Porque eu chutei as drogas

Vamos a mais um assunto polêmico. Como milhares de outras pessoas por aí, na minha vida eu fiz o caminho clássico na rota do consumo de drogas: Primeiro de tudo o álcool, depois o cigarro, então cresce a quantidade de álcool, daí vem o baseadinho, depois a carrerinha, mescladinhos e droga-de-rave, no meio ali também dá pra colocar uma cola de sapateiro, umas anfetaminas, até mesmo um benflogin. Só não cheguei na picada, ainda bem.

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Vamos lá, experimente uma...

Meus motivos correram em volta do psicológico, um histórico ruim, falta de estrutura familiar, incompreensão, aniquilação de identidade, patriarquismo, sujeição, auto-rebaixamento compulsivo. Chega a ser engraçada a forma com que nossos pais são condicionados a nos ensinar sobre drogas, primeiro eles nos educam grosseiramente até que percamos nossa auto-estima e então, na fase em que mais estamos fragilizados, eles só sabem dizer que “vai nos fazer mal e vamos viciar e nos acabar”. Ora, eu já me sentia acabada, já não me considerava um indivíduo, tinha minhas mágoas à flor da pele e meus anseios ignorados, e ainda queriam me tirar o direito de me anestesiar?

Na minha débil mentalidade de garotinha perturbada eu fui um alvo fácil das drogas, ninguém ali estava preparado para me oferecer uma base firme ou fortalecer minha auto-estima, pobres dos meus pais que só reagiram ao que lhes foi ensinado e devem ter sentido o peso do fracasso naqueles tempos. Por essas e outras, por favor, só tenham filhos após os 30 e depois de ler muito sobre o assunto, aliás, dedicarei um post a isso no futuro.

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dad's tolerance

Por incrível que pareça, as drogas pesadas tinham um poder destrutivo menor para o meu estado emocional do que o álcool em si, a popular brejinha. Mas isso não era tão significativo assim, porque eu nunca usava drogas ilícitas antes de estar suficientemente bêbada. Ou seja, me auto-destruir estava sempre ao alcance, bastava uma parada no boteco que eu podia entornar um conhaque barato e esquecer meu rumo.
A coisa desandou loucamente, a cada idiotice cometida no meio de uma “brisa” eu afundava um pouco mais, até estar atolada na merda até a testa. Não tem salvação não, é uma praga que vai te consumindo, apropriando a sua mente, enganando seus sentidos. Você imagina que está se divertindo, você troca qualquer resquício de consciência por mais uma onda de prazer, até que sua identidade não tenha mais valor algum.
Apoiada no senso comum de que eu não poderia me acabar “tanto”, acabei largando as drogas mais pesadas. Mas a sensação de vazio nunca melhorava, e o vilão álcool continuava presente em todos os momentos que deveriam ser de “lazer”.

Para os momentos em que não se podia encher a cara e gritar, servia um maço de Marlboro mesmo, pra dar aquela “relaxada”. Escravidão pouca é bobagem, eu dependi de drogas por muito tempo.

Não vou usar a frase do xDestroy Babylonx, “Vegan Straight Edge saved my life”, como imaginam, mas acho que foi próximo disso. Devo muito ao homem que eu amo por isso, primeiro eu descobri o amor-próprio, depois o veganismo me fez sentir na pele a compaixão e o valor da ética, e em seguida o straight edge me fez refletir por muito tempo. Ainda tenho meus receios pessoais quanto à identidade straight edge, por isso não aproprio, mas a idéia me levou a um novo ponto de vista sobre drogas. Para mim não bastava negar as drogas somente por mim mesma afinal, eu precisava negar as drogas por um motivo político.

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My faith

O que “fizeram” a mim e a tantas outras pessoas não era normal, todos os aspectos da construção social levavam ao cenário perfeito da disseminação das drogas:
“Mentira mental é a definição perfeita para a cultura do álcool na vida das pessoas, a pessoa que não consegue um bem-estar satisfatório sem beber costuma se convencer de que essa é uma situação normal e que o conforto da bebida é a única saída. É também encorajada pela mídia a prosseguir com hábito e levar de uma forma “bem-humorada”, chegando ao extremo de se divertir com a mazela “bebo pra esquecer”. Dentre outras muitas frases de efeito com significados miseráveis que são encaradas como normais: “bebo pra ficar ruim, se fosse prá ficar bom tomava remédio”, “bebo sim e to vivendo”, “bebo sim e vc que é feio”, essas pérolas são incrustadas na consciência das pessoas sem NENHUM filtro crítico.” Por mim mesma

I want you to be a drunk rapist.

