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Mini Manifesto contra a Família Nuclear

Férias são totalmente indispensáveis na vida, e hoje significam um dos únicos períodos em que se retoma o fôlego, como se passássemos o ano todo sem ar e de repente fosse possível respirar de novo. Para quem mora em São Paulo, enfrenta 3 horas de transporte público caótico diariamente para ganhar as migalhas de papel no final do mês – que ainda assim garantem o posto na classe C – não dá para dispensar esses dias de glória.

Mas, me pego pensando o quanto é impossível fugir da realidade, e não entendo como tem gente que pode apertar o “off” e se jogar na piscina como se nada mais importasse. Olha, confesso que tentei ser uma dessas pessoas esse ano, mas não tenho um estômago tão foda assim.

Londrina, Paraná. Cidade do interior com clima urbano, mas o lugar onde eu fico é totalmente rural, uma chácara com piscina e muito verde. Todo mundo aqui fala “porrrta”, adora sertanejo e está sempre tranqüilo. São minha família por parte de mãe, pra qualquer canto que eu olhe tem uma tia, um primo, ou algo assim.  A casa é enorme e está sempre cheia, alguns móveis são tão antigos que me fazem lembrar a minha infância em detalhes, basta prestar atenção no formato da prateleira e naquele puxador de metal engraçado da gaveta.


São boa gente, sim, muito boa. Solícitos ao extremo, agradáveis, sorridentes e simples. Mas, acabaram sendo objetos da minha incontrolável leitura crítica. E isso me trouxe inspiração para falar de um tema que já estava na minha cabeça: a família nuclear.

Para que o nosso sistema se sustente, existe uma base que precisa ser mantida a todo custo, que é a nossa estrutura familiar composta de um casal heterossexual e seus descendentes, que vivem em uma propriedade privada e sustentam todas as instituições conhecidas (igreja, escola). Aqui não faltam situações para analisar essas famílias, já que acabei ficando em contato com muitas delas em um período curto – em São Paulo quase não vejo parentes.

É engraçado quando você sai de um ambiente totalmente construído para você, seu círculo de amigos libertários, que falam de política o tempo todo e te fazem sentir em algum tipo de utopia, e de repente a realidade te dá um soco na cara trazendo de volta o status quo. Somos uma minoria, o mundo lá fora é muito maior, mais feio, e eles conseguiram enfiar os valores mais cretinos goela abaixo das pessoas.

Você olha ao redor e captura uma série de cenas que perturbam a sua mente. Aqui, as mulheres são servas dos maridos, fazendo todas as suas vontades e as dos seus filhos também. O olhar delas é triste, perdido, por mais que estejam sorrindo e conversando, muitas já são conhecidas por seus misteriosos problemas psicológicos – que incrivelmente só acontecem com mulheres. As crianças são ensinadas no mais duro sexismo, as coisas de meninas e meninos estão absurdamente segregadas, eles têm pavor de tudo que é feminino e elas estão sempre ansiosas para atender às expectativas da feminilidade. A homofobia está presente com toda a força, e ninguém consegue entender porque eu defendo “essa gente”. Os animais então, coitados, são vistos como lixo, usados e explorados em todos os contextos possíveis e imagináveis: alimentação, vestuário, entretenimento barato, qualquer destino de utilitarismo e sofrimento que puderem lhes dar. Dei de cara com um porco morto em cima da mesa, e mais quilos de outros animais despedaçados, especialmente na tal noite de Natal, mas é claro que não me pronunciei a respeito.

Aliás, a religião parece ser justamente a base dessa organização familiar. O Deus homem, branco e hetero manda por aqui. A misoginia corre solta na festa da ignorância, é um tal de marido xingando a mulher porque quer janta, mulher xingando a outra de vagabunda porque não limpa a casa, mãe falando pra filha não se sujar porque ela é menina, homem falando que é macho pra caralho o tempo inteiro. Pára que eu quero descer!

Mas, vamos fazer disso uma observação organizada, segue meu pequeno manifesto contra a família nuclear:

Casamento – o contrato da vida a dois

O que é esse tal de casamento heterossexual? Lembro do desespero de algumas tias que já tinham passado dos 30, e que não tinham conseguido o tal marido. As meninas ainda são educadas para conseguir um provedor, por mais que sejam incentivadas a ter sua carreira, é sempre necessário que o homem lhe dê as condições materiais para viver.

A família começa a pressionar a garota por volta dos 20, principalmente se ela já namora. É preciso que uma nova família seja criada, ninguém sabe ao certo por que, simplesmente tem que ser assim. Mesmo que os filhos não estejam nos planos – o que já configura “desgosto” – uma garota não pode ser solteira, não pode aproveitar uma vida sexual ativa longe do matrimônio, ou ela não é mulher o suficiente. O homem, por sua vez, tem muito mais tempo e liberdade, porque ainda reina a ideia de que as mulheres precisam de alguma forma ser “guardadas”, reservadas para o homem ideal. As mulheres experientes e confiantes sofrem ataques de todo tipo, que tentam rebaixá-las ao status de “usadas”, para que sua auto-estima seja esmagada e elas estejam disponíveis enfim para o ritual do casamento.

A “mulher para casar” é praticamente um cachorro obediente, tem como formação ideal todas as habilidades para cuidar de uma casa, uma sexualidade contida, temperamento dócil e ainda é bela. O “homem para casar” só precisa de um emprego médio e alguma demonstração de poder financeiro, mais nada. Alguns ainda são bons namorados, e logo após o casamento colocam a mulher no seu “devido lugar”.

A cerimônia religiosa já começa com o pai entregando sua filha ao marido, representando os anos de subjugação da mulher a uma figura masculina proprietária, seja pai, marido, irmão, o que for. Espera-se ainda em pleno 2010 que ela seja virgem, ou pelo menos com pouca experiência sexual. O casamento católico tem um apelo de eternidade, como se Deus estivesse selando aquela união (ou seria condenando?). A ameaça presente é de que terminar um casamento cristão é algum tipo de pecado, ou seja, os dois vão ter que fazer um esforço tremendo para manter a relação, por mais que esteja uma merda. Que tipo de relação amorosa tem um contrato desses? Chamam de amor essa prisão perpétua?

