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Amor romântico: Coisas que não te contaram.
Publicado por cely em Auto-biográfico, Questão de postura em 03/02/2010
Quanto tempo sem postar! Sinto vergonha da minha falta de tempo para coisas que são tão importantes, como esse pequeno espaço que me realiza e me faz sentir útil para tantas pessoas.
E que surpresa, receber tantos feedbacks lindos de garotas incríveis! Tenho que declarar que uma das maiores felicidades que explodem dentro de mim vem desses comentários singelos, cheios de entusiasmo e identificações. Sinto um carinho verdadeiro, uma conexão entre nossos problemas e angústias, e estarei aqui para vivenciar essa troca sempre.
Isso me leva ao assunto que tem sido “trending topic” ultimamente, e que foi confirmado por uma amiga querida que está passando por uma situação de sofrimento. Da série “coisas que queriam te enfiar goela abaixo”, apresento-lhes o tal “amor romântico”.
Idealizado por fábulas, contos e religiões, usado e abusado pela indústria cultural, ele permanece entre nós, imortal. A base é um casal heterossexual, com papéis sexuais bem definidos e em um ambiente extremamente favorável, que repentinamente se fartam de um amor intocável e permanecem felizes para sempre no mar de rosas. Curiosamente, o mito é vendido para uma esmagadora maioria de mulheres.
De brinde, ganhamos a instituição do casamento, que legitima definitivamente aquele amor invencível e nos condena a uma vida inteira de companheirismo, paixão e harmonia. É relativamente “mais fácil” terminar um namoro, mas um casamento é como se fosse um contrato que exige um esforço sacrificante para a manutenção do acordo, uma prisão disfarçada de escolha, que torna muito mais difícil uma decisão que deveria ser rápida e sem dor: livrar-se de quem nos faz mal.
Nos iniciam nesse mundo obscuro dos coraçõezinhos quando ainda somos muito crianças para resistir, ganhamos lições diversas que nos convencem a precisar de outra pessoa para sermos “completas”.Essa pessoa é, claro, um homem. Junto com os mandamentos da busca ofegante por um amor de conto de fadas, nos empurram um ideal feminino de submissão, fragilidade e “entrega”. Aprendemos que ser mulher é querer um homem, e dedicar boa parte de nossas energias para que essa relação tenha sucesso – mesmo que a duras penas.
Enquanto isso, nossos queridos irmãozinhos aprendem valores um tanto diferentes. São incentivados a ter coragem, ousadia, independência e principalmente autonomia, ao mesmo tempo em que recebem a cartilha do dominador. Aprendem que serão sempre o centro das atenções das mulheres, cuidados por mães, professoras e namoradas, e que as terão à disposição.
Ao invés de bonecas imbecis e bebês de plástico, do treinamento rigoroso da maternidade e servidão, ganham jogos de estratégia, carrinhos e bolas de futebol. Aprendem que a coletividade pode conseguir muitos aliados, enfrentam o mundo ao ar livre muito cedo e desenvolvem a capacidade de raciocínio lógico.
Tudo isso faz uma grande diferença, somos discriminadas pelo gênero desde a infância e construídas sob um modelo patético de “mulher”. Nossa vulnerabilidade não é genética, não veio da mão do deus macho, é obra de uma educação medíocre embasada em preconceitos e estereótipos. Somos condicionadas a não nos sentir completas, nunca, de forma alguma.
Coincidentemente, a solução apresentada para todos os nossos problemas de auto-estima e auto-realização é um parceiro homem. “Tá precisando é de uma rola bem grande”, como diriam as criaturinhas desprezíveis ocupando espaço por aí. Se estamos “sozinhas”, somos solitárias ou lésbicas,desprezadas pelo tão importante e fundamental macho da espécie. Se reclamamos de algo, somos histéricas ou “mal-comidas”, afinal, todos os nossos problemas só podem ter origem na falta de um pinto entrando e saindo, oras!
Daí, se resolvemos nos relacionar com um cara e descobrimos que ele é um merdinha, e então trocamos, e fazemos isso repetidas vezes na incessante busca de um cara menos incompetente, nos chamam de “putas”. Dizem até que não estamos nos dando “valor”, quando na verdade isso só oculta a falta de qualquer valor ou apreço que eles sintam por nós, um verdadeiro nojo. Enquanto isso, eles trocam de parceiras o tempo todo e se orgulham de separar o ato sexual de qualquer afeto e consideração.
Não é uma fórmula perfeita? Faça-as sentirem-se incompletas e então lhes dê uma cara-metade. Um homem perfeito, romântico, que atenda a todas as nossas necessidades e finalmente dê algum sentido à nossa existência supérflua e cruel. Alguém pra nos dizer o quanto parecemos bonitas, já que enxergamos mosntros nos espelhos e nos sentimos culpadas por isso. Finalmente alguém pra nos convencer de que somos alguém e não alguma coisa, como sempre nos ensinaram, uau. Mas a verdade, mulheres, é que não precisamos de um salvador, muito menos de um príncipe.
Definição de romance pelo dicionário: fantasia. O que mais precisamos dizer?! Não é real, não é saudável e muito menos justo.Se você só se sentiu completa depois de conhecer um homem e se apaixonar, significa que uma parte de você sempre esteve vazia, e isso é péssimo. Se você não consegue ficar sozinha, quer dizer que está sujeita a uma relação de dependência, auto-depreciação e possessividade. É um clichê dos grandes, mas é verdadeiro demais: Antes de se tornar “nós”, precisamos ser “eu”.
Antes de proclamar as palavras mágicas “não sei o que seria de mim sem você”, pense no quanto você está se anulando na situação. Nunca se sinta um fracasso se ainda se sentir dependente de um cara, não se esqueça que você foi totalmente condicionada a ver as coisas dessa maneira. O caminho? Mais uma vez a desconstrução, e isso só é possível com auto-conhecimento.
Conhecer a si própria e ter autonomia não significa excluir os relacionamentos amorosos. Eu acredito em relações justas, em que o companheirismo é essencial e o afeto cria uma união harmoniosa e cheia de respeito, sem dependência, possessividade e ilusão. O amor romântico nada mais é do que uma mentira, porque promete uma relação eterna que tem como base apenas o misterioso sentimento “amor”, quando na verdade se parece mais com uma paixão cega, infantil e inconsequente.
Se podemos chamar algo de amor, com certeza não é essa sensação obscura que nos condena a viver acorrentadas a uma pessoa, desejando sua presença em cada passo das nossas vidas e projetando nela grandes objetivos. Insisto que em uma relação real ambos devem perseguir seus objetivos juntos, prestar apoio mútuo e construir uma base sólida de respeito e cumplicidade, sem o contrato ditatorial do “pra sempre”.
Quantas mulheres permanecem com homens que as espancam? Ou as humilham? Quantas mulheres você conhece que suportaram traições? Quantas abriram mão de desejos próprios por causa dos parceiros? Quantas sofrem com um ciúme doentio e se auto-depreciam por causa dele? Quantas já abaixaram a cabeça para uma condição do companheiro e sofreram caladas? Quantas vêm desabafar com você o inferno que está sendo o relacionamento delas e a falta de coragem pra tomar uma decisão?
A vida real é muito mais hostil com as mulheres. Aqui fora os príncipes são muito mais autônomos, seguros de si e treinados para a indiferença. E estarão sempre prontos para se aproveitar dessa insegurança enraizada dentro de nós, construindo verdadeiros romances poéticos enquanto nos sugam toda a individualidade. Isso não quer dizer que homens não têm sentimentos, quer dizer que estão muito mais preparados para lidar com eles, porque têm como base suas próprias realizações.

