A “revoltante” incompetência das nossas vítimas.

Voltando a escrever depois de bastante tempo, espero (mesmo) conseguir manter o blog atualizado daqui pra frente.

Introduzo esse post com alguns dados da pesquisa “Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado”, da Fundação Perseu Abramo em parceria com o SESC.

A cada 2 minutos, 5 mulheres são espancadas no Brasil.

Embora apenas 8% dos homens digam já ter batido “em uma mulher ou namorada”, um em cada quatro (25%) diz saber de “parente próximo” que já bateu e metade (48%) afirma ter “amigo ou conhecido que bateu ou costuma bater na mulher”.

Como em 2001, cerca de uma em cada cinco mulheres hoje (18%, antes 19%) consideram já ter sofrido alguma vez “algum tipo de violência de parte de algum homem, conhecido ou desconhecido”.

Com exceção das modalidades de violência sexual e de assédio – nas quais patrões, desconhecidos e parentes como tios, padrastos ou outros contribuíram – em todas as demais modalidades de violência o parceiro (marido ou namorado) é o responsável por mais 80% dos casos reportados.

Tanto os dados estatísticos quanto o conhecimento empírico nos levam ao cenário da violência contra a mulher no Brasil: a maioria das pessoas no mínimo conhece uma mulher que sofreu com um marido violento dentro de casa. As que não conheceram de perto, com certeza já escutaram aqueles gritos histéricos de uma vizinha durante a noite, quando os familiares se entreolham em silêncio com os olhos arregalados e os ouvidos atentos, à espera de um ruído que confirme a agressão.Não que isso vá fazer alguma diferença, já que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”, no máximo se mete um pitaco sobre o motivo da “coitada ter levado uma sova”.

A Lei Maria da Penha (13.340/2006) é uma tentativa de avançar na questão da proteção às mulheres no ambiente doméstico, que reconhece a necessidade do princípio de isonomia material, ou seja, tratar os grupos desiguais na medida das suas desigualdades. Não é de hoje que ouvimos muita gente reclamando “que somos todos iguais perante a constituição e todas as punições já estão previstas no código penal”, o que demonstra profundo desconhecimento (ou pura omissão) sobre a estrutura da nossa sociedade. Uns são muito mais iguais que os outros por aqui, esse é um fato completamente escandaloso! Temos minorias sociais (não necessariamente em número de indivíduos, mas grupos sub-representados na política) que de forma alguma têm suas demandas contempladas por uma constituição que trata a todos como se partissem do mesmo ponto, em igualdade de condições e direitos.

A história de mulheres,crianças, idosos, negros, índios, pobres, minorias sexuais e de gênero, deficientes e vários outros grupos nos revela uma trajetória de opressão, impotência e marginalização. O único que sempre foi e sempre será inteiramente beneficiado por uma constituição que trata todos da mesma forma é o homem adulto, heterossexual, branco e de classe média, nosso personagem modelo do privilégio social. A experiência das minorias traz marcas profundas de desigualdade, e a determinação de uma constitução única não anula essas diferenças, não tem como dar Crtl+Z no produto histórico da dominação e começar uma nova e maravilhosa sociedade da igualdade, liberdade e fraternidade. É reconhecendo as necessidades específicas de cada grupo hipossuficiente que damos um passo em direção à almejada igualdade, e para isso existem leis que amparam minorias em suas vulnerabilidades, como é o caso dos idosos e crianças, e agora as mulheres.

Mesmo assim, há quem acuse a Lei Maria da Penha de ser inconstitucional, e são as mesmas pessoas que obviamente se opõem a uma lei que criminaliza a homofobia, pois não são capazes de reconhecer as demandas de grupos particulares da sociedade, que não desfrutam dos mesmos direitos. É óbvio que a Lei Maria da Penha enfrenta problemas para sua aplicação, esbarrando em fatores sociais como a ausência de redes de apoio suficientes às vítimas, que muitas vezes permanecem dependentes financeiramente de seus agressores. Por essa razão, é comum que o alto número de desistências dos processos por parte das mulheres motive mais críticas contra a lei, feitas por quem não entende nada do ciclo de violência que elas vivem. Mas é sempre muito mais cômodo condenar as agredidas por sua “incapacidade” do que entender um terço do que se passa nessas famílias.

São muitos casos diferentes e ocorrem em todas as classes sociais, mas há um ciclo comum de violência contra a mulher que já é conhecido, descrito em 3 fases:

1. Fase de aumento da tensão: as tensões acumuladas pelo agressor criam um ambiente de perigo iminente para a vítima que é, muitas vezes, culpabilizada por tais tensões. Os pretextos para as brigas vão ficando cada vez mais banais, como por exemplo, acusar a vítima de não ter colocado sal suficiente na comida.

2. Fase do ataque violento: o agressor maltrata, física e psicologicamente a vítima , que procura defender-se. Este ataque pode ser de grande intensidade, podendo a vítima por vezes ficar em estado grave, necessitando de tratamento médico.

3. Fase do apaziguamento ou da lua-de-mel: o agressor, depois de descarregar a tensão sobre a vítima, demonstra arrependimento e promete que não vai voltar a praticar a violência.

As três etapas se repetem constantemente, cada vez com menor intervalo entre as ocorrências. E é importante observar que não se trata de um processo mecânico, em que as mulheres assistem de camarote seus corpos sendo agredidos pelo homem amado e suas vidas desmoronando como se fosse um filme, elas são as protagonistas inseridas em um turbilhão de emoções que passam pela raiva, tristeza, desespero, esperança e impotência. As pessoas parecem se esquecer da diferença entre a vivência e a observação dos fatos quando as vítimas são mulheres agredidas pelos companheiros, os primeiros julgamentos sempre se focam na incapacidade de reação delas, ao invés da indignação com a atitude do homem. É a velha lógica machista da culpabilização das mulheres, que procura inverter a situação acusando a vítima de não ter evitado sua própria agressão.

Pior, acusam as mulheres agredidas pela desistência dos processos, por retornar ao convívio com o agressor, criando os esterótipos da “mulher que gosta de apanhar“e da “mulher de malandro“. Claro que não podemos esperar muita empatia pelas mulheres em uma sociedade que historicamente as desvaloriza, mas ainda fico impressionada com a extrema falta de sensibilidade diante de uma situação de violência de gênero. São vários os fatores que levam uma mulher a perdoar seu agressor e permanecer em uma relação violenta, mas acredito que os mais graves sejam a dependência financeira, medo dos estigmas sociais e dependência emocional.

Além da óbvia dificuldade em encontrar um lugar para morar e se sustentar, muitas vezes acompanhada dos filhos, a decisão de abrigar-se em uma instituição destinada a mulheres agredidas e ameaçadas (quando disponível) é uma mudança de vida completamente brusca e repleta de desafios. A respeito dos estigmas, como se não fosse suficiente a imensa vergonha, frustração e tristeza dessas mulheres, ainda são bombardeadas por amigos, parentes e vizinhos com perguntas do tipo “O que você fez pra ele?”, “Por que não saiu de lá antes?”, “Mas já separou? E seus filhos?” entre outros absurdos. Não são poucas pessoas que ainda as condenam simplesmente por terem “desistido” do casamento, a tal instituição sagrada que não deve ser desfeita. A dolorida humilhação do olho roxo não termina dentro de casa, se estende no espaço público, com os olhares de reprovação daqueles que já deduzem que ela pode ter “merecido”, como diz o repugnante ditado popular “eu não sei porque estou batendo, mas ela deve saber porque está apanhando”.

A dependência emocional é um dos fatores mais complexos. Primeiro é preciso analisar a própria dinâmica das relações de gênero, em que culturalmente o homem ainda se baseia em um referencial de dominador, dotado de força, agressividade e controle, enquanto a mulher é educada para servir, ceder e compreender. Os ideais vigentes para os papéis de homens e mulheres, apesar de arcaicos, permanecem influenciando diretamente as relações de poder no casamento. Assim, tradicionalmente, o homem reivindica o controle e a posse da sua mulher, que por sua vez procura zelar pelo seu marido e o restante da família. É justamente nessa esfera privada do cuidado familiar que as agressões domésticas se iniciam, quando o homem descarrega sua tensão e exerce poder sobre a mulher através da violência, baseado na ideia de superioridade masculina justificada pela força física. Socos, chutes e estrangulamentos são considerados instrumentos comuns de resolução de conflitos para os homens, que desde pequenos são incentivados a expressar sua agressividade, e dessa forma procuram impor suas vontades às companheiras, que na maioria das vezes não possuem condições físicas ou habilidades para se defender – potencialidades que lhes foram negadas na construção de mulher. E o pior de tudo é que essa dinâmica de poder na relação heterossexual é considerada “normal”, o que torna aceitável testemunhar um marido agredindo a mulher e permanecer completamente omisso.

Dentro desse cenário, temos ainda o ideal do amor romântico que revela o homem amado como um protetor e salvador, um verdadeiro príncipe encantado na vida da mulher. Inspirada pelos grandes romances, a mulher procura entregar-se ao companheiro e sacrificar-se por ele, considerando que ainda temos um modelo de esposa e mãe virtuosa que anula a si própria pelo bem da família. Claro que nem todos os casamentos são cercados pela aura do romantismo, mas ao menos a noção de doação por parte da mulher está sempre presente na família brasileira. Agora basta imaginar que aquele homem confiável e amado, protetor e muitas vezes provedor da família, de repente se transforma em um agressor.

Impossível que seja tão difícil assim entender que existe um vínculo emocional fortíssimo e duro de ser rompido com o marido, e que o perdão parece o caminho mais sensato diante do homem com que se divide uma vida. É preciso lembrar que o agressor de mulheres não é aquele monstro já algemado, permanentemente ameaçador e rude que vemos no camburão, mas um homem comum do cotidiano, que dá beijinhos de despedida, acaricia as crianças e cumprimenta os vizinhos. É o homem com que ela se casou, que já a fez muito feliz, que motivos ela teria para dispensá-lo na primeira agressão? Qual é o preço disso? Não teria sido uma explosão de raiva e nada mais? Some a esses questionamentos o olhar arrependido do homem que traz flores no dia seguinte e chora ajoelhado implorando perdão. Tão difícil assim compreender porque a mulher perdoa e desiste do processo?

Não pretendo justificar o perdão, pois tenho convicção de que o homem que é capaz de coagir através da violência física uma vez, com certeza o fará novamente. Quero questionar o ódio misógino direcionado às mulheres vítimas da violência doméstica, que são transformadas em rés e deslocadas do seu papel de agredidas pelo imaginário popular. Por que, ao menor sinal de fraqueza, as mulheres que apanharam do marido são transformadas em culpadas? Cobra-se dessas mulheres que denunciem, que sejam fortes, valentes, intrépidas, absolutamente virtuosas e resistentes, e ai delas se não prosseguirem até o final, basta um deslize para que recebam a sentença: Merecem e gostam de apanhar. É claro que as mulheres não gostam de ser agredidas, e se as nossas mulheres estão abaixando a cabeça para uma situação de violência, é preciso investigar os motivos e oferecer ajuda ao invés de ridicularizá-las.

Cada vez que alguém faz uma piadinha ou utiliza ditados populares que reafirmam a culpa da mulher na situação de violência, perpetua-se o preconceito e o ódio contra todas as mulheres, especialmente aquelas que mais precisam de ajuda e não conseguem se livrar de uma vida de agressões cotidianas. Culpar a vítima pelo seu martírio é agredi-la duas vezes, é negar sua vunerabilidade e exigir um esforço desproporcional às suas condições. Se você também não se conforma com o mito da “vítima incompetente” que assombra as mulheres agredidas no ambiente doméstico, não incentive as práticas culturais que legitimam esse estigma. Muitas mulheres ainda apanham caladas pelos mais diversos motivos, mas não é apenas construindo mais abrigos e criando mecanismos legais que vamos vencer o problema,  cabe a nós destruir essas barreiras culturais e sociais que ainda as mantêm presas aos seus algozes.