Tem gente que ainda justifica o casamento dizendo que nós precisamos de alguém quando estivermos velhos. A situação precária dos idosos e aposentados é um método de coerção bastante eficiente, ao menos no nosso país, mas o pensamento estabelecido de que apenas familiares são companhias confiáveis é falso. É possível, ainda, ter um@ companheir@ quando mais velha, e não faz sentido nenhum justificar uma vida inteira de tédio matrimonial com o receio de uma aposentadoria ruim, isso é masoquismo.

Lar doce lar – cárcere privado

Ele vai ser o responsável por comprar uma casa confortável, onde vai colocar sua mulher para trabalhar feito uma escrava. E isso não vai ser considerado trabalho, é apenas a “obrigação feminina” cozinhar, lavar, passar, limpar, porque vem impresso no DNA de toda mulher que essas tarefas repetitivas e exaustantes são a realização da sua vida. O circo fica completo quando chega o filho, que demanda toda a atenção da mulher, mas ela ainda tem que cuidar da casa e do outro “filhão” que é o marido, chegando tarde do trabalho e esperando a janta no prato. Quando a mulher trabalha, ao invés de conquistar independência ela conquista uma jornada tripla do inferno, por mais que trabalhe o mesmo tanto que o homem ainda tem o segundo expediente quando chega em casa.

Daí os livros começam a retratar a multi-mulher, a mulher moderna, que se desdobra para cumprir suas tarefas, e ninguém enxerga que isso é um abuso enorme. Elas são incentivadas a prosseguir com seu trabalho sem fim, aplaudidas pelo patriarcado quando fazem exatamente o que os homens querem: trabalhar feito camelas para manter suas famílias. Nada pode ser mais honroso para uma mulher na nossa sociedade do que conseguir trabalhar, cuidar dos filhos, da casa e do marido, por mais que isso tome qualquer tempo produtivo e roube toda a sua autonomia. Parabéns, mulher multi-escravizada.

O romance e o sexo vão pro lixo bem rápido, dando lugar ao teatro heterossexual da dor de cabeça feminina e insatisfação masculina. São uns artistas mesmo, conseguem dividir o teto com uma pessoa que repudiam e dão os filhos como desculpa. Os homens ainda têm seu tempo com os amigos, suas válvulas de escape, estão sempre dando um jeito de continuar vivendo – até mesmo através de amantes. A mulher se torna a figura da “patroa”, uma mulher amarga que exerce algum tipo de ”autoridade” com o marido, quando na real os homens só cedem aos esperneios delas porque não querem perder os privilégios da serva. Um homem não é capaz de lavar e passar sua própria camisa, de fazer sua própria comida, não é capaz de enxergar que a sua casa é de tod@s que ali residem e deveria ser cuidada por tod@s. Quando muito, contratam uma empregada negra e pobre por uma miséria, quando seria muito mais justo que os residentes cuidassem da sua casa,e não que colocassem esse peso nas costas de outra mão de obra barata – sempre feminina.

Quando um homem está com uma roupa mal passada, culpam a mulher. Se o filho está mal educado, só pode ser problema da mãe. Se a casa não está limpa o suficiente, já recai sobre as costas dela, a patroa. Culpar a mãe é uma velha máxima que o feminismo denuncia, já que o pai é uma figura secundária que apenas serve de provedor para a família. As responsabilidades de uma mãe são tantas que não permitem que ela tenha o tempo necessário para sua própria realização, ela trabalha a serviço da sociedade, e sua auto-estima quase sempre é um fracasso. Muito se enganam aqueles que acreditam que basta uma família bem cuidada para que a missão da mulher esteja cumprida e ela se sinta realizada, a maioria das mulheres, quando se vê nessa situação, percebe que falta algo muito importante. E daí surgem muitos quadros de depressão em mulheres casadas, pois elas sequer conseguem compreender o que está faltando. Imagino que muitas mães de família se perguntem todos os dias “Por que sou tão infeliz?” – e não foram poucas as que me confessaram isso.

A resposta é simples, essas mulheres são condicionadas para a auto-anulação em busca da felicidade dos outros. Não se trata de altruísmo lindo e maravilhoso, e sim de uma relação de servidão. A mãe que se sacrifica pelo marido e pelos filhos não pode deixar de transparecer sua amargura, e também de passar para frente todos os valores que tornaram a vida dela um inferno, para que sejam reproduzidos na próxima geração. Daí entram aqueles paradoxos da mulher machista, que na verdade é uma situação óbvia, a maior vítima do machismo é também a mais vulnerável, que mais absorve as determinações e não consegue enxergar outro modo de vida. É como um trabalhador escravizado, que não tem condições ou informação suficiente para reivindicar seus direitos, e se torna presa fácil dos mais poderosos. Quais são os direitos da mãe? Quem lhe deu tantos deveres e porque ela deveria cumpri-los?

E claro que o patriarcado aplaude as mães, quanto mais se sacrificam pelos outros melhor. Mãe é sagrada, ninguém pode xingá-la. Mãe não é mulher, é uma criatura assexuada e divina com o poder de cuidar de todo mundo, e de se esquecer totalmente nesse processo. Não é à toa que mulheres famosas e ricas contratam equipes de babás, fazem lipoaspiração, contam com mil empregadas, elas não são querem ser “mães”. Porque as verdadeiras mães ficam gordas, de seios flácidos, olheiras, extremamente cansadas e mau-humoradas, vivem em função dos filhos e ainda têm um lar doce lar para varrer, lavar, passar, encerar, e um marido super bacana para alimentar. Mães não saem para dançar, não lêem nem escrevem, não criam posições sexuais, não visitam cinemas ou museus, não viajam, não se masturbam. Isso parece uma vida digna? Para quem? Só se for para o Estado.

A prole – ápice da família nuclear

Não basta existir apenas o casal heterossexual, é preciso que ambos reproduzam para dar continuidade a uma linhagem, mantendo a cultura da herança e da valorização do “mesmo sangue”. Não interessa se o mundo está super lotado, se as pessoas se espremem nos transportes públicos, se os recursos estão se esgotando e logo o planeta pode entrar em colapso com tanta exploração, o que importa mesmo é manter o nome da família. Adoção? Só quando não há outra maneira, e ainda é uma prática pouco incentivada.