E como mudar? Como sair da posição de vítima do patriarcado e retomar o poder sobre a própria vida? Tudo o que eu tenho são experiências próprias e um punhado de conselhos sinceros.
Em primeiro lugar, descubra algo que você ame muito fazer. Eu descobri que amava escrever, lutar por causas sociais, ajudar as minorias e ver resultados de todo o trabalho que eu puder fazer.Muitas descobrem a realização em um esporte, na música, nas artes plásticas, na filantropia, na carreira, são inúmeras possibilidades, e todas temos muitas.
Depois, descubra milhares de coisas menores que você ame fazer. Identifique suas preferências, muitas de nós nunca paramos para pensar nisso! Procure um tipo de leitura, cinema ou música que você adore, vá ao teatro, invista em coisas que te dêem prazer e acrescentem conhecimento. Una-se com outras mulheres, jogue futebol, jogue videogame, faça um cosplay, vá dançar.
Deixe o relacionamento dos seus sonhos para o momento em que estiver mais completa, você terá muito mais para compartilhar e estará sempre pronta para fazer as melhores escolhas sem cometer sacrifícios. Se não der certo, agradeça por ter percebido os erros a tempo, e procure alguém que possa te acompanhar e trazer mais prazeres. Defina suas regras, respeite suas próprias decisões, seja firme, e nunca, nunca mesmo, seja tolerante a ponto de se machucar.
Algo que eu sempre tenho em mente é que exercitar o perdão nem sempre é um bom negócio. Vivemos tensionadas, se não pudermos confiar em alguém com certeza essa pessoa não merece nossa companhia.Estabeleça limites para atitudes que você não gosta, e não tenha qualquer receio ou medo de se arrepender na hora de dar um basta no relacionamento. Não é questão de imaginar que “tem mais um monte por aí”, e sim que uma relação que não é mais agradável e causa mais aborrecimentos do que alegrias não tem lugar na vida de uma pessoa auto-realizada.
Não espere ser protegida, espere compartilhar segurança. Não espere ganhar, espere uma troca. Não aceite conviver com um homem que define seus papéis na relação apenas pelo seu gênero, por mais que ele pareça afetuoso, conteste e exija, seja uma voz ativa e tomadora de decisões.
Relacionamentos não se baseiam apenas em amor, tenha em mente que uma relação sem respeito e cooperação não vale a pena. Que adianta ficar com um cara que te considera menos capaz de realizar uma tarefa, só porque ele é carinhoso? Carinho não realiza ninguém, só serve como bengala de frustrações, você precisa de alguém que te admire, te estimule e confie na sua capacidade. E, acima de tudo, precisa de respeito às suas decisões, desejos e necessidades, não deixe de fazer algo que quer para satisfazer alguém que deveria lhe querer o bem. Agregue valor à sua própria confiança, um homem que mente e trai não merece segunda chance, pois isso é sinal de que ele não reconhece seus direitos de escolha.
Nesse ponto o casamento colabora com nossas prisões privadas. Muitas mulheres temem o divórcio porque acreditam que uma “união de tantos anos merece maior esforço e tolerância para continuar”, mas quase sempre esses esforços significam anulação, sofrimento e negação. Elas se sacrificam pela manutenção de um relacionamento perdido, porque temem prestar contas ao Estado com seu contrato de união civil e à religião com seu deus falocêntrico impiedoso.Por esses e outros motivos condeno o casamento como uma união anti-amor, patriarcal e desigual, fundada em sexismo e heteronormatividade.
As mulheres carregam nas costas uma História de submissão e sacrifícios pelo amor romântico, enquanto permaneciam exploradas pelos “donos de seus corações”. Não esqueçam nunca que já fomos consideradas propriedades, já estivemos restritas a um cárcere privado e que ainda hoje muitas de nós não podem nem escolher o homem que estará no “comando”.Ainda existem injustiças horríveis cometidas contra as mulheres em nome de amores romãnticos, somos diariamente iludidas, enganadas e desprezadas. Cabe a nós mudar nossa realidade através desse exercício de consciência que eu proponho, da desconstrução, vamos recuperar a autonomia que nos arrancaram e acabar com nossa dependência instituída por essa educação precária.
Amem, mulheres! Mas amem primeiro a si mesmas, sejam pessoas realizadas e completas, mulheres inteiras. Não vamos esperar a misericórdia dos homens, vamos nos fortalecer para construir relacionamentos mais justos.
são tão importantes, como esse pequeno espaço que me realiza e me faz sentir útil
para tantas pessoas.
E que surpresa, receber tantos feedbacks lindos de garotas incríveis! Tenho que
declarar que uma das maiores felicidades que explodem dentro de mim vem desses
comentários singelos, cheios de entusiasmo e identificações. Sinto um carinho
verdadeiro, uma conexão entre nossos problemas e angústias, e estarei aqui para
vivenciar essa troca sempre.
Isso me leva ao assunto que tem sido “trending topic” ultimamente, e que foi
confirmado por uma amiga querida que está passando por uma situação de sofrimento.
Da série “coisas que queriam te enfiar goela abaixo”, apresento-lhes o tal “amor
romântico”.
Idealizado por fábulas, contos e religiões, usado e abusado pela indústria
cultural, ele permanece entre nós, imortal. A base é um casal heterossexual, com
papéis sexuais bem definidos e em um ambiente extremamente favorável, que
repentinamente se fartam de um amor intocável e permanecem felizes para sempre no
mar de rosas. Curiosamente, o mito é vendido para uma esmagadora maioria de
mulheres.
De brinde, ganhamos a instituição do casamento, que legitima definitivamente
aquele amor invencível e nos condena a uma vida inteira de companheirismo, paixão
e harmonia. É relativamente “mais fácil” terminar um namoro, mas um casamento é
como se fosse um contrato que exige um esforço sacrificante para a manutenção do
acordo, uma prisão disfarçada de escolha, que torna muito mais difícil uma decisão
que deveria ser rápida e sem dor: livrar-se de quem nos faz mal.
Nos iniciam nesse mundo obscuro dos coraçõezinhos quando ainda somos muito
crianças para resistir, ganhamos lições diversas que nos convencem a precisar de
outra pessoa para sermos “completas”.Essa pessoa é, claro, um homem. Junto com os
mandamentos da busca ofegante por um amor de conto de fadas, nos empurram um ideal
feminino de submissão, fragilidade e “entrega”. Aprendemos que ser mulher é querer
um homem, e dedicar boa parte de nossas energias para que essa relação tenha
sucesso – mesmo que a duras penas.
Enquanto isso, nossos queridos irmãozinhos aprendem valores um tanto diferentes.
São incentivados a ter coragem, ousadia, independência e principalmente autonomia,
ao mesmo tempo em que recebem a cartilha do dominador. Aprendem que serão sempre o
centro das atenções das mulheres, cuidados por mães, professoras e namoradas, e
que as terão à disposição.
Ao invés de bonecas imbecis e bebês de plástico, do treinamento rigoroso da
maternidade e servidão, ganham jogos de estratégia, carrinhos e bolas de futebol.
Aprendem que a coletividade pode conseguir muitos aliados, enfrentam o mundo ao ar
livre muito cedo e desenvolvem a capacidade de raciocínio lógico.
Tudo isso faz uma grande diferença, somos discriminadas pelo gênero desde a
infância e construídas sob um modelo patético de “mulher”. Nossa vulnerabilidade
não é genética, não veio da mão do deus macho, é obra de uma educação medíocre
embasada em preconceitos e estereótipos. Somos condicionadas a não nos sentir
completas, nunca, de forma alguma.
Coincidentemente, a solução apresentada para todos os nossos problemas de auto-
estima e auto-realização é um parceiro homem. “Tá precisando é de uma rola bem
grande”, como diriam as criaturinhas desprezíveis ocupando espaço por aí. Se
estamos “sozinhas”, somos solitárias ou lésbicas,desprezadas pelo tão importante e
fundamental macho da espécie. Se reclamamos de algo, somos histéricas ou “mal-
comidas”, afinal, todos os nossos problemas só podem ter origem na falta de um
pinto entrando e saindo, oras!
Daí, se resolvemos nos relacionar com um cara e descobrimos que ele é um merdinha,
e então trocamos, e fazemos isso repetidas vezes na incessante busca de um cara
menos incompetente, nos chamam de “putas”. Dizem até que não estamos nos dando