“A violência contra as mulheres é uma manifestação de relações de poder historicamente desiguais entre homens e mulheres que conduziram à dominação e à discriminação contra as mulheres pelos homens e impedem o pleno avanço das mulheres…”

Declaração sobre a Eliminação da Violência contra as Mulheres, Resolução da Assembléia Geral das Nações Unidas, dezembro de 1993.

Para denunciar uma situação de violência contra a mulher, ligue para 180 (válido inclusive para brasileiras sob ameaça no exterior).

Acesse também o artigo “A constitucionalidade da Lei Maria da Penha”, de Andresa Wanderley de Gusmão Barbosa e Stela Valéria Soares de Farias Cavalcanti.

Vídeo “Sabe a diferença entre bater em numa mulher e numa bateria?“, sobre como a violência contra a mulher é vista como algo cotidiano.

PS: Apenas uma observação, já que normalmente abordam o caso dos homens que sofrem violência doméstica, lembro que há mecanismos legais para protegê-los também. Os homens que se sentem humilhados, ameaçados ou são agredidos pelas companheiras devem denunciar da mesma forma, o foco é mantido na violência contra a mulher por ser um problema de gênero muito mais evidente e abrangendo a absoluta maioria dos casos.

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Nem preciso dizer que não posto há uma decada, né? Desde abril não consigo dar atenção a esse meu cantinho (vocês nem imaginam o CAOS que virou minha vida). Só passei por aqui para aprovar um monte de comentários (incríveis como sempre, tanto os elogios quanto as críticas) e dizer que I’LL BE BACK! SOON.

 

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Vadia, puta, vagabunda e rodada.

Esses dias fiquei pensando na coleção de estereótipos femininos dos quais já fui vítima durante a vida. Passei pela sapatão desengonçada (apelidada de “jamanta”), pela CDF frígida, pela maria-moleque, pela gorda mal-amada, tudo isso até a oitava série mais ou menos – inclusive, vou precisar de um post só pra contar essas histórias decadentes da minha infância e pré-adolescência, mas fica pra uma outra hora. A partir do colegial as coisas começaram a mudar um pouco, chegando ao status de “roqueira rebelde”, “nóia”, basicamente a revoltada clássica, com sérias tendências bully (revanchismo).

Mas, nenhum estereótipo pode ser tão feroz quanto aquele que mais tarde eu conheci: “puta”. Nas suas variações, “vagabunda” , “vadia”, “biscate”, e claro… “rodada”. Não é novidade que as mulheres só tem duas opções dentro do patriarcado, Santa ou Puta, Maria ou Eva, boa esposa/mãe/namorada ou vagabunda marginal. As pessoas não conseguem enxergar as mulheres como pessoas plurais, autênticas e autônomas, elas precisam ter seu comportamento enquadrado nessas categorias, e existe uma vigilância especial no campo da sexualidade e do corpo. Com quantos seres você transou, quantas vezes e como o fez parece constituir a identidade da mulher, e determinar o nível de respeito com que será tratada.

Quanto mais sexo, pior a mulher é. É, exatamente, mais experiência sexual = menos dignidade. Fórmula bem pensada essa, hein? Pois é, todo mundo engoliu essa lorota e segue com fidelidade. A fonte desse pensamento é bem clara, desde a origem do patriarcado o homem busca desesperadamente controlar a sexualidade da mulher, para que ela se mantenha fiel ao seu papel de esposa e mãe dedicada, e também conceda exclusividade sexual ao homem que afirma sua autoridade sobre ela. Os homens sempre se reservaram ao direito de ter quantas parceiras desejassem, mas exigiam que sua dóceis mulheres fossem virgens, para servi-los com total obediência.

Muitos ainda usam do discurso biológico para justificar tal postura, mas a pílula anticoncepcional e outros métodos de contracepção provaram que a mulher também sente desejo sexual, e que o sexo não é mais escravo da reprodução. Hoje muitas mulheres buscam autonomia sexual e escolhem livremente seus parceiros, mas ainda pagam o preço da desigualdade. Aquela velha história do homem garanhão x mulher galinha, que concede honrarias aos homens de vida sexual ativa e cospe nas mulheres que ousam ter a mesma liberdade. Puro preconceito e misoginia.

Foi dado aos homens o direito inalienável de conhecer e explorar a própria sexualidade, o que sem dúvida contribui para a fama de “insaciáveis”. Quanto mais se conhece o próprio corpo e os desejos, maior a chance de vivenciar o sexo com novas pessoas, e maior a satisfação. Infelizmente, ainda hoje esse direito é negado às mulheres desde muito pequenas, sempre condicionadas a esconder e reprimir os impulsos sexuais caso queiram o “respeito” dos homens. Essa é uma das razões pelas quais a mulher leva mais tempo para ter consciência do próprio corpo, para atingir o orgasmo e expor seus desejos na cama.

Enfim, eu acreditei em tudo isso quando era mais jovem. Esse discurso foi martelado na minha cabeça incessantemente. “Menina, não faz besteira”, “Mulher tem que se dar ao respeito”, “Você foi pra cama com ele? Que absurdo!”, “Você não presta”, “Só pode com o namorado, e depois do casamento”, “Você vai entregar seu maior tesouro (virgindade) pra qualquer um?”.

A minha família, apesar de não ser das piores, sustentou com louvor todos esses mitos. Mas, na época, eu me sentia diferente das outras meninas que simplesmente levantavam aquela bandeira da pureza – falsa pureza, é claro. Eu via minhas amigas escondendo a sete chaves tudo o que faziam, vivendo praticamente uma vida dupla, engavetando a noite passada e vendendo a imagem santificada durante o dia. Eu já tinha dentro de mim uma necessidade de subverter tudo, questionar tudo, e um dos meus primeiros “foda-se” adolescentes foi admitir que eu tinha tesão. Como sempre, eu não queria viver uma mentira.

Não que eu fizesse sexo loucamente, estava longe disso, aliás, meu conhecimento sobre o meu corpo era tão raso que eu não tinha muito o que aproveitar das minhas relações sexuais. Basta uma garota fazer sexo com dois caras e eles se conhecerem pra surgir o boato de que “dá pra qualquer um”.

Em primeiro lugar, eu nunca “dei” nada, ninguém ficou com um pedaço meu, ninguém me tirou algo valioso e eu não tive que “ceder” aos apelos do parceiro.Ah, minha buceta continua aqui, obrigada. Eu fiz…porque é legal fazer. Ohhhh. Eu QUERIA, sabe? Oi? Tenho vontade, voz, libido, autonomia, direito, ok? Em segundo lugar, “qualquer um” somos todos. Coincidentemente, a maioria dos seres humanos não se conhece, então somos sempre “qualquer um” antes de mais nada. Depois de conhecer um ser humano, o mínimo necessário, ele deixa de ser “qualquer um” e se torna “um”, mais um deles, porém com suas próprias características e particularidades. Assim, a partir do momento que eu escolhi uma pessoa e me senti sexualmente atraída por ela, deixa de ser “qualquer um”. É a MINHA escolha, meu “um”, entendido? E assim por diante, quantos “uns” eu desejar e que correspondam. Logo, não existe isso de “dar pra qualquer um”, todos foram escolhas legítimas, cujos critérios só dizem respeito a mim. Se eu quiser me relacionar mais vezes ou construir um relacionamento mais sério, a escolha também é toda minha.

É muito comum um machinho deduzir que você vai “dar” (termo mais zé punheta do mundo) pra ele caso tenha “dado” para um número x de caras que ele conheça. Mesmo que ele não seja nem um pouco interessante, ou você não tenha dado nenhum sinal de aprovação. A mensagem que colocaram na cabeça é: “mulheres estão sempre disponíveis”, e se a mulher em questão dá indícios de que é sexualmente ativa, aí fica mais vulnerável ainda. Eles simplesmente não conseguem enxergar uma mulher como um ser humano pensante, que toma suas próprias decisões, é sempre uma menininha inconsequente, perdida, transando com os outros por pura ingenuidade, ou uma putona auto-destrutiva transando por profunda devassidão. Mas que merda! Não se pode simplesmente fazer sexo por vontade e conscientemente sendo mulher? Não tentem excluir metade da humanidade de uma vivência sexual saudável, não cola mais, meus queridos.

Uma lembrança muito vívida me inspirou para escrever esse post. Na minha saudosa adolescência, eu não sabia dos meus direitos, da minha capacidade, não reconhecia minha identidade como mulher. Fui educada pra ter uma auto-estima ridícula, pra obedecer as normas vigentes e me conformar com tudo, como a maioria esmagadora das mulheres. E mesmo assim, resolvi desafiar a ordem das falsas meninas virginais, buscando sexo com quem eu bem entendesse.

Foram inúmeras ofensas, e, repito, não porque eu realmente fizesse sexo com muita gente (deveria!), mas porque eu ASSUMIA gostar de sexo e REIVINDICAVA fazê-lo com quem quisesse. Talvez eu tenha feito muito menos sexo que outras amigas minhas, a diferença é que eu não admitia me esconder pra agradar os outros. Eu procurava ignorar a opinião dos menos conhecidos e até tinha sucesso, mas o que mais machucava era escutar o mesmo discurso de amig@s próxim@s e pessoas queridas no geral. Mas acho que o pior de tudo mesmo era que, em plena época de ansiedade por um “grande amor”, quando eu ainda acreditava no mito do cara super incrível que ia me completar, percebi que muitos não queriam me “levar a sério” por causa da minha postura.Hoje eu saberia que não passavam de um bando de babacas estilo “8ªB”, que tratavam todas as mulheres como se fossem lixo, até aquelas que se enquadravam na lógica machista deles. Tentar se adequar ao padrão desses homens que odiavam mulheres era a tarefa das minhas amigas, e vi o sofrimento delas de perto.

Mesmo assim, sofri muito. Não entendia porque as pessoas agiam daquela maneira, mas ainda demorei pra desvendar as hierarquias do macho e os papéis estúpidos que reservavam às mulheres. Queria ser livre, mas os outros exigiam que eu me reprimisse em troca da liberdade. Chorei noites a fio, acreditando que nunca um homem ia querer ficar comigo, que eu teria que me adaptar um dia, cheguei a acreditar que uma mulher era “suja” por sentir tesão. As pessoas que me amavam me diziam que eu tinha que mudar, que tinha que “aceitar o mundo como ele é”, que os homens sempre pegariam todo mundo e as mulheres apenas resistiriam a eles o quanto pudessem. Logo eu, que gostava de abordar meus potenciais parceir@s, que me sentia livre leve e solta, que aproveitava todos os momentos e nunca deixei de respeitar alguém que estivesse comigo, mesmo que por uma hora apenas. Pelo contrário, sempre tive consideração por quem fiquei, e sempre esperei o mesmo – doce ilusão.

Outro termo que marcou bastante, e que hoje me fez refletir, foi o “rodada”. Os caras falavam em “rodar a banca”, “passar na mão de todos” (detalhe, considerando a mesma regrinha de ficar com dois que se conhecem). Fiquei construindo uma imagem para esse termo na minha cabeça, e seria mais ou menos assim: Vários homens em um círculo, jogando uma garota meio amolecida, meio apática de um para o outro, como se fosse um joguinho, passando-a pela “mão” de todos. Essa garota, claro, é um ser totalmente inanimado, sem voz, sem presença, apenas satisfazendo os homens que por alguma razão fazem parte do mesmo círculo de machinhos.

