Justiça para Geisy Arruda!

•11/11/2009 • 5 Comentários

Todo mundo já escreveu sobre a Geisy Arruda, mas o caso ainda está pegando fogo então eu vou dar a minha contribuição.

Muitos estão dizendo que a imprensa exagera, que ninguém conhece a verdade dos fatos e que “todos tiveram sua parcela de erro”.

Analisemos.

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Fato 1: Geisy foi xingada de puta e recebeu ameaças de estupro, sejam elas com intuito “corretivo” de trogloditas ou por pura humilhação simbólica. Isso está comprovado pelos vídeos e estudantes.

Fato 2: Geisy estava com um microvestido cor-de-rosa e percorreu um caminho maior que o habitual para encontrar um banheiro que não estivesse em manutenção. esse fato foi interpretado como uma “tentativa de Geisy de se expor mais e mais”.

Fato 3: Geisy demonstrou uma atitude de desprezo e provocação com os gracejos que ouviu. A reação dela nessa situação foi relacionada com seu comportamento habitual, o que mostra que ela deve ser uma moça que usa roupas consideradas “provocantes” e que não atende aos apelos e assédios dos colegas ao redor.

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Eu sei muito bem o que as pessoas que defendem a Universidade pensam. Em suas cabecinhas, Geisy é “puta”, deve fazer sexo com qualquer um, provocou toda a situação e pior, ainda quer se promover em cima disso se fazendo de vítima na imprensa. E tem mais, faculdade não é lugar pra se vestir “desse jeito”, e uma aluna da UNIBAN declarou que “mulher que se veste assim é objeto mesmo”.

Primeiro, que mesmo que Geisy fosse prostituta, estaria em seu pleno direito de estudar. Mas, ela não é. Tampouco temos informações sobre a vida sexual da moça, que também não faria diferença alguma, afinal somos livres para nos relacionarmos uns com os outros e teoricamente não deveríamos sofrer violência por exercer esse direito.

O mais grave é dizer que Geisy “provocou” essa situação.Pior, dizer que a culpa não foi do micro-vestido, como alegaram ao expulsá-la, mas sim da “postura” de Geisy. Existem premissas nojentas para essa afirmação, a primeira é de que a postura adequada de uma mulher é totalmente diferente da de Geisy, ou seja, ao invés de vestir-se como quiser e andar livremente seria obrigação feminina da moça usar roupas que não mostrem seu corpo e comportar-se de forma passiva, silenciosa e submissa. Outro agravante seria a forma física de Geisy, que difere dos padrões impostos ás mulheres e por isso desqualifica a “beleza” que deveria ser mostrada com o vestido, e já que não há diversão para os primatas heterossexuais, logo a exibição de Geisy se torna uma AFRONTA.

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A faculdade também supõe que Geisy provocou os colegas através de atos “rebeldes” como rebolar, ignorar ou demonstrar indiferença com a atitude. Mesmo que a moça tivesse mostrado as tais partes íntimas, o que não foi confirmado por ela e nem há provas, sua atitude foi nada mais nada menos que defensiva. Geisy mostrou através de um comportamento irreverente que não importava o quanto as pessoas a julgassem, esperneassem e desejassem que ela cobrisse seu corpo, ela continuaria daquela forma, a forma que ela escolheu para se vestir e se comportar. A própria Geisy não se acha um objeto, ela conhece muito bem seus desejos, emoções, objetivos, há um universo particular na vida da moça que não sucumbe ao terrorismo de uma turba.

Quem determina afinal que o corpo de uma mulher tem apenas o significado sexual? O sentir-se bela de Geisy é condenado à insinuação sexual por qual autoridade suprema? Coxas à mostra são aval de estupro e linchamento? Se Geisy realmente desejava conseguir sexo com aquela roupa, os alunos determinaram que ela estava DISPONÍVEL para isso naquele momento na faculdade com que direito?

Mulheres vestidas nos moldes que consideramos “sexy” não carregam um selo de “Available” na testa. Ora essa, foi construída uma imagem de sexualidade extrema e sujeição vinculada à decotes, saias curtas e vestidinhos, sob um pretexto de “libertação”. Mas, o que vemos, é justamente o contrário: ao invés de exercerem a liberdade ao usar roupas que expõem o corpo, as mulheres são simplesmente condenadas a um estado de disponibilidade sexual de acordo com a conveniência dos machos!

Não julgo que estamos em condições de abolir tais roupas que carregam os símbolos do patriarcado com suas formas, pelo contrário, as mulheres precisam ter autonomia e posse sobre seus corpos suficiente para usar o que quiserem e serem respeitadas da mesma forma.

O que vemos é o oposto, moças como Geisy são consideradas disponíveis como alvos nos espaços públicos, as roupas que mostram o corpo funcionam como um código que legitima a aproximação e a invasão do espaço. Quando Geisy reagiu com provocações, os homens que a afrontavam não suportaram, e as mulheres que tinham em si esse preconceito internalizado se revoltaram com a “ousadia” da colega.

“Imagine, que audácia dessa moça, nos provocar e zombar de nossas investidas? Somos machos, precisamos colocar essa vagabunda no seu devido lugar, quem ela acha que é pra mostrar essas curvas na faculdade, nem mesmo “bela” ela é.” Os Alunos

“Essa menina é prostituta mesmo. Vem pra faculdade com essa roupa indecente, e eu que fui criada sob as rédeas do meu pai uso roupas mais adequadas ao ambiente em que eu estou. Afinal, mulheres não podem simplesmente sair se mostrando, precisamos conter nossas formas para o bem da família e da sociedade. Ainda bem que eu estou do lado das santas e vou poder casar com um homem que me domine!” As Alunas

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Que mulher nunca rebateu um assédio nas ruas e foi xingada de prontidão? Já me aconteceu inúmeras vezes. Esses vermes não suportam que uma mulher desafie a autoridade que eles supõem ter sobre nossos corpos, a reação é como a dos alunos, retaliação, indignação. Geisy é símbolo porque reagiu de forma tão chocante para os machistas que causou uma verdadeira rebelião contra a autonomia da mulher.

