Amor livre é o caralho

É isso mesmo, estou perdendo a paciência com os entusiastas do “amor livre”. Simplesmente porque eu não vejo liberdade no modelo que foi criado, talvez uma tentativa fracassada de democratizar a libido.

Engulam essa:A vida é curta, tenha um affair.

O grande argumento é que a monogamia seria um sistema familiar-patriarcal totalmente inválido, cercado de idéias puritanas e opressão do desejo. Não discordo, acho que a família nuclear é um modelo que dá muita margem para a hipocrisia, e foi criado também com intento de anular as mulheres. Porém, o que temos na prática? A velha monogamia esteve presente sempre como fachada, na realidade enquanto mulheres eram prisioneiras do lar os homens já eram promíscuos o quanto desejassem em suas saídas noturnas. Hoje em dia temos um cenário um pouco diferente, a impressão que a mídia passa é que devemos prosseguir com o modelo da monogamia corrompida para ambos os sexos, como se o dito “correto” ainda fosse o amor a dois, mas ao mesmo tempo aprovando e encorajando a infidelidade nas entrelinhas.

Isso para mim não representa que a poligamia é o correto, representa simplesmente que os valores de lealdade e respeito foram esquecidos e mascarados por um suposto modelo de opressão, eles nunca foram valorizados afinal. Primeiro, encorajaram os homens a isso, e hoje a partir de uma “Revolução Sexual” feminina (que por acaso só significou que as mulheres estariam mais disponíveis), tentam nos guiar para o mesmo sentido, na direção de uma sociedade “sex positive”.

E aí chegamos até a construção de papéis, observando de perto o regime poligâmico me parece mais vantajoso novamente para os machos do que para as mulheres. Simplesmente porque os grupos que promovem a poligamia estão ao mesmo tempo contaminados de valores patriarcais que apropriam o corpo das mulheres, convença-me se puder de que em meio à poligamia o sexismo desaparece milagrosamente.

Revolução Sexual = Estupro

É bem esse o ponto, para mim a poligamia-patriarcal é muito mais perigosa do que a monogamia-patriarcal. O “amor livre” cria selos de aprovação para usar corpos de outras pessoas, sem maior envolvimento ou responsabilidade com elas. Para mim, pessoas NÃO PODEM SER USADAS, pessoas são indivíduos e não brinquedos ou portos de diversão temporária. Eu duvido profundamente que alguém consiga manter relacionamentos mútuos que não sejam estritamente sexuais e mesmo assim manter o respeito e saúde mental de todos os envolvidos. Quem mais perde nesse jogo são as mulheres, já que estão inseridas em um sistema de dominação masculina, continuam sendo as “presas” dentro dos moldes poligâmicos. Assim, já que estamos sendo visadas, devemos então nos tornar as próximas predadoras do jogo? Eu não acredito nessa revolução, o custo da igualdade não pode ser a apropriação de valores mesquinhos e egoístas do macho, precisamos de relações justas e transparentes.

Temos também a questão da mentira e da traição, falhas de caráter graves porém totalmente aceitáveis do nosso ponto de vista moderno. É comum ver pessoas dissimuladas que enganam parceiros e alegam direito de escolha ou amor livre, mas esquecem do respeito e da integridade, praticamente o auge do egocentrismo. Alguns ousam dizer que pessoas possuem a necessidade de “trair”, as pessoas chegam ao nível de justificar um grau maior de infidelidade masculino com apologias biológicas! Como se o homem tivesse um desejo sexual superior e “incontrolável”, ou seja, “escravos” da própria testosterona. Enganem a quem quiserem, mas não a mim. Mulheres têm o mesmo apetite sexual masculino, o que acontece é que a construção de gênero condiciona os machos a assumirem um papel de “predadores” sexuais, enquanto as mulheres são castradas de toda a sua virilidade e colocadas em uma posição de passividade.