É exatamente como um “estupro grupal”, é o gang bang da vida real, classificar mulheres como “rodadas” para que se sintam violadas em suas vidas, vetadas do desejo sexual. GENTE, isso não existe! Mulher tem desejo, tem pele, tem escolha! Mulher NÃO É OBJETO, É SUJEITO DA RELAÇÃO. Objetos não sentem, não falam, não decidem nada, sujeitos agem, reagem e se fazem perceber! Got it? Nenhum homem tem o direito de submeter uma mulher ao rótulo de um objeto inerte, que apenas foi utilizado por outros homens. A mulher também sente PRAZER na relação, como pontuei no outro post, e sua moral não é arrancada durante um ato sexual.Não podemos nos render a esse discurso que invisibiliza nossa condição HUMANA, temos que nos afirmar enquanto sujeitos autônomos e capazes de tomar decisões!

Enquanto as mulheres forem condenadas a meras presas sexuais, não teremos qualquer sombra de igualdade. Enquanto o sexo for usado como ferramenta de poder, coerção, humilhação, seremos todas prisioneiras dessa lógica. Imagine se você, homem, sofresse uma série de retaliações apenas por fazer sexo com as pessoas que deseja? Você se conformaria com isso?

É muito fácil para os homens, que são tão, mas TÃO desenvoltos sexualmente que chegam ao extremo de COLECIONAR “presas” femininas. É com tremenda ojeriza que ainda escuto os machos se vangloriando da quantidade de mulheres com quem fizeram sexo, como se cada uma delas fosse uma conquista, uma árdua batalha para…ter uma relação de prazer mútuo. Claro, é tido como um enorme esforço para um homem convencer uma mulher, já atraída por ele, a simplesmente transar. Mulheres não apreciam o sexo, elas apenas perdem a batalha do acasalamento e se sentem obrigadas a baixar a guarda para o macho reprodutor neandertal. Deprimente. Para o horror dos machistas, mulheres sentem prazer sim,  podem fazer sexo com várias pessoas sim, e nem por isso precisam demonstrar superioridade diante d@s parceir@s – ninguém perde nada no sexo.

Na época, quando comecei um relacionamento sério, lembro de ter considerado o meu parceiro um verdadeiro “salvador” por ter me aceitado do “jeito que eu era”. Realmente, ele era uma ótima pessoa, que em nenhum momento se incomodou com a suposta “fama” que alguns me atribuíram, mas nem de longe a atitude dele era caridosa como eu imaginava. Acabaram acontecendo vários episódios no meu relacionamento em que eu cedi e me calei por acreditar que ele merecia mundos e fundos, eu praticamente me arrastava aos pés dele porque “ninguém mais me aceitaria” como ele me aceitou. Basicamente, minha auto-estima estava em migalhas, tudo por culpa de uns poucos imbecis que tentaram me reduzir a um pedaço de bosta. Por sorte, tive a chance de superar tudo isso com o tempo – mas muitas mulheres continuam imersas nessa lógica.

Se eu pudesse voltar atrás e fazer algo diferente, com certeza não teria me envolvido com metade das pessoas daquela época. Hoje, é claro, sou muito mais segura e ciente da minha posição de sujeito na humanidade, e saberia reconhecer de longe uma pessoa com más intenções. Mas, é sempre bom lembrar que existem ótimos atores por aí, e mesmo que alguém tente um dia me rotular como puta ou qualquer coisa do tipo, estarei totalmente consciente dos meus direitos e sairei ilesa da situação. Aliás, quanto mais conscientes as pessoas ao redor, maior a tendência de que o espertinho seja considerado um idiota. Qualquer amig@ que convivo atualmente massacraria um homem que tentasse enquadrar uma mulher como vadia por causa da sua sexualidade – os belos frutos do livre pensamento!

Toda mulher, alguma vez na vida, já foi chamada de puta. E a prostituta em si é a figura mais marginalizada da sociedade. Somos todas putas, vagabundas, vadias, biscates, galinhas, fáceis e rodadas em algum momento, por um segundo. Ofender uma mulher é sinônimo de ofender sua sexualidade, é tocar naquilo que nos atribuíram como fraqueza: a nossa libido. Mas, ao contrário do que tentam nos convencer, nossa sexualidade é força, é ousadia, é empoderamento. Somos repletas de desejos, e somos donas de cada um deles.

O que eu quero? Um mundo dominado por pessoas que respeitam a vida d@ outr@ independente do gênero e das escolhas sexuais. Eu e outras tantas mulheres teriamos sido poupadas de tanto sofrimento, angústia e desespero, apenas por não se enquadrar em um sistema que na verdade é uma grande masmorra. Querem tomar nosso sexo e nossas vidas, transformar-nos em objetos manipuláveis, descartáveis, a não ser que aceitemos suas condições alienantes.

A boa notícia é que não precisamos mais deles. Aqueles que nos julgam, que enchem a boca para dizer “puta”, que nos reduzem a utilitários da satisfação alheia, que tentam nos desanimar, eles não são mais ninguém. Na minha vida eles são manchas de um passado sombrio, e todos os que repetem seus discursos são imediatamente recusados. Eu aprendi que ser mulher é defender os próprios direitos o tempo inteiro, é praticamente brigar pela própria humanidade. E como diz a frase que coloquei no meu Facebook esses dias:

“Qualquer um que queira me comandar
Estado, Igreja, Família ou “Parceiro”
Será o tirano e meu inimigo!”

Post escrito ao som de Detestation❤

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Público-alvo: Mulheres. Tema de Campanha: Beleza. Slogan: Seu corpo, nosso lucro.

Como publicitária, já estou cansada de ouvir falar em “público-alvo”, ou target, dá no mesmo. Todos os textos que eu produzo no meu trabalho partem de um briefing do cliente, ou seja, uma descrição detalhada do contexto daquela peça: objetivo, histórico da empresa, características do serviço/produto, mercado principal, perfil do consumidor, etc. Às vezes, é preciso que eu leia 10 páginas de texto para criar uma pequena frase de impacto, isso quando não tenho que pesquisar internet afora qualquer expressão que me aproxime da linguagem daquele público, buscando a empatia e a identificação a qualquer preço. Tudo para que a minha mensagem chegue sem ruídos até esse público e o cliente possa vender seu maldito produto/serviço para quem ele quiser.

Muitas vezes sou obrigada a escrever porcarias impregnadas de preconceito de classe, raça, gênero, e dessa forma tomo consciência da ferocidade dos estereótipos, que classificam arbitrariamente as pessoas em grupos e sacrificam sua individualidade. Algumas dessas vezes passo horas me questionando sobre a origem dessas marcações, e não consigo mais ler qualquer conteúdo segmentado sem refletir sobre as intenções d@ autor@. É evidente que cada texto produzido para determinado público exige que @ redator@ mergulhe de cabeça no status quo daquele grupo e reafirme todos os seus valores, pois não há muito espaço para mudanças ou subversões quando a missão é cativar. Uma vez que você perceba isso, todo conteúdo destinado à massa é visivelmente tendencioso.

Hoje, especialmente, proponho uma reflexão sobre o conteúdo feminino que nos é disponibilizado. Quem é o target feminino no Brasil? Quais mensagens estão nos enviando e por que elas nos atraem? Um passeio breve por alguns portais femininos da internet foi o suficiente para esse post.


As categorias mais populares do conteúdo feminino

Beleza em geral – seja bonita, seja perfeita, seja maravilhosa.
Boa Forma –
invista no seu corpo, malhe, faça dieta, não seja preguiçosa.
Maquiagem –
não esquece do corretivo, do pó compacto, truques que diminuem seu nariz.
Pele –
tenha a pele macia, suave e sem rugas.
Cabelos –
lindos e radiantes ao vento, sem pontas duplas, sem frizz.
Cirurgia Plástica –
silicone no peito, na bunda, na perna, só não pode colocar na barriga.
Horóscopo – só o místico pode te orientar em alguma coisa nessa vida, consulte os astros.
Família –
filhos, rotinas domésticas, maridão, carrinho do supermercado.
Casamento –
encontre o homem perfeito, mantenha o tesão, mantenha o interesse.
Receitas – cozinhe para a família, lave a louça e cozinhe outra vez.
Famosos –
tudo sobre pessoas que você sempre quis ser, mas nunca vai chegar perto.
Amor e Sexo –
deixe ele louquinho, consiga seu orgasmo, aprenda a fazer sexo anal.
Casa –
decoração, organização, limpeza, tudo para o ambiente doméstico.
Compras – encontre coisas que você não precisa para desejar.


Alguns sites também contam com categorias para carreira, mas o mais impressionante foi perceber a raridade de assuntos ligados à política, ciência, tecnologia, sociedade, e até mesmo do clássico noticiário. Eu confesso que pensei que o cenário estaria um pouquinho melhor, mas me deparei com uma avalanche de clichês e muitos artigos me chocaram pelo tom acusatório, em especial nas seções que tratavam de corpo. Ver o uso daquela linguagem de proximidade, cheia de gracejos, em contraste com uma mensagem violenta, me fez levar as duas mãos ao rosto várias vezes (facepalm detected).

Hoje escolhi falar exclusivamente de corpo, mas garanto que esses temas ainda vão render por aqui.

Corpo – território colonizado

As frases a seguir foram retiradas de diversos artigos direcionados ao público feminino, disponíveis em portais que são referência em conteúdo na internet:

“Independente de características genéticas, a flacidez é uma inimiga voraz que atinge todas as mulheres, principalmente as adeptas de uma vida sedentária, que não praticam atividades físicas freqüentes.”

“O lifting de bumbum é indicado para pacientes com flacidez de pele, que deixa a aparência “caída”. O procedimento é simples: uma incisão é feita no sulco entre o bumbum e coxa para deixar a cicatriz disfarçada e levantar a região.”

“Em primeiro lugar, lembre-se que estria é um assunto sério, difícil de tratar e, por isso, a prevenção é ainda a melhor opção.Para descobrir o tratamento ideal para o seu caso, entretanto, é necessário consultar um bom profissional para orientá-la sobre uma ou mais formas que podem ser feitas, inclusive, simultaneamente.”

“Para ser a gata da praia desse verão, é preciso começar desde já um plano de redução de medidas que irá colocar as gordurinhas no lugar, amenizar o aspecto de casca de laranja que a celulite causa e dar adeus à flacidez. Para isso, um novo tratamento surge para dar uma forcinha nessa batalha. Trata-se do Velashape, um equipamento que utiliza a sinergia entre a luz infravermelha e a radiofreqüência, que aquece os tecidos profundos da derme. Ficou curiosa? Então leia abaixo tudo sobre esse aparelho que está dando o que falar.”

“[…]a modelo e apresentadora Daniela Freitas, de 23 anos. Não é para menos, com 55 quilos bem distribuídos em seu 1,66 metro de altura, Daniela tem um “plus” a oferecer aos telespectadores aficionados por futebol. Com novo visual, ela agora exibe sensualmente seios mais volumosos graças a um implante de silicone de 215 ml em cada um. Ela faz questão de ressaltar que optou pelo método das axilas para não deixar qualquer marca ou cicatriz no corpo. Em meio a um dia-a-dia atribulado, Daniela abriu um espaço em sua agenda para contar esse e outros detalhes estéticos para o Fique Linda.”

Um rosto bonito e mais jovem, mamas firmes, abdome definido, coxas sem celulite, bumbum levantado, tudo isso deixa uma mulher absolutamente feliz. Mas quando o aspecto dos seus genitais não agrada, isso traz enorme insatisfação e grande constrangimento para a mulher.”