O mais bizarro de tudo isso é ver milhares de machinhos “solidários” a Geisy, postando mensagens mundo afora que acusam os alunos de “gays” e “invejosas”. Quem odeia as mulheres, os gays ou os heterossexuais que estupram, matam, surram e abusam delas todos os dias? Porque raios essa gente estúpida relaciona ódio contra a mulher com homossexualidade? Os gays não precisam odiar as mulheres, por muitas vezes acabam se aliando a elas por serem minorias com afinidades. A justificativa é que somente gays poderiam ofender uma mulher, porque heteros obviamente precisam fodê-la, e por isso estão sendo homossexuais ao odiá-la. E, convenhamos, é desesperador ver como essas pessoas ainda usam a homossexualidade como OFENSA deliberadamente, isso é uma doença social.

Outra pérola são os mesmos machinhos compadecidos de Geisy deixando recados em sua suposta página do orkut solicitando msn e oferecendo “apoio”. O apoio seria uma rola na bunda, no caso, com perdão da expressão. Que interesse um jovem heterossexual sexista teria em defender uma moça que não fosse fodê-la no final? E ainda assim, com certeza esses mesmos defensores se juntariam ao coro de “Puta!” logo depois de praticarem o ato. Porque, como já sabemos, mulheres que fazem sexo são prostitutas e merecem ser queimadas, ou linchadas por ilustres universitários brasileiros.

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É tanta porcaria que dá vontade de parar, mas prossigo. Eis que a faculdade decide que o comportamento irreverente de Geisy é uma ameaça à moral e bons costumes patriarcais, e assim decide expulsá-la. A opinião pública parece estar a favor da moça, e desconfio que isso se deve ao fato de que a notícia original foi pautada por blogs (ainda bem). Os movimentos sociais reagem e organizam uma manifestação na porta da UNIBAN pela revogação da expulsão e punição dos responsáveis. Estavam presentes a UNE, a SOF e a Marcha Mundial das Mulheres.

Os alunos trogloditas saem à porta para defender, desta vez, seus próprios rabos. Alguns insistem no comportamento ousado de Geisy como impróprio e defendem a expulsão, outros dizem não ter culpa de nada e ficam se cagando de medo do mercado de trabalho cuspir neles. Houve também uma moça muito truculenta expressando seu horror à Geisy e afirmando que mulheres “que se vestem assim na faculdades são objetos mesmo”. Ainda tivemos um cidadão capaz de agredir um ativista anarquista porque ele comparou Geisy à sua mãe, até imagino que o moço tentou compará-las para ver se o neandertal acordava de seu pesadelo patriarcal, compreendendo que ambas são mulheres e tem os mesmo direitos, mas não foi tão fácil assim.

Sobre ser objeto, reafirmo que objetificação é o que impuseram à Geisy baseados em um preconceito violento que determina comportamentos de “santas” ou “putas” às mulheres. Objetificar com base no gênero, na roupa e no modo de agir é típico de quem acredita que mulheres são mesmo brinquedos masculinos, sem vontade própria ou capacidade moral. A própria moça que proferiu essa ideia não pode ser culpada pela interpretação, afinal ela foi criada dentro da mesma cultura que condena Geisy, e sabe-se lá que julgamentos ela já sofreu na sua vida social universitária por ser mulher e fora dos padrões.

Com certeza essa Universidade sofreu um abalo na imagem, e acho justo. Já que vivemos à mercê de instituições para garantir nossa segurança, o mínimo que podemos fazer é exigir que cumpram essa tarefa. Os alunos que não participaram podem não ter culpa alguma do ocorrido, mas talvez devessem criar alguma mobilização a favor da Geisy, já que a neutralidade em uma situação dessas é no mínimo assustadora. Sim, temos que nos preocupar com o que acontece ao nosso redor, e essa atitude é esperada de universitários. Sobre a imagem no mercado de trabalho, me parece lógico que todos sofrerão as consequências do que fizeram à garota, não adianta tentarem defender a instituição ou os colegas na esperança de irem bem na entrevista, uma mulher foi linchada por não corresponder ao modelo ideal como resultado de uma cultura machista, e todos pagarão por isso.

Sobre a reação de Geisy, a moça está buscando seus direitos e com certeza usando da imprensa para divulgar o caso. Estão dizendo que ela “se faz” de vítima, mas não tem essa, a moça É vítima. São os defensores da universidade e machistas de merda que querem transformá-la em ré. Claro que a imprensa tem seu papel de sempre de sensacionalista e oportunista, mas nesse caso específico acredito que a exposição é mais que adequada. E, mais uma vez, o fato da notícia original ter sido pautada em um blog, e já com uma abordagem crítica, facilitou muito a divulgação pró-Geisy. Só existem duas hipóteses em que Geisy pode ser considerada “culpada”:

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1- Se ela for um homem disfarçado líder de uma conspiração gigantesca de machistas que pretendiam criar uma situação de linchamento dentro de uma faculdade e expulsar a aluna em seguida para que uma mulher nunca mais ousasse se vestir assim.

2- Se estiver todo mundo mentindo e na verdade o caso todo é um golpe publicitário para a nova campanha da Zara e seu novo vestidinho cor-de-rosa nas cores flúor da tendência.

