Arquivo de maio \14\UTC 2009

Resposta ao comentário do além

Post dedicado à réplica do comentário que recebi no meu About do Blog.

O COMENTÁRIO

Você é inteligente, mas comete algumas contradições bem grotescas.

Como alguém se intitula protetora de animais, não fuma, não bebe, entretanto é favorável ao aborto?

A única diferença entre você e um feto é tempo, afinal todos nós um  dia fomos fetos. Qual é a escolha que esse feto tem em relação a sua morte? Ou você acha simplesmente que um punhadinho de células não pensa e nunca pensará?

Dê pelo menos uns dez anos para que ele te responda ou pense que tipo de vida uma mulher vai ter quando ela mesma tira a vida do seu filho.

Sem moralismos, é apenas encarar um fato com todas as suas implicações.

O fato de sermos mulheres ou homens, não é caráter decisório para alguém ser bom ou mal, afinal em ambos os sexos existem pessoas boas e más.

Sinceramente, por que em vez de enfiar uma teoria que deixa as características humanas esteriotipadas em gênero masculino ou feminino, você não tenta pegar o que realmente é determinante para que as pessoas se comportem de maneira boa ou ruim?

Existem bons livros de filosofia para isso, comece com a filosofia clássica como Aristóteles ou Platão.

Essas teorias modernas de genêros só servem para simplificar as coisas, quando na verdade do mundo é bem mais complexo do que realmente aparenta.

Acima de homem e mulheres, somos humanos, e por mais que algumas características influam em nosso comportamento não explicam toda a miséria e nem toda a graça que coexistem em nossa existência.

Desculpe-me pela intromissão, mas acho que sua inteligência não deveria ser desperdiçada nessas bobagens.

A RESPOSTA

Bom, primeiramente eu prefiro quando as pessoas se identificam ao discutir, quando leio um comentário anônimo sinto uma conotação agressiva, como se o indivíduo por trás da idéia tivesse receio de dialogar e procurasse um tom de mistério, uma mensagem sem emissor. Mas enfim…

Como alguém se intitula protetora de animais, não fuma, não bebe, entretanto é favorável ao aborto?

Eu não apóio o ato de abortar, eu apóio a legalização do aborto. Não entendo porque é tão complicado separar essas duas posturas, mas acho que o mais importante é ressaltar que para mim o aborto é prejudicial tanto à mulher quanto ao feto, mas eu simplesmente acredito que criminalizar NÃO é a solução. Quem defende a criminalização ignora que os abortos continuam ocorrendo da mesma forma, com a única diferença de que nas classes altas eles são seguros e nas classes baixas muitas vezes terminam na morte da mulher. Ignora também toda a questão feminina, esquece-se de que o pai escolhe se vai ser pai, enquanto a mãe é condenada à maternidade, esquece-se de que milhões de mulheres ainda não têm direito à informação, à sexualidade sadia e aos métodos contraceptivos adequados. Nunca vi uma vez sequer um “Pro-Life” questionando quais os motivos de uma mulher para abortar, parecem estar convictos de que mulheres querem e gostam do aborto, ou simplesmente querem fugir de uma responsabilidade, fazem questão de demonizar as mulheres e desconsiderar suas condições.

E lutar pelos direitos animais não tem relação alguma com políticas de criminalização do aborto, ou você realmente acha que funcionaria uma política de criminalização da carne?

O aborto é um procedimento altamente invasivo, um estupro do corpo feminino, um ato que provoca seqüelas físicas e principalmente psicológicas. Legalização do procedimento significa mais informação sobre o mesmo, possibilidade de controle estatístico preciso do aborto, identificação das razões, maior preocupação com políticas de educação sexual e acesso a métodos contraceptivos, e principalmente milhares de vidas de mulheres salvas. O curioso é que os países onde o aborto é crime são justamente aqueles em que o aborto mais MATA, tanto os fetos quanto as mulheres que se arriscaram no ato clandestino (Pesquisas do Instituto Guttmacher ).

mapa do aborto

A única diferença entre você e um feto é tempo, afinal todos nós um dia fomos fetos. Qual é a escolha que esse feto tem em relação a sua morte? Ou você acha simplesmente que um punhadinho de células não pensa e nunca pensará?