Esses são apenas alguns trechos do show de horrores que encontrei. Não basta criar um padrão ditador de beleza e pressionar todas as mulheres para que se enquadrem de acordo com a “tendência” do momento, é preciso convencê-las de que qualquer esboço de resistência será automaticamente julgado como preguiça, incompetência e desleixo. Não basta decidir que o formato ideal dos seios é privilégio de uma minoria, é preciso reverenciar o silicone como a salvação para todas as pobres mortais marginalizadas da estética. Não basta ter uma empresa e lucrar com a baixa auto-estima das mulheres, é preciso tomar o lugar da amiga mais próxima e lhe dizer exatamente o que deve fazer com seu corpo, para enfim ser merecedora de algum prestígio social.

Todas as características comuns do corpo feminino foram cuidadosamente demonizadas: a celulite, a flacidez, as estrias, as rugas. Ai de quem argumentar que todos esses vilões não passam de aspectos naturais do corpo da mulher, por mais que artigos tendenciosos culpem a mulher e seu estilo de vida “errado” por esses males, sabemos que são compartilhados por TODAS nós – em maior ou menor grau. Faz muito mais sentido dizer que são sinais absolutamente normais, que nos acompanham e fazem parte da nossa identidade. Podemos encontrá-los em mulheres de todas as culturas e estilos de vida, e já foram encarados como algo belo e que simplesmente faz parte dos nossos corpos e da sua história. A condenação do nosso corpo natural só serve aos interesses de uma indústria que lucra mais de 18 bilhões ao ano e tem perspectivas de crescimento de quase 20%, que curiosamente saiu imune de uma das maiores crises econômicas que se tem notícia.

A mulher ideal só é alcançada de fato com um belo Photoshop, com ferramentas cretinas como Clone Stamp (a base perfeita) e Liquify (o bisturi perfeito). A superfície da pele é totalmente lisa, sem qualquer expressão, e toda leve depressão, protuberância ou textura é criminalizada. Foi-se o direito de balançar, deram ao livre movimento feminino o nome de flacidez. Sim, nossos corpos balançam, podemos acumular gorduras em locais diferenciados sem qualquer impacto em nossa saúde, e esses pedacinhos vão se mover quando estivermos caminhando, dançando, correndo ou pulando. Mas, parece que nossos amigos da indústria da plástica e dos cremes firmadores não estão interessados em nossos movimentos, provavelmente estão sentados agora imaginando mais dez maneiras de corrigir nossos corpos, ou em qual será o próximo defeito fantasioso que vão lançar no mercado.

É só parar para pensar. Não existe uma partezinha do nosso corpo para a qual não exista uma correção. Vamos lá, de cima para baixo: Você precisa de 0934829358745 cremes e tratamentos para o seu cabelo, mais alguns para o couro cabeludo, quem sabe um redutor de rugas para a testa, uma cirurgia de correção para orelhas, uma rinoplastia, um creme depilatório para o buço, mais blush para as bochechas, uma correção cirúrgica no queixo, um creme anti-aging para o pescoço, um spray bronzeador para um colo atraente, duas belas próteses de silicone para os seios, descolorante para os pelinhos do braço, creme para combater o ressecado do cotovelo, malhação contra o músculo preguiçoso do “tchau”, manicure semanal para unhas perfeitas, laser para tirar manchinhas das mãos, uma lipo nas gordurinhas que saltam nas costas, mais uma lipo na cinturinha ou nos casos mais graves remoção de costela, mil e um tratamentos e cirurgias que prometem livrar você da pancinha e dos culotes, correção do umbigo, prótese na bunda, malhação sem descanso para as coxas, cirurgia para tirar o excesso dos lábios genitais, depilação anal em dia, um belo hidratante para as pernas, cirurgia de correção das canelas grossas, pedicure em dia e salto alto presente.

E pensar que eu dei pouquíssimos exemplos perto da enorme variedade de correções absurdas que inventaram para o nosso corpo. O tal do “cuidado” e “bem-estar” já passou dos limites e se tornou obsessão há muito tempo, e por acaso essa mesma obsessão virou pauta preferida do conteúdo direcionado às mulheres. Podem dizer que os homens estão começando a entrar no alvo dessa indústria também, mas a pressão sobre eles ainda é muito menor que a exercida sobre as mulheres. A obrigação de ser bonit@ ainda é majoritariamente feminina.

É óbvio que, quanto maior o número de mulheres profundamente insatisfeitas com seus corpos, maior é o lucro da indústria da beleza, e consequentemente, maior é a audiência, alcance e penetração dos meios de comunicação que incentivam esse tema. Sinceramente, não devemos esperar qualquer mudança daqueles que ganham dinheiro com a situação, mas podemos esperar a transformação desse cenário utilizando justamente os veículos de comunicação.

As mulheres estão satisfeitas com esse conteúdo atualmente porque aprenderam a associar beleza como uma questão feminina, e porque não são expostas a nenhum conteúdo diferenciado com uma linguagem que se aproxime do seu cotidiano. Toda mulher que se adapta às expectativas de beleza ganha a tão sonhada aprovação social, e dessa forma ela precisa ser alimentada diariamente com as novas promessas da indústria. Mas, o grande trunfo dos embelezadores é o fato de que elas NUNCA ficarão completamente satisfeitas, porque o que move essa lógica é a meta de beleza inalcançável, aquela que nenhuma mulher poderá ser competente o suficiente para atingir.

As conseqüências da desobediência são fatais, toda mulher sabe que subverter uma regra de beleza pode lhe custar uma ofensa, uma desaprovação ou mesmo o terrível estigma da feia, relaxada e descuidada. Assim, ess@s autor@s de artigos femininos se apresentam como melhores amigas, salvadoras da pátria, aquelas que vão poupar a pobre mulher do seu destino solitário com milhares de dicas, que vão deixá-la um poquinho mais próxima do ideal de beleza – mas nunca o bastante. É como pendurar uma cenoura na sua frente e prendê-la à sua cabeça, você pode correr feito uma retardada, mas nunca vai chegar lá.

Daí, a mulher resolve enfim brigar contra toda essa loucura, e descobre que as pessoas mais próximas também são agentes a serviço da ditadura da beleza. Quem ousa desafiar a lógica pode sofrer com a reprovação das pessoas que mais ama e confia, e por isso muitas preferem permanecer na silenciosa rotina da missão-beleza a correr o risco de destruir a própria vida pessoal. Não podemos culpar essas mulheres, afinal, a pressão é gigantesca e o preço a se pagar alto demais. Mas, ainda podemos mostrar a elas algumas formas diferentes de pensar a própria imagem.

Uma breve observação no panorama geral pode ajudar a despertar uma nova perspectiva, afinal, não é possível que nossos corpos estejam completamente errados e que o nosso destino seja enriquecer a indústria da beleza com as nossas intermináveis frustrações. Tem algo de muito errado nessa história. Não me parece justo que eu acesse conteúdo buscando informações relevantes e me depare com milhares de artigos invadindo meu corpo e impondo que ele seja transformado a qualquer custo. Se o meu corpo é o meu instrumento de relação com o mundo, algo tão particular, como pode uma indústria mesquinha apoderar-se dele por completo? Como pode a cultura da beleza ter chegado ao ponto de bombardear meu espaço mais íntimo, me convencendo de que preciso entregá-lo aos seus cuidados?

“A indústria quer aumentar a auto-estima das mulheres, está apenas dando o que elas querem” dizem por aí. O que as mulheres querem, assim como todo ser humano, é respeito e auto-realização. A ditadura da beleza criou necessidades que não existem e as apresentou como ferramentas legítimas de aprovação social para as mulheres. Mulheres com auto-estima fortalecida não interessam a ninguém, porque não precisariam consumir e tampouco permitiriam que seu corpo fosse objeto de intervenção constante para “correções”.

Lembro de uma frase de Gloria Steinem (ou seria da Greer?) que diz: “Toda mulher sabe que não importa o tamanho do seu sucesso, ela será sempre um fracasso se não for linda”. Ou algo assim. O importante é denunciar que mulheres políticas, engenheiras, arquitetas, sociólogas, presidentas, atletas, pedreiras, professoras, astronautas, ou seja lá de qual profissão forem, ainda são julgadas em primeiro plano pela sua beleza. A imprensa insiste em evidenciar a “feminilidade” da mulher que escolheu uma profissão considerada “masculina”. “É uma policial durona, mas não deixa de cuidar dos cabelos e ser vaidosa”.

Tenho náuseas quando essa mesma indústria fala em “cuidados pessoais”. As mulheres vítimas desse terrorismo não estão “se cuidando”, estão se esforçando como loucas buscando a aprovação social e a adequação aos padrões. E claro que o caminho das dietas, exercícios e clínicas de estética é no mínimo exaustivo. As mulheres não estão buscando o “sentir-se bem” consigo mesmas em campos floridos como nas propagandas, elas SÃO OBRIGADAS a associar o bem-estar com o único modelo aceitável de ser mulher. Só se sente realmente BEM a pessoa que é aceita socialmente e goza de plena liberdade, e o único caminho que deram às mulheres para isso está atrelado a um modelo de beleza utópico. A estratégia deles é dizer que você será mais feliz com 5 kg a menos e uma sessão de Manthus, quando na verdade estão criando uma imposição para que os outros te impeçam de ser feliz caso você não ceda às pressões.

O meu recado para as moças é simples: NÃO, VOCÊ NÃO ESTÁ FAZENDO ISSO PORQUE QUER SE SENTIR BEM CONSIGO MESMA. Você está simplesmente se rendendo, exausta, ao que tanto cobraram de você e te convenceram durante anos. Você não coloca silicone nos seios para que você mesma se goste, essa é a condição que te impuseram para o mínimo de felicidade. Você nunca teria “corrigido” o seu corpo se alguém não te convencesse de que existe algo errado, de que há um “certo” para todas e de que não é possível ser completa sem obedecer esse padrão. Eu nunca vou te culpar por isso, mas quero que você saiba que existe um caminho diferente, em que você pode olhar no espelho e se admirar, se reconhecer na própria pele, exigir sua própria identidade e mandar a indústria da beleza pro inferno – junto com o lixo tóxico desses sites.

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Em plena Era do tesão, minha libido ainda é subversão!

Um dia comum, caminhando até o restaurante ou qualquer coisa do tipo, trocando umas palavras preguiçosas com um amigo e colega de trabalho. Logo o assunto caminha para sexo, porque nada é mais eficiente quando se trata de combater o profundo tédio do horário comercial. Não me importo, falo de sexo como se falasse do clima, quanto mais se fala maior a chance de desmistificar as besteiras que enfiaram nas nossas cabeças. E, como dizem alguns amigos meus, buceta é uma das minhas palavras preferidas.

Logo os tópicos chegam até o tal do ménage, o tão desejado sexo a três. A versão com duas mulheres é o sonho de todo cara médio, muito embora a maioria ainda vá descobrir que não é do jeito que disseram e que satisfazer uma mulher já é complicado, imagine duas. Mas, enfim, vale tudo pelo fetiche de ter não apenas um – mas dois dos seres mais sexualizados do planeta em uma única relação. Até aí ok, mas vamos ver o que acontece quando chegamos até o ménage que envolve dois homens e uma mulher.

“_Se ela quer fazer isso, problema dela, sorte dos caras!”.

[pausa para processamento da informação]

WTF?

[busca no banco de dados culturais, históricos e sociais no contexto ocidental contemporâneo]

AH TÁ.