“valor”, quando na verdade isso só oculta a falta de qualquer valor ou apreço que
eles sintam por nós, um verdadeiro nojo. Enquanto isso, eles trocam de parceiras o
tempo todo e se orgulham de separar o ato sexual de qualquer afeto e consideração.
Não é uma fórmula perfeita? Faça-as sentirem-se incompletas e então lhes dê uma
cara-metade. Um homem perfeito, romântico, que atenda a todas as nossas
necessidades e finalmente dê algum sentido à nossa existência supérflua e cruel.
Alguém pra nos dizer o quanto parecemos bonitas, já que enxergamos mosntros nos
espelhos e nos sentimos culpadas por isso. Finalmente alguém pra nos convencer de
que somos alguém e não alguma coisa, como sempre nos ensinaram, uau. Mas a
verdade, mulheres, é que não precisamos de um salvador, muito menos de um
príncipe.
Definição de romance pelo dicionário: fantasia. O que mais precisamos dizer?! Não
é real, não é saudável e muito menos justo.Se você só se sentiu completa depois de
conhecer um homem e se apaixonar, significa que uma parte de você sempre esteve
vazia, e isso é péssimo. Se você não consegue ficar sozinha, quer dizer que está
sujeita a uma relação de dependência, auto-depreciação e possessividade. É um
clichê dos grandes, mas é verdadeiro demais: Antes de se tornar “nós”, precisamos
ser “eu”.
Antes de proclamar as palavras mágicas “não sei o que seria de mim sem você”,
pense no quanto você está se anulando na situação. Nunca se sinta um fracasso se
ainda se sentir dependente de um cara, não se esqueça que você foi totalmente
condicionada a ver as coisas dessa maneira. O caminho? Mais uma vez a
desconstrução, e isso só é possível com auto-conhecimento.
Conhecer a si própria e ter autonomia não significa excluir os relacionamentos
amorosos. Eu acredito em relações justas, em que o companheirismo é essencial e o
afeto cria uma união harmoniosa e cheia de respeito, sem dependência,
possessividade e ilusão. O amor romântico nada mais é do que uma mentira, porque
promete uma relação eterna que tem como base apenas o misterioso sentimento
“amor”, quando na verdade se parece mais com uma paixão cega, infantil e
inconsequente.
Se podemos chamar algo de amor, com certeza não é essa sensação obscura que nos
condena a viver acorrentadas a uma pessoa, desejando sua presença em cada passo
das nossas vidas e projetando nela grandes objetivos. Insisto que em uma relação
real ambos devem perseguir seus objetivos juntos, prestar apoio mútuo e construir
uma base sólida de respeito e cumplicidade, sem o contrato ditatorial do “pra
sempre”.
Quantas mulheres permanecem com homens que as espancam? Ou as humilham? Quantas
mulheres você conhece que suportaram traições? Quantas abriram mão de desejos
próprios por causa dos parceiros? Quantas sofrem com um ciúme doentio e se auto-
depreciam por causa dele? Quantas já abaixaram a cabeça para uma condição do
companheiro e sofreram caladas? Quantas vêm desabafar com você o inferno que está
sendo o relacionamento delas e a falta de coragem pra tomar uma decisão?
A vida real é muito mais hostil com as mulheres. Aqui fora os príncipes são muito
mais autônomos, seguros de si e treinados para a indiferença. E estarão sempre
prontos para se aproveitar dessa insegurança enraizada dentro de nós, construindo
verdadeiros romances poéticos enquanto nos sugam toda a individualidade. Isso não
quer dizer que homens não têm sentimentos, quer dizer que estão muito mais
preparados para lidar com eles, porque têm como base suas próprias realizações.
E como mudar? Como sair da posição de vítima do patriarcado e retomar o poder
sobre a própria vida? Tudo o que eu tenho são experiências próprias e um punhado
de conselhos sinceros.
Em primeiro lugar, descubra algo que você ame muito fazer. Eu descobri que amava
escrever, lutar por causas sociais, ajudar as minorias e ver resultados de todo o
trabalho que eu puder fazer.Muitas descobrem a realização em um esporte, na
música, nas artes plásticas, na filantropia, na carreira, são inúmeras
possibilidades, e todas temos muitas.
Depois, descubra milhares de coisas menores que você ame fazer. Identifique suas
preferências, muitas de nós nunca paramos para pensar nisso! Procure um tipo de
leitura, cinema ou música que você adore, vá ao teatro, invista em coisas que te
dêem prazer e acrescentem conhecimento. Una-se com outras mulheres, jogue futebol,
jogue videogame, faça um cosplay, vá dançar.
Deixe o relacionamento dos seus sonhos para o momento em que estiver mais
completa, você terá muito mais para compartilhar e estará sempre pronta para fazer
as melhores escolhas sem cometer sacrifícios. Se não der certo, agradeça por ter
percebido os erros a tempo, e procure alguém que possa te acompanhar e trazer mais
prazeres. Defina suas regras, respeite suas próprias decisões, seja firme, e
nunca, nunca mesmo, seja tolerante a ponto de se machucar.
Algo que eu sempre tenho em mente é que exercitar o perdão nem sempre é um bom
negócio. Vivemos tensionadas, se não pudermos confiar em alguém com certeza essa
pessoa não merece nossa companhia.Estabeleça limites para atitudes que você não
gosta, e não tenha qualquer receio ou medo de se arrepender na hora de dar um
basta no relacionamento. Não é questão de imaginar que “tem mais um monte por aí”,
e sim que uma relação que não é mais agradável e causa mais aborrecimentos do que
alegrias não tem lugar na vida de uma pessoa auto-realizada.
Não espere ser protegida, espere compartilhar segurança. Não espere ganhar, espere
uma troca. Não aceite conviver com um homem que define seus papéis na relação
apenas pelo seu gênero, por mais que ele pareça afetuoso, conteste e exija, seja
uma voz ativa e tomadora de decisões.
Relacionamentos não se baseiam apenas em amor, tenha em mente que uma relação sem
respeito e cooperação não vale a pena. Que adianta ficar com um cara que te
considera menos capaz de realizar uma tarefa, só porque ele é carinhoso? Carinho
não realiza ninguém, só serve como bengala de frustrações, você precisa de alguém
que te admire, te estimule e confie na sua capacidade. E, acima de tudo, precisa
de respeito às suas decisões, desejos e necessidades, não deixe de fazer algo que
quer para satisfazer alguém que deveria lhe querer o bem. Agregue valor à sua
própria confiança, um homem que mente e trai não merece segunda chance, pois isso
é sinal de que ele não reconhece seus direitos de escolha.
Nesse ponto o casamento colabora com nossas prisões privadas. Muitas mulheres
temem o divórcio porque acreditam que uma “união de tantos anos merece maior
esforço e tolerância para continuar”, mas quase sempre esses esforços significam
anulação, sofrimento e negação. Elas se sacrificam pela manutenção de um
relacionamento perdido, porque temem prestar contas ao Estado com seu contrato de
união civil e à religião com seu deus falocêntrico impiedoso.Por esses e outros
motivos condeno o casamento como uma união anti-amor, patriarcal e desigual,
fundada em sexismo e heteronormatividade.
As mulheres carregam nas costas uma História de submissão e sacrifícios pelo amor
romântico, enquanto permaneciam exploradas pelos “donos de seus corações”. Não
esqueçam nunca que já fomos consideradas propriedades, já estivemos restritas a um
cárcere privado e que ainda hoje muitas de nós não podem nem escolher o homem que
estará no “comando”.Ainda existem injustiças horríveis cometidas contra as
mulheres em nome de amores romãnticos, somos diariamente iludidas, enganadas e
desprezadas. Cabe a nós mudar nossa realidade através desse exercício de
consciência que eu proponho, da desconstrução, vamos recuperar a autonomia que nos
arrancaram e acabar com nossa dependência instituída por essa educação precária.
Amem, mulheres! Mas amem primeiro a si mesmas, sejam pessoas realizadas e
completas, mulheres inteiras. Não vamos esperar a misericórdia dos homens, vamos nos fortalecer para construir um mundo mais justo.
Justiça para Geisy Arruda!
Publicado por cely em Cotidiano, Questão de postura em 11/11/2009
Todo mundo já escreveu sobre a Geisy Arruda, mas o caso ainda está pegando fogo então eu vou dar a minha contribuição.
Muitos estão dizendo que a imprensa exagera, que ninguém conhece a verdade dos fatos e que “todos tiveram sua parcela de erro”.
Analisemos.