Se a questão é a crença pessoal de que a formação da vida não deve ser interrompida, não deveríamos nem usar métodos anticoncepcionais. Já que o amontoado de células mesmo antes de possuir SNC já é considerado uma fase essencial de uma vida com pensamentos, emoções e escolhas, logo a fertilização também deveria ser uma etapa sagrada que exige profundo respeito. E pessoalmente, acho que o punhado de células antes do desenvolvimento do SNC não pensa não, claro que ele viria a pensar após o nascimento, mas aí já são questões religiosas, o meu foco na questão do aborto é política, afinal a minha opinião influenciará a vida de milhões de pessoas.

Dê pelo menos uns dez anos para que ele te responda ou pense que tipo de vida uma mulher vai ter quando ela mesma tira a vida do seu filho.

Eu não faria um aborto, então não preciso pensar no meu feto dez anos depois escolhendo se queria nascer ou não, deixo isso para as mulheres que optaram pela interrupção. Como já disse antes, acredito sim que haja conseqüências psicológicas pós-aborto, e que elas poderão ser discutidas mais abertamente e expostas com precisão no momento de decisão da mulher que teve uma gravidez indesejada. Lembrando que o “filho” não é apenas da mulher, é do homem responsável também, mesmo que a conduta Pro-Life não o castigue como tal.

Sem moralismos, é apenas encarar um fato com todas as suas implicações.

Eu já considerei todas as implicações com as quais tive contato para formar esse posicionamento, mas sempre aceito novos questionamentos.

O fato de sermos mulheres ou homens, não é caráter decisório para alguém ser bom ou mal, afinal em ambos os sexos existem pessoas boas e más.


A questão não é moral de indivíduos, nunca disse que mulheres são boazinhas e homens são malvados, eu digo que as mulheres sofrem opressão dos homens, e a opressão tem caráter negativo.

Sinceramente, por que em vez de enfiar uma teoria que deixa as características humanas esteriotipadas em gênero masculino ou feminino, você não tenta pegar o que realmente é determinante para que as pessoas se comportem de maneira boa ou ruim?

O estereótipo de gêneros é obra do patriarcado, gêneros não são puramente biológicos, ou seja, seu pênis não faz seu gênero masculino. É justamente contra esses estereótipos que eu estou lutando, o gênero masculino não determina maldade, assim como o gênero feminino não determina feminilidade, fragilidade, sujeição, futilidade, etc.

Já disse que os homens também são vítimas da construção do gênero masculino, com a diferença essencial de que a cartilha masculinista é focada na dominação sobre o gênero feminino, ou seja, a maioria se acomoda confortavelmente no próprio estereótipo.

Infelizmente esses estereótipos são poderosíssimos, não entendo como você não consegue enxergar como a construção de gênero é determinante no comportamento! Como um homem machista, competitivo, dominador e sexualmente agressivo pode se comportar de uma maneira “boa”? Como uma mulher que tem seu corpo mercantilizado, sofre discriminação e abuso, é subjulgada pelo poder do macho e tem suas escolhas controladas pela indústria cultural pode estar se comportando de uma maneira “boa” ou “adequada”? A solução para você então é ignorar completamente a desigualdade dos sexos ao longo da História e transformar em uma unidade humana de iguais sentimentos, desejos e condições, e assim estudaremos os determinantes da moral dessa massa disforme? Não consigo conceber essa idéia de forma alguma.

Existem bons livros de filosofia para isso, comece com a filosofia clássica como Aristóteles ou Platão.

“As mulheres são limitadas por natureza.
(…) A mulher é como se fosse um macho estéril.”
Aristóteles, 384-322 a.C., filósofo grego, Política

“No que respeita aos animais, o macho é por natureza superior e dominador e a fêmea inferior e dominada. E o mesmo deve necessariamente aplicar-se ao mundo humano.”Aristóteles, 384-322 a.C., filósofo grego, Política

“A coragem do homem revela-se no comando, e a da mulher na obediência.” Aristóteles, 384-322 a.C., filósofo grego, Generation of Animals

Mera coincidência?