[momento #feministadepressão]

Pois é, o que poderia ser pior para uma mulher do que FAZER SEXO? O que a levaria a ter maiores perdas significativas em sua vida, moral e direitos do que uma sessão de sexo com dois homens? E claro, NUNCA uma mulher poderia fazer sexo grupal com total consciência e segurança dos seus desejos, porque afinal, a autonomia sexual pertence ao homem e ela será meramente “usada”. Não era uma vontade da moça, foi um momento de coerção e agora ela foi definitivamente lesada por ter gozado com dois homens.

Não sei se dou risada ou se choro. Em pleno 2011, com toda essa efervescência erótica, corpos rosados sorridentes por toda a parte, lábios convidativos e publicidade carnal, as pessoas ainda acreditam que as mulheres não gostam de sexo ou que existe alguma coisa errada (não se sabe bem o que) na escolha feminina de fazer sexo com dois ou mais homens.De alguma forma, esses homens se convenceram de que a mulher TEM ALGO A PERDER no sexo, que a relação sexual subtrai alguma misteriosa força da mulher e adiciona ao homem.

As mulheres pioneiras em abordagem sexual ainda causam ojeriza nesses homens que dizem ser fanáticos por sexo, quando na realidade parecem mais preocupados com a carga simbólica de foder uma mulher do que com o próprio prazer. Às vezes penso que, para a maioria dos homens, é mais prazeroso apresentar as conquistas ao grupo de amigões do que desfrutar dos momentos com as parceiras. Tenho a impressão de que eles mentalizam listas quantitativas de relações sexuais, na tentativa de manter um poder sobre as mulheres que não faz mais sentido algum.

Qualquer homem vai dar um chiliquinho se ouvir uma feminista falando mal de penetração e sugerindo outras maneiras de fazer sexo, porque para a maioria deles essa prática é a essência de tudo. Ok, não teria problema eles terem essa preferência, mas por que afinal os próprios homens tendem a demonizar a penetração como ato agressivo e de domínio? A ideia de dois homens e uma mulher soa para eles como um castigo para a tal mulher, porque supostamente “sofrerá” a penetração de ambos. Peraí? SOFRERÁ? E eu achando que aquilo que eu sentia durante a relação com um homem era TESÃO.

Mas, infelizmente parece que o tesão das mulheres é algo extremamente “sujo” no mundo dos homens, a própria pornografia muitas vezes retrata a mulher em suposto sofrimento enquanto é penetrada. Não são raras as vezes em que homens reagem agressivamente ao comportamento insinuante de uma mulher, soltando pérolas como “essa vagabunda gosta de pica”. PORRA, e não é pra gostar então? É pra detestar?

Parece que esses homens gostam de pensar nas mulheres sob as óticas mais conservadoras, a velha máxima da “dama na sala, puta na cama”. Mulher não pode falar de sexo, não pode querer sexo, não pode ousar, não pode abordar…na verdade, até pode, mas vai ter que suportar um tratamento desrespeitoso e segregador só porque teve a audácia de expressar sua sexualidade. “Safadinha ela, hein”, afinal, mulher que é mulher precisa fazer “cu doce”, lançar um teatrinho do recato para lembrar aos homens que eles ainda mandam.

É com essa grande hipocrisia que os homens reivindicam a posição de sujeitos em qualquer relação sexual, usando todas as estratégias que seus privilégios lhes dão para colocar as mulheres no papel do objeto. A sexualidade feminina, para eles, permanece em função dos homens, como nos deprimentes velhos tempos. O prazer da mulher é uma ameaça, ao mesmo tempo em que eles só falam de sexo, não querem que elas se expressem da mesma maneira.

A buceta, para eles, é um mero receptáculo que satisfaz as necessidades do pinto. Não conseguem perceber o vigor dos músculos vaginais, a capacidade de movimentação e pressão que esse órgão tem e o quanto seu papel pode ser considerado ativo. Um homem não tem a simples capacidade de enxergar uma cena de sexo em que um homem penetra uma mulher por trás como uma relação de troca entre iguais, fica claro que, para eles, a pessoa penetrada carrega o fardo da inferioridade e da passividade.

A relação entre prazer e domínio é evidente nos valores masculinos tradicionais, seguindo como principal motivação sexual a lógica da presa/predador. Os mesmos homens que se dizem máquinas sexuais insaciáveis são os criadores de uma cartilha que impõe vários obstáculos ao exercício da sexualidade feminina, eles mesmos dificultam o prazer da mulher e reprimem seus interesses com seus valores machistas. Parece que não interessa fazer bastante sexo de qualidade, e sim utilizar o sexo como instrumento de poder contra as mulheres. Cada vez mais eu me convenço de que PRAZER não é a prioridade da vida sexual dos homens.

Para ilustrar um pouco, vamos ver alguns trechos de um texto qualquer que encontrei na internet (não vou nem citar a fonte para não causar mimimi’s):

“Este amigo me confidenciou da dificuldade em respeitar suas parceiras, pois já no primeiro encontro são estas que partem para os finalmente, tocando em partes que atiçam o seu desejo sexual… Não consigo imaginar um homem respeitando uma mulher assim.”

É extremamente perturbador como a maioria dos homens se acha no direito de respeitar ou não uma mulher de acordo com a sua vida sexual. Eles conseguem jogar no lixo toda a ideia de justiça, igualdade e companheirismo em troca do privilégio de julgar uma mulher e suas escolhas, dividindo toda a população feminina entre “decente” e “vadia”. Como é possível conciliar uma moral sexual cristã e conservadora, que acredita que o sexo é uma coisa imunda, e uma cultura que evidencia ao máximo o tesão do homem? A resposta é simples, jogando toda a sujeira nas costas das mulheres.

O cristianismo prega que a melhor mulher do mundo é uma virgem, passiva e maternal, e a pior foi responsável por seduzir um homem e estragar tudo. Isso soa ridículo para a maior parte das pessoas que se julgam um pouco informadas, mas ainda está 100% presente na mentalidade atual. A premissa do pensamento cristão é de que o sexo serve para reprodução, e por isso qualquer atividade sexual além desse objetivo é perversa. Com certeza não precisamos mais reproduzir, pelo contrário, a necessidade atual da humanidade é conter a super população e investir no planejamento familiar, que traz autonomia e melhores condições para tod@s. Dessa forma, podemos dizer que o sexo já é reconhecido como uma forma de relacionamento que traz intimidade, tesão e realização para as pessoas, mas ao mesmo tempo sobrevivem os valores que demonizam o prazer sexual – e que, curiosamente, pesam muito mais para as mulheres.

Claro que faz mais sentido colocar a culpa na mulher, é sempre conveniente atacar os mais fracos e vulneráveis. Apesar de considerar o sexo pecaminoso, os bons cristãos aplicaram essa regra apenas às suas dóceis esposas mantidas em cárcere doméstico, criando prostíbulos e determinando que algumas mulheres seriam servas sexuais marginalizadas e outras escravas particulares e mães das crianças. Enquanto as esposas eram privadas de uma vida sexual prazerosa e saudável, as prostitutas eram privadas da vida plena em sociedade e ficavam expostas a todo tipo de exploração e abusos, além de, é claro, não viverem plenamente seus próprios desejos. Assim, a educação sexual feminina foi direcionada para a total passividade e repressão dos próprios desejos, sob a ameaça de marginalização em caso de desobediência.

Com certeza já tivemos grandes avanços na mudança dessas imposições, pois hoje muitas mulheres estão conquistando a sonhada vida sexual livre. Hoje já é possível encontrar mulheres que vivenciam seus desejos e conhecem seus corpos, mas não sem a resistência dos homens e o julgamento da sociedade. Posso me colocar como exemplo nessa questão, pois me considero totalmente livre para escolher o que me dá prazer e quant@s parceir@s eu quiser, sem nenhum tipo de receio. Mas, por outro lado, preciso estar sempre atenta para as pessoas que desejo me relacionar, pois corro o risco de ser desrespeitada por alguém que ainda me julga um objeto da sua vontade. O preço que eu pago também é alto, pois as cobranças e pressões surgem de todos os lados. Família, conhecidos, meros colegas, todos se sentem no direito de analisar meu comportamento e fazer suas considerações, ou mesmo acusações covardes na tentativa de reprimir meu direito de escolha. Reajo a tudo fortalecendo minha auto-estima, pois sei que estou apenas exercendo meus direitos básicos enquanto ser humano, como os homens fazem. Busco meu prazer, minha satisfação, mas não me esqueço que estou vivendo em um mundo em que estupros acontecem dentro do próprio casamento e meninas pouco sabem sobre seus próprios orgasmos e corpos, enquanto os homens vivem livremente sua sexualidade com total aprovação social.

Por que eu faria sexo com alguém que não me respeita? Por que qualquer mulher faria sexo se soubesse que os homens a menosprezam por isso? Por que não podemos simplesmente expressar nossos desejos e continuarmos sendo seres humanos plenos em nossos direitos? Não somos sujas ou vagabundas, ou qualquer outro adjetivo hostil, só porque sentimos prazer e gostamos disso. Isso é o mínimo que poderíamos exigir de uma relação saudável.

“Se as mulheres conseguirem se respeitar, os homens poderão se controlar e levar uma relação sem prejuízo para os dois. Homem não deixa de ser homem por respeitar sua namorada/parceira. Mulher não perde sua feminilidade se não se entregar já no primeiro encontro. Querer conquistar o parceiro deste jeito, é o meio mais fácil para não conquistar ninguém. Um tesouro que já foi descoberto, não desperta mais o mesmo interesse de antes.”

É muito comum escutar a velha frase “mulher tem que se dar o respeito”. Claro, afinal, não podemos esperar respeito dos nossos companheiros homens, não é, temos que entrar na defensiva e nos privar para agradá-los, tornando-se assim “mulheres de respeito”. Quanta bobagem! Mulher não tem que se dar ao respeito, mulher já merece o respeito só por ser uma PESSOA, que como qualquer outra, sente desejo sexual e quer trocar isso com outr@s. Homens e mulheres precisam ter sua sexualidade respeitada, para o mínimo de justiça. Então, não, as mulheres não precisam “se dar ao respeito”, VOCÊ TEM QUE RESPEITÁ-LAS.

Alguém me explica, afinal de contas, essa lógica de sexo no primeiro encontro “tirar a graça” da relação, tornar as coisas “fáceis demais”. Porque, pelo que parece, só conta para as mulheres essa regrinha, o fato do homem estar sentindo desejo desde o primeiro contato não é alvo de reprovação em momento algum. Pelo menos para mim, para fazer sexo, basta ter vontade e escolher@ parceir@, e claro, proteger-se. É incrível como a mulher precisa sempre fazer uma frescurada sem fim para chegar ao “finalmente”, e depois são os mesmos homens que reclamam disso. Daí vem esses homens dizendo que quando é fácil não é legal, oras, não é legal justamente porque eles não conseguem conceber que a mulher tem o MESMO desejo sexual, é sempre preciso que ela abra mão disso para colocar o homem na posição superior, de controlador da situação. O macho precisa sempre sentir que está conquistando a fêmea, mesmo que ela já estivesse interessada desde o primeiro momento, do contrário, ele fica frustrado, porque a situação fica muito igualitária, né? Onde já se viu, ambos com tesão, ambos tomando a iniciativa e curtindo numa boa?

E daí vem a psicologia evolutiva e bobagens do nível dizendo que a seleção natural fez os homens mais promíscuos, como se homens e mulheres gozassem da mesma posição social e tivessem as mesmas liberdades. Minha libido diz o contrário, mas bem que eu poderia ter me tornado mais um exemplo de mulher contida e reprimida, esperando o príncipe encantado me deflorar, não faltaram estímulos e inclusive pressões para isso. Eu entendo perfeitamente as mulheres que perdem o interesse pelo sexo, afinal o cenário não é nada animador para quem quer vivenciar uma vida sexual agradável e sem incômodos. Sempre estamos correndo o risco de sofrer repressão e rejeição quando reclamamos o direito ao nosso corpo a aos nossos desejos, mas no fim das contas vale muito mais a pena do que entrar nessa lógica heterossexual irritante.