Ter filhos é uma espécie de complemento para essas pessoas, e muitas vezes um ato bastante egoísta. Pouquíssimos são aqueles preparad@s para tornar-se educad@res, que dispensam um tempo ao menos para ler sobre pedagogia, planejar a orientação das crianças. O interesse de tutelar crianças não parece partir do desejo de orientar, construir e desenvolver um ser humano, e sim do desejo da própria felicidade, da sensação de completude que só o cumprimento das regras sociais pode trazer. Casais não têm filh@s pensando no desafio de apresentar nosso mundo conturbado a uma nova pessoa e guiá-la da melhor forma possível, eles pensam, primeiramente, no bem estar próprio. O que uma criança pode fazer pela minha vida? O que o sorrisinho dengoso de um bebê trará de bom nessa casa? Será que os pequenos correndo e posando para fotos vão tornar minha família mais feliz?

O que se segue ao nascimento das crianças normalmente são alguns desastres pedagógicos, e claro, reprodução dos mesmos valores de sempre. As mães são as donas dos filhos, dita a nossa cultura. 90% das responsabilidades envolvendo a criança, especialmente necessidades básicas, serão jogadas nas costas da mulher. O pai é uma figura mais distante, ainda seguindo seu papel de provedor, e frequentemente adotando o papel de “normatizador” da família, aquele que cria as regras e deve ser mais respeitado do que a mãe.

O problema já começa na criação totalmente diferente que meninos e meninas recebem. Enquanto os meninos são incentivados a praticar esportes, criar estratégias, construir cidades, operar máquinas, as meninas são levadas ao mundo da fantasia onde princesas encontram seus príncipes, ou ao mundo das bonecas onde elas são treinadas para a maternidade e serviços domésticos. Eu simplesmente tenho náuseas quando vejo todas aquelas panelinhas, bebês pra trocar fraldas, mini chapinhas, quer dizer, a brincadeira da menina é se programar para o serviço de casa, para cuidar de criança e se embelezar para os meninos. Do outro lado, vejo os meninos se divertindo horrores com carrinhos, trenzinhos, cidades de montar e jogos coletivos, exercitando todas as suas capacidades físicas, intelectuais e sociais.

Outro problema é a presença da violência na educação dessas crianças. Alguns insistem que dar um tapa é algum tipo de direito do educador, para mim sempre será uma profunda incompetência desses pais e prova de que eles não sabem lidar com suas próprias angústias, frustrações e impulsos violentos. Meninos e meninas são ensinad@s a impor limites através da violência, seja física ou psicológica, e ainda dizem que o ser humano tem o ódio como “característica inerente”. Ainda há aqueles tipos de pais que ignoram quase que completamente os filhos, opinião de criança é sempre insignificante para eles, elas não têm nenhum tipo de direito à expressão ou autonomia para eles. “Criança disse? Bobagem!” Além disso, nunca encontram tempo para desenvolver atividades inteligentes, que estimulem o convívio social e o desenvolvimento dos pequenos. O resultado são milhares de futuros adultos com baixa auto-estima e complexo de inferioridade, o que pode ser expressado tanto com timidez extrema como com agressividade.

A adolescência é um mistério ainda maior para os pais medianos da sociedade, por se tratar do período de contestação, em que o jovem mais necessita de esclarecimentos, orientações e confiança. Assuntos como drogas e sexo costumam ser ainda grandes tabus na mesa de jantar, o que apenas prejudica o desenvolvimento do adolescente e o deixa mais expost@ à falta de informação e perigos das ruas. O patriarcado também está bastante presente nessa fase, especialmente na diferença brutal entre a abordagem das questões sexuais para meninos e meninas. Eles, como sempre, são incentivados a ter muitas parceiras, enquanto elas são reprimidas e estimuladas a ter vergonha, receio e medo da própria sexualidade.

Essa adolescente é pressionada pelos pais a manter-se virgem e ao mesmo tempo pressionada a ter sua primeira relação sexual pelos amigos da escola. No fim das contas, o que a sociedade acaba valorizando em pleno 2011 é a “aura” da virgindade, a garota pode até ter no histórico relações sexuais, mas que sejam – ou pareçam – poucas e com pouquíssimos parceiros.  Experiência sexual não é recomendada para as moças, mesmo que seja um bom caminho para descoberta do próprio corpo, desejos e orgasmo. Masturbação feminina parece palavrão, enquanto a cena do garoto no banheiro com a Playboy é encarada como natural e engraçadinha.

No plano afetivo, a maioria das garotas ainda está com a cabeça nos príncipes, não da mesma forma encantadora que a Disney colocou, mas através da dependência emocional e da esperança em encontrar o homem perfeito. Enquanto isso, no mundo real, os garotos fortalecem a auto-estima e a própria identidade em seus relacionamentos, cientes de que não existe uma princesa para esperar, e sim muitas pessoas diferentes para conhecer e entender novas visões. Eis que os interesses da garota se chocam com a dura realidade dos garotos, e os relacionamentos se tornam bastante conturbados e desequilibrados.

Nessa etapa, as garotas são convencidas por todos ao redor de que os “homens são assim mesmo”, carregando para sempre um conformismo sobre as “profundas diferenças” entre homens e mulheres. E nesse ponto, um desses relacionamentos conturbados com um rapaz pode se tornar um novo casamento, pois ela não vai arranjar nada melhor mesmo. Na melhor das hipóteses, ela pode ter um bom relacionamento com um homem acima da média, mas não que isso vá impedir toda a lógica do contrato da vida a dois, cárcere privado e geração da prole, para recomeçar o ciclo familiar.

Enfim…

Se todo esse processo de formação de famílias prossegue normalmente, as estrutura sociais se mantêm intactas e seus valores são repassados de geração em geração. A família nuclear é a garantia de que o Estado pode prosperar e de que os “bons costumes” estão seguros, mesmo que sua inconsistência seja gritante. É incrível como as pessoas se prendem a esse modelo como sua única segurança de uma existência plena, e ao mesmo tempo parecem tão infelizes, perdidas e confusas.

A minha proposta para resolver essa questão seria o incentivo às organizações familiares alternativas, consangüíneas ou não. Que todos os grupos de pessoas que se identificam profundamente e partilham a mesma moradia tenham o mesmo status familiar, sejam heterossexuais ou homossexuais, com crianças ou sem, morando com amigos ou parentes. Que seja possível constituir famílias de todas as formas, e que todas sejam reconhecidas e respeitadas. E, o mais importante, que os novos valores que evidenciam a liberdade e os potenciais humanos, independente do sexo ou gênero, sejam aplicados nessas famílias. Que haja liberdade para a sexualidade, para a expressão política, para os novos pensamentos e reflexões que precisam chegar a tod@s os indivídu@s.