Talvez o fato de Platão ter declarado que as piores reencarnações possíveis são as de mulheres e escravos, e que a reencarnação perfeita é a de um homem branco também nos diga algo. Reflexo da sociedade grega? Pois é, reflexo que chega até os dias de hoje incrustado no gênero. De forma alguma eu nego a importância da Filosofia para a interpretação e transformação do mundo, mas negar o papel das teorias feministas que tratam dos gêneros nesse processo é tratar o assunto com ignorância e preconceito.

Essas teorias modernas de genêros só servem para simplificar as coisas, quando na verdade do mundo é bem mais complexo do que realmente aparenta.

Acima de homem e mulheres, somos humanos, e por mais que algumas características influam em nosso comportamento não explicam toda a miséria e nem toda a graça que coexistem em nossa existência.

É claro que as questões morais e éticas são absolutamente complexas, e a teoria de gêneros ao contrário do que você pensa não simplifica as relações, é uma parte não menos complexa delas. Conforme eu for expondo meus pensamentos neste espaço não me limitarei a discutir feminismo, tenho milhares de temas para explorar, considerações sobre situações e teorias diversas, embora você não pareça entender como as questões femininas serão abrangentes na maioria dos casos. Elas fazem parte da minha realidade, do meu dia-a-dia, não estão apenas na imaginação de umas poucas mulheres que ousaram contestar sua condição, lembre-se que eu terei sempre exemplos próximos e reais do que estou expondo aqui. Gostaria de poder dizer que acima de mulher sou humana, mas infelizmente parece que minha condição feminina busca me classificar como inferior a um indivíduo, não só a mim como a todas as outras mulheres. Quando pudermos afirmar que as mulheres enfim são tão indivíduos quanto os homens, livres da construção do gênero, talvez possamos legitimar o estudo geral da “miséria e graça” da nossa existência.

Desculpe-me pela intromissão, mas acho que sua inteligência não deveria ser desperdiçada nessas bobagens.

Você peca em determinar minhas convicções como bobagens e afirmar que estou desperdiçando “inteligência”, além de ser um tanto quanto hostil não parece compreendê-las ou mesmo se esforçar para tal.  Talvez você mesmo devesse dar uma chance às reflexões propostas no meu blog, mesmo que seja para refutá-las anonimamente, ao menos leia com a devida atenção.

Leituras recomendadas:

A mulher eunuco – Germaine Greer

A mulher inteira – Germaine Greer

A sujeição das mulheres – John Stuart

O Segundo Sexo – Simone de Beauvoir

Memórias da Transgressão – Gloria Steinem

PS: Se o anônimo desejar, poderá me indicar uma obra em especial de um filósofo que prometa anular ou diminuir o papel das “teorias modernas do gênero” e questões de libertação da mulher na existência e organização humana, farei questão de ler e comentar devidamente.

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Virada Neandertal

Maldita hora em que eu resolvi participar desse evento nomeado “Virada Cultural”. A promessa era de 24 horas ininterruptas de cultura para todos os gostos, infelizmente eu não consegui tirar proveito de nada disso.
Talvez alguém tenha tido mais sorte, conseguido ver algo realmente interessante, eu, ao contrário, passei 5 horas tentando fazer alguma coisa e no fim das contas não fiz nada.

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Inferno

Sem maiores detalhes sobre o meu rumo, só vou descrever algumas cenas. Já esperava encontrar gente passando mal e aquela coisa toda, mas não naquele nível decadente. Na ambulância próxima ao palco, um homem permanecia desmaiado na maca e uma garota que não devia ter mais que 15 anos vomitando um vinho barato no banco interno, enquanto os policiais traziam mais um homem nos ombros que não podia sequer andar. Ele tinha uma expressão de agonia, olhos revirados, cabelos bastante sujos e roupas surrada, tentou se desvencilhar dos homens e lentamente desabou até o chão. Já sentado, alegava estar bem, mesmo que mal conseguisse falar, e acabaram por deixá-lo ali mesmo, encostado na grade. Havia mais com que se preocupar, chegava uma nova maca com um homem cuja cabeça sangrava, imagino que tenha sido garrafada.