Por isso, sim, continuo falando sobre sexo, o quanto for preciso, e sem medo de parecer “vadia” ou qualquer outro rótulo esquisito criado pelos homens. Essa briga é minha e faço questão de exigir meus direitos, porque acredito que faz parte da minha auto-estima e realização pessoal ter uma vida sexual completa, e que nenhum ser humano, independente do sexo/gênero, tem o direito de me reprimir ou julgar meu caráter baseado em valores conservadores e cristianismo barato.

Por sorte ainda existem homens que estão preocupados com o prazer e a satisfação da sua companheira, acima de qualquer moral hipócrita que limite os desejos e a felicidade, e que são capazes de respeitar uma mulher mesmo que seja uma transa casual. Penso que as mulheres não devem aceitar uma relação com homens que não reconheçam sua autonomia, mas também conheço o alto poder dissimulador masculino e sei que nem sempre conseguimos evitar esses indivíduos. Por isso, a receita é estar sempre com a auto-estima fortalecida para combater esses valores que ameaçam nossa integridade, e nunca abrir mão das próprias vontades para se encaixar em um modelo que não é justo e não trará nenhuma realização.

Pense sempre que o julgamento social é um dos preços da liberdade, e que no fim das contas vale muito mais a pena investir na própria felicidade do que mentir para si mesma. A gente sempre acaba encontrando alguém bacana nesse caminho, por mais que ele pareça difícil, nada pode ser mais delicioso do que encontrar pessoas que te valorizam e respeitam suas decisões sem nenhum preconceito. Se não for pra viver algo verdadeiro, eu prefiro não viver mais nada – e ninguém vai conseguir me parar.

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Mini Manifesto contra a Família Nuclear

Férias são totalmente indispensáveis na vida, e hoje significam um dos únicos períodos em que se retoma o fôlego, como se passássemos o ano todo sem ar e de repente fosse possível respirar de novo. Para quem mora em São Paulo, enfrenta 3 horas de transporte público caótico diariamente para ganhar as migalhas de papel no final do mês – que ainda assim garantem o posto na classe C – não dá para dispensar esses dias de glória.

Mas, me pego pensando o quanto é impossível fugir da realidade, e não entendo como tem gente que pode apertar o “off” e se jogar na piscina como se nada mais importasse. Olha, confesso que tentei ser uma dessas pessoas esse ano, mas não tenho um estômago tão foda assim.

Londrina, Paraná. Cidade do interior com clima urbano, mas o lugar onde eu fico é totalmente rural, uma chácara com piscina e muito verde. Todo mundo aqui fala “porrrta”, adora sertanejo e está sempre tranqüilo. São minha família por parte de mãe, pra qualquer canto que eu olhe tem uma tia, um primo, ou algo assim.  A casa é enorme e está sempre cheia, alguns móveis são tão antigos que me fazem lembrar a minha infância em detalhes, basta prestar atenção no formato da prateleira e naquele puxador de metal engraçado da gaveta.


São boa gente, sim, muito boa. Solícitos ao extremo, agradáveis, sorridentes e simples. Mas, acabaram sendo objetos da minha incontrolável leitura crítica. E isso me trouxe inspiração para falar de um tema que já estava na minha cabeça: a família nuclear.

Para que o nosso sistema se sustente, existe uma base que precisa ser mantida a todo custo, que é a nossa estrutura familiar composta de um casal heterossexual e seus descendentes, que vivem em uma propriedade privada e sustentam todas as instituições conhecidas (igreja, escola). Aqui não faltam situações para analisar essas famílias, já que acabei ficando em contato com muitas delas em um período curto – em São Paulo quase não vejo parentes.

É engraçado quando você sai de um ambiente totalmente construído para você, seu círculo de amigos libertários, que falam de política o tempo todo e te fazem sentir em algum tipo de utopia, e de repente a realidade te dá um soco na cara trazendo de volta o status quo. Somos uma minoria, o mundo lá fora é muito maior, mais feio, e eles conseguiram enfiar os valores mais cretinos goela abaixo das pessoas.

Você olha ao redor e captura uma série de cenas que perturbam a sua mente. Aqui, as mulheres são servas dos maridos, fazendo todas as suas vontades e as dos seus filhos também. O olhar delas é triste, perdido, por mais que estejam sorrindo e conversando, muitas já são conhecidas por seus misteriosos problemas psicológicos – que incrivelmente só acontecem com mulheres. As crianças são ensinadas no mais duro sexismo, as coisas de meninas e meninos estão absurdamente segregadas, eles têm pavor de tudo que é feminino e elas estão sempre ansiosas para atender às expectativas da feminilidade. A homofobia está presente com toda a força, e ninguém consegue entender porque eu defendo “essa gente”. Os animais então, coitados, são vistos como lixo, usados e explorados em todos os contextos possíveis e imagináveis: alimentação, vestuário, entretenimento barato, qualquer destino de utilitarismo e sofrimento que puderem lhes dar. Dei de cara com um porco morto em cima da mesa, e mais quilos de outros animais despedaçados, especialmente na tal noite de Natal, mas é claro que não me pronunciei a respeito.

Aliás, a religião parece ser justamente a base dessa organização familiar. O Deus homem, branco e hetero manda por aqui. A misoginia corre solta na festa da ignorância, é um tal de marido xingando a mulher porque quer janta, mulher xingando a outra de vagabunda porque não limpa a casa, mãe falando pra filha não se sujar porque ela é menina, homem falando que é macho pra caralho o tempo inteiro. Pára que eu quero descer!

Mas, vamos fazer disso uma observação organizada, segue meu pequeno manifesto contra a família nuclear:

Casamento – o contrato da vida a dois

O que é esse tal de casamento heterossexual? Lembro do desespero de algumas tias que já tinham passado dos 30, e que não tinham conseguido o tal marido. As meninas ainda são educadas para conseguir um provedor, por mais que sejam incentivadas a ter sua carreira, é sempre necessário que o homem lhe dê as condições materiais para viver.

A família começa a pressionar a garota por volta dos 20, principalmente se ela já namora. É preciso que uma nova família seja criada, ninguém sabe ao certo por que, simplesmente tem que ser assim. Mesmo que os filhos não estejam nos planos – o que já configura “desgosto” – uma garota não pode ser solteira, não pode aproveitar uma vida sexual ativa longe do matrimônio, ou ela não é mulher o suficiente. O homem, por sua vez, tem muito mais tempo e liberdade, porque ainda reina a ideia de que as mulheres precisam de alguma forma ser “guardadas”, reservadas para o homem ideal. As mulheres experientes e confiantes sofrem ataques de todo tipo, que tentam rebaixá-las ao status de “usadas”, para que sua auto-estima seja esmagada e elas estejam disponíveis enfim para o ritual do casamento.

A “mulher para casar” é praticamente um cachorro obediente, tem como formação ideal todas as habilidades para cuidar de uma casa, uma sexualidade contida, temperamento dócil e ainda é bela. O “homem para casar” só precisa de um emprego médio e alguma demonstração de poder financeiro, mais nada. Alguns ainda são bons namorados, e logo após o casamento colocam a mulher no seu “devido lugar”.

A cerimônia religiosa já começa com o pai entregando sua filha ao marido, representando os anos de subjugação da mulher a uma figura masculina proprietária, seja pai, marido, irmão, o que for. Espera-se ainda em pleno 2010 que ela seja virgem, ou pelo menos com pouca experiência sexual. O casamento católico tem um apelo de eternidade, como se Deus estivesse selando aquela união (ou seria condenando?). A ameaça presente é de que terminar um casamento cristão é algum tipo de pecado, ou seja, os dois vão ter que fazer um esforço tremendo para manter a relação, por mais que esteja uma merda. Que tipo de relação amorosa tem um contrato desses? Chamam de amor essa prisão perpétua?

Tem gente que ainda justifica o casamento dizendo que nós precisamos de alguém quando estivermos velhos. A situação precária dos idosos e aposentados é um método de coerção bastante eficiente, ao menos no nosso país, mas o pensamento estabelecido de que apenas familiares são companhias confiáveis é falso. É possível, ainda, ter um@ companheir@ quando mais velha, e não faz sentido nenhum justificar uma vida inteira de tédio matrimonial com o receio de uma aposentadoria ruim, isso é masoquismo.

Lar doce lar – cárcere privado

Ele vai ser o responsável por comprar uma casa confortável, onde vai colocar sua mulher para trabalhar feito uma escrava. E isso não vai ser considerado trabalho, é apenas a “obrigação feminina” cozinhar, lavar, passar, limpar, porque vem impresso no DNA de toda mulher que essas tarefas repetitivas e exaustantes são a realização da sua vida. O circo fica completo quando chega o filho, que demanda toda a atenção da mulher, mas ela ainda tem que cuidar da casa e do outro “filhão” que é o marido, chegando tarde do trabalho e esperando a janta no prato. Quando a mulher trabalha, ao invés de conquistar independência ela conquista uma jornada tripla do inferno, por mais que trabalhe o mesmo tanto que o homem ainda tem o segundo expediente quando chega em casa.

Daí os livros começam a retratar a multi-mulher, a mulher moderna, que se desdobra para cumprir suas tarefas, e ninguém enxerga que isso é um abuso enorme. Elas são incentivadas a prosseguir com seu trabalho sem fim, aplaudidas pelo patriarcado quando fazem exatamente o que os homens querem: trabalhar feito camelas para manter suas famílias. Nada pode ser mais honroso para uma mulher na nossa sociedade do que conseguir trabalhar, cuidar dos filhos, da casa e do marido, por mais que isso tome qualquer tempo produtivo e roube toda a sua autonomia. Parabéns, mulher multi-escravizada.

O romance e o sexo vão pro lixo bem rápido, dando lugar ao teatro heterossexual da dor de cabeça feminina e insatisfação masculina. São uns artistas mesmo, conseguem dividir o teto com uma pessoa que repudiam e dão os filhos como desculpa. Os homens ainda têm seu tempo com os amigos, suas válvulas de escape, estão sempre dando um jeito de continuar vivendo – até mesmo através de amantes. A mulher se torna a figura da “patroa”, uma mulher amarga que exerce algum tipo de ”autoridade” com o marido, quando na real os homens só cedem aos esperneios delas porque não querem perder os privilégios da serva. Um homem não é capaz de lavar e passar sua própria camisa, de fazer sua própria comida, não é capaz de enxergar que a sua casa é de tod@s que ali residem e deveria ser cuidada por tod@s. Quando muito, contratam uma empregada negra e pobre por uma miséria, quando seria muito mais justo que os residentes cuidassem da sua casa,e não que colocassem esse peso nas costas de outra mão de obra barata – sempre feminina.

Quando um homem está com uma roupa mal passada, culpam a mulher. Se o filho está mal educado, só pode ser problema da mãe. Se a casa não está limpa o suficiente, já recai sobre as costas dela, a patroa. Culpar a mãe é uma velha máxima que o feminismo denuncia, já que o pai é uma figura secundária que apenas serve de provedor para a família. As responsabilidades de uma mãe são tantas que não permitem que ela tenha o tempo necessário para sua própria realização, ela trabalha a serviço da sociedade, e sua auto-estima quase sempre é um fracasso. Muito se enganam aqueles que acreditam que basta uma família bem cuidada para que a missão da mulher esteja cumprida e ela se sinta realizada, a maioria das mulheres, quando se vê nessa situação, percebe que falta algo muito importante. E daí surgem muitos quadros de depressão em mulheres casadas, pois elas sequer conseguem compreender o que está faltando. Imagino que muitas mães de família se perguntem todos os dias “Por que sou tão infeliz?” – e não foram poucas as que me confessaram isso.