Há ainda a idéia de que sempre estaremos desejando e sentindo tesão por outras pessoas que não o parceiro “oficial”, e por isso a poligamia faz sentido. A questão do desejo é absolutamente subjetiva, se alguns querem levar “fantasias” adiante sem nem ao menos fazer um auto-questionamento e descobrir a razão, ou mesmo ponderar suas escolhas, que fiquem cientes de que o parceiro deverá estar a par de toda a situação. É muito fácil alegar que vontades não podem ser reprimidas e assim abrir mão de qualquer responsabilidade pelos sentimentos alheios, ou sair por aí se entregando a qualquer estímulo barato sem nunca tomar consciência do sentido real de uma relação. As pessoas são oportunistas, é confortável ceder à incitação constante e violenta que sofremos para fazer sexo, muito sexo, erotizar corpos o tempo todo e ceder a qualquer “tentação” na busca desenfreada pelo prazer pessoal. Glamorização sexual nós temos de sobra, gozar não é nada revolucionário.

A minha proposta pessoal é ampla, e depende de diversos fatores. Primeiro, precisaríamos desconstruir nossos gêneros e se relacionar de uma forma totalmente nova, com a presença de uma igualdade real de escolhas e comportamentos. Só então eu acredito que as pessoas poderão definir se querem seguir um padrão monogâmico ou mesmo poligâmico, sendo que qualquer um dos dois precisa envolver respeito e cooperação. Eu acho um absurdo propor poligamia na situação em que estamos, gostaria de deixar claro que as pessoas são livres até mesmo para escolher esse modelo e eu não tenho nada contra escolhas próprias, desde que não haja qualquer prejuízo para as partes envolvidas. Mas estou de saco cheio de todas as pessoas que usam o pretexto da poligamia e apóiam a promiscuidade, sem considerar qualquer aspecto que não seja seus próprios umbigos.

Vocês não me convencem com essa super-valorização da própria libido, deveriam primeiro entender que sexo não é uma mera diversão. Se não conseguem ter uma relação de cumplicidade e verdade com uma pessoa, conseguirão ter com várias? Somos todos RESPONSÁVEIS pelas pessoas com quem nos relacionamos, seu orgasmo não vale mais do que a justiça.

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  1. #1 por Michel Amary Neto em 17/04/2009 - 16:38

    Estou lendo um livro “Amor Líquido”, de um sociologo polonês chamado Z. Bauman, que discorre sobre a fragilidade das relações humanas. Essa “poligamia” seria, primeiro, a tentativa frustrada de encontrar o verdadeiro sentido do amor. As pessoas tendem a acham que ao acumular experiências estarão melhores preparadas para as próximas relações. Na verdade essa ilusão apresenta um desvio do sentido de amar e torna as pessoas impotentes frente seus sentimentos. O amor como sentimento único entra em conflito com essa compulsão adquirida, frustra a possibilidade de outras experiências vazias e descartáveis. O conceito de descarte aqui é reflexo da sociedade pós-moderna. O consumismo nao sustenta mais a percepção de que temos que acumular bens, e sim, a valorização da ideia de que temos que usar e descartar, uma vez que, teriamos mais espaços para alimentar o consumo, sentido de uma vida vazia. A forma como se comporta esse movimento (consumo) repercurte no modo de pensarmos e nos relacionarmos. Resumindo: sem amor, confiança e respeito, todos somos descartáveis.

    Coloquei um trecho do livro no meu arquivo. Leia lá, é o que está em destaque: osocoracional.wordpress.com

  2. #2 por pedro keppler em 15/05/2009 - 11:16

    Cely,

    eu acho que sua visão da poligamia é tão negativamente idealizada quanto a sua visão de monogamia é positivamente idealizada. O final do seu texto coloca bem a minha postura, mas eu iria mais fundo: “Se não conseguem ter uma relação de cumplicidade e verdade com uma pessoa, conseguirão ter com várias?”. Eu vejo isso como: “se não conseguem ter uma relação de cumplicidade consigo mesmas, como conseguirção ter com uma?”. As pessoas deveriam poder fazer suas próprias escolhas e não serem empurradas à poligamia ou à monogamia por modelos impostos. É assim que eu consigo discordar de uma poligamia cafageste que você critica e uma monogamia que nos desce pela goela. É questão de esclarecer a sua vontade.

    )))

    Gostei bastante do seu blog, você anda escrevendo muito bem, parabéns.