As pessoas em geral gritavam, sem motivo aparente, apenas queriam ser ouvidas, pareciam estar em êxtase. Era óbvio que a grande maioria estava sob algum efeito químico, de quantas substâncias pudermos imaginar, embora o mais comum fossem os vinhos baratos vendidos por ambulantes a cada 5 metros de chão. Era impossível fugir da fumaça, cigarros de todos os tipos infestavam o ambiente, não tínhamos direito à integridade de nossos próprios pulmões. O cheiro de maconha não é exatamente ruim para mim, terrível mesmo é o que ele me representa, a tristeza que eu sinto em analisar o estado dos seus usuários, mas parece que o cigarro comum me irrita mais porque além de escravizar e danificar os fumantes, também invade meu espaço.

A selva permanecia como sempre, os machos agressores violavam suas vítimas psicologicamente e também fisicamente. Encontrei uma colega antiga e bastou um momento que ela se virou para conversar e uma fila de rapazes (será que posso qualificar humanamente?) “vida loka” que passava para ocorreu um abuso, tocaram a bunda dela, como se ela fosse um monte de lixo. O engraçado  interpretar esse gesto, nunca é um tipo de carícia, as mãos não se demoram no local, é apenas um toque ultra rápido que não tem poder para causar nenhuma excitação real, ou seja, o grande intuito é apenas o insulto que causa na vítima. “Veja só, eu toco você se você quiser, te obrigo a oferecer seu corpo para o meu prazer, não há nada que você possa fazer”, essa é a frase implícita nesses atos, visam unicamente reafirmar o status inferior da mulher e sua vulnerabilidade. Solução? A única que consigo imaginar envolve uma bela quadrada e uns miolos espalhados pelo chão, ou vai, pelo menos uma  boa surra que quebre alguns ossos. Meu profundo desejo é que todas as mulheres estejam preparadas para reagir em uma situação dessas, sem precisar de auxílio nenhum, que estejam em plena consciência da dimensão do abuso e violência que aquilo representa, e instantaneamente possam tomar uma atitude radical. Muitas simplesmente ficam paralisadas, sentem medo, vergonha, aprendem a culpar a si mesmas e seus corpos violados pela ocorrência, porque o patriarcado é assim, transfere toda a culpa para a vítima. Não somos frágeis, e temos a responsabilidade de revidar violentamente, por nós e pelas nossas irmãs, não importa o risco. Lembre-se que se você não fizer nada, os monstros continuarão impunes e cada vez mais ousados, atingindo seu propósito terrorista de sujeitar todas as mulheres a seus desejos de horror.

woman-gun

Rape this.

Enfim, voltando à tal Virada, foi praticamente a união de todas as desgraças já mencionadas com o cenário de São Paulo sendo praticamente destruída, desde vandalismo barato até toneladas de lixo por toda a parte. Roubos são um espetáculo à parte, o contraste da população de rua miserável do Centro e da juventude “carpe noctem” com seus celulares e câmeras parecia piada de mau gosto. Fora a mistureba geral das ceninhas, uma fauna diversa de carecas, “anarchos”, góticos… aposto que alguma merda troglodita aconteceu.

A única parte boa foi ter comido no Apfel, restaurante vegetariano com opções veganas maravilhoso, não é sempre que se pode ter uma janta deliciosa à uma da manhã. E também não posso menosprezar minhas boas companhias, o Fred e meus amigos Fagner, Rafael e Drielli, mas vocês sabem que foi uma tremenda perda de tempo. A dica básica é: NUNCA frequente eventos gratuitos, em grande escala e que permitam uso irrestrito de álcool e cigarro (quevirá acompanhado de “adendos”), se não quiser passar nervoso e perder mais uma parcela da sua já defasada esperança humanista.

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