Acredito que toda a transformação precisa ter início nesses micro-ambientes, para enfim atingir a sociedade por inteiro. Afinal, de que adianta a gente repensar todos os valores humanos, partilhar descobertas e novas visões apenas entre amig@s de grupos restritos, enquanto as famílias mais próximas ainda vivem sobre uma lógica dominante que arrepia até o nosso último fio de cabelo?

PS: Muitas questões desse texto precisam ser aprofundadas, este é apenas o esboço do que está por vir.

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Separatistas são os homens!

Pois bem, se eu tivesse um saco, ele estaria explodindo em abscessos de tão cheio. Parece que a desinformação é mesmo um câncer, que consegue transformar vítimas em algozes e manipular até o mais óbvio dos contextos.

Ok, eu explico, mas já vou avisando que vai ser polêmico. Não se pode escapar de ler/ouvir da boca dos homens – ou em alguns casos até de mulheres – que o feminismo é coisa de lésbica mal-comida, certo? Esse é o clichê dos clichês, que felizmente com um pouco de conversa pode ser revertido. Mas, quando o assunto é separatismo lésbico, ou moças que escolheram amar outras mulheres e fazem disso uma posição política, se afastando ao máximo dos homens, aí parece que todo mundo vira lesma com sal. “Viu só, viu só, a que ponto chegam essas feministas? Onde já se viu discriminar homens? Isso sim é sexismo mimimi!”

Não precisa nem chegar ao radical separatismo lésbico para as pessoas surtarem, você pode comentar sobre Mujeres Libres e outros grupos que admitem apenas mulheres, de uma simples oficina ou evento com temas específicos para mulheres, ou até mesmo uma reunião de amigas para debater feminismo para a qual os rapazes – pobrezinhos – não recebem o convite VIP. Tudo vira motivo para dizer “Oh, corram para as montanhas, elas estão discriminando homens!”. Daí vem aquele papo todo de que se o feminismo quer ser justo é preciso acolher os homens, ou estaremos praticando um sexismo inverso. Nesse caso, acolher os homens significa trazê-los para nossos encontros, ouvir o que eles têm a dizer sobre feminismo e em hipótese alguma criar espaços restritos para mulheres.

O argumento dos homens é que precisamos de união, caminhar juntos, sem nenhum tipo de discriminação, tolerância feelings e tal e tal. Muito bonito, louvável, pena que na prática não é bem assim que funciona. As feministas que já tiveram a experiência de admitir homens na roda de discussão com certeza experimentaram algumas das facetas do patriarcado que restavam dentro deles, porque, afinal, é muito difícil desconstruir a ideia de superioridade masculina, ainda mais quando traz privilégios diretos. Claro que admiramos os mínimos progressos dos homens ao nosso redor, e sempre que possível estamos tentando fazê-los compreender melhor o peso do patriarcado e suas conseqüências sobre as mulheres. Aos poucos, aqueles mais próximos já não chamam as mulheres de putas porque fazem sexo, já não as culpam por estupro ou esbravejam toda vez que vêem uma delas atrás do volante no trânsito, mas ainda não podemos comemorar nenhuma vitória.

Tomemos como exemplo algumas reuniões de grupos feministas, anarquistas ou mesmo uma reunião do movimento sindicalista, em que temos exemplos suficientes de homens que levantam a voz para as mulheres quase que automaticamente, enquanto tendem a ouvir mais os outros homens da mesa. Como disse nosso queridinho José Serra “Com mulher não tem competição”, porque, afinal, elas são inferiores. Tenho dois casos recentes para dividir: Um foi com uma organização sindical que não vou citar o nome aqui, da qual uma amiga minha feminista estava participando ativamente. Um dos caras que fazia o discurso socialista mais incrível, que fazia todo mundo se sentir inspirado, era o mesmo cara que sentava o traseiro peludo na cadeira na hora de jantar em público e mandava a esposa dele pegar tudo o que queria. A mulher quase não tinha tempo para comer sua própria comida, porque o cidadão a fazia de garçonete particular. Daí, quando outras pessoas do movimento foram discutir o problema, o homem ficou possesso e se desligou de lá. É bem como dizem por aí, até o menor dos operários tem uma escrava em casa.

Mujeres Libres

Tenho minhas próprias experiências em outros grupos também, sempre observei que basta um homem entrar em uma discussão feminista que ele começa a advogar pelo seu “gênero”. É incrível, estamos ali falando dos problemas das mulheres, que muitas vezes incluem os homens como algozes, e lá vai o rapaz libertário dizer que as coisas não são bem assim, porque afinal, ele é homem e é super legal. É a velha cultura da exceção, só porque alguns homens não estupram ou socam mulheres não quer dizer que a maioria esmagadora dos que o fazem não sejam homens e tenham uma educação muito semelhante. Ao invés de apoiar as mulheres e conversar com outros homens para criar uma consciência melhor, os caras entram na defensiva, e com isso também inibem as mulheres de falar. Outro detalhe é o constrangimento que muitas mulheres sentem em revelar que sofreram algum tipo de abuso sexual, físico ou moral perto de outro homem, pelo medo de serem julgadas (mas como você estava vestida mesmo?). Isso traz ainda mais problemas para a visibilidade das opressões contra as mulheres, porque como tod@s bem sabem, toda mulher tem uma história de horror para contar.

Pra que serve essa merda de patche?

Isso sem mencionar o tratamento velado reservado às mulheres nas organizações. Até entre aqueles que se dizem libertários ou contra-culturais impera o status-quo, em que mulheres servem basicamente para decoração e deleite dos machos do bando. Não é raro andar por meinhos libertários e escutar os comentários mais trogloditas do mundo, o cidadão faz questão de ir na palestra feminista, com patch do Crass na jaqueta e símbolo de ♀=♂, e falar bem alto entre os amigões que a garota palestrante podia calar a boca chupando o pau dele. E ainda temos aquelas cenas alternativas que são dominadas por homens, com bandas de homens, zines de homens, onde as mulheres são tratadas ainda como “gostosas” ou “barangas”, “santinhas” ou “putas”, e os caras ainda têm a cara de pau de dizer que elas é que não se interessam em estar ali, ou só vão pelo namorado.

