Arquivo de abril \16\UTC 2009

Porque eu chutei as drogas

Vamos a mais um assunto polêmico. Como milhares de outras pessoas por aí, na minha vida eu fiz o caminho clássico na rota do consumo de drogas: Primeiro de tudo o álcool, depois o cigarro, então cresce a quantidade de álcool, daí vem o baseadinho, depois a carrerinha, mescladinhos e droga-de-rave, no meio ali também dá pra colocar uma cola de sapateiro, umas anfetaminas, até mesmo um benflogin. Só não cheguei na picada, ainda bem.

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Vamos lá, experimente uma...

Meus motivos correram em volta do psicológico, um histórico ruim, falta de estrutura familiar, incompreensão, aniquilação de identidade, patriarquismo, sujeição, auto-rebaixamento compulsivo. Chega a ser engraçada a forma com que nossos pais são condicionados a nos ensinar sobre drogas, primeiro eles nos educam grosseiramente até que percamos nossa auto-estima e então, na fase em que mais estamos fragilizados, eles só sabem dizer que “vai nos fazer mal e vamos viciar e nos acabar”. Ora, eu já me sentia acabada, já não me considerava um indivíduo, tinha minhas mágoas à flor da pele e meus anseios ignorados, e ainda queriam me tirar o direito de me anestesiar?

Na minha débil mentalidade de garotinha perturbada eu fui um alvo fácil das drogas, ninguém ali estava preparado para me oferecer uma base firme ou fortalecer minha auto-estima, pobres dos meus pais que só reagiram ao que lhes foi ensinado e devem ter sentido o peso do fracasso naqueles tempos. Por essas e outras, por favor, só tenham filhos após os 30 e depois de ler muito sobre o assunto, aliás, dedicarei um post a isso no futuro.

drugs-are-u-on-drugs-you-bad-evil

dad's tolerance

Por incrível que pareça, as drogas pesadas tinham um poder destrutivo menor para o meu estado emocional do que o álcool em si, a popular brejinha. Mas isso não era tão significativo assim, porque eu nunca usava drogas ilícitas antes de estar suficientemente bêbada. Ou seja, me auto-destruir estava sempre ao alcance, bastava uma parada no boteco que eu podia entornar um conhaque barato e esquecer meu rumo.
A coisa desandou loucamente, a cada idiotice cometida no meio de uma “brisa” eu afundava um pouco mais, até estar atolada na merda até a testa. Não tem salvação não, é uma praga que vai te consumindo, apropriando a sua mente, enganando seus sentidos. Você imagina que está se divertindo, você troca qualquer resquício de consciência por mais uma onda de prazer, até que sua identidade não tenha mais valor algum.
Apoiada no senso comum de que eu não poderia me acabar “tanto”, acabei largando as drogas mais pesadas. Mas a sensação de vazio nunca melhorava, e o vilão álcool continuava presente em todos os momentos que deveriam ser de “lazer”.

Para os momentos em que não se podia encher a cara e gritar, servia um maço de Marlboro mesmo, pra dar aquela “relaxada”. Escravidão pouca é bobagem, eu dependi de drogas por muito tempo.

Não vou usar a frase do xDestroy Babylonx, “Vegan Straight Edge saved my life”, como imaginam, mas acho que foi próximo disso. Devo muito ao homem que eu amo por isso, primeiro eu descobri o amor-próprio, depois o veganismo me fez sentir na pele a compaixão e o valor da ética, e em seguida o straight edge me fez refletir por muito tempo. Ainda tenho meus receios pessoais quanto à identidade straight edge, por isso não aproprio, mas a idéia me levou a um novo ponto de vista sobre drogas. Para mim não bastava negar as drogas somente por mim mesma afinal, eu precisava negar as drogas por um motivo político.