A resposta é simples, essas mulheres são condicionadas para a auto-anulação em busca da felicidade dos outros. Não se trata de altruísmo lindo e maravilhoso, e sim de uma relação de servidão. A mãe que se sacrifica pelo marido e pelos filhos não pode deixar de transparecer sua amargura, e também de passar para frente todos os valores que tornaram a vida dela um inferno, para que sejam reproduzidos na próxima geração. Daí entram aqueles paradoxos da mulher machista, que na verdade é uma situação óbvia, a maior vítima do machismo é também a mais vulnerável, que mais absorve as determinações e não consegue enxergar outro modo de vida. É como um trabalhador escravizado, que não tem condições ou informação suficiente para reivindicar seus direitos, e se torna presa fácil dos mais poderosos. Quais são os direitos da mãe? Quem lhe deu tantos deveres e porque ela deveria cumpri-los?

E claro que o patriarcado aplaude as mães, quanto mais se sacrificam pelos outros melhor. Mãe é sagrada, ninguém pode xingá-la. Mãe não é mulher, é uma criatura assexuada e divina com o poder de cuidar de todo mundo, e de se esquecer totalmente nesse processo. Não é à toa que mulheres famosas e ricas contratam equipes de babás, fazem lipoaspiração, contam com mil empregadas, elas não são querem ser “mães”. Porque as verdadeiras mães ficam gordas, de seios flácidos, olheiras, extremamente cansadas e mau-humoradas, vivem em função dos filhos e ainda têm um lar doce lar para varrer, lavar, passar, encerar, e um marido super bacana para alimentar. Mães não saem para dançar, não lêem nem escrevem, não criam posições sexuais, não visitam cinemas ou museus, não viajam, não se masturbam. Isso parece uma vida digna? Para quem? Só se for para o Estado.

A prole – ápice da família nuclear

Não basta existir apenas o casal heterossexual, é preciso que ambos reproduzam para dar continuidade a uma linhagem, mantendo a cultura da herança e da valorização do “mesmo sangue”. Não interessa se o mundo está super lotado, se as pessoas se espremem nos transportes públicos, se os recursos estão se esgotando e logo o planeta pode entrar em colapso com tanta exploração, o que importa mesmo é manter o nome da família. Adoção? Só quando não há outra maneira, e ainda é uma prática pouco incentivada.

Ter filhos é uma espécie de complemento para essas pessoas, e muitas vezes um ato bastante egoísta. Pouquíssimos são aqueles preparad@s para tornar-se educad@res, que dispensam um tempo ao menos para ler sobre pedagogia, planejar a orientação das crianças. O interesse de tutelar crianças não parece partir do desejo de orientar, construir e desenvolver um ser humano, e sim do desejo da própria felicidade, da sensação de completude que só o cumprimento das regras sociais pode trazer. Casais não têm filh@s pensando no desafio de apresentar nosso mundo conturbado a uma nova pessoa e guiá-la da melhor forma possível, eles pensam, primeiramente, no bem estar próprio. O que uma criança pode fazer pela minha vida? O que o sorrisinho dengoso de um bebê trará de bom nessa casa? Será que os pequenos correndo e posando para fotos vão tornar minha família mais feliz?

O que se segue ao nascimento das crianças normalmente são alguns desastres pedagógicos, e claro, reprodução dos mesmos valores de sempre. As mães são as donas dos filhos, dita a nossa cultura. 90% das responsabilidades envolvendo a criança, especialmente necessidades básicas, serão jogadas nas costas da mulher. O pai é uma figura mais distante, ainda seguindo seu papel de provedor, e frequentemente adotando o papel de “normatizador” da família, aquele que cria as regras e deve ser mais respeitado do que a mãe.

O problema já começa na criação totalmente diferente que meninos e meninas recebem. Enquanto os meninos são incentivados a praticar esportes, criar estratégias, construir cidades, operar máquinas, as meninas são levadas ao mundo da fantasia onde princesas encontram seus príncipes, ou ao mundo das bonecas onde elas são treinadas para a maternidade e serviços domésticos. Eu simplesmente tenho náuseas quando vejo todas aquelas panelinhas, bebês pra trocar fraldas, mini chapinhas, quer dizer, a brincadeira da menina é se programar para o serviço de casa, para cuidar de criança e se embelezar para os meninos. Do outro lado, vejo os meninos se divertindo horrores com carrinhos, trenzinhos, cidades de montar e jogos coletivos, exercitando todas as suas capacidades físicas, intelectuais e sociais.

Outro problema é a presença da violência na educação dessas crianças. Alguns insistem que dar um tapa é algum tipo de direito do educador, para mim sempre será uma profunda incompetência desses pais e prova de que eles não sabem lidar com suas próprias angústias, frustrações e impulsos violentos. Meninos e meninas são ensinad@s a impor limites através da violência, seja física ou psicológica, e ainda dizem que o ser humano tem o ódio como “característica inerente”. Ainda há aqueles tipos de pais que ignoram quase que completamente os filhos, opinião de criança é sempre insignificante para eles, elas não têm nenhum tipo de direito à expressão ou autonomia para eles. “Criança disse? Bobagem!” Além disso, nunca encontram tempo para desenvolver atividades inteligentes, que estimulem o convívio social e o desenvolvimento dos pequenos. O resultado são milhares de futuros adultos com baixa auto-estima e complexo de inferioridade, o que pode ser expressado tanto com timidez extrema como com agressividade.

A adolescência é um mistério ainda maior para os pais medianos da sociedade, por se tratar do período de contestação, em que o jovem mais necessita de esclarecimentos, orientações e confiança. Assuntos como drogas e sexo costumam ser ainda grandes tabus na mesa de jantar, o que apenas prejudica o desenvolvimento do adolescente e o deixa mais expost@ à falta de informação e perigos das ruas. O patriarcado também está bastante presente nessa fase, especialmente na diferença brutal entre a abordagem das questões sexuais para meninos e meninas. Eles, como sempre, são incentivados a ter muitas parceiras, enquanto elas são reprimidas e estimuladas a ter vergonha, receio e medo da própria sexualidade.

Essa adolescente é pressionada pelos pais a manter-se virgem e ao mesmo tempo pressionada a ter sua primeira relação sexual pelos amigos da escola. No fim das contas, o que a sociedade acaba valorizando em pleno 2011 é a “aura” da virgindade, a garota pode até ter no histórico relações sexuais, mas que sejam – ou pareçam – poucas e com pouquíssimos parceiros.  Experiência sexual não é recomendada para as moças, mesmo que seja um bom caminho para descoberta do próprio corpo, desejos e orgasmo. Masturbação feminina parece palavrão, enquanto a cena do garoto no banheiro com a Playboy é encarada como natural e engraçadinha.

No plano afetivo, a maioria das garotas ainda está com a cabeça nos príncipes, não da mesma forma encantadora que a Disney colocou, mas através da dependência emocional e da esperança em encontrar o homem perfeito. Enquanto isso, no mundo real, os garotos fortalecem a auto-estima e a própria identidade em seus relacionamentos, cientes de que não existe uma princesa para esperar, e sim muitas pessoas diferentes para conhecer e entender novas visões. Eis que os interesses da garota se chocam com a dura realidade dos garotos, e os relacionamentos se tornam bastante conturbados e desequilibrados.

Nessa etapa, as garotas são convencidas por todos ao redor de que os “homens são assim mesmo”, carregando para sempre um conformismo sobre as “profundas diferenças” entre homens e mulheres. E nesse ponto, um desses relacionamentos conturbados com um rapaz pode se tornar um novo casamento, pois ela não vai arranjar nada melhor mesmo. Na melhor das hipóteses, ela pode ter um bom relacionamento com um homem acima da média, mas não que isso vá impedir toda a lógica do contrato da vida a dois, cárcere privado e geração da prole, para recomeçar o ciclo familiar.

Enfim…

Se todo esse processo de formação de famílias prossegue normalmente, as estrutura sociais se mantêm intactas e seus valores são repassados de geração em geração. A família nuclear é a garantia de que o Estado pode prosperar e de que os “bons costumes” estão seguros, mesmo que sua inconsistência seja gritante. É incrível como as pessoas se prendem a esse modelo como sua única segurança de uma existência plena, e ao mesmo tempo parecem tão infelizes, perdidas e confusas.

A minha proposta para resolver essa questão seria o incentivo às organizações familiares alternativas, consangüíneas ou não. Que todos os grupos de pessoas que se identificam profundamente e partilham a mesma moradia tenham o mesmo status familiar, sejam heterossexuais ou homossexuais, com crianças ou sem, morando com amigos ou parentes. Que seja possível constituir famílias de todas as formas, e que todas sejam reconhecidas e respeitadas. E, o mais importante, que os novos valores que evidenciam a liberdade e os potenciais humanos, independente do sexo ou gênero, sejam aplicados nessas famílias. Que haja liberdade para a sexualidade, para a expressão política, para os novos pensamentos e reflexões que precisam chegar a tod@s os indivídu@s.

Acredito que toda a transformação precisa ter início nesses micro-ambientes, para enfim atingir a sociedade por inteiro. Afinal, de que adianta a gente repensar todos os valores humanos, partilhar descobertas e novas visões apenas entre amig@s de grupos restritos, enquanto as famílias mais próximas ainda vivem sobre uma lógica dominante que arrepia até o nosso último fio de cabelo?

PS: Muitas questões desse texto precisam ser aprofundadas, este é apenas o esboço do que está por vir.

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Separatistas são os homens!

Pois bem, se eu tivesse um saco, ele estaria explodindo em abscessos de tão cheio. Parece que a desinformação é mesmo um câncer, que consegue transformar vítimas em algozes e manipular até o mais óbvio dos contextos.

Ok, eu explico, mas já vou avisando que vai ser polêmico. Não se pode escapar de ler/ouvir da boca dos homens – ou em alguns casos até de mulheres – que o feminismo é coisa de lésbica mal-comida, certo? Esse é o clichê dos clichês, que felizmente com um pouco de conversa pode ser revertido. Mas, quando o assunto é separatismo lésbico, ou moças que escolheram amar outras mulheres e fazem disso uma posição política, se afastando ao máximo dos homens, aí parece que todo mundo vira lesma com sal. “Viu só, viu só, a que ponto chegam essas feministas? Onde já se viu discriminar homens? Isso sim é sexismo mimimi!”

Não precisa nem chegar ao radical separatismo lésbico para as pessoas surtarem, você pode comentar sobre Mujeres Libres e outros grupos que admitem apenas mulheres, de uma simples oficina ou evento com temas específicos para mulheres, ou até mesmo uma reunião de amigas para debater feminismo para a qual os rapazes – pobrezinhos – não recebem o convite VIP. Tudo vira motivo para dizer “Oh, corram para as montanhas, elas estão discriminando homens!”. Daí vem aquele papo todo de que se o feminismo quer ser justo é preciso acolher os homens, ou estaremos praticando um sexismo inverso. Nesse caso, acolher os homens significa trazê-los para nossos encontros, ouvir o que eles têm a dizer sobre feminismo e em hipótese alguma criar espaços restritos para mulheres.