Levou tempo e esforço para que eu percebesse que tinha perdido a capacidade de me divertir sem o álcool, foi chocante entender o quão reprimida eu era, acreditando nas ilusões baratas que me vendiam. O próximo passo foi perceber a indústria, a cultura da glamourização da droga, o incentivo da mídia. Vi como as mulheres eram objetificadas e usadas de forma degradante nas propagandas de álcool, como os machos criaram valores masculinistas associados às bebidas. Vi os jovens de todas as idades cultuando a ditadura do álcool, competindo entre si para decidir quem consegue desestabilizar mais a própria consciência e intoxicar mais o corpo sem desmaiar, exibindo suas latinhas vazias como campeões, enquanto nem mesmo podiam andar sem tropeçar. Criou-se uma hierarquia doentia de dominância através do álcool, as pessoas procuram se auto-afirmar e provar sua resistência e valor pela ingestão de uma droga depressora!

Eles dizem que isso é "engraçado".

Ver tudo isso me fez acordar de um pesadelo e renascer em outro muito maior, a realidade é realmente um desafio para qualquer mente sóbria. Descobri minha própria consciência, passei a almejar o conhecimento, neguei os princípios deturpados que outrora me enfiaram goela abaixo. Entendi que o álcool não era somente uma porta de entrada para as outras drogas, é também um vício que estará sempre presente como principal e mais perigosa influência, trazendo consigo o selo de aprovação da sociedade. Consegui analisar o rosto do trabalhador do mainstream caindo de bêbado no boteco depois do expediente, e encontrar a mesma expressão frustrada do jovem com jaco de rebites encostado em um balcão da Augusta elogiando sua Heineken. Todos no mesmo barco, todos privados de sua autonomia.

Abandonar todas as substâncias que alteram minha mente fez de mim uma pessoa mais forte, mas também escancarou as infinitas possibilidades de queda e fracasso que a nossa sociedade oferece. Viver sóbria é uma luta constante contra a indignação, é ter os seus impulsos à flor da pele e somente a seu próprio controle para aliviá-los. Não tem espaço para escapismo, ou você confronta ou você desaba.

Como diz a Davin do xKingdomx, o que temos na vida senão nossas próprias consciências?

DON’T FUCKING TRY TO PROVE YOUR MATURITY BY AVOIDING YOUR LIFE!

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  1. #1 por Michel Amary Neto em 17/04/2009 - 15:50

    Não sabia da sua história, você é mais um vencedora. Tenho orgulho da pessoa que é !!!
    Queria comentar sobre algo sobre a degradação da sociedade pelo alcool, mas você mais do que eu sabe as causas e as consequencias. Assino embaixo tudo que disse.

    Stay Strong, Stay Free, Forever True !! XXX

  2. #2 por lulux em 04/02/2011 - 3:21

    É muito dificil estar em um meio social e não ver ao menos álcool, e muito, durante todo o tempo. Eu não gosto de beber, justamente pela perda de consciência, e quando o faço, é sozinha (um pouco estranho, eu sei!). Bebo sozinha pois acho que ficar idiota na frente dos outros não é realmente interessante. Ficaria envergonhada e arrependida a respeito dos meus atos bestas. E posso dizer que sofro por não querer beber. Acredito que, mais do que ditados como “bebo pra esquecer”, a pressão social para o consumo de drogas é o que mais faz as pessoas as utilizarem. Algumas vezes sou tachada como chata ou “certinha” por não beber. Mas acontece que eu sou muito alegre, evasiva e inconsequente por natureza, então não sinto a necessidade de consumir algo, principalmente pois gosto de ter a cabeça no lugar durante todo o tempo. Quando meus amigos bebem, é como se eu ficasse bêbada por osmose, pois me animo junto com eles. Algumas vezes já ouvi: “Se você não beber e fizer tal coisa, vão ficar com má impressão de você, porque estava sóbria”. É, a bebida, além de tudo, é uma desculpa plausível para atos de “loucura” (atos que, na realidade, são inofensivos, mas parecem ser extremos, julgando como as pessoas normais tentam fielmente se ater às normas, ao menos enquanto sóbrios).

    • #3 por cely em 08/02/2011 - 20:24

      Olá Lulux,

      Preciso dar um update nesse post! Bebo um pouco de cerveja hoje em dia, mas nada de mais, nunca me permito perder o controle. Também acho que existe uma pressão monstruosa para consumir drogas, especialmente o álcool, que torna muitas pessoas simplesmente insuportáveis por não conseguirem se entreter sem isso.

      Bjs

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