Enfim, fica claro que esses espaços “mistos” não servem ou servem muito pouco à luta das mulheres. E isso não acontece porque os homens são todos essencialmente malvados e odiamos todos eles, mas porque os valores vigentes apontam para a superioridade masculina e é quase impossível que os caras não se contaminem com tudo que lhes foi ensinado sobre a dominação das mulheres. Você tem um garoto que desde pequeno recebe estímulos para ser livre enquanto sua irmã é oprimida, que tem a mãe sempre à disposição e a vê sendo calada frequentemente pelo pai, que se torna seu herói…precisa do que mais?

Agora, outra reflexão, já pararam para pensar em quais são os espaços “femininos” hoje na nossa sociedade? Os homens contam com a partida de futebol, o boteco, o puteiro, as casas de jogos, sempre gozam da companhia dos amigos até mesmo quando casados (a célebre escapada da megera). Já as mulheres, onde se encontram para trocar idéias? No salão de beleza? No shopping fazendo compras? No parquinho cuidando das crianças? Por que será que a ideia que se faz de mulheres juntas em um bar ou qualquer lugar de confraternização é tido como ameaçador pelos homens, em especial maridos? Por que os pais dizem às suas filhas “Vai deixar de sair com seu noivo para sair com amigas? Isso não está certo.” E uma questão que vi esses dias e achei muito interessante: Pense em algum filme, qualquer um que você já tenha visto na vida, que tenha um diálogo de mais de 3 minutos entre duas mulheres, e que elas não estejam conversando sobre homens (o protagonista, no caso). Difícil, né?

A verdade é que a convivência entre homens é estimulada, enquanto que as mulheres são incentivadas a competir umas com as outras em função dos homens. A rivalidade feminina é uma estratégia esperta do patriarcado, que joga umas contra as outras na busca pela atenção dos machos enquanto eles criam laços fortes entre si. A amizade entre os homens é um pacto, e garante muitos momentos de confraternização e fortalecimento dos laços. A amizade entre mulheres é vista como algo superficial, infantil e sempre frágil, como se a primeira aproximação de um “partidão” pudesse gerar uma briga e uma disputa. Os espaços públicos, por sua vez, também pertencem aos homens, já que ainda hoje é perigoso para uma mulher andar sozinha por aí, ainda mais de noite, afinal seu corpo pode ser alvo da invasão de um homem pelo simples fato de ser mulher. Claro que as mulheres já saem sozinhas, já tiveram muitas conquistas, mas ainda existe esse clima de medo, em que só andar com um homem ao lado é totalmente seguro. Se você anda sozinha, sem um “homem proprietário”, torna-se alvo de abusos verbais e até agressões físicas.

Como se não bastasse todo esse cenário favorável aos homens na sociedade, ainda querem excluir os únicos espaços unicamente femininos que existem com o argumento do sexismo! Como se, realmente, as mulheres estivessem se empoderando para atacar os homens, quando na verdade ainda estamos no primeiro passo em busca da igualdade de direitos: o fortalecimento das mulheres e identificação entre si. É um egoísmo tremendo um homem apontar para uma feminista e dizer que ela está sendo sexista por fazer uma reunião apenas de mulheres, sabendo que não há outras oportunidades como esta em que elas poderão trocar experiências e se apoiar para lutar contra a opressão masculina. Basicamente, os homens já têm toda a liberdade que poderiam desejar, mas não se conformam de ser excluídos de uma simples reunião entre mulheres que buscam a mesma liberdade. Isso se chama birra, costume de ser privilegiado em tudo.

E enfim podemos chegar até a revelação do dia (wow): A verdade, querid@s, é que as feministas não são separatistas, OS HOMENS É QUE SÃO SEPARATISTAS.

Ou vai dizer que você nunca reparou como eles formam seus grupos de amigos e transformam isso em um universo PARALELO? Eu já convivi bastante entre homens, já ouvi absurdos – e ouço, sempre – mas posso afirmar que existem coisas ainda mais pesadas que eles só dizem quando estão juntos, e são segredos de Estado. Os homens podem até fingir que tratam as mulheres com igualdade, mas são os primeiros a falar um monte pelas costas delas quando estão com os amigos. Eles narram como gostariam de transar com aquela amiga de vários anos que nem imagina, como a namorada é chata e menos gostosa que fulana, ou como a enganaram para poder sair naquele dia, diversos comentários que não teriam coragem de dizer em nenhum outro local, senão na segurança do universo masculino. Na vida real, não têm coragem ou dignidade suficiente sequer para dizer à própria esposa que gostaria de sair ou que algo lhe desagradou, preferem enxergar as mulheres como idiotas e fazem das traições e mentiras um jogo divertido.

Um dos primeiros mandamentos na vida dos homens é justamente de não tratar as mulheres como iguais, elas são sempre mais frágeis, mais burras, ou só servem para sexo. Quantas vezes a gente não escuta os rapazes dizendo “Eu gosto é de mulher”. Sempre que eu ouço essa frase eu sinto um embrulho no estômago, e tenho vontade de responder “Gosta o cacete, se gostasse você respeitaria, na verdade você ODEIA! O que você gosta é de arrombar mulheres.” “Gostar” de mulher significa apreciar a penetração nas bucetas delas, basicamente. E isso pode facilmente ser interpretado como ódio, porque eles mesmos dizem que “foderam a vagabunda, aquela piranha desgraçada, bem feito, tomou rola”, é sempre degradante ou humilhante para a mulher fazer sexo, porque eles sempre se acham os donos da situação. Quando o cara vê uma mulher bonita e sexy posando de lingerie, ele tem dois sentimentos: Tesão e ódio. Ele tem prazer e admiração pelo corpo da mulher, mas acha automaticamente que ela não presta, que só mulher vadia comete esse crime que é seduzir e gostar de sexo, e que ela nunca vai ser “mulher para casar”.

Sou uma eterna desconfiada das intenções dos homens para com as mulheres, mas tenho meus motivos. O universo masculino não poupa ninguém, é um território em que a justiça e igualdade são jogadas na lata do lixo, em troca de algumas risadas. Enquanto eles falam tanto de sexo hetero, na verdade não conseguem cumprir o princípio básico da relação sexual satisfatória, que é o respeito. Eles precisam “comer” as mulheres, precisam condená-las por gostarem de sexo e procurar a mais travada de todas para ter uma relação séria, para não correr riscos e enfim eleger a “patroa”, que será sempre o motivo de zombaria da noite com os amigões. E precisam, principalmente, dar um jeito de inferiorizar todas as mulheres com quem convivem e excluí-las de seus momentos de confraternização, afinal, elas só seriam chamadas para a diversão caso o interesse fosse foder umas bucetas. Eu não sei como alguns homens deitam a cabeça no travesseiro e dormem, levando essa vida dupla que exclui metade da humanidade, mas tomara que eu nunca compreenda de fato.