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My faith

O que “fizeram” a mim e a tantas outras pessoas não era normal, todos os aspectos da construção social levavam ao cenário perfeito da disseminação das drogas:
“Mentira mental é a definição perfeita para a cultura do álcool na vida das pessoas, a pessoa que não consegue um bem-estar satisfatório sem beber costuma se convencer de que essa é uma situação normal e que o conforto da bebida é a única saída. É também encorajada pela mídia a prosseguir com hábito e levar de uma forma “bem-humorada”, chegando ao extremo de se divertir com a mazela “bebo pra esquecer”. Dentre outras muitas frases de efeito com significados miseráveis que são encaradas como normais: “bebo pra ficar ruim, se fosse prá ficar bom tomava remédio”, “bebo sim e to vivendo”, “bebo sim e vc que é feio”, essas pérolas são incrustadas na consciência das pessoas sem NENHUM filtro crítico.” Por mim mesma

I want you to be a drunk rapist.

Levou tempo e esforço para que eu percebesse que tinha perdido a capacidade de me divertir sem o álcool, foi chocante entender o quão reprimida eu era, acreditando nas ilusões baratas que me vendiam. O próximo passo foi perceber a indústria, a cultura da glamourização da droga, o incentivo da mídia. Vi como as mulheres eram objetificadas e usadas de forma degradante nas propagandas de álcool, como os machos criaram valores masculinistas associados às bebidas. Vi os jovens de todas as idades cultuando a ditadura do álcool, competindo entre si para decidir quem consegue desestabilizar mais a própria consciência e intoxicar mais o corpo sem desmaiar, exibindo suas latinhas vazias como campeões, enquanto nem mesmo podiam andar sem tropeçar. Criou-se uma hierarquia doentia de dominância através do álcool, as pessoas procuram se auto-afirmar e provar sua resistência e valor pela ingestão de uma droga depressora!

Eles dizem que isso é "engraçado".

Ver tudo isso me fez acordar de um pesadelo e renascer em outro muito maior, a realidade é realmente um desafio para qualquer mente sóbria. Descobri minha própria consciência, passei a almejar o conhecimento, neguei os princípios deturpados que outrora me enfiaram goela abaixo. Entendi que o álcool não era somente uma porta de entrada para as outras drogas, é também um vício que estará sempre presente como principal e mais perigosa influência, trazendo consigo o selo de aprovação da sociedade. Consegui analisar o rosto do trabalhador do mainstream caindo de bêbado no boteco depois do expediente, e encontrar a mesma expressão frustrada do jovem com jaco de rebites encostado em um balcão da Augusta elogiando sua Heineken. Todos no mesmo barco, todos privados de sua autonomia.

Abandonar todas as substâncias que alteram minha mente fez de mim uma pessoa mais forte, mas também escancarou as infinitas possibilidades de queda e fracasso que a nossa sociedade oferece. Viver sóbria é uma luta constante contra a indignação, é ter os seus impulsos à flor da pele e somente a seu próprio controle para aliviá-los. Não tem espaço para escapismo, ou você confronta ou você desaba.

Como diz a Davin do xKingdomx, o que temos na vida senão nossas próprias consciências?

DON’T FUCKING TRY TO PROVE YOUR MATURITY BY AVOIDING YOUR LIFE!

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Amor livre é o caralho

É isso mesmo, estou perdendo a paciência com os entusiastas do “amor livre”. Simplesmente porque eu não vejo liberdade no modelo que foi criado, talvez uma tentativa fracassada de democratizar a libido.

Engulam essa:A vida é curta, tenha um affair.

O grande argumento é que a monogamia seria um sistema familiar-patriarcal totalmente inválido, cercado de idéias puritanas e opressão do desejo. Não discordo, acho que a família nuclear é um modelo que dá muita margem para a hipocrisia, e foi criado também com intento de anular as mulheres. Porém, o que temos na prática? A velha monogamia esteve presente sempre como fachada, na realidade enquanto mulheres eram prisioneiras do lar os homens já eram promíscuos o quanto desejassem em suas saídas noturnas. Hoje em dia temos um cenário um pouco diferente, a impressão que a mídia passa é que devemos prosseguir com o modelo da monogamia corrompida para ambos os sexos, como se o dito “correto” ainda fosse o amor a dois, mas ao mesmo tempo aprovando e encorajando a infidelidade nas entrelinhas.

Isso para mim não representa que a poligamia é o correto, representa simplesmente que os valores de lealdade e respeito foram esquecidos e mascarados por um suposto modelo de opressão, eles nunca foram valorizados afinal. Primeiro, encorajaram os homens a isso, e hoje a partir de uma “Revolução Sexual” feminina (que por acaso só significou que as mulheres estariam mais disponíveis), tentam nos guiar para o mesmo sentido, na direção de uma sociedade “sex positive”.