Fato 1: Geisy foi xingada de puta e recebeu ameaças de estupro, sejam elas com intuito “corretivo” de trogloditas ou por pura humilhação simbólica. Isso está comprovado pelos vídeos e estudantes.
Fato 2: Geisy estava com um microvestido cor-de-rosa e percorreu um caminho maior que o habitual para encontrar um banheiro que não estivesse em manutenção. esse fato foi interpretado como uma “tentativa de Geisy de se expor mais e mais”.
Fato 3: Geisy demonstrou uma atitude de desprezo e provocação com os gracejos que ouviu. A reação dela nessa situação foi relacionada com seu comportamento habitual, o que mostra que ela deve ser uma moça que usa roupas consideradas “provocantes” e que não atende aos apelos e assédios dos colegas ao redor.

Eu sei muito bem o que as pessoas que defendem a Universidade pensam. Em suas cabecinhas, Geisy é “puta”, deve fazer sexo com qualquer um, provocou toda a situação e pior, ainda quer se promover em cima disso se fazendo de vítima na imprensa. E tem mais, faculdade não é lugar pra se vestir “desse jeito”, e uma aluna da UNIBAN declarou que “mulher que se veste assim é objeto mesmo”.
Primeiro, que mesmo que Geisy fosse prostituta, estaria em seu pleno direito de estudar. Mas, ela não é. Tampouco temos informações sobre a vida sexual da moça, que também não faria diferença alguma, afinal somos livres para nos relacionarmos uns com os outros e teoricamente não deveríamos sofrer violência por exercer esse direito.
O mais grave é dizer que Geisy “provocou” essa situação.Pior, dizer que a culpa não foi do micro-vestido, como alegaram ao expulsá-la, mas sim da “postura” de Geisy. Existem premissas nojentas para essa afirmação, a primeira é de que a postura adequada de uma mulher é totalmente diferente da de Geisy, ou seja, ao invés de vestir-se como quiser e andar livremente seria obrigação feminina da moça usar roupas que não mostrem seu corpo e comportar-se de forma passiva, silenciosa e submissa. Outro agravante seria a forma física de Geisy, que difere dos padrões impostos ás mulheres e por isso desqualifica a “beleza” que deveria ser mostrada com o vestido, e já que não há diversão para os primatas heterossexuais, logo a exibição de Geisy se torna uma AFRONTA.

