My Body is a Battleground

Direito sobre o próprio corpo para mim significa mais do que integridade física, trata-se também de integridade moral. O meu poder legítimo sobre o meu corpo e tudo que lhe diz respeito deveria ser inviolável, uma condição básica para que me pareça justo. Mas, infelizmente, algo me faz mais objeto do que sujeito quando o assunto é corpo, afinal eu sou uma mulher.

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Meu corpo não pertence somente a mim, pertence a uma infinita gama de mídias, poderes e necessidades alheias. Meu corpo, minha sexualidade e meu papel têm sido explorados e exaustivamente estudados por uma supremacia masculina, que transformou meu genital “oculto” em um tabu e normatizou as relações desiguais a que me submeteram. A própria palavra fêmea vem do latim e significa “fé de menos”.

Definiram-me como um ser incompleto pela ausência do pênis, com uma sexualidade sombria e deficiente de instinto e virilidade, o fluido do meu orgasmo não tem nome, cheiro e tampouco pode ser usado como palavrão. Trocaram a figura de uma Deusa Mãe absoluta por uma Eva sensual criada por um Deus macho, enquanto avançavam com a prática do comércio de mulheres férteis e estupráveis. O acesso ao mercado de trabalho, mesmo que por condições inferiores, o sufrágio e a dita “liberação sexual” são minhas maiores conquistas, mesmo que isso signifique mulheres em iguais posições com salários inferiores e mais mulheres condicionadas à disponibilidade sexual de acordo com as regras masculinas.

Hoje meu corpo é também fonte de renda para uma indústria gigantesca de produtos e serviços que prometem a beleza e juventude eterna, boa parte do meu tempo deverá ser dedicada à minha imagem, e simultaneamente deverei dar conta de uma vida pública em ascensão, estudos acadêmicos e futuramente uma vida privada com responsabilidades na esfera doméstica. A maternidade será minha maior conquista e prova da minha capacidade como fêmea, seguida de uma rotina exaustiva que me dará as honras de zelar por todos em um lar enquanto mantenho um emprego de suposto prestígio.

Cada pedaço do meu corpo é violentamente sexualizado, padronizado e vendido. Meus seios são símbolos de lascívia pura, e devem seguir a tendência “ariana” da simetria, forma redonda e protuberante e mamilos rosados. Minha barriga deve ser livre de gordura, porque a gordura é demonizada e por mais que não me prejudique será um insulto à perfeição. Meus glúteos devem convidar ao coito, em formas arredondadas e volumosas, qualquer traço de celulite será condenado, mesmo que seja uma condição natural dos hormônios femininos. Todo o meu corpo deverá estar livre de pêlos, mesmo que não representem falta de higiene ou qualquer anormalidade, assim estarei sempre lisa e inodora como uma criança, para o deleite dos meus senhores. Meus cabelos longos me libertarão de qualquer associação ao gênero superior do macho, assim como minhas vestes e meu andar.

Todos os detalhes do meu comportamento “adequado” estão reforçados nos meios de comunicação de massa, de forma que eu sempre possa consultar minhas novas obrigações e aprofundar meu aperfeiçoamento. Meu corpo será, sempre que possível, motivo de vergonha, impotência e inadequação. Os homens são discretamente “incluídos” na doença social da beleza, porém nunca seus corpos serão o foco da indústria já que são a maioria esmagadora no comando. Quem quer ter seu corpo invadido e massificado? Quem em sã consciência desejaria ser escravo de um padrão como condição mínima para ajuste social?

Estando consciente de todas essas implicações, é de se esperar que ao menos eu possa combatê-las de alguma forma. Por enquanto a maior tarefa cabível é armar meu discurso com todas as informações possíveis, dar o direito de conhecer a situação a todas as pessoas e auxiliar aquelas que nem sequer entendem porque querem mutilar-se trancadas nos próprios quartos. Meu maior obstáculo? A necessidade humana de socialização. O desafio é manter as relações sociais necessárias ou escolhidas enquanto um olhar mais crítico é o suficiente para repudiar as atitudes dos outros e sentir-se marginalizada. Pior ainda é quando os “outros” são queridos, gerando um conflito infinito sobre a medida da tolerância e da consciência crítica, e como esses elementos atuam nas relações.

A problemática feminina é inegável, mas as causas e conseqüências da situação geram especulações de todos os lados, muitas vezes radicalmente opostas às minhas. Desde opiniões misóginas até o descaso extremo, ouço coisas que me fazem sangrar por dentro, mas ao mesmo tempo preciso omitir meu desgosto e procurar uma forma sensata para explicar aquilo. Isso quando é possível explicar, porque por vezes pareceria chato demais, radical demais, dispensável demais, e então o que resta é um silêncio profundo ou uma manobra de fuga da questão. Quando há diálogo, é comum que não possa ser feito com sinceridade, muitas vezes é preciso recorrer à sátira, exagero, tom de imposição, etc., como forma de defesa. É imensa a agressividade e desrespeito que as pessoas demonstram pela causa das mulheres, acreditam fielmente que estamos em uma sociedade igualitária e esperneando à toa.

body2Às vezes acho que estou livre, penso em eu mesma como um indivíduo isolado e que não agirá conforme a fórmula na maior parte do tempo, e então procuro os lugares e as pessoas certas. Porém, dura muito pouco essa ilusão de que é possível estar a parte do problema, de que adianta o convívio com pessoas já cientes se o foco do problema são aquelas que nunca refletiram sobre o assunto? Qual a minha responsabilidade afinal?