Quais as desculpas para apontar a imprensa como mentirosa e a Geisy como culpada? Ela se mostrou, provocou, tem comportamento de “puta”, hm, e o que mais? Tudo já devidamente desmistificado.

Dizem por aí que Geisy afirmou que gostaria de ser atriz, e isso foi suficiente pra desencadear uma nova acusação: “Geisy quer se promover”. Ah, não me diga, a garota de classe B/C, hostilizada, fora dos padrões de beleza, com uma educação baseada no senso-comum, estudante de turismo, tentou aproveitar uma exposição na mídia pra conquistar o desejado posto de atriz famosa? Que absurdo! Que tipo de aproveitadora ela é, afinal? Se a ironia não foi suficiente, dã, é CLARO que uma garota nessas condições adoraria buscar uma compensação na situação e se colocar como atriz, posar na playboy ou qualquer outra idiotice que confere status à figura feminina no patriarcado. E a culpa, deixa eu adivinhar, é dela?

Algo que me surpreendeu foi a presença de Sabrina Sato na manifestação, declarando apoio à Geisy. Com um mini-vestido cor-de-rosa, para simbolizar o caso, Sabrina também foi assediada, aos brados de “gostosa” por um bando de trolls. Um aluno chegou a dizer que não chamaram Geisy de gostosa porque daria a entender que os alunos gostavam de “baranga”. Mais uma vez a violência sexista impera, Sabrina Sato pode (e deve) usar roupas curtas porque seu corpo tem o padrão decorativo e é alvo da sexualização sedenta dos machinhos, enquanto as formas de Geisy configuram praticamente um insulto por não serem consideradas “atraentes”. E claro, ser chamada de gostosa é uma violência em potencial, já que significa “nós queremos te comer agora”, e pressupõe que a moça estaria se oferecendo.

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Sabrina sofreu perseguição e fez algumas entrevistas, mas o que mais me chamou a atenção foi uma cena da moça erguendo o microfone animada para registrar o grito de guerra da Marcha Mundial das Mulheres: “A violência contra a mulher, não é o mundo que a gente quer!” Em certa parte do coro, diz-se “nossa beleza não tem padrão”, e Sabrina permanece apoiando a manifestação. Isso me deixa muito feliz e ao mesmo tempo triste, feliz porque a atitude da moça é linda, e triste porque ao mesmo tempo ela representa uma mulher caricata e sujeita em um dos programa humorísticos mais violentos da televisão. Mas, o ato de Sabrina me leva a crer que ela apoia o movimento e acredita que o padrão do corpo feminino é violento, mesmo que se encaixe nos moldes obrigatoriamente em seu trabalho. Ou, na pior das hipóteses, estou sendo ingênua demais e a moça quis apenas gravar seu programa. Prefiro ser otimista.

Ao menos, como resultado da manifestação, a expulsão foi revogada. Mas isso não é nem de longe suficiente, os responsáveis precisam ser punidos e a segurança de Geisy deve ser garantida, pois o que mais esses “talibans” querem é humilhá-la novamente. A moça declarou que só quer entrar na sala, sentar, estudar e “passar de ano”, e eu acredito que, mesmo que ela tenha sido instruída em suas declarações e mantenha um expressão premeditada, ela realmente quer apenas paz.

No mesmo caso, temos várias formas de preconceito e violência de gênero. Odeiam e culpam Geisy porque ela se mostra dona de seu corpo e atitudes, porque ela não se encaixa no padrão de beleza feminino, porque é nordestina, porque é pobre e porque reage contra as agressões. Além disso, ainda arranjam espaço pra odiar gays também, acusando os agressores de homossexualidade (oh, insulto!). E por fim temos a questão política da Universidade, que não hesita em expulsar uma mulher de classe mais baixa que sofreu humilhação dentro da instituição para agradar milhares de alunos que pagam uma gorda mensalidade.

uniban

Geisy é um símbolo para a luta das mulheres, pois expôs um problema muito grave que é ignorado por toda uma sociedade: a violência e abuso a que as mulheres são sujeitas nos espaços públicos e privados. As vaias e urros de “puta”cheios de ódio foram para Geisy e para todas as mulheres deste país, sejamos solidárias com Geisy por ela e por nós mesmas.

Deixo um recado para as meninas da Uniban que são contra Geisy: Sei que agora vocês estão preocupadas com a imagem da universidade e que provavelmente odeiam ainda mais Geisy Arruda, mas pensem que amanhã vocês podem ser as próximas vítimas da violência de gênero, que aparece na forma de assédio, abuso, estupro, coerção e humilhação. Alguma de vocês já sofreu um abuso verbal de um homem na rua e se sentiu constrangida? Já foi analisada de cima a baixo e avaliada por homens que não conhecia? Já deixou de usar uma roupa porque teve vergonha e receio de sair sozinha com ela? Já foi assediada no trabalho ou considerada menos competente apenas por ser mulher? Já deixaram de levar algo que você disse a sério porque é uma mulher? Já se sentiu mal com a forma do seu corpo? Já teve seu comportamento considerado impróprio para uma mulher? Já sentiu vontade de transar com alguém e não o fez por medo de ser considerada vadia?

minha escolha

Tudo isso, moças, é violência de gênero. A mesma que a Geisy sofreu. Vocês não podem odiar e culpar uma mulher porque os homens o fazem, porque ela parece “provocante” ao olhar de vocês. Experimentem admirar essa mulher, questionar o que lhes foi condicionado a pensar sobre o corpo feminino, experimentem desafiar os olhares de reprovação masculinos.