 

União de Mulheres de São Paulo - Almoço de Confraternização =)

O meu ponto aqui é que precisamos defender os espaços femininos, não para criar um grupo separatista de repulsa ao sexo oposto como nossos amigos homens fizeram, mas para fortalecer as mulheres e derrubar a rivalidade feminina, assim podemos nos identificar umas com as outras e nos apoiar nos momentos difíceis. As histórias que surgem em grupos de mulheres são incríveis, e sempre muitos semelhantes umas com as outras, e isso nos ajuda perceber melhor nossa posição na sociedade e a lutar pela justiça em todos os espaços. E toda vez que um homem lhe dizer que as feministas são sexistas e os discriminam, tente lembrá-lo de seus privilégios sociais e do mundo masculino que ele construiu com seus amigos, talvez ele tenha a sensibilidade de reconhecer esse abismo histórico e social entre homens e mulheres, ou apenas tente defender os outros homens e divagar sobre a união dos sexos – na teoria.

PS: Se você é homem e garante que seu grupo de amigos não trata as mulheres dessa maneira, PARABÉNS! Mas, mais uma vez, não estou falando de você, e tenho certeza que você conhece muitos que agem dessa maneira – por isso a necessidade da crítica.

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Justiça para Geisy Arruda!

Todo mundo já escreveu sobre a Geisy Arruda, mas o caso ainda está pegando fogo então eu vou dar a minha contribuição.

Muitos estão dizendo que a imprensa exagera, que ninguém conhece a verdade dos fatos e que “todos tiveram sua parcela de erro”.

Analisemos.

geisy2

Fato 1: Geisy foi xingada de puta e recebeu ameaças de estupro, sejam elas com intuito “corretivo” de trogloditas ou por pura humilhação simbólica. Isso está comprovado pelos vídeos e estudantes.

Fato 2: Geisy estava com um microvestido cor-de-rosa e percorreu um caminho maior que o habitual para encontrar um banheiro que não estivesse em manutenção. esse fato foi interpretado como uma “tentativa de Geisy de se expor mais e mais”.

Fato 3: Geisy demonstrou uma atitude de desprezo e provocação com os gracejos que ouviu. A reação dela nessa situação foi relacionada com seu comportamento habitual, o que mostra que ela deve ser uma moça que usa roupas consideradas “provocantes” e que não atende aos apelos e assédios dos colegas ao redor.

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Eu sei muito bem o que as pessoas que defendem a Universidade pensam. Em suas cabecinhas, Geisy é “puta”, deve fazer sexo com qualquer um, provocou toda a situação e pior, ainda quer se promover em cima disso se fazendo de vítima na imprensa. E tem mais, faculdade não é lugar pra se vestir “desse jeito”, e uma aluna da UNIBAN declarou que “mulher que se veste assim é objeto mesmo”.

Primeiro, que mesmo que Geisy fosse prostituta, estaria em seu pleno direito de estudar. Mas, ela não é. Tampouco temos informações sobre a vida sexual da moça, que também não faria diferença alguma, afinal somos livres para nos relacionarmos uns com os outros e teoricamente não deveríamos sofrer violência por exercer esse direito.

O mais grave é dizer que Geisy “provocou” essa situação.Pior, dizer que a culpa não foi do micro-vestido, como alegaram ao expulsá-la, mas sim da “postura” de Geisy. Existem premissas nojentas para essa afirmação, a primeira é de que a postura adequada de uma mulher é totalmente diferente da de Geisy, ou seja, ao invés de vestir-se como quiser e andar livremente seria obrigação feminina da moça usar roupas que não mostrem seu corpo e comportar-se de forma passiva, silenciosa e submissa. Outro agravante seria a forma física de Geisy, que difere dos padrões impostos ás mulheres e por isso desqualifica a “beleza” que deveria ser mostrada com o vestido, e já que não há diversão para os primatas heterossexuais, logo a exibição de Geisy se torna uma AFRONTA.

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A faculdade também supõe que Geisy provocou os colegas através de atos “rebeldes” como rebolar, ignorar ou demonstrar indiferença com a atitude. Mesmo que a moça tivesse mostrado as tais partes íntimas, o que não foi confirmado por ela e nem há provas, sua atitude foi nada mais nada menos que defensiva. Geisy mostrou através de um comportamento irreverente que não importava o quanto as pessoas a julgassem, esperneassem e desejassem que ela cobrisse seu corpo, ela continuaria daquela forma, a forma que ela escolheu para se vestir e se comportar. A própria Geisy não se acha um objeto, ela conhece muito bem seus desejos, emoções, objetivos, há um universo particular na vida da moça que não sucumbe ao terrorismo de uma turba.

Quem determina afinal que o corpo de uma mulher tem apenas o significado sexual? O sentir-se bela de Geisy é condenado à insinuação sexual por qual autoridade suprema? Coxas à mostra são aval de estupro e linchamento? Se Geisy realmente desejava conseguir sexo com aquela roupa, os alunos determinaram que ela estava DISPONÍVEL para isso naquele momento na faculdade com que direito?

Mulheres vestidas nos moldes que consideramos “sexy” não carregam um selo de “Available” na testa. Ora essa, foi construída uma imagem de sexualidade extrema e sujeição vinculada à decotes, saias curtas e vestidinhos, sob um pretexto de “libertação”. Mas, o que vemos, é justamente o contrário: ao invés de exercerem a liberdade ao usar roupas que expõem o corpo, as mulheres são simplesmente condenadas a um estado de disponibilidade sexual de acordo com a conveniência dos machos!

Não julgo que estamos em condições de abolir tais roupas que carregam os símbolos do patriarcado com suas formas, pelo contrário, as mulheres precisam ter autonomia e posse sobre seus corpos suficiente para usar o que quiserem e serem respeitadas da mesma forma.