O argumento dos homens é que precisamos de união, caminhar juntos, sem nenhum tipo de discriminação, tolerância feelings e tal e tal. Muito bonito, louvável, pena que na prática não é bem assim que funciona. As feministas que já tiveram a experiência de admitir homens na roda de discussão com certeza experimentaram algumas das facetas do patriarcado que restavam dentro deles, porque, afinal, é muito difícil desconstruir a ideia de superioridade masculina, ainda mais quando traz privilégios diretos. Claro que admiramos os mínimos progressos dos homens ao nosso redor, e sempre que possível estamos tentando fazê-los compreender melhor o peso do patriarcado e suas conseqüências sobre as mulheres. Aos poucos, aqueles mais próximos já não chamam as mulheres de putas porque fazem sexo, já não as culpam por estupro ou esbravejam toda vez que vêem uma delas atrás do volante no trânsito, mas ainda não podemos comemorar nenhuma vitória.

Tomemos como exemplo algumas reuniões de grupos feministas, anarquistas ou mesmo uma reunião do movimento sindicalista, em que temos exemplos suficientes de homens que levantam a voz para as mulheres quase que automaticamente, enquanto tendem a ouvir mais os outros homens da mesa. Como disse nosso queridinho José Serra “Com mulher não tem competição”, porque, afinal, elas são inferiores. Tenho dois casos recentes para dividir: Um foi com uma organização sindical que não vou citar o nome aqui, da qual uma amiga minha feminista estava participando ativamente. Um dos caras que fazia o discurso socialista mais incrível, que fazia todo mundo se sentir inspirado, era o mesmo cara que sentava o traseiro peludo na cadeira na hora de jantar em público e mandava a esposa dele pegar tudo o que queria. A mulher quase não tinha tempo para comer sua própria comida, porque o cidadão a fazia de garçonete particular. Daí, quando outras pessoas do movimento foram discutir o problema, o homem ficou possesso e se desligou de lá. É bem como dizem por aí, até o menor dos operários tem uma escrava em casa.

Mujeres Libres

Tenho minhas próprias experiências em outros grupos também, sempre observei que basta um homem entrar em uma discussão feminista que ele começa a advogar pelo seu “gênero”. É incrível, estamos ali falando dos problemas das mulheres, que muitas vezes incluem os homens como algozes, e lá vai o rapaz libertário dizer que as coisas não são bem assim, porque afinal, ele é homem e é super legal. É a velha cultura da exceção, só porque alguns homens não estupram ou socam mulheres não quer dizer que a maioria esmagadora dos que o fazem não sejam homens e tenham uma educação muito semelhante. Ao invés de apoiar as mulheres e conversar com outros homens para criar uma consciência melhor, os caras entram na defensiva, e com isso também inibem as mulheres de falar. Outro detalhe é o constrangimento que muitas mulheres sentem em revelar que sofreram algum tipo de abuso sexual, físico ou moral perto de outro homem, pelo medo de serem julgadas (mas como você estava vestida mesmo?). Isso traz ainda mais problemas para a visibilidade das opressões contra as mulheres, porque como tod@s bem sabem, toda mulher tem uma história de horror para contar.

Pra que serve essa merda de patche?

Isso sem mencionar o tratamento velado reservado às mulheres nas organizações. Até entre aqueles que se dizem libertários ou contra-culturais impera o status-quo, em que mulheres servem basicamente para decoração e deleite dos machos do bando. Não é raro andar por meinhos libertários e escutar os comentários mais trogloditas do mundo, o cidadão faz questão de ir na palestra feminista, com patch do Crass na jaqueta e símbolo de ♀=♂, e falar bem alto entre os amigões que a garota palestrante podia calar a boca chupando o pau dele. E ainda temos aquelas cenas alternativas que são dominadas por homens, com bandas de homens, zines de homens, onde as mulheres são tratadas ainda como “gostosas” ou “barangas”, “santinhas” ou “putas”, e os caras ainda têm a cara de pau de dizer que elas é que não se interessam em estar ali, ou só vão pelo namorado.

Enfim, fica claro que esses espaços “mistos” não servem ou servem muito pouco à luta das mulheres. E isso não acontece porque os homens são todos essencialmente malvados e odiamos todos eles, mas porque os valores vigentes apontam para a superioridade masculina e é quase impossível que os caras não se contaminem com tudo que lhes foi ensinado sobre a dominação das mulheres. Você tem um garoto que desde pequeno recebe estímulos para ser livre enquanto sua irmã é oprimida, que tem a mãe sempre à disposição e a vê sendo calada frequentemente pelo pai, que se torna seu herói…precisa do que mais?

Agora, outra reflexão, já pararam para pensar em quais são os espaços “femininos” hoje na nossa sociedade? Os homens contam com a partida de futebol, o boteco, o puteiro, as casas de jogos, sempre gozam da companhia dos amigos até mesmo quando casados (a célebre escapada da megera). Já as mulheres, onde se encontram para trocar idéias? No salão de beleza? No shopping fazendo compras? No parquinho cuidando das crianças? Por que será que a ideia que se faz de mulheres juntas em um bar ou qualquer lugar de confraternização é tido como ameaçador pelos homens, em especial maridos? Por que os pais dizem às suas filhas “Vai deixar de sair com seu noivo para sair com amigas? Isso não está certo.” E uma questão que vi esses dias e achei muito interessante: Pense em algum filme, qualquer um que você já tenha visto na vida, que tenha um diálogo de mais de 3 minutos entre duas mulheres, e que elas não estejam conversando sobre homens (o protagonista, no caso). Difícil, né?

A verdade é que a convivência entre homens é estimulada, enquanto que as mulheres são incentivadas a competir umas com as outras em função dos homens. A rivalidade feminina é uma estratégia esperta do patriarcado, que joga umas contra as outras na busca pela atenção dos machos enquanto eles criam laços fortes entre si. A amizade entre os homens é um pacto, e garante muitos momentos de confraternização e fortalecimento dos laços. A amizade entre mulheres é vista como algo superficial, infantil e sempre frágil, como se a primeira aproximação de um “partidão” pudesse gerar uma briga e uma disputa. Os espaços públicos, por sua vez, também pertencem aos homens, já que ainda hoje é perigoso para uma mulher andar sozinha por aí, ainda mais de noite, afinal seu corpo pode ser alvo da invasão de um homem pelo simples fato de ser mulher. Claro que as mulheres já saem sozinhas, já tiveram muitas conquistas, mas ainda existe esse clima de medo, em que só andar com um homem ao lado é totalmente seguro. Se você anda sozinha, sem um “homem proprietário”, torna-se alvo de abusos verbais e até agressões físicas.

Como se não bastasse todo esse cenário favorável aos homens na sociedade, ainda querem excluir os únicos espaços unicamente femininos que existem com o argumento do sexismo! Como se, realmente, as mulheres estivessem se empoderando para atacar os homens, quando na verdade ainda estamos no primeiro passo em busca da igualdade de direitos: o fortalecimento das mulheres e identificação entre si. É um egoísmo tremendo um homem apontar para uma feminista e dizer que ela está sendo sexista por fazer uma reunião apenas de mulheres, sabendo que não há outras oportunidades como esta em que elas poderão trocar experiências e se apoiar para lutar contra a opressão masculina. Basicamente, os homens já têm toda a liberdade que poderiam desejar, mas não se conformam de ser excluídos de uma simples reunião entre mulheres que buscam a mesma liberdade. Isso se chama birra, costume de ser privilegiado em tudo.

E enfim podemos chegar até a revelação do dia (wow): A verdade, querid@s, é que as feministas não são separatistas, OS HOMENS É QUE SÃO SEPARATISTAS.

Ou vai dizer que você nunca reparou como eles formam seus grupos de amigos e transformam isso em um universo PARALELO? Eu já convivi bastante entre homens, já ouvi absurdos – e ouço, sempre – mas posso afirmar que existem coisas ainda mais pesadas que eles só dizem quando estão juntos, e são segredos de Estado. Os homens podem até fingir que tratam as mulheres com igualdade, mas são os primeiros a falar um monte pelas costas delas quando estão com os amigos. Eles narram como gostariam de transar com aquela amiga de vários anos que nem imagina, como a namorada é chata e menos gostosa que fulana, ou como a enganaram para poder sair naquele dia, diversos comentários que não teriam coragem de dizer em nenhum outro local, senão na segurança do universo masculino. Na vida real, não têm coragem ou dignidade suficiente sequer para dizer à própria esposa que gostaria de sair ou que algo lhe desagradou, preferem enxergar as mulheres como idiotas e fazem das traições e mentiras um jogo divertido.

Um dos primeiros mandamentos na vida dos homens é justamente de não tratar as mulheres como iguais, elas são sempre mais frágeis, mais burras, ou só servem para sexo. Quantas vezes a gente não escuta os rapazes dizendo “Eu gosto é de mulher”. Sempre que eu ouço essa frase eu sinto um embrulho no estômago, e tenho vontade de responder “Gosta o cacete, se gostasse você respeitaria, na verdade você ODEIA! O que você gosta é de arrombar mulheres.” “Gostar” de mulher significa apreciar a penetração nas bucetas delas, basicamente. E isso pode facilmente ser interpretado como ódio, porque eles mesmos dizem que “foderam a vagabunda, aquela piranha desgraçada, bem feito, tomou rola”, é sempre degradante ou humilhante para a mulher fazer sexo, porque eles sempre se acham os donos da situação. Quando o cara vê uma mulher bonita e sexy posando de lingerie, ele tem dois sentimentos: Tesão e ódio. Ele tem prazer e admiração pelo corpo da mulher, mas acha automaticamente que ela não presta, que só mulher vadia comete esse crime que é seduzir e gostar de sexo, e que ela nunca vai ser “mulher para casar”.

Sou uma eterna desconfiada das intenções dos homens para com as mulheres, mas tenho meus motivos. O universo masculino não poupa ninguém, é um território em que a justiça e igualdade são jogadas na lata do lixo, em troca de algumas risadas. Enquanto eles falam tanto de sexo hetero, na verdade não conseguem cumprir o princípio básico da relação sexual satisfatória, que é o respeito. Eles precisam “comer” as mulheres, precisam condená-las por gostarem de sexo e procurar a mais travada de todas para ter uma relação séria, para não correr riscos e enfim eleger a “patroa”, que será sempre o motivo de zombaria da noite com os amigões. E precisam, principalmente, dar um jeito de inferiorizar todas as mulheres com quem convivem e excluí-las de seus momentos de confraternização, afinal, elas só seriam chamadas para a diversão caso o interesse fosse foder umas bucetas. Eu não sei como alguns homens deitam a cabeça no travesseiro e dormem, levando essa vida dupla que exclui metade da humanidade, mas tomara que eu nunca compreenda de fato.

 

União de Mulheres de São Paulo - Almoço de Confraternização =)

O meu ponto aqui é que precisamos defender os espaços femininos, não para criar um grupo separatista de repulsa ao sexo oposto como nossos amigos homens fizeram, mas para fortalecer as mulheres e derrubar a rivalidade feminina, assim podemos nos identificar umas com as outras e nos apoiar nos momentos difíceis. As histórias que surgem em grupos de mulheres são incríveis, e sempre muitos semelhantes umas com as outras, e isso nos ajuda perceber melhor nossa posição na sociedade e a lutar pela justiça em todos os espaços. E toda vez que um homem lhe dizer que as feministas são sexistas e os discriminam, tente lembrá-lo de seus privilégios sociais e do mundo masculino que ele construiu com seus amigos, talvez ele tenha a sensibilidade de reconhecer esse abismo histórico e social entre homens e mulheres, ou apenas tente defender os outros homens e divagar sobre a união dos sexos – na teoria.

PS: Se você é homem e garante que seu grupo de amigos não trata as mulheres dessa maneira, PARABÉNS! Mas, mais uma vez, não estou falando de você, e tenho certeza que você conhece muitos que agem dessa maneira – por isso a necessidade da crítica.

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