faz parte da rotina dos admiradores de hentai gozar com mulheres submissas, humilhadas, estupradas, exploradas e tudo mais que a imaginação permita. A desculpa é que, como se tratam de desenhos, todas as fantasias bizarras são válidas. Como se os desenhos não fossem uma reprodução cada vez mais fiel de seus comportamentos e desejos reais.

As mulheres dos hentais muitas vezes são retratadas com seios enormes, cinturas finíssimas e quadris largos, de forma tão desproporcional que só um desenho poderia oferecer. Ou, em outra versão do estereótipo, são retratadas como ninfetinhas inocentes de corpos quase infantis. Os pênis também costumam ser gigantescos, sempre prontos para ejacular litros de porra em qualquer parte de uma mulher que esteja em posição suficientemente subjugada.

Os famosos tentáculos são um show de horror à parte. “Uncensored pictures and movies of monsters with many tentacles invading young hentai babes.” Estampa um site. Isso mesmo, a tal tara consiste basicamente em garotinhas sendo penetradas dolorosamente por um tentáculo alien de algum monstro pegajoso. Sim, algumas pessoas se masturbam com uma coisa dessas e acham Goru o fim do mundo.

Estupro

O hentai também dissemina a idéia do bondage, com mulheres amarradas sofrendo violações enquanto não poder sequer se mexer. Tesão, muito tesão.

Violência

É fácil perceber que a dor e agonia ou submissão das mulheres são os fatores principais da excitação sexual, embora apresentados em níveis diferentes para cada tipo de Hentai. O estupro em especial parece elevar as fantasias ao êxtase, violar uma mulher e infligir-lhe dor e humilhação é o desejo latente. Alguns parecem achar que as mulheres merecem isso, outros pensam que na verdade estão gostando do ato mesmo quando doloroso e forçado. Assim os papeis sexuais femininos são difundidos, somos eternas receptoras de pintos e nosso tesão está em sofrer e suportar a penetração independente das circunstâncias, somos sempre penetráveis e incapazes de resistir.

Em questão de igualdade de direitos entre homens e mulheres, o Japão está em 79º lugar, a pior classificação entre os países desenvolvidos. A informação faz parte do Relatório de Igualdade de Gêneros 2006 apresentado na Reunião de Davos, no dia 21, pelo Forum Econômico Mundial. Não é preciso muito para perceber a situação, em um país onde mulheres sofrem caladas com a maior taxa de assédio em transporte público e trabalham vestidas de camareiras vitorianas beijando os pés dos clientes em cafés. Só pra constar, afinal nosso país não se difere muito em questão de valores.

Lá eles criam o Goru, aqui fazem filmes pornográficos com garotas visivelmente incomodadas com a dor de uma penetração violenta, ou várias. A dor e o medo da mulher são fatores campeões em excitação masculina, sem dúvida.

Embora esteja cada vez mais óbvio, eu conheço o segredinho de vocês.

, , , , , , , , , , , , , , , , , ,

66 Comentários

Machos para Machos

Hoje eu estava navegando por aí em um momento de ócio, lendo blogs alheios, como sempre faço. Acabei em um blog com temática gay, escrito por um rapaz homossexual politizado e cheios de ótimas idéias, quando me deparei com um post sobre erotismo e aquela coisa toda, com um link para um site chamado “Eles para Elas”.

Pra começar acho que o nome deveria ser mesmo “Eles para Eles”, ou em um futuro utópico “El@s para El@s” (ok, não podia perder essa).Todo o ambiente do website parecia pensado para o imaginário masculino, até a linguagem corporal dos modelos buscava referências do universo gay. Fiquei pensando se realmente uma mulher poderia comprar aquela idéia de erótico escrachado, entre peitos depilados e gominhos de esteróides. Claro, caímos na velha questão dos esterótipos, sexualidade vendida, nú opressor, e tudo mais. Mas parece que a tentativa de vender corpos masculinos às mulheres acaba num fiasco, quem realmente se apropria do conteúdo são, pra variar, outros homens.

Fala-se muito sobre a inserção dos desejos femininos no mercado da libido, tentam até mesmo confrontar o status quo machista argumentando que homens também são expostos, condicionados e sujeitos às ditaduras do corpo. Porém, infelizmente o que temos são alguns modelos depilados e cheirando testosterona que posam nús em posições viris e atraem o público gay. E o que dizem deles socialmente? Simplesmente não são chamados de putos, vadios, vagabundos,e se o são, com certeza em um sentido favorável. No máximo os amigos dão uma risadinha e falam que é coisa de “gay”, mas isso é facilmente resolvido com uma pose de “macho” e algumas mulheres como troféis.