Geisy não vive, não se veste e não se comporta em função de criaturas masculinas heterossexuais. Nós, mulheres, não podemos viver sob julgamento de homens, escolhendo nosso modo de agir e a expressão do nosso corpo de acordo com a aceitação deles. A moça do mini-vestido rosa é um símbolo, é a realidade da violência contra a mulher que veio à tona e mobilizou a opinião pública.

Justiça para Geisy, pelo fim do terrorismo patriarcal!

Fica recomendada, salvo citação criacionista, a análise do Dr. Jacob Pinheiro sobre o ocorrido: Youtube.

Love Your Body Day!

•21/10/2009 • 14 Comentários


Dia de Amar Seu Corpo

É isso aí, um dia para amarmos e celebrarmos nossos corpos. Consegui uma brecha sofrida no meio de todas as minhas atividades caóticas do dia-a-dia para participar dessa blogagem coletiva. Não estou com nenhum tempo para embasamentos teóricos, então corro o risco de não tratar o tema com toda a complexidade que ele exige, mas whatever, preciso escrever.

Pois é, mulheres, estamos aqui ainda reivindicando esse corpo que, definitivamente, nos pertence. Enquanto somos engolidas pela mídia e pelos patrulheiros que nos dizem o contrário, lutamos pelo direito de amar nosso instrumento de vida e expressão. Nossa história é marcada pela dominação de nossos corpos, fomos submetidas a estupros, moldadas de acordo com o desejo do macho, e o direito de controlar nossa reprodução nos foi negado tanto quanto o direito de expressar nossa sexualidade.

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As formas de controle sobre nossos corpos mudam, mas permanecem. Os espartilhos de ontem são os sutiãs de bojo de hoje, o apedrejamento público cedeu espaço para mais horrores da violência doméstica, o cárcere privado tornou-se uma rotina dupla de trabalho (com foco ainda no privado), a sexualidade reprimida mudou de cara e é promovida através do sexo pornográfico. Os direitos reprodutivos ainda são negados, dentre eles métodos acessíveis de anticoncepção de qualidade, informação e aborto seguro.

Nossa nudez, antes pecaminosa, agora é de domínio público. Ganhamos o direito de abrir nossas pernas para uma câmera, exibir nossos corpos talhados de acordo com a ditadura vigente para então receber o julgamento minucioso do macho. Ganhamos também o direito de fazer sexo com quem bem entendermos, e levamos de brinde todo tipo de ofensa e misoginia logo que tentamos fazer uso dele. Ah, claro, podemos usar as roupas decotadas e curtas que quisermos, mas as formas do nosso corpo serão sempre brutalmente sexualizadas a cada esquina, em cada pedaço.

Se pudesse eleger a pior violência contra meu corpo, escolheria justamente a sexualização compulsiva. Os padrões de beleza cumprem seu papel determinando quais “pedaços” serão o alvo da vez do olhar masculino inquisidor. Mas, sendo gordas ou magras, peitos pequenos ou grandes, negras ou brancas, embora todos esses fatores impliquem em diferenças no assédio, estamos todas sujeitas a uma aprovação constante do macho. Nosso corpo é perseguido, um seio à mostra é um convite explícito ao sexo, não existe outra possibilidade de interpretação da nossa nudez. Se tentamos exibir nossos corpos com orgulho, somos logo reduzidas a objetos sexuais, brinquedinhos de vouyers.

Acho que cabe a minha história pessoal nisso, passei boa parte da minha idade escolar sendo uma pessoa considerada gorda. Desde muito pequena tive problemas para socializar, talvez porque a educação que recebi não condizia com o mundo real, e este é um erro comum dos pais. Vivia muito reclusa, gostava de estudar a maior parte do tempo e muito raramente fazia alguma atividade física, era a aluna genial, a criança prodígio que todos os adultos amavam, na proporção que as outras crianças odiavam.

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A escolinha que freqüentei criava abismos entre os gêneros, com orientadoras muito patéticas. Bem estilo “meninos de um lado e meninas do outro”. Não demorou pra eu sofrer perseguição na escola, era a única que sabia ler no Jardim I, mas nunca conseguia correr o suficiente para pegar os melhores brinquedos do banco de areia. Minha melhor amiga na época, me lembro bem, era uma menina negra, mas ninguém podia dizer que ela era negra que eu respondia “não, minha amiga é branca!”, meu estômago embrulha quando me lembro disso. Enfim, da pré escola até a oitava série acabei descontando minha vida anti-social na comida, e claro que a forma que meu corpo adquiriu fazia com que tudo piorasse a cada dia.

Lembro-me bem da minha querida Deborah, que sofreu o mesmo, nos diziam “você tem um rosto tão bonito, só falta emagrecer”. Éramos cabeças flutuantes, do pescoço para baixo nosso corpo era como uma bola disforme, gerava raiva e repulsa nas pessoas. O meu corpo era como uma prisão para mim, enquanto as minhas colegas populares viam seus seios crescerem e seus supostos privilégios aumentarem. Os garotos eram todos doentios, criaturinhas patriarcais estridentes. Eles me perseguiam e me julgavam, por ser gorda, se achavam no direito de dar uma sentença para o meu corpo a todo o momento. O mesmo faziam às garotas consideradas bonitas, tratando seus corpos como coisas comestíveis e muitas vezes menosprezando na cara dura a capacidade intelectual delas.