O que vemos é o oposto, moças como Geisy são consideradas disponíveis como alvos nos espaços públicos, as roupas que mostram o corpo funcionam como um código que legitima a aproximação e a invasão do espaço. Quando Geisy reagiu com provocações, os homens que a afrontavam não suportaram, e as mulheres que tinham em si esse preconceito internalizado se revoltaram com a “ousadia” da colega.

“Imagine, que audácia dessa moça, nos provocar e zombar de nossas investidas? Somos machos, precisamos colocar essa vagabunda no seu devido lugar, quem ela acha que é pra mostrar essas curvas na faculdade, nem mesmo “bela” ela é.” Os Alunos

“Essa menina é prostituta mesmo. Vem pra faculdade com essa roupa indecente, e eu que fui criada sob as rédeas do meu pai uso roupas mais adequadas ao ambiente em que eu estou. Afinal, mulheres não podem simplesmente sair se mostrando, precisamos conter nossas formas para o bem da família e da sociedade. Ainda bem que eu estou do lado das santas e vou poder casar com um homem que me domine!” As Alunas

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Que mulher nunca rebateu um assédio nas ruas e foi xingada de prontidão? Já me aconteceu inúmeras vezes. Esses vermes não suportam que uma mulher desafie a autoridade que eles supõem ter sobre nossos corpos, a reação é como a dos alunos, retaliação, indignação. Geisy é símbolo porque reagiu de forma tão chocante para os machistas que causou uma verdadeira rebelião contra a autonomia da mulher.

O mais bizarro de tudo isso é ver milhares de machinhos “solidários” a Geisy, postando mensagens mundo afora que acusam os alunos de “gays” e “invejosas”. Quem odeia as mulheres, os gays ou os heterossexuais que estupram, matam, surram e abusam delas todos os dias? Porque raios essa gente estúpida relaciona ódio contra a mulher com homossexualidade? Os gays não precisam odiar as mulheres, por muitas vezes acabam se aliando a elas por serem minorias com afinidades. A justificativa é que somente gays poderiam ofender uma mulher, porque heteros obviamente precisam fodê-la, e por isso estão sendo homossexuais ao odiá-la. E, convenhamos, é desesperador ver como essas pessoas ainda usam a homossexualidade como OFENSA deliberadamente, isso é uma doença social.

Outra pérola são os mesmos machinhos compadecidos de Geisy deixando recados em sua suposta página do orkut solicitando msn e oferecendo “apoio”. O apoio seria uma rola na bunda, no caso, com perdão da expressão. Que interesse um jovem heterossexual sexista teria em defender uma moça que não fosse fodê-la no final? E ainda assim, com certeza esses mesmos defensores se juntariam ao coro de “Puta!” logo depois de praticarem o ato. Porque, como já sabemos, mulheres que fazem sexo são prostitutas e merecem ser queimadas, ou linchadas por ilustres universitários brasileiros.

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É tanta porcaria que dá vontade de parar, mas prossigo. Eis que a faculdade decide que o comportamento irreverente de Geisy é uma ameaça à moral e bons costumes patriarcais, e assim decide expulsá-la. A opinião pública parece estar a favor da moça, e desconfio que isso se deve ao fato de que a notícia original foi pautada por blogs (ainda bem). Os movimentos sociais reagem e organizam uma manifestação na porta da UNIBAN pela revogação da expulsão e punição dos responsáveis. Estavam presentes a UNE, a SOF e a Marcha Mundial das Mulheres.

Os alunos trogloditas saem à porta para defender, desta vez, seus próprios rabos. Alguns insistem no comportamento ousado de Geisy como impróprio e defendem a expulsão, outros dizem não ter culpa de nada e ficam se cagando de medo do mercado de trabalho cuspir neles. Houve também uma moça muito truculenta expressando seu horror à Geisy e afirmando que mulheres “que se vestem assim na faculdades são objetos mesmo”. Ainda tivemos um cidadão capaz de agredir um ativista anarquista porque ele comparou Geisy à sua mãe, até imagino que o moço tentou compará-las para ver se o neandertal acordava de seu pesadelo patriarcal, compreendendo que ambas são mulheres e tem os mesmo direitos, mas não foi tão fácil assim.

Sobre ser objeto, reafirmo que objetificação é o que impuseram à Geisy baseados em um preconceito violento que determina comportamentos de “santas” ou “putas” às mulheres. Objetificar com base no gênero, na roupa e no modo de agir é típico de quem acredita que mulheres são mesmo brinquedos masculinos, sem vontade própria ou capacidade moral. A própria moça que proferiu essa ideia não pode ser culpada pela interpretação, afinal ela foi criada dentro da mesma cultura que condena Geisy, e sabe-se lá que julgamentos ela já sofreu na sua vida social universitária por ser mulher e fora dos padrões.

Com certeza essa Universidade sofreu um abalo na imagem, e acho justo. Já que vivemos à mercê de instituições para garantir nossa segurança, o mínimo que podemos fazer é exigir que cumpram essa tarefa. Os alunos que não participaram podem não ter culpa alguma do ocorrido, mas talvez devessem criar alguma mobilização a favor da Geisy, já que a neutralidade em uma situação dessas é no mínimo assustadora. Sim, temos que nos preocupar com o que acontece ao nosso redor, e essa atitude é esperada de universitários. Sobre a imagem no mercado de trabalho, me parece lógico que todos sofrerão as consequências do que fizeram à garota, não adianta tentarem defender a instituição ou os colegas na esperança de irem bem na entrevista, uma mulher foi linchada por não corresponder ao modelo ideal como resultado de uma cultura machista, e todos pagarão por isso.

Sobre a reação de Geisy, a moça está buscando seus direitos e com certeza usando da imprensa para divulgar o caso. Estão dizendo que ela “se faz” de vítima, mas não tem essa, a moça É vítima. São os defensores da universidade e machistas de merda que querem transformá-la em ré. Claro que a imprensa tem seu papel de sempre de sensacionalista e oportunista, mas nesse caso específico acredito que a exposição é mais que adequada. E, mais uma vez, o fato da notícia original ter sido pautada em um blog, e já com uma abordagem crítica, facilitou muito a divulgação pró-Geisy. Só existem duas hipóteses em que Geisy pode ser considerada “culpada”:

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1- Se ela for um homem disfarçado líder de uma conspiração gigantesca de machistas que pretendiam criar uma situação de linchamento dentro de uma faculdade e expulsar a aluna em seguida para que uma mulher nunca mais ousasse se vestir assim.