Quando sofro uma violência ou imposição de gênero, mesmo estando completamente ciente da origem, não consigo evitar o sofrimento e o ódio. Para exemplificar de forma pessoal, há cerca de 10 meses eu abandonei o aprisionante vício da nicotina, sem ajuda externa e de um dia para o outro. Naturalmente, ganhei uns dois quilos a mais no esforço, suficientes para que algo inédito acontecesse, pessoas terem a audácia de cobrar que eu retornasse à silhueta antiga. Soa ridículo para quem está cansada de afirmar direitos sobre o próprio corpo receber uma opinião invasiva como essa, ainda mais de pessoas que não esperava. Não estou acima do peso, meu IMC é normal e eu estou saudável,  mas parece que a nova adiposidade na cintura é a condenação que merece a pena de não amar mais o próprio corpo. Acredito que é bom para as pessoas que sejam mais ativas e atléticas, que possuam vigor em seus corpos, mas a atividade física foi tão vinculada à estética que chega a ser difícil reconhecer um treinamento sério com objetivos relevantes.

Ao mesmo tempo as comuns cobranças em relação à aparência continuam iguais, vindas das mais diversas pessoas. De repente alguém nota que as minhas unhas estão roídas, ou quem sabe meu cabelo colorido de vermelho e laranja seja muito “estranho”, minha maquiagem não obedece ao passo-a-passo da boneca plástica, não estou usando um sutiã push-up para mostrar meus seios, não estou interessada nas roupas provocantes e até meus braços são musculosos demais para que eu seja “mulher”. Isso tudo já se tornou tão comum que não me incomoda mais, o problema é que basta uma mulher fugir da conduta sexual imposta para ser considerada um ser praticamente assexual. Oras, uma mulher que usa um tênis barato com uma calça jeans, um moletom e uma boina não deve sentir tesão, talvez seja lésbica ou então deve se esconder sob sua imagem “frígida” para então revelar-se uma verdadeira puta pervertida na vida privada. Assim concluem as pessoas, é impossível para elas desvincular a construção de gênero da sexualidade, não conseguem imaginar que uma mulher pode se amar da forma que bem entender, sendo heterossexual, homossexual, bissexual, transexual ou até mesmo assexual, e que a atividade sexual em si não pode ser limitada a episódios de penetração e joguinhos de sedução baratos por parte de uma fêmea construída.

As cobranças acerca do meu comportamento não são diferentes, o ideal feminino do patriarcado parece ser o mais calado e omisso possível, inerte aos acontecimentos gerais e totalmente alheio a sua própria condição. Querem que eu ache normal, precisam que eu ache natural, embora nem percebam que não somos nada naturais e absolutamente culturais. Questionar a cultura é um ato delinqüente, muitos enchem a boca para falar do conformismo da sociedade do consumo e não suportam que uma idéia avance dentro do círculo de conforto pessoal, a igualdade e justiça para as mulheres parece ofender e assustar até os mais libertários. Se lhes digo que posso escolher se terei pêlos nas axilas ou não, se terei filhos ou não, se me casarei ou não, se farei sexo ou não, se adotarei as regras da feminilidade ou não, então descubro a verdadeira face dos falsos entusiastas da igualdade: não suportariam que as mulheres tivessem escolha e direito sobre seus próprios corpos.

Ser mulher nas circunstâncias atuais significa estar vulnerável ao abuso, em pleno séc. XXI o terrorismo machista do estupro é uma realidade, e mais uma vez é atribuída a culpa às próprias mulheres e seus corpos. Sofrer violência sexual é uma morte dupla, é difícil imaginar uma forma de terror, humilhação e dor semelhante. Ela estava só naquela hora e lugar, dizem eles, ela estava provocante em suas vestes, bradam como animais. Somos estupráveis por causa de nossos corpos, não temos recurso de defesa, devemos andar acompanhadas de um homem supostamente protetor e nosso direito de ir e vir é barrado simplesmente porque podemos ser violentadas apenas por ser mulheres. A vítima da brutalidade pode estar vivendo sob o teto de qualquer um,  calada e suportando todas as sequelas, pois é muito mais comum do que aparenta, eles fazem questão de ocultar os fatos e tornar a denúncia constrangedora para as mulheres. Afirmo com toda a convicção que caso me visse em uma situação como essa, lutaria até a morte se preciso. Que um dia, por misericórdia, todas as mulheres deste mundo desfrutem de treinamento para auto-defesa, armas específicas e resistência psicológica para defender seus corpos do terrorismo do macho.E que eu possa estourar os miolos de um estrupador depois de torturá-lo de todas as maneiras imagináveis (não, não sou pacifista).

Atualmente, minha maior arma é a minha própria voz. Denunciarei, custe o que custar, a apropriação do corpo feminino, e cada nova pessoa consciente é uma vitória imensa. A minha luta é permanecer mentalmente saudável no processo, porque não é fácil negar os valores que estão incrustados na maioria das pessoas da sua convivência e suportar todas as situações desagradáveis, por vezes com um sorriso amarelado.

Independente de todos os obstáculos, de uma coisa estou certa: Meu corpo será somente meu a qualquer custo, por mais que as vozes esperneiem, por mais que até mesmo as pessoas queridas cometam atos invasivos, por mais que projetem toda a ira no meu direito de escolha. Cometerei sempre a audácia de ser sujeito único deste corpo, senhora suprema de tudo que lhe diz respeito, talvez não pela utopia da liberdade completa, mas pelo mínimo senso de justiça.

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  1. #1 por pppedro em 13/06/2009 - 12:42

    não é integridade moral?

    • #2 por whothehelliscely em 02/07/2009 - 13:31

      isso, erro de termo!

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