A mesma educação que me engessou em uma feminilidade doente fez com que eu não reagisse à grande parte dos ataques, quando mais nova. Mas, quando completei treze anos, estranhamente comecei a emagrecer, creio que pelo crescimento ou algo assim, porque continuava comendo muito e mal. E eis que ganhei meu novo papel feminino na sociedade, de bola disforme inteligente a receptáculo de esperma inútil.

linda

É, eu queria ser sexy, queria que meu corpo fosse belo, quente e saboroso. Usava roupas consideradas “provocantes” e sentia o “poder” de ser atraente para os machos. Estranhamente, cada relacionamento que eu pensava ter era mais fracassado que o outro, e eu estava sempre insatisfeita com aquele corpo que tanto lutava para manter a libido. Nem sei como chamar o sexo que praticava naquela época, uma reprodução do que a pornografia ensina com um toque brochante da realidade. Satisfazer o macho, simular satisfação. E estar sempre tentando melhorar todos os “defeitos horríveis” que faziam meu corpo não ser bom o suficiente.

Eu tinha um complexo tosco com a minha barriga, não por ter “pancinha”, mas por causa das “abas” de gordurinha lateral que sempre tive. Também achava meus seios e nádegas “menores” do que deveriam ser. Por fim odiava minhas estrias nas laterais, gostar mesmo eu só gostava das pernas (por sinal, super torneadas e “adequadas”) e do meu rosto. Lembro de ter ouvido coisas muito violentas durante relacionamentos, do tipo “você seria tão mais linda se fosse mais branquinha”, “seus seios não são tão redondos (como os de silicone, quem sabe)”, “Seu pé é horrível, parece que sobra um pedaço de tão grande”, “você não tem uma bunda tão boa quando a dela, mas…”. Isso sem falar na vigilância do peso, engordou um poquinho? Toma-lhe bronca dos senhores do engenho.

Isso tudo me dá uma náusea desgraçada, mas é bom olhar pra trás e enxergar com outros olhos. Olha que absurdo o que reservam ao sexo feminino, um terrorismo sem fim e ódio ao próprio corpo. E eles estão sempre ali, os machinhos, agentes que mantêm a “ordem”. Pobres das mulheres que também me patrulhavam, dava para ver que elas eram tão vítimas daquilo quanto eu, com suas angústias, noites de choro e inseguranças.

Vivenciei alguns papéis bem diversos do que é “tornar-se mulher” nessa sociedade. O que todos têm em comum é que em nenhum deles o nosso corpo nos pertence. E isso me lembra o post da Lola sobre as gordas terem sido barradas em uma certa boate, um rapaz comentou: “É uma pena que as gordas não possam entrar, afinal alguns caras gostam de gordas”. É bem isso, as variações dos corpos femininos só existem em função do homem, a gorda só pode existir se um cara aceitar fodê-la.

lindasÉ triste e desesperador ligar a televisão, folhear revistas e jornais, assistir a filmes ou qualquer coisa que venha da mídia ou da indústria cultural no geral. Todos os padrões opressores e sem sentido estão por toda a parte, legitimados, normatizados, enfiados nas nossas gargantas. Nosso corpo tem preço, é vendido e reproduzido na forma de pornografia e prostituição. Mulheres estão mutilando seus seios para enfiar uma prótese de silicone, implorando pelo direito de se sentirem bem com seus corpos. “Coloquei porque me sinto melhor de seios grandes, foi por mim e não pelos outros,” diz a moça com seus seios novos de alguns milhares de reais, com a ingênua ideia de que sua repulsa por seus seios pequenos veio de si mesma. A pressão para moldar o corpo feminino é tamanha que temos o silicone, a lipoaspiração e todos esses tratamentos estéticos dementes sendo vendidos como nunca.

A mulher retratada como ideal tem um corpo sem gosto, sem cheiro e sem expressão. É um sex toy, a lá Angelina Jolie. Não existem pêlos, os órgãos genitais são infantis, a barriga é reta, os seios volumosos e a bunda bochechuda. O cu é cor-de-rosa, e só falta saírem flores dele. A beleza é branca, ariana. A postura é preferencialmente delicada, submissa e ao mesmo tempo sexy, provocante. A famosa dama na sala e puta na cama, leia-se escrava na sala e porn star na cama. É irreal, estúpido e inaceitável.

lindaaaaa

Podemos, enfim, resistir? Como podemos tomar nossos corpos de volta? Quando seremos reconhecidas como SUJEITOS de nossos corpos?

O caminho é a desconstrução. Se nos fortalecermos como mulheres, nos unirmos contra o olhar do macho, estaremos construindo uma nova forma de resistência, para enfim alcançar a liberdade e tomar de volta o que é nosso por direito. Uma mulher que tem o apoio de outras mulheres e aprender a aceitar suas formas, cores, gostos e odores, é uma muralha contra o patriarcado. Para mim, a chave está em não esperar a benevolência dos homens, porque eu não acredito que eles vão abrir mão de seus privilégios. Se apoiarem, ótimo, se não, tudo bem também. Não dependeremos disso para nada.

Em primeiro lugar, olhe-se no espelho. Conheça suas formas, toque-se. Aprenda a olhar para toda essa doença imposta às mulheres como uma estratégia, vai ser impossível não se afetar nem um pouco por ela, mas tenha sempre em mente que estamos em uma guerra psicológica. Não se sinta um fracasso se, mesmo depois de saber tudo sobre a situação feminina, você morra de vontade de emagrecer e de ser vista como uma mulher bonita. Infelizmente, as pessoas ao nosso redor vão seguir o ciclo e tentar nos convencer a entrar nos padrões, pessoas com as quais muitas vezes temos uma relação de afeto e confiança. Às vezes é desesperador lutar por uma mudança, mas lembre-se que se adequar ao padrão (quando possível) e/ou fingir que nada está acontecendo é uma covardia imensa, com você mesma, que continuará aprisionada, e com todas as outras mulheres.