E aí chegamos até a construção de papéis, observando de perto o regime poligâmico me parece mais vantajoso novamente para os machos do que para as mulheres. Simplesmente porque os grupos que promovem a poligamia estão ao mesmo tempo contaminados de valores patriarcais que apropriam o corpo das mulheres, convença-me se puder de que em meio à poligamia o sexismo desaparece milagrosamente.

Revolução Sexual = Estupro

É bem esse o ponto, para mim a poligamia-patriarcal é muito mais perigosa do que a monogamia-patriarcal. O “amor livre” cria selos de aprovação para usar corpos de outras pessoas, sem maior envolvimento ou responsabilidade com elas. Para mim, pessoas NÃO PODEM SER USADAS, pessoas são indivíduos e não brinquedos ou portos de diversão temporária. Eu duvido profundamente que alguém consiga manter relacionamentos mútuos que não sejam estritamente sexuais e mesmo assim manter o respeito e saúde mental de todos os envolvidos. Quem mais perde nesse jogo são as mulheres, já que estão inseridas em um sistema de dominação masculina, continuam sendo as “presas” dentro dos moldes poligâmicos. Assim, já que estamos sendo visadas, devemos então nos tornar as próximas predadoras do jogo? Eu não acredito nessa revolução, o custo da igualdade não pode ser a apropriação de valores mesquinhos e egoístas do macho, precisamos de relações justas e transparentes.

Temos também a questão da mentira e da traição, falhas de caráter graves porém totalmente aceitáveis do nosso ponto de vista moderno. É comum ver pessoas dissimuladas que enganam parceiros e alegam direito de escolha ou amor livre, mas esquecem do respeito e da integridade, praticamente o auge do egocentrismo. Alguns ousam dizer que pessoas possuem a necessidade de “trair”, as pessoas chegam ao nível de justificar um grau maior de infidelidade masculino com apologias biológicas! Como se o homem tivesse um desejo sexual superior e “incontrolável”, ou seja, “escravos” da própria testosterona. Enganem a quem quiserem, mas não a mim. Mulheres têm o mesmo apetite sexual masculino, o que acontece é que a construção de gênero condiciona os machos a assumirem um papel de “predadores” sexuais, enquanto as mulheres são castradas de toda a sua virilidade e colocadas em uma posição de passividade.

Há ainda a idéia de que sempre estaremos desejando e sentindo tesão por outras pessoas que não o parceiro “oficial”, e por isso a poligamia faz sentido. A questão do desejo é absolutamente subjetiva, se alguns querem levar “fantasias” adiante sem nem ao menos fazer um auto-questionamento e descobrir a razão, ou mesmo ponderar suas escolhas, que fiquem cientes de que o parceiro deverá estar a par de toda a situação. É muito fácil alegar que vontades não podem ser reprimidas e assim abrir mão de qualquer responsabilidade pelos sentimentos alheios, ou sair por aí se entregando a qualquer estímulo barato sem nunca tomar consciência do sentido real de uma relação. As pessoas são oportunistas, é confortável ceder à incitação constante e violenta que sofremos para fazer sexo, muito sexo, erotizar corpos o tempo todo e ceder a qualquer “tentação” na busca desenfreada pelo prazer pessoal. Glamorização sexual nós temos de sobra, gozar não é nada revolucionário.

A minha proposta pessoal é ampla, e depende de diversos fatores. Primeiro, precisaríamos desconstruir nossos gêneros e se relacionar de uma forma totalmente nova, com a presença de uma igualdade real de escolhas e comportamentos. Só então eu acredito que as pessoas poderão definir se querem seguir um padrão monogâmico ou mesmo poligâmico, sendo que qualquer um dos dois precisa envolver respeito e cooperação. Eu acho um absurdo propor poligamia na situação em que estamos, gostaria de deixar claro que as pessoas são livres até mesmo para escolher esse modelo e eu não tenho nada contra escolhas próprias, desde que não haja qualquer prejuízo para as partes envolvidas. Mas estou de saco cheio de todas as pessoas que usam o pretexto da poligamia e apóiam a promiscuidade, sem considerar qualquer aspecto que não seja seus próprios umbigos.

