Arquivo de março \27\UTC 2009

Pra que vida? Lavem roupa.

Olha só que graça, o jornal semioficial do Vaticano, o L’Osservatore Romano, publicou um artigo em comemoração ao Dia Internacional da Mulher. O título? “A Máquina de lavar e a liberação das mulheres — ponha detergente, feche a tampa e relaxe”. Podia ser apenas um artigo infeliz considerando um fator altamente estúpido das nossas vidas, que é o eletrodoméstico que lava nossas roupas, mas para piorar (e muito) a situação, a geringonça foi considerada superior ao acesso ao mercado de trabalho e à própria pílula anticoncepcional.

Bento nojento

Não contestarás

O artigo relata como a máquina de lavar é mais importante para a libertação da mulher ocidental, contando a história dos diversos modelos que já foram fabricados. A primeira premissa que tiramos disso é que apenas mulheres podem e devem lavar roupas, mesmo que isso tenha evoluído até o ato simplório de regular um botão. Afinal, o que importa não é a ação de lavar roupa em si, mas o peso sócio-cultural que cai sobre os ombros femininos de cuidar de tarefas domésticas. Que audácia seria um homem mexer na sagrada máquina de lavar, estaria simplesmente atacando um dos maiores símbolos da sujeição feminina.

Laundry

Lavar roupa não tem gênero

A pílula anticoncepcional com certeza desaponta o Vaticano, graças à ela temos o direito como indivíduos de decidir sobre nossos corpos, ou mesmo de manter um planejamento “familiar” (entenda como qualquer família, não necessariamente nuclear) da forma que bem entendermos. Já o acesso ao mercado de trabalho, parece piada realmente ter que confrontá-lo com a máquina de lavar, é uma clara representação do quanto vale a autonomia de uma mulher para o Vaticano: porra nenhuma. Esse artigo é cara-de-pau o suficiente para mostrar à todos qual a opinião do catolicismo sobre as mulheres, não vivam, não transem, não produzam, não falem, apenas lavem a merda da roupa.

Mas não pensem vocês que só por parecer inegavelmente estúpido o Vaticano não exija cautela, é um inimigo e tanto pra combater. Pois vejam só, a maior prova de que o condicionamento patriarcal do catolicismo ainda é influente e perigoso, está no fato de que o autor do artigo é ninguém menos do que uma mulher.


Mulheres, não me matem de vergonha, por favor caguem no Vaticano.

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Drama of the Spheres

Compartilhar novas descobertas musicais é bastante válido. Recentemente a banda que mais me impressionou no quesito sonoridade foi a francesa “Drama of the Spheres”. Conheci a banda por acaso baixando a coletânea “Trip to Eden”, que reúne singles de bandas como Corpus Delicti e Clair Obscur.

Drama of the Spheres

Fonte: myspace/dramaofthespheres

A música Squalid Jokers de cara chamou atenção, pela sua complexidade de passagens e atmosfera densa, além de ser uma dessas músicas perfeitas para abrir um set, simplesmente porque entra “arregaçando”. Baixe a música aqui e entenda o que eu estou falando.

A banda em si infelizmente já acabou, existiu de 2000 até 2004, formada por caras de meia-idade e denominada pelos mesmos como uma banda de post-punk batcave. As influências principais deles foram o Virgin Prunes, Jad Wio (foda!), Sex Gang Children, Christian Death e até David Bowie.

Vocal: Jerome AD Drama of the Spheres

Eles são feios mas a música é muito boa, confira no Myspace da banda.

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Inspiração – xKingdomx

Eu diria que a banda mais próxima de todos os meus ideais é sem dúvida xKingdomx. Uma banda vegan straight edge da Filadélfia cuja vocalista é feminista radical, e cujos objetivos incluem o retorno da ética à cena.

kingdom

Fonte: myspace/xkingdomx

As letras me conquistaram logo de cara, e o vocal poderoso da pequena Davin me faz levar a sério e sentir no fundo da alma the rage that guides me. Com tudo isso a banda já seria perfeita, mas para completar o som é fantástico, com influências de Buried Alive, Warzone e Hatebreed.

Mas o que mais me admira na Davin é sem dúvida um trecho que ela escreveu no myspace da banda referindo-se a uma letra:

“Cada palavra nessa música foi tirada de conversas que tive com meu pai sobre a guerra física e psicológica da nossa sociedade contra os pobres, mulheres, negros, não-cristãos, mentes radicais, comunidade gay/bi/trans, e além do mais,como é ver as pessoas que vc ama sofrendo através da discriminação, ódio e abuso de suas culturas. “Como?” Meu pai perguntou a mim no dia em que ele descobriu que eu fui drogada e estuprada em grupo.
“Como vc encara o mundo sabendo o quão cruel ele pode ser?” Como vc escapa de se trancar em um quarto e chorar todos os dias pelo que lhe fizeram??” A resposta era fácil. “Toda vez que eu devia ter chorado, toda vez que fui ferida, a única coisa que eu sempre senti foi ódio e uma raiva me consumindo por uma sociedade que permite tudo isso. É isso que me mantém focada, é isso que me faz forte…essa raiva. A raiva que me guia.”