A faculdade também supõe que Geisy provocou os colegas através de atos “rebeldes” como rebolar, ignorar ou demonstrar indiferença com a atitude. Mesmo que a moça tivesse mostrado as tais partes íntimas, o que não foi confirmado por ela e nem há provas, sua atitude foi nada mais nada menos que defensiva. Geisy mostrou através de um comportamento irreverente que não importava o quanto as pessoas a julgassem, esperneassem e desejassem que ela cobrisse seu corpo, ela continuaria daquela forma, a forma que ela escolheu para se vestir e se comportar. A própria Geisy não se acha um objeto, ela conhece muito bem seus desejos, emoções, objetivos, há um universo particular na vida da moça que não sucumbe ao terrorismo de uma turba.
Quem determina afinal que o corpo de uma mulher tem apenas o significado sexual? O sentir-se bela de Geisy é condenado à insinuação sexual por qual autoridade suprema? Coxas à mostra são aval de estupro e linchamento? Se Geisy realmente desejava conseguir sexo com aquela roupa, os alunos determinaram que ela estava DISPONÍVEL para isso naquele momento na faculdade com que direito?
Mulheres vestidas nos moldes que consideramos “sexy” não carregam um selo de “Available” na testa. Ora essa, foi construída uma imagem de sexualidade extrema e sujeição vinculada à decotes, saias curtas e vestidinhos, sob um pretexto de “libertação”. Mas, o que vemos, é justamente o contrário: ao invés de exercerem a liberdade ao usar roupas que expõem o corpo, as mulheres são simplesmente condenadas a um estado de disponibilidade sexual de acordo com a conveniência dos machos!
Não julgo que estamos em condições de abolir tais roupas que carregam os símbolos do patriarcado com suas formas, pelo contrário, as mulheres precisam ter autonomia e posse sobre seus corpos suficiente para usar o que quiserem e serem respeitadas da mesma forma.
O que vemos é o oposto, moças como Geisy são consideradas disponíveis como alvos nos espaços públicos, as roupas que mostram o corpo funcionam como um código que legitima a aproximação e a invasão do espaço. Quando Geisy reagiu com provocações, os homens que a afrontavam não suportaram, e as mulheres que tinham em si esse preconceito internalizado se revoltaram com a “ousadia” da colega.
“Imagine, que audácia dessa moça, nos provocar e zombar de nossas investidas? Somos machos, precisamos colocar essa vagabunda no seu devido lugar, quem ela acha que é pra mostrar essas curvas na faculdade, nem mesmo “bela” ela é.” Os Alunos
“Essa menina é prostituta mesmo. Vem pra faculdade com essa roupa indecente, e eu que fui criada sob as rédeas do meu pai uso roupas mais adequadas ao ambiente em que eu estou. Afinal, mulheres não podem simplesmente sair se mostrando, precisamos conter nossas formas para o bem da família e da sociedade. Ainda bem que eu estou do lado das santas e vou poder casar com um homem que me domine!” As Alunas

Que mulher nunca rebateu um assédio nas ruas e foi xingada de prontidão? Já me aconteceu inúmeras vezes. Esses vermes não suportam que uma mulher desafie a autoridade que eles supõem ter sobre nossos corpos, a reação é como a dos alunos, retaliação, indignação. Geisy é símbolo porque reagiu de forma tão chocante para os machistas que causou uma verdadeira rebelião contra a autonomia da mulher.
O mais bizarro de tudo isso é ver milhares de machinhos “solidários” a Geisy, postando mensagens mundo afora que acusam os alunos de “gays” e “invejosas”. Quem odeia as mulheres, os gays ou os heterossexuais que estupram, matam, surram e abusam delas todos os dias? Porque raios essa gente estúpida relaciona ódio contra a mulher com homossexualidade? Os gays não precisam odiar as mulheres, por muitas vezes acabam se aliando a elas por serem minorias com afinidades. A justificativa é que somente gays poderiam ofender uma mulher, porque heteros obviamente precisam fodê-la, e por isso estão sendo homossexuais ao odiá-la. E, convenhamos, é desesperador ver como essas pessoas ainda usam a homossexualidade como OFENSA deliberadamente, isso é uma doença social.
Outra pérola são os mesmos machinhos compadecidos de Geisy deixando recados em sua suposta página do orkut solicitando msn e oferecendo “apoio”. O apoio seria uma rola na bunda, no caso, com perdão da expressão. Que interesse um jovem heterossexual sexista teria em defender uma moça que não fosse fodê-la no final? E ainda assim, com certeza esses mesmos defensores se juntariam ao coro de “Puta!” logo depois de praticarem o ato. Porque, como já sabemos, mulheres que fazem sexo são prostitutas e merecem ser queimadas, ou linchadas por ilustres universitários brasileiros.

É tanta porcaria que dá vontade de parar, mas prossigo. Eis que a faculdade decide que o comportamento irreverente de Geisy é uma ameaça à moral e bons costumes patriarcais, e assim decide expulsá-la. A opinião pública parece estar a favor da moça, e desconfio que isso se deve ao fato de que a notícia original foi pautada por blogs (ainda bem). Os movimentos sociais reagem e organizam uma manifestação na porta da UNIBAN pela revogação da expulsão e punição dos responsáveis. Estavam presentes a UNE, a SOF e a Marcha Mundial das Mulheres.
Os alunos trogloditas saem à porta para defender, desta vez, seus próprios rabos. Alguns insistem no comportamento ousado de Geisy como impróprio e defendem a expulsão, outros dizem não ter culpa de nada e ficam se cagando de medo do mercado de trabalho cuspir neles. Houve também uma moça muito truculenta expressando seu horror à Geisy e afirmando que mulheres “que se vestem assim na faculdades são objetos mesmo”. Ainda tivemos um cidadão capaz de agredir um ativista anarquista porque ele comparou Geisy à sua mãe, até imagino que o moço tentou compará-las para ver se o neandertal acordava de seu pesadelo patriarcal, compreendendo que ambas são mulheres e tem os mesmo direitos, mas não foi tão fácil assim.
Sobre ser objeto, reafirmo que objetificação é o que impuseram à Geisy baseados em um preconceito violento que determina comportamentos de “santas” ou “putas” às mulheres. Objetificar com base no gênero, na roupa e no modo de agir é típico de quem acredita que mulheres são mesmo brinquedos masculinos, sem vontade própria ou capacidade moral. A própria moça que proferiu essa ideia não pode ser culpada pela interpretação, afinal ela foi criada dentro da mesma cultura que condena Geisy, e sabe-se lá que julgamentos ela já sofreu na sua vida social universitária por ser mulher e fora dos padrões.
Com certeza essa Universidade sofreu um abalo na imagem, e acho justo. Já que vivemos à mercê de instituições para garantir nossa segurança, o mínimo que podemos fazer é exigir que cumpram essa tarefa. Os alunos que não participaram podem não ter culpa alguma do ocorrido, mas talvez devessem criar alguma mobilização a favor da Geisy, já que a neutralidade em uma situação dessas é no mínimo assustadora. Sim, temos que nos preocupar com o que acontece ao nosso redor, e essa atitude é esperada de universitários. Sobre a imagem no mercado de trabalho, me parece lógico que todos sofrerão as consequências do que fizeram à garota, não adianta tentarem defender a instituição ou os colegas na esperança de irem bem na entrevista, uma mulher foi linchada por não corresponder ao modelo ideal como resultado de uma cultura machista, e todos pagarão por isso.
Sobre a reação de Geisy, a moça está buscando seus direitos e com certeza usando da imprensa para divulgar o caso. Estão dizendo que ela “se faz” de vítima, mas não tem essa, a moça É vítima. São os defensores da universidade e machistas de merda que querem transformá-la em ré. Claro que a imprensa tem seu papel de sempre de sensacionalista e oportunista, mas nesse caso específico acredito que a exposição é mais que adequada. E, mais uma vez, o fato da notícia original ter sido pautada em um blog, e já com uma abordagem crítica, facilitou muito a divulgação pró-Geisy. Só existem duas hipóteses em que Geisy pode ser considerada “culpada”:

1- Se ela for um homem disfarçado líder de uma conspiração gigantesca de machistas que pretendiam criar uma situação de linchamento dentro de uma faculdade e expulsar a aluna em seguida para que uma mulher nunca mais ousasse se vestir assim.
2- Se estiver todo mundo mentindo e na verdade o caso todo é um golpe publicitário para a nova campanha da Zara e seu novo vestidinho cor-de-rosa nas cores flúor da tendência.
Quais as desculpas para apontar a imprensa como mentirosa e a Geisy como culpada? Ela se mostrou, provocou, tem comportamento de “puta”, hm, e o que mais? Tudo já devidamente desmistificado.
Dizem por aí que Geisy afirmou que gostaria de ser atriz, e isso foi suficiente pra desencadear uma nova acusação: “Geisy quer se promover”. Ah, não me diga, a garota de classe B/C, hostilizada, fora dos padrões de beleza, com uma educação baseada no senso-comum, estudante de turismo, tentou aproveitar uma exposição na mídia pra conquistar o desejado posto de atriz famosa? Que absurdo! Que tipo de aproveitadora ela é, afinal? Se a ironia não foi suficiente, dã, é CLARO que uma garota nessas condições adoraria buscar uma compensação na situação e se colocar como atriz, posar na playboy ou qualquer outra idiotice que confere status à figura feminina no patriarcado. E a culpa, deixa eu adivinhar, é dela?
Algo que me surpreendeu foi a presença de Sabrina Sato na manifestação, declarando apoio à Geisy. Com um mini-vestido cor-de-rosa, para simbolizar o caso, Sabrina também foi assediada, aos brados de “gostosa” por um bando de trolls. Um aluno chegou a dizer que não chamaram Geisy de gostosa porque daria a entender que os alunos gostavam de “baranga”. Mais uma vez a violência sexista impera, Sabrina Sato pode (e deve) usar roupas curtas porque seu corpo tem o padrão decorativo e é alvo da sexualização sedenta dos machinhos, enquanto as formas de Geisy configuram praticamente um insulto por não serem consideradas “atraentes”. E claro, ser chamada de gostosa é uma violência em potencial, já que significa “nós queremos te comer agora”, e pressupõe que a moça estaria se oferecendo.

Sabrina sofreu perseguição e fez algumas entrevistas, mas o que mais me chamou a atenção foi uma cena da moça erguendo o microfone animada para registrar o grito de guerra da Marcha Mundial das Mulheres: “A violência contra a mulher, não é o mundo que a gente quer!” Em certa parte do coro, diz-se “nossa beleza não tem padrão”, e Sabrina permanece apoiando a manifestação. Isso me deixa muito feliz e ao mesmo tempo triste, feliz porque a atitude da moça é linda, e triste porque ao mesmo tempo ela representa uma mulher caricata e sujeita em um dos programa humorísticos mais violentos da televisão. Mas, o ato de Sabrina me leva a crer que ela apoia o movimento e acredita que o padrão do corpo feminino é violento, mesmo que se encaixe nos moldes obrigatoriamente em seu trabalho. Ou, na pior das hipóteses, estou sendo ingênua demais e a moça quis apenas gravar seu programa. Prefiro ser otimista.
Ao menos, como resultado da manifestação, a expulsão foi revogada. Mas isso não é nem de longe suficiente, os responsáveis precisam ser punidos e a segurança de Geisy deve ser garantida, pois o que mais esses “talibans” querem é humilhá-la novamente. A moça declarou que só quer entrar na sala, sentar, estudar e “passar de ano”, e eu acredito que, mesmo que ela tenha sido instruída em suas declarações e mantenha um expressão premeditada, ela realmente quer apenas paz.
No mesmo caso, temos várias formas de preconceito e violência de gênero. Odeiam e culpam Geisy porque ela se mostra dona de seu corpo e atitudes, porque ela não se encaixa no padrão de beleza feminino, porque é nordestina, porque é pobre e porque reage contra as agressões. Além disso, ainda arranjam espaço pra odiar gays também, acusando os agressores de homossexualidade (oh, insulto!). E por fim temos a questão política da Universidade, que não hesita em expulsar uma mulher de classe mais baixa que sofreu humilhação dentro da instituição para agradar milhares de alunos que pagam uma gorda mensalidade.

Geisy é um símbolo para a luta das mulheres, pois expôs um problema muito grave que é ignorado por toda uma sociedade: a violência e abuso a que as mulheres são sujeitas nos espaços públicos e privados. As vaias e urros de “puta”cheios de ódio foram para Geisy e para todas as mulheres deste país, sejamos solidárias com Geisy por ela e por nós mesmas.
Deixo um recado para as meninas da Uniban que são contra Geisy: Sei que agora vocês estão preocupadas com a imagem da universidade e que provavelmente odeiam ainda mais Geisy Arruda, mas pensem que amanhã vocês podem ser as próximas vítimas da violência de gênero, que aparece na forma de assédio, abuso, estupro, coerção e humilhação. Alguma de vocês já sofreu um abuso verbal de um homem na rua e se sentiu constrangida? Já foi analisada de cima a baixo e avaliada por homens que não conhecia? Já deixou de usar uma roupa porque teve vergonha e receio de sair sozinha com ela? Já foi assediada no trabalho ou considerada menos competente apenas por ser mulher? Já deixaram de levar algo que você disse a sério porque é uma mulher? Já se sentiu mal com a forma do seu corpo? Já teve seu comportamento considerado impróprio para uma mulher? Já sentiu vontade de transar com alguém e não o fez por medo de ser considerada vadia?

Tudo isso, moças, é violência de gênero. A mesma que a Geisy sofreu. Vocês não podem odiar e culpar uma mulher porque os homens o fazem, porque ela parece “provocante” ao olhar de vocês. Experimentem admirar essa mulher, questionar o que lhes foi condicionado a pensar sobre o corpo feminino, experimentem desafiar os olhares de reprovação masculinos.
Geisy não vive, não se veste e não se comporta em função de criaturas masculinas heterossexuais. Nós, mulheres, não podemos viver sob julgamento de homens, escolhendo nosso modo de agir e a expressão do nosso corpo de acordo com a aceitação deles. A moça do mini-vestido rosa é um símbolo, é a realidade da violência contra a mulher que veio à tona e mobilizou a opinião pública.
Justiça para Geisy, pelo fim do terrorismo patriarcal!
Fica recomendada, salvo citação criacionista, a análise do Dr. Jacob Pinheiro sobre o ocorrido: Youtube.
Love Your Body Day!
Publicado por cely em Questão de postura em 21/10/2009
É isso aí, um dia para amarmos e celebrarmos nossos corpos. Consegui uma brecha sofrida no meio de todas as minhas atividades caóticas do dia-a-dia para participar dessa blogagem coletiva. Não estou com nenhum tempo para embasamentos teóricos, então corro o risco de não tratar o tema com toda a complexidade que ele exige, mas whatever, preciso escrever.
Pois é, mulheres, estamos aqui ainda reivindicando esse corpo que, definitivamente, nos pertence. Enquanto somos engolidas pela mídia e pelos patrulheiros que nos dizem o contrário, lutamos pelo direito de amar nosso instrumento de vida e expressão. Nossa história é marcada pela dominação de nossos corpos, fomos submetidas a estupros, moldadas de acordo com o desejo do macho, e o direito de controlar nossa reprodução nos foi negado tanto quanto o direito de expressar nossa sexualidade.