Vocês não me convencem com essa super-valorização da própria libido, deveriam primeiro entender que sexo não é uma mera diversão. Se não conseguem ter uma relação de cumplicidade e verdade com uma pessoa, conseguirão ter com várias? Somos todos RESPONSÁVEIS pelas pessoas com quem nos relacionamos, seu orgasmo não vale mais do que a justiça.

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Justiça pelas próprias mãos

Justiça com as próprias mãos, quem nunca se confrontou com essa idéia? Primeiro, devemos sempre nos lembrar do quanto é perigoso se colocar na posição de juiz, do quanto nossas decisões e impulsos são influenciados e construídos. Segundo, é preciso considerar quais sentimentos estão guiando a ação, se nosso rancor e ódio não estão centrados em uma questão mais pessoal do que coletiva. E por último, medir as conseqüências de modo que façam sentido para o maior número de pessoas possível, desviando das idéias egocêntricas e mesquinhas.

Vou te chamar de...justiça.

Além disso, temos uma “Justiça” que promete punir aqueles que ousarem desafiar seu poder supremo, mas talvez esse seja o mais irrelevante dos fatos, afinal a última preocupação de quem faz justiça com as próprias mãos é dever algum respeito ou temor às leis do Estado.

E toda essa conversa é necessária para justificar meu próprio ódio, mesmo que nem assim eu consiga fazê-lo. A verdade mesmo é que eu não pensaria duas vezes em diversas situações, pois elas já atormentaram meus pensamentos por tempo suficiente. Quando você já não tem esperança, quando tudo o que poderia ser feito dentro de padrões “aceitáveis” já fracassou, quando você se olha no espelho e percebe que tem algo dentro de si que já não aceita mais suas próprias desculpas… Nesse momento a sua sede de justiça é a única e verdadeira lei.

Não adianta mais me dizer que não é meu direito ditar o que é justo, que minhas idéias são radicais, que precisamos respeitar direitos humanos ou coisa do tipo. Eu estou com uma raiva do caralho, essa é a real, eu estou de saco cheio dessa merda toda e de ter que confiar o que é justo a um bando de filhos da puta. Estamos afundando em caos dia após dia, em pouco tempo estaremos ouvindo o toque de recolher, e tudo o que fazem a respeito é competir feito selvagens massacrando uns aos outros.

Eu não agüento mais ver monstros abusando do medo de mulheres, monstros aniquilando os animais, monstros matando inocentes, monstros conspirando pelo poder, monstros que se deliciam com a dor alheia, ou simplesmente debocham. E principalmente, não agüento mais as brincadeiras repletas de ódio de vocês, a propaganda de ódio na televisão, a mentalidade de ódio incrustada nas suas almas, e a cara de imbecil que vocês fazem quando não entendem do que eu estou falando afinal.

Carpe Diem é o caralho, seus vermes. Enquanto vocês vêem diversão em tudo estamos mergulhando no abismo. Enquanto vocês enchem o cu de cerveja para esquecer quem são, estamos caminhando para o caos. Vocês cospem no próprio caráter enquanto a situação se torna irreversível. Vocês debocham da ética, exaltam a ignorância e glorificam a má-fé, vocês militam pela desgraça em troca de uma migalha de status. O que temos senão nossas próprias consciências? Vocês abriram mão da integridade, e agora estamos todos pagando o preço.

Estamos todos no mesmo barco, o que os outros fazem é problema nosso SIM. Até que comecem a chutar de vez todo esse egocentrismo compulsivo não moverão sequer um músculo a favor do que é justo. Todos deveriam morrer de vergonha por serem capazes de ignorar os problemas alheios.

Por esses e outros motivos eu defendo SIM as ações de justiça “com as próprias mãos”, desde que com muita responsabilidade. E como eu já escrevi antes na forma de letra:


CADA ATITUDE MISERÁVEL QUE VOCÊ TEM ME FAZ QUERER ESMAGAR SUA CABEÇA, MAS A MAIS CRUEL CONSEQUÊNCIA DO SEU COMPORTAMENTO É TIRAR A ESPERANÇA QUE AINDA ME RESTA.

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