Toda vez que ouço  The Rage That Guides eu sinto que não estou só, e principalmente me encho de coragem para prosseguir com fé. Não passei pelo mesmo trauma que a Davin, acho que não teria a mesma força incrível dela, mas posso dizer que senti o mesmo que ela em uma situação diferente. Bem, é como dizem, sofrer uma violência sexual é terrível, mas sofrer a mesma violência de forma consensual e condicionada pode ser ainda pior, você se sente parte daquilo e carrega uma culpa enorme. Mas as minhas feridas são maiores pelas minhas irmãs mulheres mundo afora do que por mim mesma,  já sei me defender só e estou mais forte do que nunca.

Eu posso classificar como sonho ver o xKingdomx no Brasil, e espero que ele se realize em breve. Só eu sei o tamanho do conforto que sentiria se pudesse ouvir a banda ao vivo, provavelmente chorarei como uma pamonha e explodirei de orgulho por isso. Enquanto não acontece vou acompanhar o trabalho da banda, e curtir meu amor platônico adolescente pela vocalista.

Davin Davin Davin

Eu acho a tietagem uma coisa muito chata, então vou chamar minha coleção de fotos da Davin de admiração espontânea por assimilação (euri).

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Every Miserable Attitude

Primeira da seção dos meus ataques de letrista… surgiu na minha cabeça quando minha mãe tentou vagamente me falar sobre o amor do deus cristão enquanto comia um bicho morto, frito e empanado. Deus me livre.

Every miserable attitude
She wants to talk about the love of God
While she chews a dead animal
An innocent life destroyed by her greed
What the fucking credit would I give?

He hates abortion, “what a sin”
He’s in defense of all life
Even if a nine-year-old girl have been raped
Her life is nothing but a mistake

They say violence is a bad idea
They don’t want us to be armed
But they support an industry of hate that sentenced us to rape
Pornography has sold our bodies slice by slice
And we are affording the damn price

[CHORUS] Every miserable attitude you have
Makes me wanna smash your head
But the cruelest consequence of your behavior’s
The havoc of my hope that still remains
HOPE, I support yet
FAITH, feeds my soul
COMMITMENT, guides my path
JUSTICE, I’ll always believe it, no matter what you say I’ll never deceive it

You judge that guy from your own point of view
He’s deep into hard drugs, sniffing full-time
Look at that junkie bastard you would say
You forget that your beer and your cigars are fucking addictions the same way

Everybody’s speaking about peace
Even if it means only peace for themselves, their families, their friends
There’s no sacrifice, no altruism, no humility

[CHORUS]
When the hell will you take into consideration that you’re not alone in this world?
When the hell will everybody think and act collectively?
When the hell will you see that what the other do is of your business too?

[CHORUS]

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Women fight back! Diariamente…

Talvez eu deva começar relatando uma das experiências mais expressivas que tive recentemente, isso porque muitas vezes me falta fôlego para contá-la com a voz. Ora, me julgava preparada para as mais diversas tensões, totalmente calejada, e fui surpreendida por uma situação trivial.

Era Terça-Feira, uma chuva fora do comum parou a cidade, e eu que dependo do metrô para voltar para casa às 17h30 tive que enfrentar o caos. Faço 2 baldeações, uma para a linha azul e outra para a vermelha, na primeira havia muita gente aglomerada mas depois de uns cinco trens entrei sem maiores problemas. O vagão como sempre estava sufocante, e dois corpos quase ocupavam o mesmo espaço, mas nada de anormal.

Quando cheguei na estação Sé para a segunda baldeação o quadro era chocante, a multidão estava chegando perto das lojinhas da estação, e cada vez chegava mais gente. Resolvi esperar, já prevendo meu pânico de ser empurrada e querer revidar ali naquela confusão, ia ser dor de cabeça demais. Quando o trem se aproximou, iniciou-se o circo dos horrores: era possível ver claramente homens empurrando com brutalidade as outras pessoas em uma atitude extremamente egoísta, e ainda por cima dando risadinhas, pude enxergar o sadismo e o descaso na expressão de cada um.