As formas de controle sobre nossos corpos mudam, mas permanecem. Os espartilhos de ontem são os sutiãs de bojo de hoje, o apedrejamento público cedeu espaço para mais horrores da violência doméstica, o cárcere privado tornou-se uma rotina dupla de trabalho (com foco ainda no privado), a sexualidade reprimida mudou de cara e é promovida através do sexo pornográfico. Os direitos reprodutivos ainda são negados, dentre eles métodos acessíveis de anticoncepção de qualidade, informação e aborto seguro.
Nossa nudez, antes pecaminosa, agora é de domínio público. Ganhamos o direito de abrir nossas pernas para uma câmera, exibir nossos corpos talhados de acordo com a ditadura vigente para então receber o julgamento minucioso do macho. Ganhamos também o direito de fazer sexo com quem bem entendermos, e levamos de brinde todo tipo de ofensa e misoginia logo que tentamos fazer uso dele. Ah, claro, podemos usar as roupas decotadas e curtas que quisermos, mas as formas do nosso corpo serão sempre brutalmente sexualizadas a cada esquina, em cada pedaço.
Se pudesse eleger a pior violência contra meu corpo, escolheria justamente a sexualização compulsiva. Os padrões de beleza cumprem seu papel determinando quais “pedaços” serão o alvo da vez do olhar masculino inquisidor. Mas, sendo gordas ou magras, peitos pequenos ou grandes, negras ou brancas, embora todos esses fatores impliquem em diferenças no assédio, estamos todas sujeitas a uma aprovação constante do macho. Nosso corpo é perseguido, um seio à mostra é um convite explícito ao sexo, não existe outra possibilidade de interpretação da nossa nudez. Se tentamos exibir nossos corpos com orgulho, somos logo reduzidas a objetos sexuais, brinquedinhos de vouyers.
Acho que cabe a minha história pessoal nisso, passei boa parte da minha idade escolar sendo uma pessoa considerada gorda. Desde muito pequena tive problemas para socializar, talvez porque a educação que recebi não condizia com o mundo real, e este é um erro comum dos pais. Vivia muito reclusa, gostava de estudar a maior parte do tempo e muito raramente fazia alguma atividade física, era a aluna genial, a criança prodígio que todos os adultos amavam, na proporção que as outras crianças odiavam.

A escolinha que freqüentei criava abismos entre os gêneros, com orientadoras muito patéticas. Bem estilo “meninos de um lado e meninas do outro”. Não demorou pra eu sofrer perseguição na escola, era a única que sabia ler no Jardim I, mas nunca conseguia correr o suficiente para pegar os melhores brinquedos do banco de areia. Minha melhor amiga na época, me lembro bem, era uma menina negra, mas ninguém podia dizer que ela era negra que eu respondia “não, minha amiga é branca!”, meu estômago embrulha quando me lembro disso. Enfim, da pré escola até a oitava série acabei descontando minha vida anti-social na comida, e claro que a forma que meu corpo adquiriu fazia com que tudo piorasse a cada dia.
Lembro-me bem da minha querida Deborah, que sofreu o mesmo, nos diziam “você tem um rosto tão bonito, só falta emagrecer”. Éramos cabeças flutuantes, do pescoço para baixo nosso corpo era como uma bola disforme, gerava raiva e repulsa nas pessoas. O meu corpo era como uma prisão para mim, enquanto as minhas colegas populares viam seus seios crescerem e seus supostos privilégios aumentarem. Os garotos eram todos doentios, criaturinhas patriarcais estridentes. Eles me perseguiam e me julgavam, por ser gorda, se achavam no direito de dar uma sentença para o meu corpo a todo o momento. O mesmo faziam às garotas consideradas bonitas, tratando seus corpos como coisas comestíveis e muitas vezes menosprezando na cara dura a capacidade intelectual delas.
A mesma educação que me engessou em uma feminilidade doente fez com que eu não reagisse à grande parte dos ataques, quando mais nova. Mas, quando completei treze anos, estranhamente comecei a emagrecer, creio que pelo crescimento ou algo assim, porque continuava comendo muito e mal. E eis que ganhei meu novo papel feminino na sociedade, de bola disforme inteligente a receptáculo de esperma inútil.

É, eu queria ser sexy, queria que meu corpo fosse belo, quente e saboroso. Usava roupas consideradas “provocantes” e sentia o “poder” de ser atraente para os machos. Estranhamente, cada relacionamento que eu pensava ter era mais fracassado que o outro, e eu estava sempre insatisfeita com aquele corpo que tanto lutava para manter a libido. Nem sei como chamar o sexo que praticava naquela época, uma reprodução do que a pornografia ensina com um toque brochante da realidade. Satisfazer o macho, simular satisfação. E estar sempre tentando melhorar todos os “defeitos horríveis” que faziam meu corpo não ser bom o suficiente.
Eu tinha um complexo tosco com a minha barriga, não por ter “pancinha”, mas por causa das “abas” de gordurinha lateral que sempre tive. Também achava meus seios e nádegas “menores” do que deveriam ser. Por fim odiava minhas estrias nas laterais, gostar mesmo eu só gostava das pernas (por sinal, super torneadas e “adequadas”) e do meu rosto. Lembro de ter ouvido coisas muito violentas durante relacionamentos, do tipo “você seria tão mais linda se fosse mais branquinha”, “seus seios não são tão redondos (como os de silicone, quem sabe)”, “Seu pé é horrível, parece que sobra um pedaço de tão grande”, “você não tem uma bunda tão boa quando a dela, mas…”. Isso sem falar na vigilância do peso, engordou um poquinho? Toma-lhe bronca dos senhores do engenho.
Isso tudo me dá uma náusea desgraçada, mas é bom olhar pra trás e enxergar com outros olhos. Olha que absurdo o que reservam ao sexo feminino, um terrorismo sem fim e ódio ao próprio corpo. E eles estão sempre ali, os machinhos, agentes que mantêm a “ordem”. Pobres das mulheres que também me patrulhavam, dava para ver que elas eram tão vítimas daquilo quanto eu, com suas angústias, noites de choro e inseguranças.
Vivenciei alguns papéis bem diversos do que é “tornar-se mulher” nessa sociedade. O que todos têm em comum é que em nenhum deles o nosso corpo nos pertence. E isso me lembra o post da Lola sobre as gordas terem sido barradas em uma certa boate, um rapaz comentou: “É uma pena que as gordas não possam entrar, afinal alguns caras gostam de gordas”. É bem isso, as variações dos corpos femininos só existem em função do homem, a gorda só pode existir se um cara aceitar fodê-la.
É triste e desesperador ligar a televisão, folhear revistas e jornais, assistir a filmes ou qualquer coisa que venha da mídia ou da indústria cultural no geral. Todos os padrões opressores e sem sentido estão por toda a parte, legitimados, normatizados, enfiados nas nossas gargantas. Nosso corpo tem preço, é vendido e reproduzido na forma de pornografia e prostituição. Mulheres estão mutilando seus seios para enfiar uma prótese de silicone, implorando pelo direito de se sentirem bem com seus corpos. “Coloquei porque me sinto melhor de seios grandes, foi por mim e não pelos outros,” diz a moça com seus seios novos de alguns milhares de reais, com a ingênua ideia de que sua repulsa por seus seios pequenos veio de si mesma. A pressão para moldar o corpo feminino é tamanha que temos o silicone, a lipoaspiração e todos esses tratamentos estéticos dementes sendo vendidos como nunca.
A mulher retratada como ideal tem um corpo sem gosto, sem cheiro e sem expressão. É um sex toy, a lá Angelina Jolie. Não existem pêlos, os órgãos genitais são infantis, a barriga é reta, os seios volumosos e a bunda bochechuda. O cu é cor-de-rosa, e só falta saírem flores dele. A beleza é branca, ariana. A postura é preferencialmente delicada, submissa e ao mesmo tempo sexy, provocante. A famosa dama na sala e puta na cama, leia-se escrava na sala e porn star na cama. É irreal, estúpido e inaceitável.