2- Se estiver todo mundo mentindo e na verdade o caso todo é um golpe publicitário para a nova campanha da Zara e seu novo vestidinho cor-de-rosa nas cores flúor da tendência.

Quais as desculpas para apontar a imprensa como mentirosa e a Geisy como culpada? Ela se mostrou, provocou, tem comportamento de “puta”, hm, e o que mais? Tudo já devidamente desmistificado.

Dizem por aí que Geisy afirmou que gostaria de ser atriz, e isso foi suficiente pra desencadear uma nova acusação: “Geisy quer se promover”. Ah, não me diga, a garota de classe B/C, hostilizada, fora dos padrões de beleza, com uma educação baseada no senso-comum, estudante de turismo, tentou aproveitar uma exposição na mídia pra conquistar o desejado posto de atriz famosa? Que absurdo! Que tipo de aproveitadora ela é, afinal? Se a ironia não foi suficiente, dã, é CLARO que uma garota nessas condições adoraria buscar uma compensação na situação e se colocar como atriz, posar na playboy ou qualquer outra idiotice que confere status à figura feminina no patriarcado. E a culpa, deixa eu adivinhar, é dela?

Algo que me surpreendeu foi a presença de Sabrina Sato na manifestação, declarando apoio à Geisy. Com um mini-vestido cor-de-rosa, para simbolizar o caso, Sabrina também foi assediada, aos brados de “gostosa” por um bando de trolls. Um aluno chegou a dizer que não chamaram Geisy de gostosa porque daria a entender que os alunos gostavam de “baranga”. Mais uma vez a violência sexista impera, Sabrina Sato pode (e deve) usar roupas curtas porque seu corpo tem o padrão decorativo e é alvo da sexualização sedenta dos machinhos, enquanto as formas de Geisy configuram praticamente um insulto por não serem consideradas “atraentes”. E claro, ser chamada de gostosa é uma violência em potencial, já que significa “nós queremos te comer agora”, e pressupõe que a moça estaria se oferecendo.

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Sabrina sofreu perseguição e fez algumas entrevistas, mas o que mais me chamou a atenção foi uma cena da moça erguendo o microfone animada para registrar o grito de guerra da Marcha Mundial das Mulheres: “A violência contra a mulher, não é o mundo que a gente quer!” Em certa parte do coro, diz-se “nossa beleza não tem padrão”, e Sabrina permanece apoiando a manifestação. Isso me deixa muito feliz e ao mesmo tempo triste, feliz porque a atitude da moça é linda, e triste porque ao mesmo tempo ela representa uma mulher caricata e sujeita em um dos programa humorísticos mais violentos da televisão. Mas, o ato de Sabrina me leva a crer que ela apoia o movimento e acredita que o padrão do corpo feminino é violento, mesmo que se encaixe nos moldes obrigatoriamente em seu trabalho. Ou, na pior das hipóteses, estou sendo ingênua demais e a moça quis apenas gravar seu programa. Prefiro ser otimista.

Ao menos, como resultado da manifestação, a expulsão foi revogada. Mas isso não é nem de longe suficiente, os responsáveis precisam ser punidos e a segurança de Geisy deve ser garantida, pois o que mais esses “talibans” querem é humilhá-la novamente. A moça declarou que só quer entrar na sala, sentar, estudar e “passar de ano”, e eu acredito que, mesmo que ela tenha sido instruída em suas declarações e mantenha um expressão premeditada, ela realmente quer apenas paz.

No mesmo caso, temos várias formas de preconceito e violência de gênero. Odeiam e culpam Geisy porque ela se mostra dona de seu corpo e atitudes, porque ela não se encaixa no padrão de beleza feminino, porque é nordestina, porque é pobre e porque reage contra as agressões. Além disso, ainda arranjam espaço pra odiar gays também, acusando os agressores de homossexualidade (oh, insulto!). E por fim temos a questão política da Universidade, que não hesita em expulsar uma mulher de classe mais baixa que sofreu humilhação dentro da instituição para agradar milhares de alunos que pagam uma gorda mensalidade.

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Geisy é um símbolo para a luta das mulheres, pois expôs um problema muito grave que é ignorado por toda uma sociedade: a violência e abuso a que as mulheres são sujeitas nos espaços públicos e privados. As vaias e urros de “puta”cheios de ódio foram para Geisy e para todas as mulheres deste país, sejamos solidárias com Geisy por ela e por nós mesmas.

Deixo um recado para as meninas da Uniban que são contra Geisy: Sei que agora vocês estão preocupadas com a imagem da universidade e que provavelmente odeiam ainda mais Geisy Arruda, mas pensem que amanhã vocês podem ser as próximas vítimas da violência de gênero, que aparece na forma de assédio, abuso, estupro, coerção e humilhação. Alguma de vocês já sofreu um abuso verbal de um homem na rua e se sentiu constrangida? Já foi analisada de cima a baixo e avaliada por homens que não conhecia? Já deixou de usar uma roupa porque teve vergonha e receio de sair sozinha com ela? Já foi assediada no trabalho ou considerada menos competente apenas por ser mulher? Já deixaram de levar algo que você disse a sério porque é uma mulher? Já se sentiu mal com a forma do seu corpo? Já teve seu comportamento considerado impróprio para uma mulher? Já sentiu vontade de transar com alguém e não o fez por medo de ser considerada vadia?

minha escolha

Tudo isso, moças, é violência de gênero. A mesma que a Geisy sofreu. Vocês não podem odiar e culpar uma mulher porque os homens o fazem, porque ela parece “provocante” ao olhar de vocês. Experimentem admirar essa mulher, questionar o que lhes foi condicionado a pensar sobre o corpo feminino, experimentem desafiar os olhares de reprovação masculinos.

Geisy não vive, não se veste e não se comporta em função de criaturas masculinas heterossexuais. Nós, mulheres, não podemos viver sob julgamento de homens, escolhendo nosso modo de agir e a expressão do nosso corpo de acordo com a aceitação deles. A moça do mini-vestido rosa é um símbolo, é a realidade da violência contra a mulher que veio à tona e mobilizou a opinião pública.

Justiça para Geisy, pelo fim do terrorismo patriarcal!

Fica recomendada, salvo citação criacionista, a análise do Dr. Jacob Pinheiro sobre o ocorrido: Youtube.

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