É impossível ficar excitada com uma coisa dessas, sério. Pessoalmente, eu tenho problemas com associações de “macho”, qualquer referência que me remeta aos trolls, trogloditas e nenandertais do dia-a-dia me deixa em profundo estado de náusea. Esses músculos dourados banhados a um óleo possivelmente nojento, conquistados com uma puxação de ferro sem propósito infinita, esse olhar de potencial estuprador, essa barba por fazer que denuncia um look “rústico” digno do macho, argh. É um conjunto de valores estúpidos reunidos em uma única imagem.

Odeio machos, odeio. Não homens, que fique claro, apenas machos. O masculino estereotipado me cansa, me dá desgosto. Na categoria de macho não precisa ser anaboliza-boy não, pode ser o tio da esquina ou o garoto aparentemente legal, o que conta é o comportamento bruto e ignorante, o machismo inconsciente, a voracidade sexual biologicamente argumentada e a busca incessante pelo status.

Uma dica infalível para reconhecer o macho é perceber o quanto e como ele fala de moças, parece que quando o assunto é um ser tipicamente feminino muda o tom de voz, as pupilas dilatam e são vomitados comentários nojentos de todos os tipos. O primeiro passo costuma ser a “avaliação geral” da mulher, pois para um macho é impossível falar de uma suposta fêmea sem fazer seu julgamento sobre seu corpo, por mais que isso soe ridículo. É sempre a “gata”, ou a “baranga”, ou a “mal cuidada”, a “razoável”, a “bonitinha”, a “gostosinha”. Como se realmente importasse a opinião dele sobre o corpo que pertence a ela.

O macho não consegue ver as mulheres como pessoas, ele enxerga partes expostas na vitrine prontas para serem provadas. Todas as moças que ele considera bonitas demandam uma super estratégia para conseguir sexo, é inadmissível permitir que mulheres bonitas sejam apenas boas amizades e companhias, é preciso enfiar o pau nelas.

O macho não gosta de sexo, ele só precisa gozar. Ele acha que pornografia é sexo legítimo, bate punhetas para a Playboy com naturalidade, cria fantasias de sexo anal com qualquer bunda que vê pela frente, busca um sentido para a própria vida na penetração e vê o mundo como uma selva em que ele é o predador e as mulheres são as presas.

A palavra “gostosa” é o mantra do macho. Gostosa, comestível, aproveitável, utilizável, nem ele sabe porque usa tanto esse termo, mas tem tudo a ver com o que ele pensa sobre mulheres.

Para o macho mulher tem que seguir a cartilha da feminilidade à risca, incluindo depilação, creminho, malhação e as posições novas que a revista Marie Claire ensina para enlouquecer seu homem.Não importa tanto o estilo que ela vista, contanto que se mostre sempre disponível, sexy e dengosinha e procure um dos padrões femininos vigentes para se adequar.

O novo macho não entende o que é machismo e adora dizer que isso não existe, afinal ele é burro demais para entender suas atitudes ou esperto demais para mantê-las como estão confortavelmente. Ele é frequentemente homofóbico, acha uma mulher lésbica desperdício e um homem gay sinônimo de mais mulheres a disposição. Porque o que importa é gozar, e gozar com uma mulher, por uma mulher, na presença de uma mulher, atrás de uma mulher, em cima de uma mulher, pensando em uma mulher, etc. etc. etc.

Finalmente, o estilo macho não é exclusividade de pobre, pedreiro, playboy, ou qualquer estereótipo, o macho pode estar vivendo sob o seu teto com uma máscara de homem. O macho está na padaria, na boate gay, na pracinha, no clube alternativo, no show de hardcore, na igrejinha e na sessão de filme cult, não há limites para o seu alcance.

Se eu pudesse exterminava essas pragas, mas o máximo que eu posso fazer é manter a calma e tentar um papinho subversivo qualquer.Quem sabe um dia eu consigo fazer com que estes homens enxerguem, pelo menos uma vez, mulheres como indivíduos conscientes e autônomos. Enquanto isso, curtimos o avanço do mercado de corpos na construção de machos viris e fêmeas de plástico.

, , , , , , , , , , ,

6 Comentários