O segredo para se manter firme? Justamente a união com outras mulheres. Dividir experiências, diferenças corporais e conhecimento com mulheres é maravilhoso, faz com que a gente se sinta mais forte e segura. Chega de encontrar com mulher só em salão de beleza, saia com as suas amigas para programa culturais, shows, festas, pratiquem uma arte marcial ou esporte juntas. Conversem sobre tudo, sem pudores. Apóiem-se e ajudem-se, por experiência própria digo que muitas vezes tudo o que uma mulher precisa é de informação.

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A situação é um pouco mais complicada nos relacionamentos heterossexuais. Precisamos, antes de mais nada, desconstruir o “amor romântico”, o ideal do príncipe encantado. Mulher nenhuma precisa de um homem para “completá-la”, somos pessoas COMPLETAS, inteiras. Tampa da panela uma ova, esqueçam essa idiotice. Primeiro fortaleçam a auto-estima, depois pensem em viver grandes romances, porque se lembrem que vocês estarão completamente vulneráveis.

A grande maioria dos homens está com o macho enraizado na própria educação, estão prontos para exercer o papel dominante e inquisidor. Por isso, é importante buscar o equilíbrio das relações de poder com eles, na medida do possível. Se o seu namorado está dizendo que tem algo de errado com seu corpo, está lhe fazendo mal ou você se sente subjugada, sério, desista. Não vale a pena manter qualquer relação com um machista, é MASOQUISMO. Você precisa ter controle sobre sua vida e sobre suas escolhas, e consequentemente sobre o seu corpo.

corpos

Hoje posso dizer que o feminismo me fez apoiar mulheres e receber o apoio delas, e que a força que isso somado à teoria me trouxe é fanstástica. Eu amo meu corpo, na maior parte do tempo me sinto no controle da situação. Claro, como eu já disse antes, eventualmente me sinto pressionada por algum agente externo, não sou de ferro (como eu queria ser). Meu companheiro tornou-se feminista e me apóia sempre que pode, consciente de sua situação como homem no patriarcado e lutando para desconstruir isso também.

Enxergo história e personalidade no meu corpo, gosto das minhas formas e proporções. Procuro roupas de modelagem diferente, que caiam bem, não tento forçar a barra com roupas que foram feitas para um tipo físico padrão. Gosto de moda alternativa, sobreposições no vestuário, brinco com looks e expressões. Adoro cabelos coloridos e sempre que posso estou usando cores diferentes, já foi laranja, vermelho, ruivo e agora roxo. Tenho uma queda por visagismo, aquela noção de que bonito é diferente de belo, e que definitivamente não existe padrão de beleza, por mais bonitas que soem as formas mais simétricas pela construção da cultura. Admiro as outras mulheres ao invés de criticá-las, cultivo uma atitude de libertação da beleza, em que todas as formas têm seu espaço e graça própria.

fofas

Também acredito muito no respeito pelo corpo alheio, na consideração total do sujeito que há em cada corpo. Eu vejo uma unidade entre corpo e alma, não simplesmente uma imagem ou um monte de carne, existe um mundo de complexidades naquela pessoa, não somente uma forma física. Luto para que eu e as outras mulheres possamos andar livres com nossos corpos, respeitando nossas próprias formas e harmonizando-as com nossos pensamentos e desejos.

Queridas moças que lêem este blog, vamos celebrar nossos corpos! Vamos continuar lutando por esse direito pleno, não somente hoje como todos os dias, através das nossas atitudes e ativismo.

Para encerrar (eu sempre escrevo mais do que planejava), uma foto bem pessoal no escritório, só pra ilustrar o meu LYBD.

eooo

Beijo carinhoso para todas!

PS: As fotos utilizadas da campanha DOVE não demonstram meu apoio pela marca, já que obviamente mulheres que se aceitam e são lindas não costumam comprar “creme redutor”.

Mulher legal tem nome: homem.

•20/09/2009 • 7 Comentários

O tempo nunca esteve tão curto, os dias parecem demandar pelos menos umas 30 horas ao invés de 24, mas sobrou uma brecha para uma reflexão rápida.

Imagine só que basta uma mulher ser espontânea, ou não apresentar as “frescuras” que lhe seriam óbvias, ou expressar sua sexualidade de alguma forma, para que logo receba um apelido bastante significativo: “homem”.

homens bebendo

Tenho passado por isso com muita freqüência, como se tivesse optado por uma identidade de gênero “masculina” apenas por agir com naturalidade. É incrível como os homens esperam que as mulheres tenham seu comportamento regrado e submisso em TODAS as situações, até mesmo em um ambiente de descontração ou conversa entre amigos. Mulheres não falam alto, não falam palavrão, não “zoam”, não arrotam, não gostam de se divertir, não falam de sexualidade, não fazem piadas, não “intimam”, não falam sobre coisas que dão “nojinho” e, principalmente, nunca se fazem ouvir em uma rodinha de homens.

Quando uma mera mortal ousa fazer uso de qualquer um desses itens, é logo taxada de HOMEM. Pois eu digo: Não, obrigada. Sou MULHER!

Isso mesmo, mulher que faz tudo isso e o que mais eu quiser. Mulher que se desconstrói todos os dias, não por obrigação, mas por NECESSIDADE de ser livre. Não preciso ser um homem para me comunicar com espontaneidade.