  3. #3 por anonima... em 02/02/2010 - 17:05

    cely, eu sou a anonima do post acima… por favor nao publique isso ok?
    Outro grande beijo.

    • #4 por whothehelliscely em 02/02/2010 - 22:52

      Querida anônima, não publicarei seu relato, mas por favor se identifique só pra mim pelo meu e-mail> cely_bandolero@hotmail.com, eu adoraria conversar com você! Beijos

  4. #5 por Narayan em 11/04/2010 - 0:36

    O “amor livre” cria selos de aprovação para usar corpos de outras pessoas, sem maior envolvimento ou responsabilidade com elas. Para mim, pessoas NÃO PODEM SER USADAS, pessoas são indivíduos e não brinquedos ou portos de diversão temporária.

    esse seria bem um comentário meu!

    beijão!

  5. #6 por ína em 28/04/2011 - 13:09

    Oi, Cely!

    Eu gosto muitos dos teus textos.. já li quase tudo por aqui. 🙂 Mas, desse eu tenho que discordar.. em vários pontos.

    Os defensores do amor livre, do poliamor, das relações abertas, ou seja lá o nome que se dê a todas as formas não-monogâmicas de relacionamento tem como primeira meta a sinceridade e transparência. Isso equivale a dizer que as regras (é angraçado falar de regras quando queremos falar de liberdade, mas tá valendo). Não se quer enganar o parceiro sendo que a tal liberdade não seria unilateral. Quem defende, quer principalmente, respeitar seu parceiro. não quer engana-lo.

    A outra coisa: existem pessoas que sentem amor por duas pessoas… sentem ligações profundas com mais de uma pessoa… e isso não tem nada a ver com usar o corpo ou a outra pessoa. E mesmo que a pessoa seja “promíscua” e ela deixe isso claro pro parceiro e ele concordando… quem há de dizer que isso não é legal se as partes concordam? Eu vejo um grande problema em falar em promiscuidade, sabe? O que é isso mesmo? É que acho que quando falamos nisso, não temos um critério bem defenido.. e acho mesmo que aí consideramos o sexo como algo sagrado que so podemos fazer quando existe uma forte ligação coma a outra pessoa. E sexo se faz, sobretudo, por vontade mesmo… eu acho que não deve ser banalizado… no sentido de vulgarizado, mas considerado normal como qualquer outra atividade.. e assim como não dveramos comer qualquer coisa.. nem tomar qualquer agua, não deveriamos tb fazer “qualquer” sexo. Mas, essas são todas escolhas pessoais.. não há como manter um criterio pra todos.. e as vezes, que a palavra promiscuidade quer estabelecer (não sei como, como já disse antes não consigo enteder qual o citério pra isso) um padrão.

    Outra coisa e aí é sobre o comenátrio das relações liquidas: eu acho que o modelo monogamico mentiroso de hj favorece mt mais essas relações sem compromisso afetivo. Pq eu acho isso? Ora, se não podemos estabelecer relações paralelas, a cada nova temos um impulso de viver aquela nove a deixarmos aquela antiga, uma vez que não podemos viver as duas. Claro, que eu não acho que o amor se encontre em qualquer esquina, assim como não encotramos amigos de verdade tb. E se alguém é meio volúvel.. ele tem direito de ser assim tb. Desde que seja claro com o parceiro sempre. Eu acho que uma boa parte das vezes, a gente não enjoa de quem tá perto, so se sente vontade tb de estar com outros, Mas, como se tem a o´brigatoriedade da monogamia a relação acaba virando um peso.. e aí temrina e se vai pra outra, e pra outra e outra. Enfim, mas isso são so achimos meus.

    Só queria dizer que realmente, acho que as pessoas devem ter consiceincia de tudo antes de abrir mão da monogamia. Eu já conheço alguns casais que fazem isso e curtem a vida numa boa. Um desses casos, a menina que pediu pra poder ficar com meninas, pq ela gosta de meninas tb. E o parceiro concordou. E eles são felizes… so que foi tudo conversado.

    Pra vc ter uma ideia, eu não abri mão da monogamia… só que eu acho que cada casal deve decidir o que é mlehor pra ambos.. sem jogar fora nenhuma possibilidade. 🙂

    Um bjão e adoro tuas ideias!

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