Mas o pior estava por vir, vendo aqueles sorrisos macabros imaginei algo ainda mais miserável, mas tentei esquecer. Quando, de repente, no momento da abertura das portas ecoaram pela estação berros agudos de mulheres.

Não conseguia entender porque aquilo não transtornava as pessoas em volta, mas meu estômago embrulhou instantaneamente e eu senti um gelo na espinha. Os berros continuavam, exprimiam um desespero único, e  bastou um olhar mais atento para perceber as reações de cada um. Vi homens que ouviam os gritos e quase inconscientemente olhavam para a mulher próxima, com um olhar de malícia cruel que eu tenho nojo de descrever, como se estivessem visando sua vítima. Nesse momento vi mulheres desistindo e esperando ao meu lado, e no olhar das outras era nítido o terror e a preocupação de olhar para trás a cada minuto.

Somos donas de nossos corpos? Sentia meu enjôo piorando enquanto pensava nessa questão, pensava que naquele momento mulheres sofriam um abuso brutal e impune. Queria entrar correndo ali no meio e com uma bela lâmina desfigurar todos aqueles sorrisos diabólicos, porque eu sabia melhor do que ninguém o que eles significavam. Mas, alguém mais viu?…

Acabei esperando e chamando o meu namorado para me ajudar a embarcar, e quando cheguei em casa resolvi pesquisar na internet sobre o assunto. Descobri que já existiam os women only passenger cars, vagões destinados somente a mulheres criados no Japão, e para a minha surpresa existiam no metrô do Rio de Janeiro. O mais nauseante foi ler que as mulheres japonesas eram as que mais sofriam com os “chikans”, denominação para os abusadores, pois sentiam demasiada vergonha para esboçar qualquer reação. Até campanhas foram feitas para tentar alarmar a população, como no cartaz abaixo, com as palavras “Chikan é crime”.

Campanha do metrô japonês

Campanha do metrô japonês

Os vagões para mulheres pareceram a melhor solução, mas infelizmente analisando melhor percebemos que se trata de uma medida paliativa, pois essa violência simplesmente não devia acontecer. A máxima da “educação é solução” não pode ser negada, mas é engraçado notar que no Japão houve uma melhor aceitação e respeito da lei, já que muitos homens supostamente inocentes preferiram a medida a serem apontados como chikans. Já no Brasil o quadro foi diferente, no Rio de Janeiro ouvimos absurdos do tipo: “Mas aí as mulheres que ficarem no vagão misto serão mais visadas”, “Isso é separatismo, é inconstitucional”.

Parece loucura imaginar que um indivíduo deva temer que seu corpo seja “visado”, e consequentemente violentado pelo desejo de um outro indivíduo em pleno transporte público. Os especialistas classificam o ato como uma parafilia, ou transtorno sexual, mas poucos abordam o peso social e cultural que influencia. Um breve olhar pelo Rio de Janeiro ou pelo próprio Brasil mostra uma mulher sem autonomia, que teve seu corpo apropriado pela mídia do abuso e segue os rituais de tortura que são impostos para alcançar um status sexual inexistente. São levadas a competir entre si pelo melhor gancho do açougue, onde serão expostas e cada corte será vendido ao público, enquanto têm seu comportamento construído em mídias supostamente “femininas” que completam o cliclo de adestramento social.

E então uma questão perturbadora: “Ora, mas existem mulheres que também fazem isso!”. Para as mulheres que praticam abuso, mesmo que sejam poucas em relação a homens, a mesma atitude deveria ser tomada, pois vulnerar corpos é de igual violência para qualquer sexo ou gênero. E estas são além de tudo traidoras de todas as mulheres, por não se importarem com o padrão que estão criando com sua atitude que poderá afetar as outras, e principalmente por desconhecerem a situação social da mulher.

Women  fight back

Há aqueles que ousam dizer que mulheres de “respeito” não deixam que cometam abuso contra elas, então pensamos nas mulheres japonesas, quantas brasileiras não vivem igualmente sob um sistema de omissão e receio? Melhor, quer dizer que as mulheres de “respeito” são obrigadas a viver atentas em uma guarda constante de seus próprios corpos para evitar que um macho insinue um estupro? Com certeza na minha opinião a lei é WOMEN FIGHT BACK, levar o revide até as últimas consequências e mostrar aos machinhos que não haverá mais silêncio ou “feminilidade”. Chega dos moldes patriarcais que insistem em nos objetificar, faça isso por si mesma e por todas as mulheres.

Este é um apelo deseperado de alguém que acredita nas mulheres: WOMEN FIGHT BACK! E o problema relatado neste post é uma pequena parte da série de reflexos do patriarcado, que eu pretendo descrever ao longo das minhas experiências.

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