Mulheres são também as “iludidas”.

videogame

Frases clássicas: “Ah, se minha mulher souber disso fudeu!”, “Não, vai que minha mulher descobre...”, “Puta, que merda, minha mulher vai atrapalhar tudo..”, “Ah, sabe como é, mulher não entende essas coisas”. Elas não são capazes de “entender” os valores masculinos e todo esse lifestyle livre, espontâneo e ousado que parece ser exclusivo dos machinhos. Mulher não participa da hora divertida, engraçada, da descontração plena. Mulher é problema, é espinho no sapato, tem que tratar assim e assado, não pode estar presente quando a coisa fica muito “real”. A companhia feminina é chata, “fresca”, limitada e pouco expressiva. Se possível, dispensável.

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Amizade ente mulher e homem? Não, esquece, afinal é praticamente uma imposição que ambos acabem na cama. Até a visão das amiguinhas se descobrindo sexualmente parece super aceitável, mas quem vê por aí os amigos homens camaradas vítimas da “ameaça sexual” em suas relações? Mulheres que mantém amizades com homens são então um tipo de alvo contínuo das segundas intenções? Afinal, quando será que um macho vai encarar sua amiga mulher com as mesmas possibilidades sexuais que seu amigo homem? Nunca, porque uma mulher companheira e participativa é inevitavelmente uma oferta de sexo.

Acho que eu nem precisaria dizer isso, mas é claro que existem suas exceções. Eu trabalho com a regra.

A sexualidade da mulher é mais obscura aos homens do que parece, e quando nós mesmas falamos no assunto parece que o ambiente se torna tenso de tão surpreendente. Há aqueles que logo imaginam, “uma mulher que fala de sexo deve estar querendo sexo”, convém destruir o discurso desses pobres coitados. Nossa sexualidade é viva, vigorosa e deve ser motivo de orgulho ao invés de vergonha. Menstruamos, gozamos, nos masturbamos, sentimos tesão e nosso genitais não podem ser sinônimo de passividade, não somos meros receptáculos e muito menos dependentes de um pênis. Também não demonstramos perversão ou descontrole ao falar dessa sexualidade, estamos apenas nos expressando e mostrando a todos esses machos que não somos seus objetos sexuais, somos sujeitos plenos de nossa sexualidade.

O que me incomoda profundamente é a seguinte cena, que insiste em se repetir: Há vários homens no ambiente e uma mulher, os homens dizem algo que julgam “inapropriado” para a presença feminina e logo alguém resolve justificar “Fica tranqüilo, essa daqui é praticamente um homem!”. O mais triste é ver o sorrisinho da moça depois de sua grande conquista, como é ilustre ser um homem também! Pra que ser mulher? Pra que defender a liberdade das mulheres se eu posso me adequar com meus méritos de homem? Mal sabe a moça que suas credenciais masculinas atribuídas têm validade baixa, talvez lhe serão úteis até que se relacione com um dos machos do bando.

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Infelizmente não tenho a obra “Mulher Inteira” à mão nesse momento, mas se não me engano é neste livro que a Germaine Greer analisa uma situação em que uma mulher discute dentro de um grupo predominantemente masculino. O resultado é enraizado, homens dando pouca atenção ao que a mulher diz e buscando uma posição de dominação todo o tempo. Eu sinto isso da mesma forma, por isso faço questão de disputar a voz e me fazer ouvir.

A minha mensagem para as mulheres é que levantem sua voz, sejam espontâneas e infiltrem-se nesse submundo macho das confraternizações. Não existem limitações ou ponderações exclusivas para o discurso de uma mulher, libertem-se de todo esse senso comum e não tenham receio de se expressar. Não precisamos nos prender a uma construção doentia que nos afunda em contenções e máscaras cor-de-rosa, muito menos nos limitar ao salão de beleza enquanto os machinhos nos evitam em algum lugar verdadeiramente divertido.

“Sou tão fêmea que sou subversiva”

Caso Abdelmassih: O médico estuprador

•14/08/2009 • 20 Comentários

“Roger Abdelmassih, 65, o especialista em reprodução in vitro mais conhecido no país, foi indiciado na manhã desta terça (23) pela Polícia Civil de São Paulo sob a acusação de estupro e atentado violento ao pudor. Mais de 60 pacientes acusam-no de abuso sexual.”

Veja a cobertura completa do caso aqui, que também é a fonte dos recortes apresentados.

cretino

Roger Abdelmassih não é apenas um tarado cheio de dinheiro protegido por uma fortuna e uma coleção de rabos presos, ele é um médico pioneiro e respeitado em todo o mundo por sua carreira brilhante. E acima de tudo, o cretino é muito esperto.

Como muitos estupradores, Abdelmassih sabe como se aproveitar do medo e do horror de uma mulher. Ele usa de todo o seu poder e prestígio para manter suas vítimas caladas e vulneráveis, e isso só é possível porque as mulheres já são inferiorizadas normalmente.

As mulheres que procuram a clínica de fertilização do Dr. Abdelmassih sonham com a maternidade, estão no seu momento mais delicado e investem pesado para isso – porque podem. A maioria dos abusos cometidos pelo médico ocorreu no momento pós-sedação, em que as mulheres se encontravam absolutamente indefesas e confusas.

“Acordando, ainda grogue, vi que eu estava com o pênis do doutor na mão. Tentei me levantar, cheguei a sentar na maca. Aí, o dr. Roger abaixou o jaleco, disse ‘calma, calma, calma’ e saiu da sala. E fui chorando ao encontro do meu marido, que aguardava na recepção da clínica.” Depoimento de Ivanilde Serebrenic

“[Ao acordar da sedação para retirada de óvulos] ele me deu um abraço e perguntou se podia me dar um beijo. Quando dei o rosto, ele veio com a língua e eu gritei: ’Para com isso, para!’. E ele disse: “Vai ser bom para você, você precisa relaxar.” Relato de Crystiane Souza

O quanto relaxante pode ser o beijo forçado de um velho violento? Abdelmassih sabe que as mulheres não desejam o contato sexual com ele, mas também se acha no direito de abusar delas apenas por serem mulheres. Ele sabe que sairá impune, por isso intimida suas vítimas e pede para que fiquem calmas, para que deixem o processo fluir já que é bastante comum sofrer abuso.