Podemos, enfim, resistir? Como podemos tomar nossos corpos de volta? Quando seremos reconhecidas como SUJEITOS de nossos corpos?
O caminho é a desconstrução. Se nos fortalecermos como mulheres, nos unirmos contra o olhar do macho, estaremos construindo uma nova forma de resistência, para enfim alcançar a liberdade e tomar de volta o que é nosso por direito. Uma mulher que tem o apoio de outras mulheres e aprender a aceitar suas formas, cores, gostos e odores, é uma muralha contra o patriarcado. Para mim, a chave está em não esperar a benevolência dos homens, porque eu não acredito que eles vão abrir mão de seus privilégios. Se apoiarem, ótimo, se não, tudo bem também. Não dependeremos disso para nada.
Em primeiro lugar, olhe-se no espelho. Conheça suas formas, toque-se. Aprenda a olhar para toda essa doença imposta às mulheres como uma estratégia, vai ser impossível não se afetar nem um pouco por ela, mas tenha sempre em mente que estamos em uma guerra psicológica. Não se sinta um fracasso se, mesmo depois de saber tudo sobre a situação feminina, você morra de vontade de emagrecer e de ser vista como uma mulher bonita. Infelizmente, as pessoas ao nosso redor vão seguir o ciclo e tentar nos convencer a entrar nos padrões, pessoas com as quais muitas vezes temos uma relação de afeto e confiança. Às vezes é desesperador lutar por uma mudança, mas lembre-se que se adequar ao padrão (quando possível) e/ou fingir que nada está acontecendo é uma covardia imensa, com você mesma, que continuará aprisionada, e com todas as outras mulheres.
O segredo para se manter firme? Justamente a união com outras mulheres. Dividir experiências, diferenças corporais e conhecimento com mulheres é maravilhoso, faz com que a gente se sinta mais forte e segura. Chega de encontrar com mulher só em salão de beleza, saia com as suas amigas para programa culturais, shows, festas, pratiquem uma arte marcial ou esporte juntas. Conversem sobre tudo, sem pudores. Apóiem-se e ajudem-se, por experiência própria digo que muitas vezes tudo o que uma mulher precisa é de informação.

A situação é um pouco mais complicada nos relacionamentos heterossexuais. Precisamos, antes de mais nada, desconstruir o “amor romântico”, o ideal do príncipe encantado. Mulher nenhuma precisa de um homem para “completá-la”, somos pessoas COMPLETAS, inteiras. Tampa da panela uma ova, esqueçam essa idiotice. Primeiro fortaleçam a auto-estima, depois pensem em viver grandes romances, porque se lembrem que vocês estarão completamente vulneráveis.
A grande maioria dos homens está com o macho enraizado na própria educação, estão prontos para exercer o papel dominante e inquisidor. Por isso, é importante buscar o equilíbrio das relações de poder com eles, na medida do possível. Se o seu namorado está dizendo que tem algo de errado com seu corpo, está lhe fazendo mal ou você se sente subjugada, sério, desista. Não vale a pena manter qualquer relação com um machista, é MASOQUISMO. Você precisa ter controle sobre sua vida e sobre suas escolhas, e consequentemente sobre o seu corpo.

Hoje posso dizer que o feminismo me fez apoiar mulheres e receber o apoio delas, e que a força que isso somado à teoria me trouxe é fanstástica. Eu amo meu corpo, na maior parte do tempo me sinto no controle da situação. Claro, como eu já disse antes, eventualmente me sinto pressionada por algum agente externo, não sou de ferro (como eu queria ser). Meu companheiro tornou-se feminista e me apóia sempre que pode, consciente de sua situação como homem no patriarcado e lutando para desconstruir isso também.
Enxergo história e personalidade no meu corpo, gosto das minhas formas e proporções. Procuro roupas de modelagem diferente, que caiam bem, não tento forçar a barra com roupas que foram feitas para um tipo físico padrão. Gosto de moda alternativa, sobreposições no vestuário, brinco com looks e expressões. Adoro cabelos coloridos e sempre que posso estou usando cores diferentes, já foi laranja, vermelho, ruivo e agora roxo. Tenho uma queda por visagismo, aquela noção de que bonito é diferente de belo, e que definitivamente não existe padrão de beleza, por mais bonitas que soem as formas mais simétricas pela construção da cultura. Admiro as outras mulheres ao invés de criticá-las, cultivo uma atitude de libertação da beleza, em que todas as formas têm seu espaço e graça própria.

Também acredito muito no respeito pelo corpo alheio, na consideração total do sujeito que há em cada corpo. Eu vejo uma unidade entre corpo e alma, não simplesmente uma imagem ou um monte de carne, existe um mundo de complexidades naquela pessoa, não somente uma forma física. Luto para que eu e as outras mulheres possamos andar livres com nossos corpos, respeitando nossas próprias formas e harmonizando-as com nossos pensamentos e desejos.
Queridas moças que lêem este blog, vamos celebrar nossos corpos! Vamos continuar lutando por esse direito pleno, não somente hoje como todos os dias, através das nossas atitudes e ativismo.
Para encerrar (eu sempre escrevo mais do que planejava), uma foto bem pessoal no escritório, só pra ilustrar o meu LYBD.

Beijo carinhoso para todas!
PS: As fotos utilizadas da campanha DOVE não demonstram meu apoio pela marca, já que obviamente mulheres que se aceitam e são lindas não costumam comprar “creme redutor”.


