Women fight back! Diariamente…

Talvez eu deva começar relatando uma das experiências mais expressivas que tive recentemente, isso porque muitas vezes me falta fôlego para contá-la com a voz. Ora, me julgava preparada para as mais diversas tensões, totalmente calejada, e fui surpreendida por uma situação trivial.

Era Terça-Feira, uma chuva fora do comum parou a cidade, e eu que dependo do metrô para voltar para casa às 17h30 tive que enfrentar o caos. Faço 2 baldeações, uma para a linha azul e outra para a vermelha, na primeira havia muita gente aglomerada mas depois de uns cinco trens entrei sem maiores problemas. O vagão como sempre estava sufocante, e dois corpos quase ocupavam o mesmo espaço, mas nada de anormal.

Quando cheguei na estação Sé para a segunda baldeação o quadro era chocante, a multidão estava chegando perto das lojinhas da estação, e cada vez chegava mais gente. Resolvi esperar, já prevendo meu pânico de ser empurrada e querer revidar ali naquela confusão, ia ser dor de cabeça demais. Quando o trem se aproximou, iniciou-se o circo dos horrores: era possível ver claramente homens empurrando com brutalidade as outras pessoas em uma atitude extremamente egoísta, e ainda por cima dando risadinhas, pude enxergar o sadismo e o descaso na expressão de cada um.

Mas o pior estava por vir, vendo aqueles sorrisos macabros imaginei algo ainda mais miserável, mas tentei esquecer. Quando, de repente, no momento da abertura das portas ecoaram pela estação berros agudos de mulheres.

Não conseguia entender porque aquilo não transtornava as pessoas em volta, mas meu estômago embrulhou instantaneamente e eu senti um gelo na espinha. Os berros continuavam, exprimiam um desespero único, e  bastou um olhar mais atento para perceber as reações de cada um. Vi homens que ouviam os gritos e quase inconscientemente olhavam para a mulher próxima, com um olhar de malícia cruel que eu tenho nojo de descrever, como se estivessem visando sua vítima. Nesse momento vi mulheres desistindo e esperando ao meu lado, e no olhar das outras era nítido o terror e a preocupação de olhar para trás a cada minuto.

Somos donas de nossos corpos? Sentia meu enjôo piorando enquanto pensava nessa questão, pensava que naquele momento mulheres sofriam um abuso brutal e impune. Queria entrar correndo ali no meio e com uma bela lâmina desfigurar todos aqueles sorrisos diabólicos, porque eu sabia melhor do que ninguém o que eles significavam. Mas, alguém mais viu?…

Acabei esperando e chamando o meu namorado para me ajudar a embarcar, e quando cheguei em casa resolvi pesquisar na internet sobre o assunto. Descobri que já existiam os women only passenger cars, vagões destinados somente a mulheres criados no Japão, e para a minha surpresa existiam no metrô do Rio de Janeiro. O mais nauseante foi ler que as mulheres japonesas eram as que mais sofriam com os “chikans”, denominação para os abusadores, pois sentiam demasiada vergonha para esboçar qualquer reação. Até campanhas foram feitas para tentar alarmar a população, como no cartaz abaixo, com as palavras “Chikan é crime”.

Campanha do metrô japonês

Campanha do metrô japonês

Os vagões para mulheres pareceram a melhor solução, mas infelizmente analisando melhor percebemos que se trata de uma medida paliativa, pois essa violência simplesmente não devia acontecer. A máxima da “educação é solução” não pode ser negada, mas é engraçado notar que no Japão houve uma melhor aceitação e respeito da lei, já que muitos homens supostamente inocentes preferiram a medida a serem apontados como chikans. Já no Brasil o quadro foi diferente, no Rio de Janeiro ouvimos absurdos do tipo: “Mas aí as mulheres que ficarem no vagão misto serão mais visadas”, “Isso é separatismo, é inconstitucional”.

Parece loucura imaginar que um indivíduo deva temer que seu corpo seja “visado”, e consequentemente violentado pelo desejo de um outro indivíduo em pleno transporte público. Os especialistas classificam o ato como uma parafilia, ou transtorno sexual, mas poucos abordam o peso social e cultural que influencia. Um breve olhar pelo Rio de Janeiro ou pelo próprio Brasil mostra uma mulher sem autonomia, que teve seu corpo apropriado pela mídia do abuso e segue os rituais de tortura que são impostos para alcançar um status sexual inexistente. São levadas a competir entre si pelo melhor gancho do açougue, onde serão expostas e cada corte será vendido ao público, enquanto têm seu comportamento construído em mídias supostamente “femininas” que completam o cliclo de adestramento social.

E então uma questão perturbadora: “Ora, mas existem mulheres que também fazem isso!”. Para as mulheres que praticam abuso, mesmo que sejam poucas em relação a homens, a mesma atitude deveria ser tomada, pois vulnerar corpos é de igual violência para qualquer sexo ou gênero. E estas são além de tudo traidoras de todas as mulheres, por não se importarem com o padrão que estão criando com sua atitude que poderá afetar as outras, e principalmente por desconhecerem a situação social da mulher.

Women  fight back

Há aqueles que ousam dizer que mulheres de “respeito” não deixam que cometam abuso contra elas, então pensamos nas mulheres japonesas, quantas brasileiras não vivem igualmente sob um sistema de omissão e receio? Melhor, quer dizer que as mulheres de “respeito” são obrigadas a viver atentas em uma guarda constante de seus próprios corpos para evitar que um macho insinue um estupro? Com certeza na minha opinião a lei é WOMEN FIGHT BACK, levar o revide até as últimas consequências e mostrar aos machinhos que não haverá mais silêncio ou “feminilidade”. Chega dos moldes patriarcais que insistem em nos objetificar, faça isso por si mesma e por todas as mulheres.

Este é um apelo deseperado de alguém que acredita nas mulheres: WOMEN FIGHT BACK! E o problema relatado neste post é uma pequena parte da série de reflexos do patriarcado, que eu pretendo descrever ao longo das minhas experiências.

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  1. #1 por Maicon Bock em 25/03/2009 - 15:40

    A falta de respeito e o abuso são foda mesmo. ao ler ia te coentar do metrô do Rio, mas vc citou.

    Abraço ae

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