“Sob efeito de medicamentos e se sentindo frágil, sem forças, a paciente não pôde reagir quando o médico Roger Abdelmassih, 65, aproximou-se, levantou a camisola dela, abaixou a sua calça, pôs o pênis para fora e a estuprou. ” Sobre depoimento de uma paciente que não quis se identificar.

nojo

O mais engraçado nessa história é que acusam o médico de mais de 60 “abusos”, porém apenas um “estupro”. Estupro no caso seria apenas penetração, todo o restante do comportamento sexual violento não figura estupro algum.

“[O médico] passou a mão nos meus seios, na minha vagina e chegou a colocar o pênis para fora [da calça]. Graças a Deus neste momento alguém tentou entrar no quarto. Ele me soltou e corri para o banheiro. Fiquei lá, chorando.”

Monika

Monika

Porque chorar e não acabar com a raça do infeliz? O próprio médico usou em sua defesa o argumento de que as mulheres retornavam ao seu consultório, questionando “se você fosse vítima de um abuso, voltaria ao meu consultório?”. É conveniente acreditar que mulheres poderiam simplesmente reagir e abandonar o tratamento dos seus sonhos pelo qual pagaram muito dinheiro, ignorando toda a pressão que sofrem em uma situação como essa. Mesmo assim, algumas mulheres não suportaram e deixaram de freqüentar a clínica.

“[...]contei ao meu marido, que não acreditou. Ele disse: “A gente tem muito dinheiro lá [na clínica] e tem um objetivo, que é ter uma filha. Você é descolada, saberá se virar bem,” contou Monika Bartkevitch.

Monika não só sofreu nas mãos do médico estuprador, como também foi humilhada e acabou se separando de um marido machista, que por acaso pertencia ao meio médico e tinha medo de denunciar o “colega”.

“[...]ainda tinha de enfrentar familiares e amigos que perguntavam se eu havia dado abertura. Isso quase me deixou louca. Eu me perguntava, será que fiz algo errado?”

Culpe a vítima. Culpe a mãe. Culpe a mulher, a vagabunda eterna. Um estuprador nojento ataca uma mulher e ainda a culpam por não ter conseguido se defender, enchem-na de interrogatórios humilhantes e a fazem reviver cada momento de sofrimento procurando alguma evidência que a torne suja e imoral. Aliás, esta é uma grande arma do Dr. Abdelmassih, ele sabe que a pressão da imprensa, da justiça e de todo o público obrigarão suas vítimas a um constrangimento contínuo e desgastante.

“Neste último mês passei por momentos horríveis, pois tive que falar com várias pessoas da imprensa e relatar com todos os detalhes para as autoridades.

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Ivanilde

Uma mulher que sofreu abuso, que foi tocada contra sua vontade por um homem, é vista como cúmplice e desafiada a confirmar sua história de horror milhares de vezes. Ivanilde, Crystiane e Monika são mulheres muito corajosas, que saíram do anonimato e vão enfrentar seu estuprador na justiça. Elas querem inspirar as outras 58 mulheres a fazer o mesmo, mas sabem que tomar a decisão de se expor publicamente em um caso como esse ainda é assustador para uma mulher. Nenhuma delas teria aparecido para depor se alguém não tivesse tomado a iniciativa, pois denunciar um homem poderoso representa um risco constante de derrota e mais humilhação.

“Abdelmassih já atribuiu as acusações a um complô de médicos concorrentes, a uma campanha mobilizada pela internet por uma das ex-pacientes, às “alucinações sexuais” por causa do efeito da anestesia, às fofocas e mentiras e agora à frustração de mulheres que passaram pela clínica.”

O argumento de que as mulheres teriam ficado frustradas por não engravidar já é totalmente inválido, porque em muitos dos casos a fertilização teve sucesso. Os anestesistas confirmaram que as alucinações sexuais não eram possíveis e parece que 61 mulheres não relatariam abusos por causa de um complô de médicos. O canalha é cara-de-pau.

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O monstro e seus comparsas, advogados do diabo

Apesar de todos os indícios, o monstro será defendido na justiça por dois advogados criminalistas ultra respeitados. Abdelmassih é um doutorzinho de merda escondido atrás de muito corporativismo e pronto para humilhar pela segunda vez todas as mulheres que estuprou. Não tenho dúvidas de que perante o juiz não faltarão argumentos para retratar as mulheres como verdadeiras “vadias”, culpadas pelos seus corpos libidinosos e por não carregarem uma Glock no bolso quando vão até a clínica de fertilização.

Desejo que essas mulheres agüentem firmes e acabem com o desgraçado, façam isso por elas mesmas e por todas as outras. Não é por acaso que os índices de estupro ainda são gigantescos, que ainda temos que temer pela nossa integridade física cada vez que saímos de casa, que até mesmo em nossos lares somos vítimas do abuso, que nos culpam pela violência que sofremos e que tememos a figura de um homem poderoso que toma o direito sobre nossos próprios corpos e nos invade brutalmente.

Reagir é a regra, lembrem-se que estamos nos defendendo, e para isso VALE TUDO (até a Glock na clínica não é uma má idéia).

E é claro, terei minha própria visão reforçada quando entre os termos mais procurados do meu blog eu encontrar “vídeos de estupro”, “mulheres sendo estupradas”, “vadias sendo estupradas”. Acontecerá, acredite.